{"id":4432,"date":"2016-02-12T22:05:20","date_gmt":"2016-02-13T00:05:20","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=4432"},"modified":"2018-05-01T00:40:02","modified_gmt":"2018-05-01T03:40:02","slug":"jornal-86-china-expressa-os-sinais-de-uma-crise-que-e-estrutural","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2016\/02\/jornal-86-china-expressa-os-sinais-de-uma-crise-que-e-estrutural\/","title":{"rendered":"Jornal 86: China expressa os sinais de uma crise que \u00e9 estrutural"},"content":{"rendered":"<style type=\"text\/css\"><!-- p { margin-bottom: 0.1in; direction: ltr; line-height: 120%; text-align: left; orphans: 2; widows: 2; }p.western { font-family: \"Calibri\",serif; font-size: 11pt; }p.cjk { font-family: \"Calibri\"; font-size: 11pt; }p.ctl { font-family: \"Times New Roman\"; font-size: 11pt; }a:link { color: rgb(5, 99, 193); }a.ctl:link { font-family: \"Times New Roman\"; } --><\/style>\n<h1 lang=\"pt-BR\">O fantasma da crise&#8230;<\/h1>\n<p lang=\"pt-BR\">Em 2015, o crescimento da China ficou em 6,8% face ao ano anterior, o mais baixo desde 1990. (<a href=\"http:\/\/observador.pt\/2016\/01\/19\">http:\/\/observador.pt\/2016\/01\/19<\/a>).<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Mas primeiro devemos notar que estes s\u00e3o os dados oficiais do governo. Indicadores como as vendas no varejo e o consumo de eletricidade apontam para uma desacelera\u00e7\u00e3o maior. Esse \u00edndice tamb\u00e9m \u00e9 fruto de v\u00e1rias interven\u00e7\u00f5es do governo Chin\u00eas injetando dinheiro desde que tem havido quedas na Bolsa.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Al\u00e9m disso, o \u00eaxodo constante da popula\u00e7\u00e3o rural para as cidades, o ac\u00famulo dos problemas e da desigualdade em um pa\u00eds com 1,4 bilh\u00e3o de pessoas, e em que mais da metade \u00e9 composta de oper\u00e1rios precarizados faz com que as preocupa\u00e7\u00f5es aumentem.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Assim, 2016 come\u00e7ou com tr\u00eas quedas que fizeram travar as opera\u00e7\u00f5es na Bolsa de Pequim (o sistema desarma quando a queda atinge &#8211; 7%) e cair as bolsas em todo o mundo. E se a situa\u00e7\u00e3o continuar se agravando?<\/p>\n<h1 lang=\"pt-BR\">Modelo pautado na superexplora\u00e7\u00e3o e dependente dos pa\u00edses centrais<\/h1>\n<p lang=\"pt-BR\">Durante as \u00faltimas d\u00e9cadas, os diferenciais da China eram: uma m\u00e3o de obra com n\u00edveis de explora\u00e7\u00e3o alt\u00edssimos, seja pelas condi\u00e7\u00f5es subumanas de trabalho como pelos sal\u00e1rios baix\u00edssimos. Como resqu\u00edcios da revolu\u00e7\u00e3o de 1949, o Estado ainda provia os servi\u00e7os b\u00e1sicos m\u00ednimos como sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, alimenta\u00e7\u00e3o, as empresas podiam se instalar em zonas especiais e assim pagar sal\u00e1rios baix\u00edssimos e exigir jornadas extenuantes de trabalho. O ganho salarial m\u00ednimo e um estado altamente repressor (tamb\u00e9m desenvolvido anteriormente sob o falso r\u00f3tulo de socialismo) mantinha a m\u00e3o de obra sob controle.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Assim, milhares de grandes corpora\u00e7\u00f5es instalaram empresas na China, exportando para o restante do mundo. Deu-se origem \u00e0 bolha das chamadas commodities (mat\u00e9rias primas), pois o mercado financeiro disseminou e potencializou as tend\u00eancias de aumento dos pre\u00e7os, beneficiando \u00e0s burguesias dos pa\u00edses perif\u00e9ricos e abrindo algumas margens para os chamados projetos chavistas.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">At\u00e9 a eclos\u00e3o de 2008, o destino das exporta\u00e7\u00f5es da China era principalmente os pa\u00edses centrais, cujas burguesias transferiam f\u00e1bricas para a China (baixando violentamente seus custos e obtendo superlucros). Ao mesmo tempo, utilizavam esse mecanismo (amea\u00e7a de mudan\u00e7a para a China) para pressionar os trabalhadores dos pa\u00edses centrais a aceitarem redu\u00e7\u00e3o de direitos, arrocho salarial e desemprego, em nome da \u201ccompetitividade\u201d.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Com o crescimento das exporta\u00e7\u00f5es da China, sobravam divisas que o estado ia utilizando para construir mais obras de infraestrutura. Outra parte ia para o surgimento de uma burguesia e de uma classe m\u00e9dia chinesas a partir da convers\u00e3o de setores da burocracia do PC e\/ou de m\u00e1fias que j\u00e1 existiam.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">A China exportando a um ritmo alucinante consumia uma grande quantidade de mat\u00e9rias primas, colocando uma demanda nova para os pa\u00edses produtores de mat\u00e9rias primas, que por um per\u00edodo de 15 anos beneficiou as exporta\u00e7\u00f5es brasileiras, mas basicamente toda a Am\u00e9rica Latina, Africa do Sul, etc.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Esse equil\u00edbrio obviamente problem\u00e1tico durou um tempo, pois nos pa\u00edses centrais havia uma grande oferta de cr\u00e9dito, capital que n\u00e3o compensava ser investido na produ\u00e7\u00e3o nesses pa\u00edses e que foi ent\u00e3o direcionado como fundos de cr\u00e9dito para o superendividamento da classe m\u00e9dia e dos trabalhadores dos pa\u00edses centrais.<\/p>\n<h1 lang=\"pt-BR\">Estoura a crise de 2008. O Estado chin\u00eas redobra a aposta<\/h1>\n<p lang=\"pt-BR\">Mas o aumento da tecnologia e das capacidades produtivas instaladas no mundo (que agora inclu\u00eda a China) foi levando a um aumento da oferta, enquanto do outro lado houve o esgotamento do potencial de consumo devido ao limite do superendividamento das fam\u00edlias dos pa\u00edses centrais. Houve a explos\u00e3o da crise mundial em 2008.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Portanto, a crise de 2008 n\u00e3o foi de modo algum uma crise financeira. Essa era apenas sua apar\u00eancia. Por detr\u00e1s havia a crise de superprodu\u00e7\u00e3o de capitais e de capacidade instalada que n\u00e3o encontrava mercados suficientes para serem escoadas com lucro.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">A partir de ent\u00e3o, todos sabemos: os estados nacionais despejaram cifras astron\u00f4micas para salvar os grandes bancos e corpora\u00e7\u00f5es (entre 12 a 15 trilh\u00f5es de d\u00f3lares!). Isso levou ao endividamento dos mesmos e ao mesmo tempo \u00e0 superemiss\u00e3o de d\u00f3lares, euros e ienes, utilizados para pagar d\u00edvidas, importa\u00e7\u00f5es e servi\u00e7os, indo parar nas m\u00e3os dos pa\u00edses como Brasil, China, R\u00fassia, \u00cdndia e muitos outros.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Foi criado o G-20, cuja fun\u00e7\u00e3o era comprometer os pa\u00edses chamados intermedi\u00e1rios com sa\u00eddas para a crise que beneficiassem os pa\u00edses centrais dos quais eram dependentes pelo mercado. Os pa\u00edses intermedi\u00e1rios deveriam abrir ainda mais seus mercados para o consumo de produtos dos pa\u00edses centrais (via cr\u00e9dito) e para os capitais privados (aquisi\u00e7\u00e3o de T\u00edtulos da D\u00edvida P\u00fablica, v\u00e1rias formas de privatiza\u00e7\u00e3o como concess\u00f5es, etc.).<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Com o esgotamento do endividamento das classes m\u00e9dias e dos trabalhadores dos pa\u00edses centrais, e com o endividamento dos respectivos estados nacionais, a palavra de ordem passou a ser Austeridade.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Visando se tornarem mais competitivas, as empresas dos pa\u00edses centrais se reestruturaram \u2013 como a GM \u2013, fecharam ou reestruturaram suas f\u00e1bricas, diminuindo seus custos.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">A queda nos ritmos do mercado mundial e a reestrutura\u00e7\u00e3o das empresas dos pa\u00edses centrais provocaram a queda do ritmo de crescimento da China.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Mas ent\u00e3o o estado chin\u00eas entrou impulsionando a economia com investimentos em obras de infraestrutura, portos, usinas, aeroportos e at\u00e9 cidades, em busca de criar as melhores condi\u00e7\u00f5es para tornar a China mais atrativa para as empresas.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">No entanto, dada a redu\u00e7\u00e3o do ritmo de crescimento global p\u00f3s 2008, o investimento estatal chin\u00eas teve um efeito paliativo. Sua manuten\u00e7\u00e3o tem provocado um endividamento cada vez maior do estado, dif\u00edcil de se sustentar. E mesmo assim, as empresas resistem em fazer novos investimentos para aumento de produ\u00e7\u00e3o na China.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Mais do que isso, tem havido uma tend\u00eancia de as empresas deixarem a China. Uma em cada quatro empresas norte-americanas com neg\u00f3cios na China encerrou parte das suas opera\u00e7\u00f5es no pa\u00eds, ou ir\u00e1 faz\u00ea-lo, num per\u00edodo em que a segunda maior economia mundial cresce ao ritmo mais baixo dos \u00faltimos 25 anos. (http:\/\/observador.pt\/2016\/01\/20).<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Entre as empresas que deslocaram as suas opera\u00e7\u00f5es, quase metade optou por outros pa\u00edses asi\u00e1ticos, enquanto 38% escolheu a Am\u00e9rica do Norte. Ou seja, o capital busca condi\u00e7\u00f5es de maior superexplora\u00e7\u00e3o em outros pa\u00edses e parte do capital retorna aos pa\u00edses centrais.<\/p>\n<h1 lang=\"pt-BR\">O esgotamento do modelo exportador. E agora?<\/h1>\n<p lang=\"pt-BR\">Assim, todos os debates passaram a ser sobre como incentivar um novo modelo mais voltado para o consumo interno e para o setor se servi\u00e7os. De fato, pela primeira vez, em 2015, o setor de servi\u00e7os representou 50,5% do crescimento do produto interno bruto (PIB), ligeiramente \u00e0 frente da ind\u00fastria e agricultura. (<a href=\"http:\/\/observador.pt\/2016\/01\/19\">http:\/\/observador.pt\/2016\/01\/19<\/a>).<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Mas essa transi\u00e7\u00e3o para uma economia mais voltada para o mercado interno \u00e9 muito incerta, lenta e problem\u00e1tica. Dependeria de um afluxo de capitais que apostasse no endividamento de grande parte da popula\u00e7\u00e3o chinesa, a exemplo do que houve no Brasil a partir de 2009 at\u00e9 2014.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Mesmo que isso ocorra, n\u00e3o conseguir\u00e1 suprir as perdas pela diminui\u00e7\u00e3o das exporta\u00e7\u00f5es chinesas em lento crescimento devido \u00e0 situa\u00e7\u00e3o da economia mundial.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Em segundo lugar, assim como aconteceu no Brasil, um ciclo de superendividamento na China tende a ser muito mais curto que o dos pa\u00edses centrais, repondo ent\u00e3o com muito mais intensidade todos os problemas estruturais.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">A classe trabalhadora chinesa com baix\u00edssimos sal\u00e1rios tem um potencial de endividamento que n\u00e3o se compara com o que ocorreu nos pa\u00edses centrais.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Assim, mesmo que a China ainda preserve certo crescimento, n\u00e3o voltar\u00e1 mais ao ritmo anterior, e o principal respons\u00e1vel por isso \u00e9 que a economia mundial como um todo deve se manter em lento crescimento ou mesmo estagna\u00e7\u00e3o. Ou seja, as dificuldades da China na verdade revelam a crise estrutural do capital.<\/p>\n<h1 lang=\"pt-BR\">O despertar da classe oper\u00e1ria chinesa<\/h1>\n<p lang=\"pt-BR\">Na China, os trabalhadores s\u00f3 t\u00eam direito \u00e0 greve se for organizada pela Federa\u00e7\u00e3o Chinesa de Sindicatos (ACFTU na sigla em ingl\u00eas); basicamente uma burocracia que atua como bra\u00e7o do governo e que n\u00e3o defende os trabalhadores. A pris\u00e3o de ativistas independentes \u00e9 pr\u00e1tica nos protestos, havendo tamb\u00e9m o recurso a capangas e para atacar e desmobilizar os piquetes de greve dos trabalhadores.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Mesmo assim, as greves t\u00eam dado um salto de quantidade e muitas se organizam de forma independente. A intensifica\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 \u00e9 alt\u00edssima, s\u00f3 pode aumentar a temperatura desse caldeir\u00e3o.<br \/>\nO ativismo trabalhista est\u00e1 se ampliando na classe oper\u00e1ria, que abrange mais da metade dos 1,4 bilh\u00e3o de chineses.<\/p>\n<h1 lang=\"pt-BR\">Consequ\u00eancias e desafios para o Brasil e a Am\u00e9rica Latina<\/h1>\n<p lang=\"pt-BR\">De imediato, portanto, as consequ\u00eancias s\u00e3o o fim do boom das commodities com a queda espetacular do barril do petr\u00f3leo a menos de 30 d\u00f3lares (j\u00e1 esteve a 120); a queda das demais mat\u00e9rias primas como min\u00e9rios, etc.; ao mesmo tempo o enfraquecimento das moedas dos pa\u00edses perif\u00e9ricos frente aos pa\u00edses centrais, encarecendo a importa\u00e7\u00f5es; e como decorr\u00eancia, o salto no aperto da vida dos trabalhadores.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">A polariza\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica mina as bases dos projetos \u201creformistas\u201d como o PT, assim como os projetos chavistas. Os setores de direita se apresentam mais abertamente na disputa pelas alternativas de projetos de sociedade, e buscam ganhar legitima\u00e7\u00e3o perante as massas.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Mas a classe trabalhadora e os setores populares e camponeses aumentam e radicalizam suas lutas, o que desperta novas energias, principalmente com a juventude.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Os desafios para a esquerda revolucion\u00e1ria aumentam, pois todo esse processo ainda \u00e9 marcado por uma aprofunda crise de alternativas socialistas. No entanto, novas experi\u00eancias est\u00e3o se gestando, seja em organiza\u00e7\u00f5es de base nos locais de trabalho, moradia e estudo, seja em frentes para lutar, seja nos debates e o in\u00edcio de uma consci\u00eancia anticapitalista pelo menos entre as vanguardas.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Assim, o desafio cada vez mais urgente passa a ser construirmos juntos as lutas e como parte delas a consci\u00eancia, programa, e as formas de organiza\u00e7\u00e3o socialistas e revolucion\u00e1rias.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O fantasma da crise&#8230; Em 2015, o crescimento da China ficou em 6,8% face ao ano anterior, o mais baixo<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[64,6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4432"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4432"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4432\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6006,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4432\/revisions\/6006"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4432"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4432"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4432"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}