{"id":4318,"date":"2015-12-06T22:41:20","date_gmt":"2015-12-07T00:41:20","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=4318"},"modified":"2018-05-01T00:41:35","modified_gmt":"2018-05-01T03:41:35","slug":"jornal-85-a-assim-dita-classe-media","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2015\/12\/jornal-85-a-assim-dita-classe-media\/","title":{"rendered":"Jornal 85: A assim dita &#8220;classe m\u00e9dia&#8221;"},"content":{"rendered":"<p lang=\"pt-BR\">O conceito de classe m\u00e9dia \u00e9 incompat\u00edvel com o pensamento de Marx e Engels. Por v\u00e1rias raz\u00f5es. \u00c9 um conceito vazio de significado: o que \u00e9 &#8220;m\u00e9dio&#8221; tira o seu conte\u00fado dos extremos dos quais \u00e9 m\u00e9dio. \u00c9 um conceito de classe social desvinculado do trabalho, como categoria fundante da humanidade e, da economia, como momento predominante da reprodu\u00e7\u00e3o das sociedades. Por isso, em sua caracteriza\u00e7\u00e3o, entram crit\u00e9rios que se originam do poder aquisitivo, ou do padr\u00e3o de consumo, ou de alguns tra\u00e7os culturais, ou do n\u00edvel de forma\u00e7\u00e3o profissional, ou de algumas caracter\u00edsticas pol\u00edticas \u2013 mas, jamais, do lugar que ocupam na estrutura produtiva. \u00c9 um conceito t\u00edpico da sociologia, a ci\u00eancia da sociedade essencialmente burguesa, quase sempre com um conte\u00fado idealista ou politicista.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Contudo, se o conceito de classe m\u00e9dia \u00e9 radicalmente recusado pelo marxismo, o problema a que ele se refere \u00e9 real e um dos mais complexos na an\u00e1lise das classes sociais.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Todas as sociedades de classe conheceram duas classes fundamentais (senhores de escravos e escravos, senhores feudais e servos, burgueses e prolet\u00e1rios). Em todas as sociedades de classe, a classe dominante necessitou de auxiliares para a manuten\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores. Dependendo do momento hist\u00f3rico e do modo de produ\u00e7\u00e3o, esses auxiliares podem ser mais ou menos numerosos, podem ter uma maior ou menor participa\u00e7\u00e3o na riqueza que a classe dominante expropria dos trabalhadores, podem ter uma forma\u00e7\u00e3o cultural mais ou menos elevada e assim sucessivamente. Os funcion\u00e1rios estatais (soldados, magistrados, religiosos, burocratas ou carcereiros etc.) s\u00e3o os auxiliares mais t\u00edpicos das classes dominantes ao longo da hist\u00f3ria e, na quase maioria dos casos, s\u00e3o assalariados.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Mas h\u00e1, tamb\u00e9m, outros setores da sociedade que n\u00e3o s\u00e3o nem da classe dominante nem da classe trabalhadora. Um bom exemplo s\u00e3o os camponeses na Gr\u00e9cia antiga, na Rep\u00fablica romana e, tamb\u00e9m, na Fran\u00e7a do s\u00e9culo 19; outro exemplo s\u00e3o os artes\u00e3o que subsistiram em v\u00e1rias cidades durante a Idade M\u00e9dia.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Em poucas palavras, se \u00e9 poss\u00edvel englobar todas as classes que vivem da explora\u00e7\u00e3o dos que produzem a riqueza social em um \u00fanico conceito, o de classe dominante; se se \u00e9 poss\u00edvel colocar escravos, servos e prolet\u00e1rios no conceito de classe explorada, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel colocar juntos, em um \u00fanico conceito, os camponeses da Rep\u00fablica Romana, os artes\u00e3os urbanos da Floren\u00e7a medieval e os assalariados n\u00e3o prolet\u00e1rios do capitalismo desenvolvido. Em cada modo de produ\u00e7\u00e3o e em cada sociedade, as classes que n\u00e3o pertencem nem aos dominantes nem aos explorados possuem uma composi\u00e7\u00e3o e uma forma\u00e7\u00e3o distintas &#8211;, sempre decorrentes, claro, do lugar que ocupam na estrutura produtiva das sociedades.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Estamos, portanto, diante tanto de um falso conceito de classe m\u00e9dia quanto de um problema real. E um problema que se altera ao longo do tempo; em cada modo de produ\u00e7\u00e3o e, no interior de cada um suas distintas etapas evolutivas, apresenta diferen\u00e7as importantes em como essas classes se constituem e, portanto, em como participam das lutas de classe.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Por essa raz\u00e3o nos concentraremos no modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista desenvolvido e, mesmo assim, pegando apenas o seu caso mais t\u00edpico, o da Europa Ocidental.<\/p>\n<h2 lang=\"pt-BR\">Marx e o 18 Brum\u00e1rio<\/h2>\n<p lang=\"pt-BR\">H\u00e1 dois textos muito especiais em que Marx analisa eventos concretos da luta de classe. O primeiro deles \u00e9 o 18 Brum\u00e1rio de Luis Bonaparte e, o segundo, As lutas de classe na Fran\u00e7a. S\u00e3o especiais, primeiro, pelos objetos que estudam. As revolu\u00e7\u00f5es de 1848, em especial a da Fran\u00e7a e, no segundo texto, a Comuna de Paris de 1871. Em segundo lugar, porque s\u00e3o redigidos em um momento da evolu\u00e7\u00e3o te\u00f3rica de Marx em que as categorias mais importantes de seu pensamento j\u00e1 est\u00e3o, no essencial, consolidadas. N\u00e3o s\u00e3o textos como A Ideologia Alem\u00e3 ou A sagrada fam\u00edlia, em que quest\u00f5es decisivas receberiam, no futuro, solu\u00e7\u00f5es e formula\u00e7\u00f5es mais avan\u00e7adas.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">No 18 Brum\u00e1rio&#8230; Marx analisa os processos ideol\u00f3gico e pol\u00edtico pelo qual os setores e classes sociais se aproximam ou se afastam do proletariado ou da burguesia conforme a luta de classes se desdobra. Exp\u00f5e a constitui\u00e7\u00e3o social e o lugar que ocupam na estrutura produtiva os que n\u00e3o s\u00e3o nem prolet\u00e1rios nem burgueses. Ele identifica, em primeiro lugar, os pequenos propriet\u00e1rios agr\u00edcolas que, por terem recebido de Napole\u00e3o o t\u00edtulo de propriedade das terras que haviam tomado da nobreza durante a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, v\u00e3o seguir Luis Napole\u00e3o, sobrinho do grande Napole\u00e3o, mesmo que isso prejudique seus interesses de classe no longo prazo. Ele compara esses camponeses a um saco de batatas: est\u00e3o lado a lado, contudo n\u00e3o comp\u00f5em uma classe social capaz de entrar nas lutas com um projeto pol\u00edtico pr\u00f3prio. A penetra\u00e7\u00e3o do capital no campo tende a eliminar esse campesinato e a o substituir por um muito menos numeroso proletariado rural.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Al\u00e9m desses camponeses, Marx identifica uma grande quantidade de pequenos burgueses. Isto \u00e9, burgueses, mas com pequeno capital. Desde os donos de pequenas vendas e neg\u00f3cios, pequenas oficinas, at\u00e9 os profissionais liberais (como eram, ent\u00e3o, os m\u00e9dicos, farmac\u00eauticos, alfaiates, costureiras e assim por diante). Ao lado deles, temos ainda uma vasta gama de funcion\u00e1rios p\u00fablicos empregados pelo Estado e, por fim, outros profissionais assalariados, como os jornalistas, teatr\u00f3logos, chefs de cozinha etc.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Quando Marx quer se referir ao conjunto dessas classes e agrupamentos sociais, muito heterog\u00eaneo internamente e com participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica muito diversificada mas, predominantemente, contrarrevolucion\u00e1ria, ele emprega o conceito de &#8220;classes de transi\u00e7\u00e3o&#8221;. Vamos, pois, segui-lo tamb\u00e9m nesse particular. Deixemos de lado o conceito sociol\u00f3gico-burgu\u00eas de classe m\u00e9dia e adotemos o conceito marxiano de classes de transi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2 lang=\"pt-BR\">As classes de transi\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p lang=\"pt-BR\">A sociedade capitalista desenvolvida, industrializada, apresenta duas diferen\u00e7as importantes se comparada com a da \u00e9poca de Marx. A primeira \u00e9 o desaparecimento quase completo do campesinato, pequeno propriet\u00e1rio rural. A Fran\u00e7a \u00e9 uma aparente exce\u00e7\u00e3o, porque l\u00e1 o grande capital penetrou no campo tamb\u00e9m pela media\u00e7\u00e3o da pequena propriedade agr\u00edcola. Em pa\u00edses como a Inglaterra e os Estados Unidos, esse pequeno propriet\u00e1rio rural praticamente desapareceu frente ao agrobussiness, um desaparecimento que estamos assistindo em nossos dias no Brasil.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">A segunda diferen\u00e7a importante \u00e9 que o desenvolvimento das for\u00e7as produtivas liberou uma vasta quantidade de trabalhadores das atividades que transformam a natureza (do trabalho) e os deslocou para o setor de servi\u00e7os ou para o com\u00e9rcio. Cresceu assim, enormemente se comparado ao s\u00e9culo 19, os assalariados que n\u00e3o transformam a natureza, isto \u00e9, que n\u00e3o s\u00e3o prolet\u00e1rios.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Hoje em dia, nas economias mais desenvolvidas do planeta, entre a burguesia e o proletariado h\u00e1 uma enorme massa de assalariados com um poder aquisitivo que vai desde a linha da mis\u00e9ria, at\u00e9 aos executivos que recebem sal\u00e1rios milion\u00e1rios. Ao lado deles, compondo tamb\u00e9m as classes de transi\u00e7\u00e3o, uma vasta e heterog\u00eanea gama de pequenos burgueses, em geral comerciantes, donos de pequenas oficinas, de taxis e de vans de transporte p\u00fablico. Temos, ainda, a dita economia informal, desde o contrabandista tipo Paraguai ou o revendedor de roupas de grife que sa\u00edram com defeito das confec\u00e7\u00f5es, como ainda toda a cadeia de tr\u00e1fico de drogas e de armas. No Brasil, hoje, dados indicam que cerca de 60% da for\u00e7a de trabalho se localiza nesse setor informal. Numericamente \u00e9, portanto, muit\u00edssimo significativo.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">O \u00faltimo setor importante das classes de transi\u00e7\u00e3o, hoje, s\u00e3o os funcion\u00e1rios p\u00fablicos, dos carcereiros e torturadores ao Presidente da Rep\u00fablica. Conforme se intensifica a repress\u00e3o e a necessidade de maior controle da sociedade pelo Estado, o n\u00famero e o peso social desse setor tende a crescer.<\/p>\n<h2 lang=\"pt-BR\">Assalariados e assalariados<\/h2>\n<p lang=\"pt-BR\">Apesar das enormes diferen\u00e7as profissionais, culturais, de poder aquisitivo e mesmo de concep\u00e7\u00e3o de mundo e de participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das classes de transi\u00e7\u00e3o, elas comp\u00f5em, junto com a burguesia, a por\u00e7\u00e3o parasit\u00e1ria da sociedade. Tal como os burgueses, elas tamb\u00e9m vivem da riqueza produzida pelo proletariado.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Relembremos, em poucas palavras, o que vimos no artigo &#8220;Classes Sociais&#8221; no Jornal Espa\u00e7o Socialista n. 77. Toda a riqueza de toda e qualquer sociedade vem da transforma\u00e7\u00e3o da natureza em meios de produ\u00e7\u00e3o e meios de subsist\u00eancia. Isso \u00e9 f\u00e1cil de ser percebido nos modos de produ\u00e7\u00e3o escravista e feudal. Ningu\u00e9m, nesses casos, argumentar\u00e1 que o soldado romano ou o padre medieval produzem qualquer riqueza; pelo contr\u00e1rio: \u00e9 evidente que vivem da riqueza produzida pelos escravos ou pelos servos.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">No capitalismo desenvolvido, isso j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 assim t\u00e3o evidente. Por duas raz\u00f5es. A primeira e menos importante \u00e9 porque todos s\u00e3o, agora, tipicamente ou burgueses ou assalariados. O que gera a falsa impress\u00e3o de todos os assalariados serem igualmente explorados pela burguesia. Veremos que s\u00e3o explorados, mas n\u00e3o igualmente explorados; a qualidade da explora\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a mesma porque exercem distintas fun\u00e7\u00f5es na estrutura produtiva.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">A segunda, e mais importante, \u00e9 que o capital \u00e9 uma forma de propriedade privada que se reproduz diferentemente da propriedade privada escravista e feudal. Ainda que, como propriedade privada, seja a mesma apropria\u00e7\u00e3o pela classe dominante da riqueza produzida pelos explorados, o capital imediatamente se acumula pela mercadoria, ou seja, por aquele produto do trabalho que \u00e9 portador da mais-valia.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">J\u00e1 vimos o que \u00e9 a mais-valia: \u00e9 o valor de uso da for\u00e7a de trabalho sob o capital. A for\u00e7a de trabalho \u00e9 a \u00fanica mercadoria que, consumida, produz um valor maior do que o seu pr\u00f3prio. Imediatamente, portanto, h\u00e1 dois tipos de trabalhadores assalariados: aqueles que produzem mercadorias (e, assim, produzem mais-valia) e os que n\u00e3o o fazem. Os primeiros s\u00e3o chamados de trabalhadores produtivos e, os outros, de improdutivos. Mas, aten\u00e7\u00e3o: produtivos ou improdutivos de mercadorias, de mais-valia.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">O exemplo cl\u00e1ssico de Marx \u00e9 um professor. Se ele trabalha em uma escola p\u00fablica, \u00e9 um trabalhador assalariado que n\u00e3o produz mais-valia. O Estado n\u00e3o vende ao aluno a mercadoria hora-aula do professor. Caso esse mesmo professor trabalhe em uma escola privada, ele ser\u00e1, ent\u00e3o, um trabalhador produtivo de mais-valia. Pois, na escola privada, o seu trabalho se converte em uma mercadoria que o propriet\u00e1rio da escola vende aos pais dos alunos. O sal\u00e1rio do professor possui um valor menor do que a hora-aula que ele produz, \u00e9 uma mercadoria que, como toda mercadoria, \u00e9 portadora de mais-valia.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Veja: o capital n\u00e3o se acumula com o trabalho do professor em uma escola p\u00fablica. Mas se acumula com o trabalho do mesmo professor na escola privada. Isso \u00e9 apenas uma decorr\u00eancia de que trata-se de rela\u00e7\u00f5es sociais diversas: o Estado fornece um servi\u00e7o que \u00e9 a educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, a escola privada vende uma mercadoria produzida pelo professor (a hora-aula). Para o capital, o sal\u00e1rio do professor do Estado \u00e9 custo, o da escola privada \u00e9 fonte de mais-valia.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Os assalariados, portanto, se dividem em assalariados produtivos e improdutivos de mercadorias, isto \u00e9, produtivos ou improdutivos de mais-valia. Essa diferen\u00e7a \u00e9 importante, mas n\u00e3o determina as classes sociais, como veremos a seguir.<\/p>\n<h2 lang=\"pt-BR\">Trabalhador produtivo e proletariado<\/h2>\n<p lang=\"pt-BR\">Voltemos ao exemplo de Marx: o professor na escola privada. Vimos que ele produz uma mercadoria, a hora-aula que, vendida pelo propriet\u00e1rio da escola, se converte em mais-valia. O patr\u00e3o que explora o professor, claro est\u00e1, acumula o seu capital.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Contudo, o professor apenas pode receber o seu sal\u00e1rio se houver compradores para a mercadoria hora-aula que ele produz e, por isso, \u00e9 preciso que haja uma vasta quantidade de pessoas na sociedade que n\u00e3o tenham tempo para educar seus filhos e que, simultaneamente, tenham dinheiro dispon\u00edvel para pagar a escola dos filhos. Ou seja, para que a escola seja um neg\u00f3cio lucrativo, \u00e9 preciso que um montante de riqueza, sob a forma de dinheiro, j\u00e1 exista na sociedade. De onde prov\u00e9m essa riqueza que precisa existir para que o professor possa vender sua for\u00e7a de trabalho ao dono da escola?<\/p>\n<h2>Do trabalho do proletariado<\/h2>\n<p lang=\"pt-BR\">Podemos ser breves, porque j\u00e1 vimos isso em &#8220;A aristocracia oper\u00e1ria&#8221;, no Jornal Espa\u00e7o Socialista n.82. O trabalho que transforma a natureza gera um produto que, por ser natureza transformada, continua a existir depois de terminado o processo de sua produ\u00e7\u00e3o. Por isso essa riqueza vai se acumulando na sociedade, de gera\u00e7\u00e3o a gera\u00e7\u00e3o. A cada ato de trabalho prolet\u00e1rio, uma nova riqueza \u00e9 acrescida \u00e0 riqueza social j\u00e1 existente. A cada ato de trabalho prolet\u00e1rio amplia-se o &#8220;capital social total&#8221; (Marx): produz-se um novo, antes inexistente, capital. A riqueza necess\u00e1ria para que o professor possa produzir uma mais-valia adv\u00e9m do trabalho prolet\u00e1rio.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Muito resumidamente, funciona assim: a burguesia vende o produto gerado pelo trabalho prolet\u00e1rio. Com o dinheiro obtido, ela paga todos os seus assalariados prolet\u00e1rios ou n\u00e3o (administradores, executivos, chefes de oficina, engenheiros de todos os matizes, seguran\u00e7a na empresa etc.) e ela paga, tamb\u00e9m, os impostos que v\u00e3o manter o Estado e, portando, que assalaria os funcion\u00e1rios p\u00fablicos. A por\u00e7\u00e3o da mais-valia prolet\u00e1ria que a burguesia industrial e do agrobusiness transferem aos bancos sob a forma de juros, tamb\u00e9m paga os assalariados do setor banc\u00e1rio. E, por fim, a parcela da mais-valia que a burguesia industrial transfere ao com\u00e9rcio tamb\u00e9m assalaria os trabalhadores deste setor.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Percebam: n\u00e3o apenas a riqueza da burguesia, mas tamb\u00e9m todos os sal\u00e1rios t\u00eam sua origem no proletariado. O trabalho prolet\u00e1rio, por ser fundante da sociedade burguesa, tamb\u00e9m \u00e9 o produtor de todo a riqueza nela existente.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Em outras palavras, a \u00fanica classe social que n\u00e3o vive da explora\u00e7\u00e3o de nenhuma outra \u00e9 o proletariado (do campo e da cidade). Todos os outros assalariados vivem da riqueza que a burguesia extrai do proletariado. H\u00e1, portanto, assalariados e assalariados: as classes de transi\u00e7\u00e3o, de um lado e, do outro, o proletariado. Essa \u00e9 uma das raz\u00f5es que fazem o proletariado a \u00fanica classe revolucion\u00e1ria, no presente.<\/p>\n<h2 lang=\"pt-BR\">A explora\u00e7\u00e3o das classes de transi\u00e7\u00e3o e a do proletariado<\/h2>\n<p lang=\"pt-BR\">A riqueza que a burguesia expropria do proletariado \u00e9 dividia em duas por\u00e7\u00f5es, grosso modo. Uma por\u00e7\u00e3o \u00e9 a mais-valia. Outra por\u00e7\u00e3o vai para pagar os custos da produ\u00e7\u00e3o. Parte preponderante desses custos \u00e9 o valor da for\u00e7a de trabalho. Quanto menor os sal\u00e1rios, menor os custos de produ\u00e7\u00e3o e, assim, maior a lucratividade do capital.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">H\u00e1, portanto, uma contradi\u00e7\u00e3o entre o conjunto dos trabalhadores assalariados e o capital. Este quer diminuir, aquele quer aumentar, o valor dos sal\u00e1rios. Isto, as classes de transi\u00e7\u00e3o e o proletariado possuem em comum: a luta pela amplia\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Contudo, h\u00e1 um limite para esse campo comum: como os sal\u00e1rios das classes de transi\u00e7\u00e3o t\u00eam sua origem na explora\u00e7\u00e3o do proletariado pela burguesia, elas compartilham com a burguesia o interesse hist\u00f3rico pela manuten\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o do proletariado pelo capital. Apenas o proletariado tem interesse em extinguir a explora\u00e7\u00e3o do trabalho pelo capital, pois apenas o proletariado n\u00e3o vive desta explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Ainda mais: a manuten\u00e7\u00e3o de baixos sal\u00e1rios entre os prolet\u00e1rios do campo e da cidade \u00e9 uma das condi\u00e7\u00f5es para que as classes de transi\u00e7\u00e3o (1) tenham acesso a mercadorias de menor pre\u00e7o. Assim, muito mais frequente do que raro, as classes de transi\u00e7\u00e3o tendem a ver com simpatia, quando n\u00e3o a apoiar, a repress\u00e3o das lutas prolet\u00e1rias pelo Estado.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil de perceber, portanto, que todos os assalariados s\u00e3o explorados pelo capital. Mas n\u00e3o da mesma maneira. Na medida em que os assalariados das classes de transi\u00e7\u00e3o compartilham com a burguesia a riqueza que esta extrai do proletariado, sua luta \u00e9 sempre pela manuten\u00e7\u00e3o do capitalismo, de prefer\u00eancia com seus sal\u00e1rios aumentados. Isto, \u00e9 claro, vale para o conjunto dos assalariados das classes de transi\u00e7\u00e3o, sejam eles produtivos ou improdutivos de mais-valia.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">A mais-valia cumpre, portanto, duas fun\u00e7\u00f5es. A diferen\u00e7a entre elas \u00e9 o fundamento da diferen\u00e7a entre os assalariados produtivos em geral e o proletariado. Ela sempre serve para a acumula\u00e7\u00e3o do capital. Todo trabalhador produtivo de mais-valia contribui imediatamente para a acumula\u00e7\u00e3o do capital. Essa a primeira fun\u00e7\u00e3o, a mais imediata e vis\u00edvel delas.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">A segunda fun\u00e7\u00e3o \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o de um novo capital, de uma riqueza antes inexistente. A produ\u00e7\u00e3o do capital, claro est\u00e1, \u00e9 sempre tamb\u00e9m uma sua acumula\u00e7\u00e3o. Mas nem toda acumula\u00e7\u00e3o \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o de um novo capital, de uma riqueza antes inexistente na sociedade. Apenas o proletariado produz o capital, os outros trabalhadores produtivos de mais-valia apenas acumulam o capital &#8212; que apenas o trabalho prolet\u00e1rio amplia o &#8220;capital social total&#8221;.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Por isso o proletariado \u2013 diferente dos assalariados produtivos das classes de transi\u00e7\u00e3o \u2013 \u00e9 a classe com potencial revolucion\u00e1rio: de suas m\u00e3os se origina a totalidade do capital, \u00e9 a \u00fanica que n\u00e3o explora outras classes.<\/p>\n<h2 lang=\"pt-BR\">Classes de transi\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p lang=\"pt-BR\">O lugar que as classes de transi\u00e7\u00e3o ocupam na estrutura produtiva determina seu car\u00e1ter de classe: como vivem da explora\u00e7\u00e3o do proletariado, se aliam com a burguesia todas as vezes que a sociedade capitalista estiver amea\u00e7ada por uma revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria. Nesses momentos, as classes de transi\u00e7\u00e3o, em larga medida, aderem \u00e0 contrarrevolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Contudo, um aumento dos sal\u00e1rios das classes de transi\u00e7\u00e3o pode significar uma diminui\u00e7\u00e3o da lucratividade do capital, e vice-versa. Abre-se, desta forma, um conflito permanente entre as classes de transi\u00e7\u00e3o e a burguesia ao redor da divis\u00e3o da riqueza que a burguesia expropria do proletariado. Aliadas dos capitalistas na manuten\u00e7\u00e3o do capital e, sempre que isto n\u00e3o estiver em jogo, em conflito permanente com a burguesia para ampliar seus sal\u00e1rios: esse o conte\u00fado hist\u00f3rico das classes de transi\u00e7\u00e3o nas sociedades capitalistas desenvolvidas.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Em outras palavras, por n\u00e3o serem classes fundamentais (como a burguesia e o proletariado), s\u00e3o incapazes de um projeto pr\u00f3prio, de classe. Apenas lhes resta, ent\u00e3o, a alternativa hist\u00f3ria real: manter ou revolucionar a sociedade burguesa. O conservadorismo e o reformismo s\u00e3o, por isso, elementos sempre presentes nas ideologias das classes de transi\u00e7\u00e3o e refletem o fato de que, no antagonismo da burguesia com o proletariado, ficam com a primeira contra o segundo.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Por tr\u00e1s das ideologias das classes de transi\u00e7\u00e3o h\u00e1, portanto, uma determina\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica que brota da produ\u00e7\u00e3o regida pelo capital. Esse \u00e9 solo social de onde brotam as ideologias pequeno-burguesas. Elas s\u00e3o muitas e muito variadas, entre outras coisas porque s\u00e3o muito sens\u00edveis \u00e0s varia\u00e7\u00f5es sociais e econ\u00f4micas no interior das classes de transi\u00e7\u00e3o. Algumas aparentam ser anticapitalistas e outras, s\u00e3o abertamente conservadoras.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Apesar dessa ampla variedade, uma caracter\u00edstica comum a todas elas \u00e9 pregarem que n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a entre os assalariados das classes de transi\u00e7\u00e3o e o proletariado. Haveria apenas duas classes sociais, a burguesia e os demais assalariados. Isto significaria que o projeto da revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria \u2013 o de superar a propriedade privada, de destruir o Estado, de deixar na lata do lixo da hist\u00f3ria as classes sociais e a fam\u00edlia monog\u00e2mica \u2013 seria invi\u00e1vel pela simples raz\u00e3o da inexist\u00eancia do proletariado. O poss\u00edvel seria a amplia\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios, a melhoria da distribui\u00e7\u00e3o de renda, o aperfei\u00e7oamento da democracia \u2013 bem entendido, mantendo a explora\u00e7\u00e3o do proletariado.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Ao inv\u00e9s da revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria, dever\u00edamos agora lutar por &#8220;mais justi\u00e7a&#8221;, &#8220;mais igualdade&#8221;, &#8220;mais democracia&#8221;&#8230; Trata-se, bem pesadas as coisas, de &#8220;mais do mesmo\u201d, que j\u00e1 temos. E o que temos \u00e9 a igualdade e a justi\u00e7a da explora\u00e7\u00e3o do proletariado e, claro, a democracia &#8212; que nada mais \u00e9 que o capital elevado \u00e0 ordem pol\u00edtica.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Quantas vezes n\u00e3o escutamos que a democracia deve ser &#8220;aperfei\u00e7oada&#8221;? Se n\u00e3o h\u00e1 democracia sem explora\u00e7\u00e3o do proletariado \u2013 trata-se, na verdade, de ampliar os sal\u00e1rios das classes de transi\u00e7\u00e3o pelo aperfei\u00e7oamento da explora\u00e7\u00e3o do proletariado.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Essa a primeira caracter\u00edstica ideol\u00f3gica importante das classes de transi\u00e7\u00e3o: negam a diferen\u00e7a de classe entre o proletariado e os demais assalariados para justificar ideologicamente a impossibilidade da revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria. Velada a diferen\u00e7a que brota da estrutura produtiva, a distin\u00e7\u00e3o de classe entre o reformismo e a ideologia revolucion\u00e1ria fica reduzida \u00e0 mera diferen\u00e7a de opini\u00f5es pol\u00edticas. Enquanto &#8220;apenas pol\u00edticas&#8221;, as diferen\u00e7as podem ser conversadas, negociadas \u2013 pode-se encontrar, pelo di\u00e1logo, um &#8220;campo comum&#8221;. Afinal, como diz a ideologia das classes de transi\u00e7\u00e3o, &#8220;somos todos assalariados&#8221;. \u00c9 evidente o quanto essa segunda caracter\u00edstica foi importante, por exemplo, para o PT chegar ao poder.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">A segunda caracter\u00edstica importante \u00e9 que, ao negar a contradi\u00e7\u00e3o entre o proletariado e as classes de transi\u00e7\u00e3o, cumpre-se uma importante fun\u00e7\u00e3o auxiliar no controle do proletariado. Quando os aut\u00eanticos burgueses t\u00eam dificuldades para se apresentar como representantes de toda a sociedade, n\u00e3o raras vezes recorre-se \u00e0s classes de transi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Como elas s\u00e3o assalariadas, seus ide\u00f3logos mais facilmente do que os burgueses podem se apresentar como representantes de &#8220;todos os trabalhadores&#8221;. Os prolet\u00e1rios, vendo um trabalhador assalariado (2) no poder, s\u00e3o possu\u00eddos da esperan\u00e7a de que a vida vai melhorar sem ser preciso a supera\u00e7\u00e3o do capital. Essa v\u00e1lvula de escape \u00e9 fundamental para o capital evitar a eclos\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o quando esta se apresenta na hist\u00f3ria.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">As classes de transi\u00e7\u00e3o, portanto, s\u00e3o resultado inevit\u00e1vel no desenvolvimento das sociedades de classe. No capitalismo dos nossos dias, s\u00e3o, junto com a aristocracia oper\u00e1ria, os aliados do grande capital contra a revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria.<\/p>\n<h2 lang=\"pt-BR\">Leituras recomendadas:<\/h2>\n<p lang=\"pt-BR\">De Karl Marx: O 18 brum\u00e1rio de Luis Bonaparte e As lutas de classe na Fran\u00e7a. Deste \u00faltimo, a edi\u00e7\u00e3o da Boitempo traz tamb\u00e9m os rascunhos preparat\u00f3rios. De Engels, O socialismo jur\u00eddico, editado por M\u00e1rcio Naves (Boitempo), e Do socialismo ut\u00f3pico ao cient\u00edfico s\u00e3o an\u00e1lises cl\u00e1ssicas das ideologias pequeno-burguesas.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">De Lenin, O que fazer? \u00e9 o texto mais importante na distin\u00e7\u00e3o da ideologia reformista da ideologia revolucion\u00e1ria. Proletariado e sujeito revolucion\u00e1rio, de Lessa e Tonet (Instituto Luk\u00e1cs), discute a distin\u00e7\u00e3o de classe entre o proletariado e os demais assalariados no capitalismo dos nossos dias. Os textos contempor\u00e2neos mais significativos na defesa da igualdade de classe entre assalariados e prolet\u00e1rios s\u00e3o de Ricardo Antunes (Os sentidos do trabalho) e de Antonio Negri (O poder constituinte).<\/p>\n<ol>\n<li>\n<p lang=\"pt-BR\">Vimos, no Jornal Espa\u00e7o Socialista n.82, como isso tamb\u00e9m \u00e9 v\u00e1lido para a aristocracia oper\u00e1ria.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p lang=\"pt-BR\">Ou mesmo um aristocrata oper\u00e1rio: basta o exemplo do Lula, mas h\u00e1 muitos na hist\u00f3ria<\/p>\n<\/li>\n<\/ol>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O conceito de classe m\u00e9dia \u00e9 incompat\u00edvel com o pensamento de Marx e Engels. 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