{"id":4480,"date":"2016-03-13T02:32:00","date_gmt":"2016-03-13T05:32:00","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=4480"},"modified":"2018-05-01T00:39:22","modified_gmt":"2018-05-01T03:39:22","slug":"jornal-87-crise-estrutural-e-ofensiva-socialista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2016\/03\/jornal-87-crise-estrutural-e-ofensiva-socialista\/","title":{"rendered":"Jornal 87: Crise estrutural e ofensiva socialista"},"content":{"rendered":"<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\"><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/3.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignright size-medium wp-image-4483\" src=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/3-254x300.jpg\" alt=\"3\" width=\"254\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/3-254x300.jpg 254w, https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/3.jpg 260w\" sizes=\"(max-width: 254px) 100vw, 254px\" \/><\/a>Ao menos desde as linhas iniciais do Manifesto Comunista, de 1848, escrito por Marx e Engels, na qual lemos &#8220;Um fantasma ronda a Europa, o fantasma do comunismo&#8221;, at\u00e9 os nossos dias, n\u00e3o \u00e9 raro ser encontrada entre os revolucion\u00e1rios uma concep\u00e7\u00e3o segundo a qual o capitalismo estaria fadado a um inevit\u00e1vel desaparecimento. Do fato de que o capitalismo gera contradi\u00e7\u00f5es que ele n\u00e3o pode superar, de que cria o &#8220;seu pr\u00f3prio coveiro&#8221;, o proletariado, por vias muito variadas chega-se, n\u00e3o raramente, \u00e0 conclus\u00e3o de que o fim do capitalismo seria n\u00e3o apenas inevit\u00e1vel mas, ainda, apenas uma quest\u00e3o de tempo.<\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\">Nos per\u00edodos de crise revolucion\u00e1ria, como nos anos finais e posteriores \u00e0 Primeira Guerra Mundial (1914-1918) ou, ainda, de crises econ\u00f4micas mais agudas, como quando da crise de 1929, os fatos fortalecem a apar\u00eancia de que, de fato, o capital e o modo de produ\u00e7\u00e3o que ele estrutura terminariam por colapsar, dando origem ao comunismo. A cada aumento da intensidade da luta de classes ou, mesmo, de aprofundamento da crise econ\u00f4mica \u2013 pelas vias as mais diversas \u2013 muitas vezes chega-se \u00e0 conclus\u00e3o de que bastariam as contradi\u00e7\u00f5es geradas pelo pr\u00f3prio capitalismo para que o capital desapare\u00e7a da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\">Essa concep\u00e7\u00e3o, ing\u00eanua, est\u00e1 distante da concep\u00e7\u00e3o de revolu\u00e7\u00e3o de revolucion\u00e1rios como Lenin, Rosa Luxemburgo, Trotsky, para n\u00e3o mencionar a de Marx e Engels. Al\u00e9m disso, ela foi poucas vezes sistematizada em uma teoria acabada, consistente. A mais famosa delas \u00e9 o texto de Henryk Grossmann, A lei da acumula\u00e7\u00e3o e do colapso do sistema capitalista, de 1929. Sua tese fundamental \u00e9 que as contradi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas inerentes ao modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista conduziria ao colapso geral do sistema, independente do que os humanos fizessem. E pretendia haver demonstrado matematicamente essa inevitabilidade .<\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\">Politicamente, essa concep\u00e7\u00e3o faz um enorme estrago ao movimento revolucion\u00e1rio. Por duas raz\u00f5es, fundamentais. Primeiro, porque n\u00e3o corresponde \u00e0 realidade do capital, nem do seu sistema. Em segundo lugar, porque abre amplas portas ao reformismo.<\/p>\n<h1 class=\"western\" lang=\"pt-BR\">O colapso autom\u00e1tico do capital<\/h1>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\">As propriedades privadas dos modos de produ\u00e7\u00e3o pr\u00e9-capitalistas, a saber, os modos de produ\u00e7\u00e3o escravista, asi\u00e1tico e feudal, tinham como caracter\u00edstica central uma r\u00edgida conex\u00e3o \u00e0 terra. Nesses tr\u00eas modos de produ\u00e7\u00e3o, a acumula\u00e7\u00e3o da riqueza da classe dominante se fazia pelo aumento da propriedade da terra e pelo aumento de trabalhadores nela fixados. Ainda que sejam rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o muito diferentes e, portanto, que suas evolu\u00e7\u00f5es, suas hist\u00f3rias, sejam bastante distintas, nesses tr\u00eas modos de produ\u00e7\u00e3o a acumula\u00e7\u00e3o da riqueza pela classe dominante tinha um limite f\u00edsico: a partir de um determinado ponto da expans\u00e3o, n\u00e3o havia mais for\u00e7as econ\u00f4micas e\\ou militares para se conquistar mais terra e subjugar mais trabalhadores.<\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\">Ao atingir-se esse ponto, abrem-se as crises que conduziram os modos de produ\u00e7\u00e3o feudal e escravista aos seus desaparecimentos. \u00c9 o que Marx e, depois, Luk\u00e1cs, denominaram de &#8220;beco sem sa\u00edda&#8221;: o escravismo e o feudalismo desapareceriam por suas pr\u00f3prias contradi\u00e7\u00f5es (novamente: por mais diferentes que fossem as contradi\u00e7\u00f5es e o modo desse desaparecimento). Ainda que no modo de produ\u00e7\u00e3o asi\u00e1tico as coisas n\u00e3o tenham se passado exatamente assim, tamb\u00e9m nele o processo de acumula\u00e7\u00e3o encontrou seu limite na impossibilidade de se conquistar mais terras e\\ou de fixar nela mais camponeses.<\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\">Para o nosso tema, o mais interessante para uma compara\u00e7\u00e3o \u00e9 a transi\u00e7\u00e3o do escravismo ao feudalismo. As contradi\u00e7\u00f5es que dissolveram o escravismo foram geradas por ele pr\u00f3prio. A dissolu\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es escravistas de produ\u00e7\u00e3o foi lenta, demorou cerca de 7 s\u00e9culos para se completar (para alguns historiadores, mesmo 9 s\u00e9culos)! N\u00e3o havia uma classe revolucion\u00e1ria e a transi\u00e7\u00e3o ocorreu sem qualquer dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ou social. O escravismo foi desaparecendo e, lentamente, de modo muito desigual e contradit\u00f3rio, de seus vest\u00edgios foi surgindo o feudalismo.<\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\">Com o sistema do capital, nada disso ir\u00e1 acontecer. E o motivo fundamental dessa diferen\u00e7a est\u00e1 no pr\u00f3prio capital. Este \u00e9 uma propriedade privada cuja acumula\u00e7\u00e3o se faz, de modo fundante, pela extra\u00e7\u00e3o da mais-valia do proletariado e se expressa sob a forma de dinheiro. Um capital pode, assim, passar de 10 para 10 mil, de 10 mil para 10 milh\u00f5es, bilh\u00f5es, trilh\u00f5es&#8230; indefinidamente \u2013 indefinidamente, claro, desde que nos limitemos apenas e t\u00e3o somente no seu processo de acumula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\">\u00c9 essa capacidade ilimitada de acumula\u00e7\u00e3o do capital que faz com que o desenvolvimento do seu sistema pode at\u00e9 conduzir ao fim da humanidade \u2013 com o que, evidentemente, terminaria o capital &#8211;, mas n\u00e3o conduzir\u00e1, jamais, direta ou automaticamente ao fim do capital atrav\u00e9s de sua supera\u00e7\u00e3o pelo modo de produ\u00e7\u00e3o comunista. Em tudo diferente do escravismo, o capitalismo n\u00e3o conhece um &#8220;beco sem sa\u00edda&#8221;: sem a revolu\u00e7\u00e3o, uma a\u00e7\u00e3o consciente dos trabalhadores e prolet\u00e1rios contra o capital, nenhuma transi\u00e7\u00e3o para al\u00e9m do capital ser\u00e1 poss\u00edvel.<\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\">Novamente: n\u00e3o por uma quest\u00e3o de cren\u00e7a ou de opini\u00e3o! Mas porque o capital n\u00e3o conhece, em si pr\u00f3prio, nenhum &#8220;beco sem sa\u00edda&#8221; em sua acumula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h1 class=\"western\" lang=\"pt-BR\">Marx, Luk\u00e1cs e M\u00e9sz\u00e1ros<\/h1>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\">As tr\u00eas obras decisivas da teoria revolucion\u00e1ria, O Capital, de K. Marx, a Ontologia de Luk\u00e1cs e o Para al\u00e9m do capital, de M\u00e9sz\u00e1ros, compartilham de algo comum em seus destinos. Foram as tr\u00eas, em larga medida, ignoradas pelos debates e pelas teorias a elas contempor\u00e2neas. O desespero de Marx e Engels chegou ao ponto de este \u00faltimo escrever resenhas, sob pseud\u00f4nimo, em \u00f3rg\u00e3os de imprensa tentando chamar a aten\u00e7\u00e3o para o texto de Marx. N\u00e3o conhe\u00e7o nenhum caso semelhante em se tratando da Ontologia e do Para al\u00e9m do capital \u2013 mas, c\u00e1 entre n\u00f3s, at\u00e9 que n\u00e3o seria uma m\u00e1 ideia!<\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\">As tr\u00eas obras, tamb\u00e9m, quando receberam algum coment\u00e1rio de contempor\u00e2neos, na enorme maioria das vezes foram falsificadores ou expressavam profunda incompreens\u00e3o do texto em apre\u00e7o. Em se tratando da obra-prima de M\u00e9sz\u00e1ros, a situa\u00e7\u00e3o pode parecer um pouco distinta porque vivemos no pa\u00eds em que ela recebeu, de longe, a maior aten\u00e7\u00e3o em todo o mundo. Mas, mesmo em nosso pa\u00eds, pouco conhece e muito pouco se publicou sobre Para al\u00e9m do capital.<\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\">Um dos equ\u00edvocos mais correntes sobre o texto de M\u00e9sz\u00e1ros \u00e9 a intepreta\u00e7\u00e3o que fazem de sua categoria de crise estrutural. Primeiro, esta apenas pode ser corretamente compreendida se for articulada tanto com sua concep\u00e7\u00e3o do capital (uma acumula\u00e7\u00e3o da propriedade privada que apenas pode existir intensificando-se ininterruptamente) quanto com sua concep\u00e7\u00e3o do sistema do capital. Segundo, ela n\u00e3o pode ser compreendida se desarticulada da necessidade de uma ofensiva socialista.<\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\">Vejamos essas duas articula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<h1 class=\"western\" lang=\"pt-BR\">Crise estrutural<\/h1>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\">O fato de o capital ordenar um modo de produ\u00e7\u00e3o que tende a um aumento constante da produ\u00e7\u00e3o e da capacidade produtiva, j\u00e1 no s\u00e9culo 19 conduziu \u00e0s crises c\u00edclicas. A surpresa de David Ricardo, o maior economista burgu\u00eas, ao eclodir a primeira crise c\u00edclica, \u00e9 sintom\u00e1tica de que a esfera da economia estava conhecendo uma situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica qualitativamente nova. Ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial (1776-1830), o aumento da produ\u00e7\u00e3o leva \u2013 no passado e ainda hoje \u2013 ao aumento da oferta a tal ponto que ultrapassa a capacidade de consumo: atingimos a superprodu\u00e7\u00e3o. A produ\u00e7\u00e3o de mercadorias se inviabiliza e \u00e9 interrompida, aumentando o desemprego e dando in\u00edcio ao c\u00edrculo vicioso das crises c\u00edclicas: cai a produ\u00e7\u00e3o, aumenta o desemprego, despenca o consumo e, a produ\u00e7\u00e3o, \u00e9 novamente derrubada. Os bancos para compensarem as perdas, elevam os juros. A agricultura, vendendo menos para as ind\u00fastrias, n\u00e3o conseguem pagar os juros elevados. Tudo, ent\u00e3o, colapsa e a crise atinge seu ponto mais agudo.<\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\">Sem a produ\u00e7\u00e3o, mais cedo ou mais tarde, a crise esgotava a superprodu\u00e7\u00e3o, os produtos voltavam a faltar e a economia voltava a crescer. Com uma importante diferen\u00e7a: como na crise os pequenos s\u00e3o engolidos pelos grandes, a cada novo crescimento econ\u00f4mico o capital se concentra, as empresas e suas produ\u00e7\u00f5es se tornam ainda maiores, conduzindo a crises c\u00edclicas cada vez mais agudas.<\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\">No jornal Espa\u00e7o Socialista passado, o de n\u00famero 86, comentamos essa din\u00e2mica das crises e, por isso, podemos economizar espa\u00e7o. Basta relembrar que esse processo de concentra\u00e7\u00e3o do capital recebe um enorme refor\u00e7o com o fordismo e o Estado de Bem-estar nos pa\u00edses imperialista (\u201dbem-estar&#8221;, lembremos, que \u00e9 apenas a express\u00e3o do imperialismo e da explora\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria da for\u00e7a de trabalho e das riquezas naturais da periferia do sistema). E que esse refor\u00e7o conduziu \u00e0 crise de 1929 e, j\u00e1 depois, na d\u00e9cada de 1970, \u00e0 crise estrutural.<\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\">A crise estrutural \u00e9 a express\u00e3o, na teoria, da mudan\u00e7a de qualidade no, sempre, problem\u00e1tico processo de acumula\u00e7\u00e3o do capital.<\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\">Antes da crise estrutural, que se inicia ao redor dos meados de 1970, havia ainda novos territ\u00f3rios para o capital se expandir e novas esferas econ\u00f4micas para ele ocupar ou desenvolver. Como vimos no Jornal Espa\u00e7o Socialista n. 79, quando tratamos das causas hist\u00f3ricas mais profundas de as revolu\u00e7\u00f5es n\u00e3o terem aberto \u00e0 transi\u00e7\u00e3o ao socialismo, antes de d\u00e9cada de 1970 havia ainda a possibilidade do desenvolvimento nacional das for\u00e7as produtivas. Foi assim que a antiga URSS e a atual China puderam transitar, em poucas d\u00e9cadas, de pa\u00edses dos mais atrasados do mundo a pot\u00eancias econ\u00f4micas de primeira linha.<\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\">Ao lado disso, a superprodu\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o era de tal ordem que as crises n\u00e3o a pudessem superar momentaneamente. Assim, ap\u00f3s cada crise, abria-se um per\u00edodo de expans\u00e3o da economia, empregos eram gerados, novos investimentos eram realizados, ocorria uma nova rodada de concentra\u00e7\u00e3o do capital etc. Por ser de menor volume, a superprodu\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m podia ser contrabalan\u00e7ada, ainda que momentaneamente, pelo complexo industrial-militar, pelas guerras localizadas (Cor\u00e9ia, Vietnam etc.) e algumas pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\">Com a crise estrutural, essa qualidade da reprodu\u00e7\u00e3o do capital desapareceu e \u00e9 substitu\u00edda por outra. A superprodu\u00e7\u00e3o \u00e9 de tal monta que a crise n\u00e3o \u00e9 capaz de consumi-la. A superprodu\u00e7\u00e3o se torna permanente e, correspondentemente, a crise se tornar permanente. Agora, nenhuma medida conjuntural ou pol\u00edtica localizada pode reverter a crise: apenas um mudan\u00e7a estrutural pode reverter uma crise estrutural.<\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\">A nova qualidade da crise, de c\u00edclica a estrutural, se expressa imediatamente em que a sobreviv\u00eancia das empresas requer que se aumente a produ\u00e7\u00e3o com cada vez menos for\u00e7a de trabalho. A contradi\u00e7\u00e3o do sistema se agudiza: com maior desemprego, o consumo cai, a superprodu\u00e7\u00e3o se mant\u00e9m e a crise n\u00e3o \u00e9 superada. A produ\u00e7\u00e3o e o consumo tornam-se fren\u00e9ticos: \u00e9 preciso fazer quem ainda consome, consumir cada vez mais e, para isso, deve-se produzir cada vez mais e mais barato com cada vez menos trabalhadores.<\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\">Cada vez uma parte menor da humanidade pode fazer parte do sistema do capital, quer como produtor quer como consumidor. As cidades se convertem em gigantescas favelas, o campo em enormes vazios preenchidos por gado, cerais e muitos poucos trabalhadores. A sociedade vai se dissolvendo em uma crise permanente, em uma viol\u00eancia e um desespero que s\u00f3 s\u00e3o socialmente equipar\u00e1veis \u00e0 desesperan\u00e7a por dias melhores. O capital, gerado pela produ\u00e7\u00e3o crescente, n\u00e3o consegue retornar \u00e0 produ\u00e7\u00e3o e tem que se refugiar no sistema financeiro e nos servi\u00e7os \u2013 o desmensurado crescimento de ambos \u00e9 apenas uma das manifesta\u00e7\u00f5es da crise estrutural. O n\u00famero de suic\u00eddios supera os dos mortos em conflitos armados: o capital, uma cria\u00e7\u00e3o humana, est\u00e1 destruindo os humanos.<\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\">Sendo breve: porque a acumula\u00e7\u00e3o do capital n\u00e3o conhece um &#8220;beco sem sa\u00edda&#8221;, este processo n\u00e3o ter\u00e1 fim sem uma ofensiva socialista.<\/p>\n<h1 class=\"western\" lang=\"pt-BR\">Ofensiva socialista<\/h1>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\">A nova qualidade que a crise estrutural trouxe para a reprodu\u00e7\u00e3o do sistema do capital como um todo tem um profundo reflexo na luta de classes.<\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\">Antes da crise estrutural, principalmente nos per\u00edodos de crescimento econ\u00f4mico entre duas crises ou na expans\u00e3o do capital a enormes territ\u00f3rios com o da antiga URSS e da atual China, era poss\u00edvel a melhoria da qualidade de vida e do aumento do consumo de parte importante dos assalariados. N\u00e3o todos, evidentemente, mas de uma parte muito importante. Nos pa\u00edses imperialistas centrais, por vezes mesmo da maioria dos assalariados. Na URSS, a vida dos trabalhadores, se comparada \u00e0 vida dos mesmos sob o czarismo, conheceu uma melhoria brutal em poucos anos. Na China, algo semelhante.<\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\">Essa situa\u00e7\u00e3o de fato fez com que a participa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, com seus sindicatos e partidos, no Estado, no parlamento, &#8212; no &#8220;jogo democr\u00e1tico&#8221;, para sermos breves &#8211;, tivesse alguns resultados : conseguia-se um melhor sal\u00e1rio, um ou outro direito trabalhista, uma ou outra melhoria nas condi\u00e7\u00f5es de trabalho, de moradia, de assist\u00eancia m\u00e9dica, etc. O pre\u00e7o, elevad\u00edssimo, era o de apoiar as &#8220;regras do jogo democr\u00e1tico&#8221;, o que terminou conduzindo \u00e0 uma idolatria da democracia dos pa\u00edses imperialistas que, mais tarde, se expressaria na tese da democracia como valor universal dos eurocomunistas.<\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\">N\u00e3o seria mais necess\u00e1ria qualquer revolu\u00e7\u00e3o: a luta democr\u00e1tica nas institui\u00e7\u00f5es burguesas conduziria a um capitalismo cada vez mais humano e mais justo. De reformas e reformas&#8230; conhecemos todos essa ladainha.<\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\">\u00c0 direita do movimento dos trabalhadores, o reformismo afirmava que a revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o seria mais necess\u00e1ria. Mas, em setores \u00e0 esquerda do movimento, a revolu\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m era descartada por outro argumento, aparentemente esquerdista: o de que o pr\u00f3prio capital produziria as contradi\u00e7\u00f5es que levariam automaticamente ao seu colapso e ao socialismo &#8212; sem que uma revolu\u00e7\u00e3o fosse necess\u00e1ria. Henryk Grossmann, nesse contexto, frequentemente \u00e9 mencionado.<\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\">\u00c9 contra o reformismo e contra o &#8220;automatismo&#8221; da transi\u00e7\u00e3o ao socialismo que M\u00e9sz\u00e1ros assinala a necessidade de uma &#8220;ofensiva socialista&#8221;. Uma ofensiva que descarte a via reformista e que descarte todo automatismo: a revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria apenas poder\u00e1 ter lugar por uma a\u00e7\u00e3o coordenada e em larga medida consciente dos trabalhadores organizados ao redor do proletariado. A a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria \u00e9 imprescind\u00edvel para a revolu\u00e7\u00e3o &#8212; e a revolu\u00e7\u00e3o se tornou, al\u00e9m de necess\u00e1ria, poss\u00edvel: a crise estrutural n\u00e3o deixa a humanidade sen\u00e3o duas alternativas. Ou, para repetir M\u00e9sz\u00e1ros, &#8220;tr\u00eas, se tivermos sorte&#8221;: a destrui\u00e7\u00e3o da humanidade, o comunismo ou a barb\u00e1rie. Caso n\u00e3o transitemos ao socialismo, chegaremos \u00e0 barb\u00e1rie, diz M\u00e9sz\u00e1ros, apenas se tivermos a sorte de n\u00e3o sermos destru\u00eddos pelo capital.<\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\">A concep\u00e7\u00e3o de M\u00e9sz\u00e1ros que se expressa na sua teoria da crise estrutural nada tem em comum com as concep\u00e7\u00f5es e teorias, como a de Grossmann, acerca de um inevit\u00e1vel colapso do capital e um igualmente inevit\u00e1vel futuro socialista. Pelo contr\u00e1rio, afirma a necessidade da a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria para que a crise estrutural possa se converter em uma sociedade sem Estado, propriedade privada, fam\u00edlia monog\u00e2mica ou explora\u00e7\u00e3o do homem pelo homem. Sem uma ofensiva socialista, nada de revolu\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\">N\u00e3o s\u00e3o poucos os que enxergam em M\u00e9sz\u00e1ros um moderno Grossmann: est\u00e3o t\u00e3o equivocados quando se afirmassem que o sol nasce a oeste.<\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\">Indica\u00e7\u00f5es de leitura: h\u00e1 pouca literatura dispon\u00edvel sobre M\u00e9sz\u00e1ros, a crise estrutural e a ofensiva socialista. M\u00e9sz\u00e1ros e a incontrolabilidade do capital, de Cristina Paniago, \u00e9 uma refer\u00eancia obrigat\u00f3ria. Em seu site (<a class=\"western\" href=\"http:\/\/www.cristinapaniago.com\/\"><span lang=\"pt-BR\">www.cristinapaniago.com<\/span><\/a>) h\u00e1 artigos e textos que devem ser \u00fateis. Sobre a revolu\u00e7\u00e3o e a a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria nos cl\u00e1ssicos do marxismo, vale salientar O que fazer?, de Lenin (as tradu\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis s\u00e3o equivalentes), O Manifesto Comunista, de Marx e Engels e, desde \u00faltimo, Do socialismo ut\u00f3pico ao cient\u00edfico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao menos desde as linhas iniciais do Manifesto Comunista, de 1848, escrito por Marx e Engels, na qual lemos &#8220;Um<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":4483,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[73,6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4480"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4480"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4480\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5999,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4480\/revisions\/5999"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4483"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4480"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4480"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4480"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}