{"id":4695,"date":"2016-06-22T13:34:55","date_gmt":"2016-06-22T16:34:55","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=4695"},"modified":"2018-04-30T20:42:22","modified_gmt":"2018-04-30T23:42:22","slug":"jornal-90-movimento-ecologico-e-capital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2016\/06\/jornal-90-movimento-ecologico-e-capital\/","title":{"rendered":"Jornal 90: Movimento ecol\u00f3gico e capital"},"content":{"rendered":"<p lang=\"pt-BR\" style=\"text-align: right;\">S\u00e9rgio Lessa<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Um dos mais dram\u00e1ticos e evidentes sinais da desumanidade do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista \u00e9 o que se denomina de &#8220;a quest\u00e3o ecol\u00f3gica&#8221;. Por essa raz\u00e3o, esse \u00e9 tamb\u00e9m um dos temas em que a ideologia burguesa mais concentra esfor\u00e7os para evitar que se tome consci\u00eancia da raiz do problema. E \u00e9 como auxiliar ideol\u00f3gico da burguesia que a maior parte do movimento ecol\u00f3gico \u2013 mas, evidentemente, n\u00e3o todo \u2013 surge e se desenvolve.<a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/4.png\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignright\" src=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/4-256x300.png\" alt=\"4\" width=\"256\" height=\"300\" \/><\/a><\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Como j\u00e1 vimos no Jornal Espa\u00e7o Socialista n. 84, n\u00e3o h\u00e1 sociedade humana que possa se reproduzir sem transformar a natureza. A transforma\u00e7\u00e3o da natureza \u00e9 o trabalho e, seus produtos, s\u00e3o necessariamente ou meios de produ\u00e7\u00e3o (ferramentas, m\u00e1quinas, pr\u00e9dios, estradas etc.) ou meios de subsist\u00eancia (alimentos, moradia, roupas, rem\u00e9dios etc.). A hist\u00f3ria da humanidade \u00e9, por essa raz\u00e3o, tamb\u00e9m (portanto, n\u00e3o somente) a crescente transforma\u00e7\u00e3o da natureza no que necessitamos e, com o passar do tempo, a transforma\u00e7\u00e3o do Planeta Terra em um ambiente cada vez mais adaptado \u00e0s nossas necessidades.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Pensemos em uma cidade. A cidade, em sua totalidade, \u00e9 o resultado de uma constru\u00e7\u00e3o realizada pelo trabalho de gera\u00e7\u00f5es seguidas, ela nada tem de natural. Um parque apenas \u00e9 um parque porque os humanos determinaram que assim seja. A cidade \u00e9 um ambiente criado pelos seres humanos para atender as necessidades dos seres humanos. O mesmo vale para tudo na nossa hist\u00f3ria: a produ\u00e7\u00e3o de energia, a produ\u00e7\u00e3o de roupas, moradias, meios de transporte, comunica\u00e7\u00e3o, com\u00e9rcio etc. Paulatinamente, a humanidade foi se desenvolvendo e convertendo o planeta naquilo que necessitamos.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Isso \u00e9 uma caracter\u00edstica insuper\u00e1vel da vida humana. Ser humano significa, necess\u00e1ria e insuperavelmente, transformar a natureza no que necessitamos. E isso est\u00e1 presente em todos os momentos da nossa hist\u00f3ria. At\u00e9 mesmo nos seus momentos mais primitivos. Uma tribo ou bando que apenas \u00e9 capaz da coleta (sobre a coleta, cf. Jornal Espa\u00e7o Socialista n.83) promove uma transforma\u00e7\u00e3o intensa por onde passa: se alimenta de tudo o que encontra, insetos, animais, ovos de passarinho, frutas maduras ou verdes, ra\u00edzes e assim sucessivamente. Toda a hist\u00f3ria da humanidade envolve alguma transforma\u00e7\u00e3o significativa do meio ambiente e n\u00e3o h\u00e1 vida humana sem essa caracter\u00edstica.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Isso n\u00e3o \u00e9 decorrente de nenhuma escolha de nossa parte, os humanos. Pelo contr\u00e1rio, isso \u00e9 decorrente da pr\u00f3pria natureza, da qual somos o resultado. Como vimos no Jornal Espa\u00e7o Socialista n. 84, foi do desenvolvimento da mat\u00e9ria inorg\u00e2nica que surgiu a vida. Foi do desenvolvimento da vida que surgiu o ser humano. Por essa raz\u00e3o estritamente natural, tal como todos os animais e plantas, n\u00f3s tamb\u00e9m apenas podemos sobreviver se transformarmos o ambiente, se transformamos o planeta.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Sem d\u00favida, a forma com que transformamos o planeta \u00e9 diferente da forma como os outros seres vivos o fazem. Enquanto os outros agem sobre o meio ambiente de forma biol\u00f3gica, n\u00f3s transformamos o ambiente pelo trabalho e, por isso, ao transformamos a natureza transformamos tamb\u00e9m a n\u00f3s pr\u00f3prios e, portanto, as nossas rela\u00e7\u00f5es sociais. Enquanto os animais vivem sempre do mesmo modo, n\u00f3s passamos do modo de produ\u00e7\u00e3o primitivo ao escravismo, ao feudalismo e depois ao capitalismo. Isso \u00e9 verdade: n\u00e3o transformamos a natureza do mesmo modo que os animais. Contudo, n\u00e3o menos verdadeiro \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 vida humana sem constante transforma\u00e7\u00e3o da natureza, tal como ocorre com todos os seres vivos. E isso \u00e9 uma decorr\u00eancia direta do fato de sermos um animal, o Homo sapiens.<\/p>\n<h2 lang=\"pt-BR\">Romantismo ecol\u00f3gico<\/h2>\n<p lang=\"pt-BR\">\u00c9 importante compreendermos esse fato para podermos, logo de cara, descartar a escola rom\u00e2ntica como uma alternativa vi\u00e1vel ao problema ecol\u00f3gico.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">A escola rom\u00e2ntica tem sua origem em um fil\u00f3sofo franc\u00eas do s\u00e9culo 18, ent\u00e3o um dos pensadores mais radicais da burguesia revolucion\u00e1ria. Seu nome: Jean-Jacques Rousseau. Sua tese central \u00e9 que os homens nasceram livres e bons e que a vida social os teria convertido em mesquinhos e maus. Naqueles anos, imaginava-se que no passado os homens tinham uma vida em comunidade e em harmonia com a natureza, que teria sido uma era de abund\u00e2ncia e de felicidade. Depois, as sociedades teriam degenerado a todos n\u00f3s na mesquinharia e no individualismo da civiliza\u00e7\u00e3o. Sua solu\u00e7\u00e3o era o Contrato Social (o t\u00edtulo de um dos seus livros mais conhecidos): um acordo pelo qual todos combinariam regras de funcionamento da sociedade de tal modo a recuperar a harmonia e a felicidade do passado.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Depois de Rousseau, um pensador importante da escola rom\u00e2ntica foi Henry D. Thoureau (1817-1862). Foi, ao seu modo, um lutador pela igualdade e um cr\u00edtico do capitalismo. Defendeu a tese da Desobedi\u00eancia Civil (tamb\u00e9m o t\u00edtulo de um dos seus livros mais importantes) em que afirma o direito \u00e0 desobedi\u00eancia frente a todo governo que n\u00e3o represente o povo \u2013 um texto que influenciou profundamente Gandhi e o movimento pacifista dos anos de 1970. Sua proposta era de um retorno \u00e0 vida junto \u00e0 natureza e a busca de uma harmonia com a mesma a partir dos exemplos dados pelos animais e pelas plantas.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">A tradi\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica da ecologia tem, at\u00e9 hoje, grandes influ\u00eancias e repercuss\u00f5es no modo como o movimento ecol\u00f3gico em geral trata da rela\u00e7\u00e3o dos seres humanos com a natureza. Influente exemplo do romantismo ecol\u00f3gico em nossos dias \u00e9 a Hip\u00f3tese Gaia, que pressup\u00f5e o planeta como um ser vivo que &#8220;responderia&#8221; \u00e0s nossas &#8220;agress\u00f5es&#8221;<\/p>\n<h2 lang=\"pt-BR\">Romantismo ecol\u00f3gico \u00e9 sempre burgu\u00eas<\/h2>\n<p lang=\"pt-BR\">O romantismo ecol\u00f3gico serve, sempre, \u00e0 burguesia. Por duas raz\u00f5es, fundamentalmente.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">A primeira raz\u00e3o est\u00e1 em conceber a rela\u00e7\u00e3o homem\/natureza como um &#8220;problema ecol\u00f3gico&#8221; que causaria um &#8220;desequil\u00edbrio ecol\u00f3gico&#8221;. O &#8220;desequil\u00edbrio&#8221; ecol\u00f3gico parte do pressuposto de que haveria um equil\u00edbrio natural, como uma &#8220;sabedoria&#8221; inerente \u00e0 natureza, que &#8220;deveria&#8221; (o verbo dever tem, nessas concep\u00e7\u00f5es, um enorme papel, o romantismo ecol\u00f3gico \u00e9 sempre moralista) ser respeitado e, que, os indiv\u00edduos, com seus comportamentos inadequados (ignor\u00e2ncia, falta de cultura, individualismo, ego\u00edsmo etc.) terminam por destruir. Essa seria a ess\u00eancia do &#8220;problema ecol\u00f3gico&#8221; e, aqui a segunda raz\u00e3o, sua solu\u00e7\u00e3o estaria na modifica\u00e7\u00e3o do comportamento dos indiv\u00edduos (pela Educa\u00e7\u00e3o, pela a\u00e7\u00e3o governamental, por meio de melhores leis e agentes fiscalizadores mais eficientes etc.) para que respeitassem o &#8220;equil\u00edbrio&#8221; e a &#8220;sabedoria&#8221; naturais.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">O conceito te\u00f3rico de &#8220;equil\u00edbrio ecol\u00f3gico&#8221; se complementa com uma individualista concep\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica: a origem e a solu\u00e7\u00e3o do &#8220;problema ecol\u00f3gico&#8221; estaria no comportamento dos indiv\u00edduos<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">A concep\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica de um &#8220;equil\u00edbrio&#8221; dado pela natureza que seria rompido pelo comportamento humano, sempre associada \u00e0 concep\u00e7\u00e3o de que a origem e a solu\u00e7\u00e3o do &#8220;problema ecol\u00f3gico&#8221; estaria na a\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo, tal concep\u00e7\u00e3o serve como uma luva \u00e0s necessidades ideol\u00f3gicas do capital. Fundamental e essencialmente porque retira do centro do problema a totalidade do modo de produ\u00e7\u00e3o e coloca como chave da solu\u00e7\u00e3o a altera\u00e7\u00e3o do comportamento individual no interior do atual modo de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2 lang=\"pt-BR\">Capital e ecologismo<\/h2>\n<p lang=\"pt-BR\">As grandes solu\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas para os problemas mais complexos s\u00e3o, muitas vezes, bastante banais. O &#8220;problema ecol\u00f3gico&#8221; n\u00e3o foge a essa regra: vivemos em um planeta finito, com um volume finito de recursos naturais e, portanto, h\u00e1 um limite dado pela natureza para nossa capacidade de transformar a Terra. \u00c9 verdade que o desenvolvimento de novas tecnologias e novas descobertas cient\u00edficas possibilitam fazer recuar esses limites; ainda assim, a finitude do planeta evidencia que nossa capacidade de transform\u00e1-lo \u00e9, tamb\u00e9m, finita.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Essa finitude tem duas consequ\u00eancias imediatas.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">A primeira: o modo como transformamos o planeta \u00e9 uma quest\u00e3o decisiva para a sobreviv\u00eancia da humanidade (se consumirmos perdulariamente as reservas de \u00e1gua ou se continuarmos a poluir o planeta, n\u00e3o \u00e9 preciso muito para se perceber o quanto estamos criando a possibilidade de destruirmos a n\u00f3s mesmos). A segunda consequ\u00eancia: que, ao transformarmos a natureza, as necessidades e possibilidades em considera\u00e7\u00e3o devem ser aquelas que dizem respeito \u00e0 sobreviv\u00eancia da humanidade no seu todo.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Dessas duas consequ\u00eancias, segue uma conclus\u00e3o obrigat\u00f3ria: como o capitalismo se reproduz atendendo t\u00e3o-somente \u00e0s necessidades do lucro (da m\u00e1xima extra\u00e7\u00e3o da mais-valia, para ser mais preciso), se n\u00e3o superarmos o capitalismo n\u00e3o haver\u00e1 possibilidades de transformamos a natureza em um modo adequado \u00e0 sobreviv\u00eancia dos humanos. A quest\u00e3o decisiva est\u00e1, n\u00e3o no comportamento dos indiv\u00edduos, mas no modo de produ\u00e7\u00e3o em sua totalidade. Ao velar esse fato e falsificar tanto a quest\u00e3o, quanto a solu\u00e7\u00e3o, o movimento ecol\u00f3gico em geral (portanto, admitindo-se exce\u00e7\u00f5es) acaba auxiliando o capitalismo.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">O equ\u00edvoco decisivo da maior parte do movimento ecol\u00f3gico est\u00e1 na solu\u00e7\u00e3o que prop\u00f5e \u00e0 quest\u00e3o ecol\u00f3gica. A hip\u00f3tese de n\u00e3o transformarmos a natureza, ou de recuperarmos seu est\u00e1gio origin\u00e1rio, \u00e9 uma completa inviabilidade, pela raz\u00e3o de que s\u00f3 h\u00e1 vida humana se transformarmos a natureza naquilo que precisamos. O verdadeiro problema n\u00e3o est\u00e1 na transforma\u00e7\u00e3o social da natureza, mas em como precisamos transformar a natureza de modo a n\u00e3o colocar em risco a sobreviv\u00eancia da humanidade.<\/p>\n<h2 lang=\"pt-BR\">Capital e meios de produ\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p lang=\"pt-BR\">A ess\u00eancia de cada modo de produ\u00e7\u00e3o est\u00e1 em sua forma de propriedade. Todas as sociedades de classe se baseiam na propriedade privada. O capitalismo n\u00e3o \u00e9 excess\u00e3o.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Lembremos o que vimos no Jornal Espa\u00e7o Socialista n. 77: a propriedade privada n\u00e3o \u00e9 o instrumento de uso pessoal, como a roupa que se usa ou a casa em que se mora, mas a rela\u00e7\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o que faz com que uma parte da sociedade (sempre minoria) viva da riqueza produzida pela outra parte da sociedade. Escravos e senhores de escravos, servos e senhores feudais, prolet\u00e1rios e burgueses \u2013 na famosa passagem do Manifesto Comunista, de Marx e Engels. Pois bem, no modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, esta rela\u00e7\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o \u00e9 o capital e, essa rela\u00e7\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o se reproduz sempre ampliadamente (o capital, ao explorar o trabalho, acumula a mais-valia e, assim, tem seu valor acrescido, acrescido novamente e, uma vez mais acrescido e, assim, sucessivamente.)<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Como toda propriedade privada, o capital tamb\u00e9m estabelece como rela\u00e7\u00e3o b\u00e1sica entre os seres humanos a concorr\u00eancia. N\u00e3o apenas aquela que, desde a Babil\u00f4nia at\u00e9 nossos dias, se expressa na luta de classes entre a classe dominante dos propriet\u00e1rios privados e os trabalhadores mas tamb\u00e9m aquela que ocorre no interior da classe dominante. Em nossos dias, o burgu\u00eas apenas sobrevive no mercado se for capaz de manter seu neg\u00f3cio &#8220;rend\u00e1vel&#8221;, isto \u00e9, se for capaz de retirar de seus trabalhadores a quantia de mais-valia que lhe permita vencer a concorr\u00eancia. A quest\u00e3o decisiva n\u00e3o \u00e9, portanto, a de sobreviver no longo prazo \u2013 ao contr\u00e1rio, ele apenas estar\u00e1 no mercado daqui a dez anos se for capaz de sobreviver no pr\u00f3ximo m\u00eas ou no pr\u00f3ximo semestre.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Por isso, dizia o economista J. M. Keynes, n\u00e3o devemos considerar o futuro, pois no futuro estaremos todos mortos. Por isso, diz M\u00e9sz\u00e1ros em Para al\u00e9m do capital, a ideologia e a pr\u00e1tica da burguesia n\u00e3o podem incorporar o futuro: para o capital, apenas o presente importa. Essa \u00e9 a ess\u00eancia do fato, que Marx discute t\u00e3o intensamente no Volume I de O capital, de que a natureza tem a fun\u00e7\u00e3o, no modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, de meio de produ\u00e7\u00e3o de mais-valia.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Ou seja, os finitos recursos naturais do planeta ser\u00e3o transformados levando em considera\u00e7\u00e3o, apenas e t\u00e3o somente, o maior lucro imediato que se possa produzir. Se isso leva ao aquecimento global, se destr\u00f3i as florestas e, com isso, gera uma atmosfera ruim para os seres humanos; se destr\u00f3i as reservas de \u00e1gua ou a biodiversidade etc. \u2013 esses s\u00e3o problemas que n\u00e3o podem sequer fazer parte das preocupa\u00e7\u00f5es e das finalidades da produ\u00e7\u00e3o. Pois a finalidade da produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 atender \u00e0s necessidades humanas, mas obter lucro \u2013 algumas vezes, mesmo sem atender a qualquer necessidade humana, como a produ\u00e7\u00e3o das bombas at\u00f4micas etc.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Percebam: produzimos comida para matar a fome, produzimos casas para dar abrigo aos humanos, produzimos energia para atender \u00e0s necessidades humanas por calor, luz etc. \u2013 mas n\u00e3o o far\u00edamos se essa produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o fosse lucrativa. Em uma famosa passagem de O Capital, Marx comenta que o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista ampliou e, ao mesmo tempo, reduziu a produ\u00e7\u00e3o. Ampliou, pois produz muito mais produtos e em uma quantidade muito maior que no passado; reduz porque, de fato e realmente, se produz apenas mais-valia, j\u00e1 que tudo que \u00e9 produzido nada mais \u00e9 que meio de produ\u00e7\u00e3o de mais-valia.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Ao a natureza ser reduzida a meio de produ\u00e7\u00e3o de mais-valia, est\u00e1 dada a ess\u00eancia do problema ecol\u00f3gico: converteremos a natureza na maior quantidade poss\u00edvel de mais-valia, sendo indiferente se com isso produziremos ou n\u00e3o um planeta cada vez mais in\u00f3spito para n\u00f3s pr\u00f3prios. A ess\u00eancia do problema ecol\u00f3gico \u00e9 a ess\u00eancia da aliena\u00e7\u00e3o que brota do capital: produzimos uma riqueza cada vez maior pela produ\u00e7\u00e3o de uma humanidade crescentemente desumana e, simultaneamente e pelos mesmos atos, produzimos uma riqueza cada vez maior convertendo o planeta em um lugar cada vez mais in\u00f3spito aos humanos.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Em poucas palavras: a desumanidade da humanidade para consigo pr\u00f3pria (as aliena\u00e7\u00f5es produzidas pelo capital) \u00e9 a ess\u00eancia do problema ecol\u00f3gico (aqui, sem aspas). A ess\u00eancia do problema ecol\u00f3gico reside na ess\u00eancia do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista e, n\u00e3o, no comportamento dos indiv\u00edduos. Ao destruirmos a n\u00f3s pr\u00f3prios enquanto humanos, destru\u00edmos tamb\u00e9m as condi\u00e7\u00f5es imprescind\u00edveis para sobrevivermos no planeta. A produ\u00e7\u00e3o voltada ao lucro tem a mesma desumanidade essencial tanto ao produzir uma sociedade desumana, quanto ao produzir um planeta no qual os humanos n\u00e3o possam viver. S\u00e3o as duas faces da mesma moeda.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">O problema ecol\u00f3gico n\u00e3o reside nos indiv\u00edduos \u2013 aqui um dos grandes equ\u00edvocos do romantismo ecol\u00f3gico. Pelo contr\u00e1rio, os indiv\u00edduos se comportam dessa forma porque o modo de produ\u00e7\u00e3o assim o exige: mesmo que o burgu\u00eas e o prolet\u00e1rio saibam que est\u00e3o destruindo o planeta, tenham consci\u00eancia de que est\u00e3o convertendo o planeta em algo ruim para os humanos, para sobreviverem como burgu\u00eas e como prolet\u00e1rios continuam a produzir o que produzem, do modo como o produzem, por um exig\u00eancia da totalidade do sistema do capital. Em definitivo, o problema n\u00e3o reside no indiv\u00edduo, mas na totalidade do sistema; a solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 em um novo comportamento dos indiv\u00edduos no interior do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, mas na supera\u00e7\u00e3o deste \u00faltimo.<\/p>\n<h2 lang=\"pt-BR\">S\u00e3o Paulo e a falta de \u00e1gua<\/h2>\n<p lang=\"pt-BR\">Um bom exemplo, pela sua atualidade e sua dramaticidade, est\u00e1 na falta de \u00e1gua nos grandes centros urbanos. Peguemos o caso de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Segundo dados da pr\u00f3pria Sabesp (a companhia que distribui a \u00e1gua na cidade) mais de 30% da \u00e1gua tratada \u00e9 perdida em vazamentos e inoper\u00e2ncias do sistema (evapora\u00e7\u00e3o, contamina\u00e7\u00e3o com \u00e1gua n\u00e3o tratada etc.) A, tomemos como exemplo, produ\u00e7\u00e3o de um carro de passeio (com toda a cadeia de produ\u00e7\u00e3o de suas pe\u00e7as e equipamentos) consome ao redor de 25 mil litros de \u00e1gua (cerca da metade do consumo mensal de uma resid\u00eancia m\u00e9dia em S\u00e3o Paulo) (Jornal O Estado de S\u00e3o Paulo de 4 de mar\u00e7o de 2016).<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Faz-se ent\u00e3o o c\u00e1lculo: o que daria mais lucro? Investir o necess\u00e1rio para diminuir ou eliminar as perdas de \u00e1gua ou deixar os encanamentos na situa\u00e7\u00e3o em que se encontram? Alterar as t\u00e9cnicas de produ\u00e7\u00e3o dos carros para diminuir o consumo de \u00e1gua ou mant\u00ea-las? A conclus\u00e3o tamb\u00e9m \u00f3bvia: o que de fato d\u00e1 mais lucro \u00e9 convencer a popula\u00e7\u00e3o a consumir menos \u00e1gua de tal modo que seja poss\u00edvel prosseguir produzindo-se mais-valia tal como se produz hoje, sem ter que se investir nem nos encanamentos e tratamento da \u00e1gua nem em novas t\u00e9cnicas de produ\u00e7\u00e3o que economizem a \u00e1gua.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">\u00c9 aqui que a concep\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntico-individualista do &#8220;problema ecol\u00f3gico&#8221; (agora com aspas) auxilia ideologicamente o sistema do capital: caberia aos indiv\u00edduos, por uma consci\u00eancia superior e uma concep\u00e7\u00e3o menos individualista, economizarem \u00e1gua. Ao consumirmos menos \u00e1gua em nossas casas, por mais tempo o sistema do capital poder\u00e1 continuar lucrando sem ter que realizar os investimentos na infra-estrutura e em novas t\u00e9cnicas de produ\u00e7\u00e3o. E, assim, o sistema do capital amplia sua lucratividade ao continuar produzir a mais-valia com os investimentos j\u00e1 realizados.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Espero que esteja ficando claro: economizar \u00e1gua em nossas casas (ou, mais em geral, adotar um comportamento indivual menos perdul\u00e1rio), sem superar o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, \u00e9 algo que serve \u00e0 burguesia, n\u00e3o aos trabalhadores. Pois as ind\u00fastrias (no caso de S\u00e3o Paulo) continuar\u00e3o a consumir \u00e1gua at\u00e9 o final dos reservat\u00f3rios, independente do que consumirmos em nossos banhos, ao escovar nossos dentes ou ao lavar nossas roupas. Pela \u00fanica raz\u00e3o de que isto \u00e9 mais lucrativo: ao consumirmos menos, mais sobra para &#8220;eles&#8221;. Pois, novamente, os recursos naturais s\u00e3o, para o sistema do capital, apenas meios de produ\u00e7\u00e3o de mais-valia e, n\u00e3o, recursos para serem transformados tendo em vista as necessidades dos seres humanos.<\/p>\n<h2 lang=\"pt-BR\">Moralismo e movimeno ecol\u00f3gico<\/h2>\n<p lang=\"pt-BR\">Ao retirar do centro da quest\u00e3o o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista e ao focar todo o problema ecol\u00f3gico no comportamento do indiv\u00edduo, para a maior parte do movimento ecol\u00f3gico n\u00e3o resta sen\u00e3o apelar para a moral. E, aqui, a hipocrisia inerente \u00e0 burguesia ganha uma intensidade toda especial.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">O governo que faz campanhas para que n\u00e3o lavemos nossas cal\u00e7adas, para que economizemos energia, \u00e1gua etc. \u00e9 o mesmo governo que defende o capital contra o trabalho, que faz de tudo para manter elevada a lucratividade do grande capital, que esconde as verdadeiras causas do desastre ecol\u00f3gico. Quer-se promover nos indiv\u00edduos uma consci\u00eancia moral para que se comportem de modo a preservar a \u00e1gua (de modo mais geral, os recursos naturais) com a \u00fanica finalidade de manter a redu\u00e7\u00e3o da natureza a meio de produ\u00e7\u00e3o de mais-valia. Postula-se que &#8220;preservemos&#8221; a natureza para que &#8220;eles&#8221; possam ter mais lucros destruindo a pr\u00f3pria natureza que nos recomendam preservar.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Por isso os movimentos ecol\u00f3gicos que n\u00e3o tomam como central a quest\u00e3o da supera\u00e7\u00e3o do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista s\u00e3o, sempre, auxiliares do capital \u2013 quer seus integrantes tenham ou n\u00e3o consci\u00eancia desse fato.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Tamb\u00e9m por isso, o movimento ecol\u00f3gico, em sua enorme maioria, ao buscar solu\u00e7\u00f5es no interior do sistema do capital, n\u00e3o pode jamais se voltar contra a atividade mais humana destruidora da natureza: a guerra. Combate-se o abate das baleias ou o transporte de lixo t\u00f3xico dos pa\u00edses imperialistas aos pa\u00edses mais pobres \u2013 mas n\u00e3o se diz uma palavra sobre a destrui\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica que s\u00e3o as guerras.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">A raz\u00e3o desse sil\u00eancio? O complexo industrial-militar \u00e9 uma v\u00e1lvula de escape por demais importante para o sistema do capital em crise estrutural para ser questionado. Preservar as baleias ou o peixe-boi, fazer propaganda da energia e\u00f3lica (dos ventos) ou solar, promover a agricultura &#8220;bio&#8221; ou &#8220;ecol\u00f3gica&#8221;, incentivar a ind\u00fastria homeop\u00e1tica contra a alop\u00e1tica, tudo isso \u00e9 poss\u00edvel. Mas, um pacifismo radical, um radical combate \u00e0s guerras, nem pensar! Aqui, como em todos os lugares, o reformismo \u00e9 aliado do capital.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Moralismo, individualismo e ideologia burguesa: esses s\u00e3o os limites mais comuns do conjunto do movimento ecol\u00f3gico. Pela direita ou pela esquerda, sem distin\u00e7\u00e3o. A verdadeira quest\u00e3o est\u00e1 centrada na totalidade do modo de produ\u00e7\u00e3o e, a aut\u00eantica solu\u00e7\u00e3o, em sua supera\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 aqui (como em todas as quest\u00f5es decisivas para a humanidade) meio-termo: ou se \u00e9 a favor ou contra as desumanidades do sistema do capital. \u00c9 imposs\u00edvel um capitalismo de face humana, tal como \u00e9 imposs\u00edvel a transforma\u00e7\u00e3o do planeta para atender \u00e0s necessidades humanas aut\u00eanticas sem superarmos o capital.<\/p>\n<h2 lang=\"pt-BR\">Indica\u00e7\u00f5es de leitura:<\/h2>\n<p lang=\"pt-BR\">De Marx, os Manuscritos de 1844 \u00e9 muit\u00edssimo interessante, em que pese a formula\u00e7\u00e3o ainda imatura de v\u00e1rias quest\u00f5es (a melhor edi\u00e7\u00e3o \u00e9 a da Express\u00e3o Popular, a da Boitempo \u00e9 particularmente ruim). O Livro I de O capital possui muitas passagens sobre a quest\u00e3o (a edi\u00e7\u00e3o da Abril Cultural continua a melhor em nosso pa\u00eds). Como exemplo de um texto que prop\u00f5e a solu\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o ecol\u00f3gica por dentro do mercado, conferir o artigo de Michael L\u00f6wy na Revista Cr\u00edtica Marxista n. 28 &#8220;Ecossocialismo e planejamento democr\u00e1tico&#8221; (baixar do site da revista).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00e9rgio Lessa Um dos mais dram\u00e1ticos e evidentes sinais da desumanidade do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista \u00e9 o que se<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":4696,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6,72,65,75],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4695"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4695"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4695\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5553,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4695\/revisions\/5553"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4696"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4695"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4695"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4695"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}