{"id":47,"date":"2008-12-13T16:26:58","date_gmt":"2008-12-13T16:26:58","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/?q=node\/47"},"modified":"2018-05-04T21:49:14","modified_gmt":"2018-05-05T00:49:14","slug":"a-vinganca-dos-sith-fabula-e-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2008\/12\/a-vinganca-dos-sith-fabula-e-historia\/","title":{"rendered":"&#8220;A vingan\u00e7a dos Sith&#8221;: F\u00e1bula e Hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<h1>\u201cA VINGAN\u00c7A DOS SITH\u201d: F\u00c1BULA E HIST\u00d3RIA<\/h1>\n<h1><\/h1>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: center;\" align=\"center\">(Coment\u00e1rio sobre o filme \u201cA Vingan\u00e7a dos Sith\u201d)<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\"><span lang=\"EN-US\">Nome original: Star Wars: Episode III \u2013 Revenge of the Sith<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\"><span lang=\"EN-US\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/span>Produ\u00e7\u00e3o: Estados Unidos<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ano: 2005<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Idiomas: Ingl\u00eas<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Diretor: George Lucas<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Roteiro: George Lucas<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Elenco: Ewan McGregor, Natalie Portman, Hayden Christensen, Ian McDiarmid, Samuel L. Jackson, Jimmy Smits, Franz Oz, Anthony Daniels, Christopher Lee, Keisha Castle-Hughes, Silas Carson, Jay Laga\u2019aia, Bruce Spence, Wayne Pygram, Temuera Morrison<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">G\u00eanero: a\u00e7\u00e3o, aventura, fantasia, fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\"><span lang=\"EN-US\">Fonte: \u201cThe Internet Movie Database\u201d \u2013 <\/span><a href=\"http:\/\/www.imdb.com\/\"><span lang=\"EN-US\">http:\/\/www.imdb.com\/<\/span><\/a><span lang=\"EN-US\">\u00a0 <\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Dizer que os filmes da s\u00e9rie \u201cGuerra nas Estrelas\u201d se tornaram pilares fundamentais da cultura popular mundial contempor\u00e2nea n\u00e3o traz nenhuma novidade. Estamos aqui diante de uma rara converg\u00eancia entre as expectativas do p\u00fablico de um lado, a ousadia de um diretor do outro e a pot\u00eancia da m\u00e1quina promocional capitalista no meio. Essa converg\u00eancia n\u00e3o seria t\u00e3o eficaz, por\u00e9m, se estiv\u00e9ssemos falando de um simples \u201cblockbuster\u201d hollywoodiano totalmente vazio de conte\u00fado.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Quando, aos primeiros acordes da imortal trilha sonora de John Williams, uma plat\u00e9ia de cinema explode como uma ensandecida torcida de futebol, numa pr\u00e9-estr\u00e9ia com direito a exibi\u00e7\u00f5es de esgrima com sabre-laser por f\u00e3s devidamente caracterizados; alguma coisa especial est\u00e1 acontecendo. Sempre que os letreiros luminosos nos transportam para \u201cmuito tempo atr\u00e1s, numa gal\u00e1xia muito distante\u201d, algo mais surge no ar al\u00e9m de simples fuma\u00e7a publicit\u00e1ria. Mais do que uma simples coincid\u00eancia exterior nos ritmos e movimentos err\u00e1ticos dos produtores e consumidores da ind\u00fastria cultural, a cria\u00e7\u00e3o de George Lucas expressa, sob uma forma dram\u00e1tica eficiente, uma s\u00e9rie de quest\u00f5es humanas inegavelmente relevantes.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Para entender a virtude de \u201cGuerra nas Estrelas\u201d (a s\u00e9rie como um todo) \u00e9 preciso observar as diferen\u00e7as entre o g\u00eanero da f\u00e1bula e o da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. A fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica trata de especula\u00e7\u00f5es sobre o futuro da humanidade \u00e0s voltas com os desafios e oportunidades colocados pelo desenvolvimento da ci\u00eancia e pela incorpora\u00e7\u00e3o da tecnologia \u00e0 sociedade. As f\u00e1bulas, por sua vez, trazem em forma fant\u00e1stica uma figura\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica de arqu\u00e9tipos morais humanos, tendendo a uma representatividade universal.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">\u201cGuerra nas Estrelas\u201d, cuja hist\u00f3ria se passa \u201ch\u00e1 muito tempo, numa gal\u00e1xia muito distante\u201d, apesar de seu apelo visual tecnol\u00f3gico, tende mais para o segundo g\u00eanero do que para o primeiro. A s\u00e9rie n\u00e3o trata dos humanos especificamente, porque n\u00e3o se refere \u00e0 Terra, ao seu passado ou futuro. Trata da humanidade sim, pois mesmo as criaturas das ra\u00e7as alien\u00edgenas mais bizarras e os pr\u00f3prios andr\u00f3ides se apresentam com caracter\u00edsticas propriamente humanas, como a capacidade de exercitar julgamentos e decis\u00f5es morais; mas nesse n\u00edvel de fantasia s\u00f3 se pode falar de \u201cHumanidade\u201d muito genericamente.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">As f\u00e1bulas como \u201cGuerra nas Estrelas\u201d t\u00eam sempre a inten\u00e7\u00e3o de passar ensinamentos morais. George Lucas nunca escondeu seu objetivo de, \u00e0 maneira dos narradores cl\u00e1ssicos, transmitir uma mensagem construtiva atrav\u00e9s de seus filmes. Nessa perspectiva, o bem deve sempre vencer o mal. Os elementos t\u00edpicos das f\u00e1bulas est\u00e3o mais evidentes no primeiro epis\u00f3dio a ser lan\u00e7ado (o IV da cronologia da s\u00e9rie), o \u201cGuerra nas Estrelas\u201d propriamente dito (posteriormente rebatizado como \u201cUma Nova Esperan\u00e7a\u201d). Ali temos um rol de personagens t\u00edpicos de inspira\u00e7\u00e3o caracteristicamente medieval: um her\u00f3i \u201cbranco\u201d (Luke Skywalker), um cavaleiro negro (Darth Vader), um velho mestre (Obi wan Kenobi), um castelo (Estrela da Morte) onde uma princesa (Leia) \u00e9 resgatada; al\u00e9m de alguns adendos (Han Solo, o melhor) e al\u00edvios c\u00f4micos (R2D2 e C3PO).<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c0 medida que a s\u00e9rie se amplia, alcan\u00e7ando a estrutura cl\u00e1ssica de uma trilogia, peculiar \u00e0s grandes trag\u00e9dias gregas, tomamos conhecimento de que o verdadeiro her\u00f3i n\u00e3o \u00e9 Luke, mas Darth Vader, e de que a hist\u00f3ria em quest\u00e3o trata de sua reden\u00e7\u00e3o de volta do \u201clado negro da For\u00e7a\u201d. Essa amplia\u00e7\u00e3o do eixo narrativo adicionou algumas complica\u00e7\u00f5es para o esquema simplista da f\u00e1bula (bem x mal), mas trouxe consigo a possibilidade de explora\u00e7\u00e3o de novos personagens e impressionantes cen\u00e1rios. Pegando carona nessa complica\u00e7\u00e3o narrativa, surge uma nova trilogia, contando a hist\u00f3ria de como, em primeiro lugar, Anakin Skywalker se tornou Darth Vader. Com quase vinte anos de lapso, a nova trilogia se completa agora com o lan\u00e7amento do \u201cEpis\u00f3dio III \u2013 A Vingan\u00e7a dos Sith\u201d.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Diante do volume da expectativa criada a cada novo lan\u00e7amento dessa pr\u00f3spera franquia, \u00e9 f\u00e1cil esquecer que estamos diante de uma narrativa criada para se encaixar como pr\u00e9via de uma hist\u00f3ria j\u00e1 conhecida, um representante do tipo de produ\u00e7\u00e3o para o qual a imprensa especializada cunhou o bizarro neologismo \u201cprequel\u201d. A fun\u00e7\u00e3o que \u201cA Vingan\u00e7a dos Sith\u201d desempenha na hist\u00f3ria limita suas possibilidades. O \u201cEpis\u00f3dio III\u201d n\u00e3o \u00e9 um grande filme em si, mas um eficiente \u201cprequel\u201d para o \u201cEpis\u00f3dio IV\u201d. Dele resulta uma sensa\u00e7\u00e3o final quase de anticl\u00edmax, um misto de alegria e insatisfa\u00e7\u00e3o, pois mesmo se situando \u201cmeio\u201d da hist\u00f3ria, tomamos consci\u00eancia, ao final da exibi\u00e7\u00e3o de que se trata da despedida da s\u00e9rie.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Ao fim da sess\u00e3o, o espectador experimenta a mesma sensa\u00e7\u00e3o de vazio de quando se \u201cdespediu\u201d das trilogias \u201cMatrix\u201d e \u201cO Senhor dos An\u00e9is\u201d: n\u00e3o haver\u00e1 mais filmes desse universo. Menos mal que George Lucas tenha cuidadosamente ajustado o design visual de naves, rob\u00f4s e objetos ao longo do \u201cEpis\u00f3dio III\u201d, da exuber\u00e2ncia dos mundos ainda livres da Rep\u00fablica desta primeira trilogia para o aspecto \u201csucat\u00e3o\u201d dos maltrapilhos rebeldes do \u201cEpis\u00f3dio IV\u201d, amenizando o impacto da transi\u00e7\u00e3o de um filme para o outro, e ati\u00e7ando o apetite consumista dos fan\u00e1ticos com a perspectiva das inevit\u00e1vei$ caixa$ de DVD$ na$ quai$ poderemo$ ver toda a $\u00e9rie em uma $\u00f3 $eq\u00fc\u00eancia.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 N\u00e3o \u00e9 apenas o visual que muda de uma trilogia para outra, mas o conte\u00fado ideol\u00f3gico, e com ele tamb\u00e9m a qualidade cinematogr\u00e1fica. Na primeira trilogia, t\u00ednhamos um confronto expl\u00edcito e transparente entre a fac\u00e7\u00e3o do \u201cbem\u201d e a do \u201cmal\u201d, um confronto imediatamente intelig\u00edvel por qualquer plat\u00e9ia em qualquer \u00e9poca. Na segunda, partimos de confusas intrigas pol\u00edticas envolvendo elementos que somente os f\u00e3s da s\u00e9rie conhecem. Isso explica a diferen\u00e7a entre o impacto revolucion\u00e1rio da primeira trilogia, com seu apelo universal, e o acolhimento morno da segunda (e n\u00e3o ser\u00e1 apenas por culpa de Jar Jar Binks, ser rejeitado pela comunidade de f\u00e3s com um grau de unanimidade inigualado na Hist\u00f3ria).<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Nesse sentido, a nova trilogia est\u00e1 bem longe de ser uma atualiza\u00e7\u00e3o art\u00edstica \u00e0 altura do legado da primeira, ou mesmo dos \u201cconcorrentes\u201d contempor\u00e2neos \u201cMatrix\u201d e \u201cO Senhor dos An\u00e9is\u201d. Na verdade, apenas o \u201cEpis\u00f3dio III\u201d se salva na nova s\u00e9rie e impede que a segunda trilogia se reduza a um mero ca\u00e7a-n\u00edqueis, como um reles videogame.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Como \u00edamos dizendo, a dist\u00e2ncia hist\u00f3rica entre as duas s\u00e9ries trouxe incrementos importantes \u00e0 sua subst\u00e2ncia ideol\u00f3gica, de um modo tal que ambas podem ser lidas isoladamente \u00e0 luz de sua conjuntura hist\u00f3rica particular ou combinadas harmonicamente numa \u00fanica seq\u00fc\u00eancia, e ainda assim fazer sentido. Diz\u00edamos que George Lucas tem sempre em mente a inten\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica de passar mensagens positivas com seus filmes. Na forma como a f\u00e1bula espacial do diretor equaciona o confronto \u201cbem x mal\u201d, encontramos os reflexos das situa\u00e7\u00f5es hist\u00f3rico-pol\u00edticas particulares.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Na primeira trilogia, situada entre os anos de 1977 e 1983, viv\u00edamos os estertores finais da \u201cGuerra Fria\u201d. Naquele contexto, tendia-se a ver os Estados Unidos representados na \u201cAlian\u00e7a Rebelde\u201d (libert\u00e1rios, multiculturais, multi\u00e9tnicos, audazes, compassivos, solid\u00e1rios, alegres, etc.); e a URSS no \u201cImp\u00e9rio\u201d (centralizado, burocr\u00e1tico, monol\u00edtico, unidimensional, mec\u00e2nico e cruel). Se no caso da URSS a caracteriza\u00e7\u00e3o pode ser considerada verdadeira, quanto aos E.U.A. ela \u00e9 objetivamente falsa. Mas, falsa ou n\u00e3o, essa \u00e9 a leitura que a ind\u00fastria cultural estadunidense faz da auto-imagem do pa\u00eds.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Naquele momento, pois, a primeira trilogia representava a express\u00e3o \u201cinocente\u201d e alienada do auto-confiante bom-mocismo estadunidense. Para ser conseq\u00fcente com suas inten\u00e7\u00f5es aleg\u00f3rico-figurativas de exprimir um confronto \u201cbem x mal\u201d, ao criar a nova trilogia, George Lucas inverteu os sinais ideol\u00f3gicos. No momento atual, a escalada militarista do imperialismo estadunidense sob Bush espelha a transforma\u00e7\u00e3o da \u201cRep\u00fablica Gal\u00e1ctica\u201d em \u201cImp\u00e9rio\u201d. Ou seja, o \u201cImp\u00e9rio do mal\u201d, que era a URSS, hoje s\u00e3o os Estados Unidos. Em termos de cinema de entretenimento, uma atualiza\u00e7\u00e3o desse porte representa um verdadeiro \u201csalto na velocidade da luz\u201d.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">O modelo formal adotado por George Lucas para exprimir essa transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 o da passagem da Rep\u00fablica Romana para Imp\u00e9rio. Na Rep\u00fablica Romana havia a institui\u00e7\u00e3o da ditadura, pela qual o Senado entregava provisoriamente o poder absoluto a um dos c\u00f4nsules, tornado ditador, para, numa situa\u00e7\u00e3o de crise, tomar decis\u00f5es r\u00e1pidas e inquestion\u00e1veis e salvar a p\u00e1tria. Nos seus prim\u00f3rdios a institui\u00e7\u00e3o \u201cfuncionava\u201d e os ditadores, ao fim do mandato de emerg\u00eancia, devolviam seus poderes ao Senado. Esse procedimento se constituiu em exemplo cl\u00e1ssico do vigor das leis e do civismo da pol\u00edtica romana em sua era \u201cdemocr\u00e1tica\u201d.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">O crescimento territorial explosivo da Rep\u00fablica fez crescer proporcionalmente os interesses materiais e as disputas dentro da aristocracia patr\u00edcia-senatorial. Foi nesse cen\u00e1rio que emergiram generais-pol\u00edticos, como M\u00e1rio, Pompeu e C\u00e9sar, que acumularam poderes sucessivamente at\u00e9 que surgisse o Imp\u00e9rio, sob Augusto, no s\u00e9culo I d.C.. Foi desse modelo que se extraiu a f\u00f3rmula para a transforma\u00e7\u00e3o do Chanceler Palpatine em Imperador. Transforma\u00e7\u00e3o que guarda \u00f3bvias rela\u00e7\u00f5es com a doutrina salvacionista de \u201cguerra preventiva\u201d contra o terror de Bush. Palpatine forjou seus Dookan e Grievous, apenas para ter a guerra que lhe daria o poder, assim como o cl\u00e3 Bush forjou Saddam e Osama. \u201cA liberdade se esvai debaixo de estrondosos aplausos\u201d, lamentou a senadora Amidala. Ao escrever essa fala, talvez George Lucas tivesse em mente o discurso de posse lido por Bush\/Palpatine, discurso que menciona orwellianamente a palavra \u201cliberdade\u201d mais de vinte vezes. Estar\u00edamos ent\u00e3o diante de um filme inequivocamente anti-Bush?<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Provavelmente n\u00e3o. Conv\u00e9m n\u00e3o exagerar ao ver poss\u00edveis inten\u00e7\u00f5es do cinema pop de intervir no plano dos acontecimentos materialmente decisivos. Se nem mesmo o explicitamente panflet\u00e1rio \u201cFahrenheit 11\/09\u201d teve resultado como instrumento de interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica-eleitoral, que dizer de uma divers\u00e3o para crian\u00e7as? O que \u00e9 certo \u00e9 que aquele \u201cauto-confiante bom-mocismo estadunidense\u201d n\u00e3o \u00e9 mais t\u00e3o \u201cinocente e alienado\u201d depois do choque que os acontecimentos de 11\/09\/2001 trouxeram para a consci\u00eancia coletiva daquele pa\u00eds. O povo estadunidense tem se questionado sobre o papel que deseja exercer no mundo, de Rep\u00fablica democr\u00e1tica ou de Imp\u00e9rio tir\u00e2nico, e \u201cA Vingan\u00e7a dos Sith\u201d \u00e9 parte desse questionamento.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 George Lucas parece estar criticando Bush, mas ainda assim o que temos em m\u00e3os \u00e9 apenas uma f\u00e1bula, cujo conte\u00fado guarda algo de inevitavelmente atemporal. O tempo passa, levando consigo a Hist\u00f3ria, mas a f\u00e1bula fica. A narrativa de \u201cGuerra nas Estrelas\u201d guarda li\u00e7\u00f5es que transcendem o momento conjuntural particular no qual a trama foi elaborada, podendo ser aplicada a outras conting\u00eancias hist\u00f3ricas. A transforma\u00e7\u00e3o de Anakin em Darth Vader pode ser lida como um exemplo negativo do que pode acontecer, genericamente, quando se deseja levar adiante a ferro e fogo as \u201cboas inten\u00e7\u00f5es\u201d de salvar o mundo. Em Anakin\/Darth Vader, \u00e9 o desejo de fazer o bem leva ao mal.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Anakin n\u00e3o nasce mau, mas cedeu \u00e0s suas paix\u00f5es idealistas. Ele deseja trazer a ordem e a paz a um mundo em que prevalecem a confus\u00e3o, a frouxid\u00e3o, o formalismo da burocracia, na qual viceja a corrup\u00e7\u00e3o. Anakin quer a paz e a ordem, mas n\u00e3o concorda com os m\u00e9todos da \u201cdemocracia\u201d da Rep\u00fablica. Tornando-se Darth Vader, ele personifica a autoridade implac\u00e1vel capaz de impor a ordem. Assim, ele pode se considerar ainda fiel aos princ\u00edpios que defendia. Do idealismo nasce o autoritarismo. Se essa rela\u00e7\u00e3o for autom\u00e1tica, estaremos condenados \u00e0 imobilidade, pois qualquer id\u00e9ia, por mais generosa que seja, pode suscitar um Darth Vader (ou um Hitler, um Stalin, um Bush, etc.) para defend\u00ea-la.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Talvez com isso George Lucas esteja considerando aceit\u00e1vel despertar um pouco do \u201cDarth Vader que existe em cada um de n\u00f3s\u201d, mostrando que uma certa queda no \u201clado negro\u201d \u00e9 necess\u00e1ria para que se restabele\u00e7a o \u201cequil\u00edbrio da for\u00e7a\u201d. Um pouco de Imp\u00e9rio \u00e9 necess\u00e1rio, para estar sintonizado com o brutal esp\u00edrito do tempo atual. \u00c9 necess\u00e1rio tamb\u00e9m para satisfazer o apetite dos f\u00e3s, que fizeram do cavaleiro negro seu \u00eddolo maior dentro da s\u00e9rie. E com isso, o filme estaria fazendo apologia da era Bush, n\u00e3o cr\u00edtica.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Se aquela rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o for autom\u00e1tica, h\u00e1 um erro evidente no racioc\u00ednio de Anakin. Seria o erro de se imaginar poss\u00edvel atingir o bem por meio do mal. O filme n\u00e3o chega at\u00e9 essa conclus\u00e3o. Seria esperar demais de uma f\u00e1bula pop. Falta-lhe o f\u00f4lego para tanto, pois ainda h\u00e1 outra ordem de quest\u00f5es das quais \u00e9 preciso dar conta. No meio do caminho, perde-se a resposta para o dilema. Mais importante do que salvar a Rep\u00fablica, para Anakin o que importa \u00e9 sua rela\u00e7\u00e3o com Amidala. \u00c9 o seu amor possessivo que o leva a transigir com os princ\u00edpios aprendidos na ordem Jedi. Passa a ser aceit\u00e1vel aliar-se a quem quer que seja em nome desse amor. Inclusive ao lado negro. Depois de estar interiormente conquistado por uma paix\u00e3o cega, \u00e9 f\u00e1cil encontrar exteriormente sofismas justificadores para acreditar que os Jedis tra\u00edram a Rep\u00fablica e o \u201clado negro\u201d na verdade \u00e9 o \u00fanico capaz de reparar a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O n\u00edvel filosoficamente decisivo da f\u00e1bula de George Lucas \u00e9 o da moralidade pessoal do her\u00f3i, n\u00e3o o dos ideais pol\u00edticos. No campo da moralidade pessoal, o mestre Yoda ensina, num esp\u00edrito est\u00f3ico e budista, que se deve aceitar a inevitabilidade das perdas. A\u00ed estaria o segredo da austera moral Jedi, a ren\u00fancia ao desejo, o desapego a coisas e pessoas. Aceitar a perda de Amidala, por\u00e9m, seria muito dif\u00edcil para Anakin, que passa a buscar outra solu\u00e7\u00e3o, na promessa do lado negro de superar a morte.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 E no entanto, quem supera a morte s\u00e3o os mestres Jedis, como anuncia Yoda a Obi wan j\u00e1 no final. E assim o budismo junta-se \u00e0 metaf\u00edsica plat\u00f4nica-crist\u00e3 da sobreviv\u00eancia da alma ap\u00f3s a morte, num ecl\u00e9tico am\u00e1lgama. A ren\u00fancia e o desapego budista\/oriental s\u00e3o perseguidos em \u201cGuerra nas Estrelas\u201d com um autorit\u00e1rio patrulhamento de tipo crist\u00e3o\/puritano. Com que m\u00e9todo se poder\u00e1 alcan\u00e7ar a ren\u00fancia prescrita por Yoda? O r\u00edgido celibato dos Jedi? Isso est\u00e1 de acordo com o budismo ou com o puritanismo (e George Lucas estaria de acordo com a cruzada abstencionista obscurantista anti-sexo em voga nos EUA)? Esse processo de am\u00e1lgama resulta, na pessoa de Anakin, evidentemente disfuncional e por isso mesmo \u00e9 plaus\u00edvel sua passagem para o lado negro.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Levada \u00e0s \u00faltimas conseq\u00fc\u00eancias, a moral de \u201cGuerra nas Estrelas\u201d conduz ao moralismo. E \u00e9 o moralismo que, com sua artificialidade implac\u00e1vel, determina a passagem do idealismo para o autoritarismo. Com isso fecha-se o circuito ideol\u00f3gico que permite passar da democracia para a tirania. E o c\u00edrculo que nos traz de volta ao in\u00edcio da hist\u00f3ria. Voltamos ao come\u00e7o, quando \u00e9 necess\u00e1rio buscar \u201cUma Nova Esperan\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Que a For\u00e7a esteja conosco!<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">Daniel M. Delfino<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">20\/05\/2005<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<h1>&ldquo;A VINGAN&Ccedil;A DOS SITH&rdquo;: F&Aacute;BULA E HIST&Oacute;RIA<\/h1>\n<h1><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/h1>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: center;\" class=\"MsoNormal\">(Coment&aacute;rio sobre o filme &ldquo;A Vingan&ccedil;a dos Sith&rdquo;)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9,76],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=47"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6135,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47\/revisions\/6135"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=47"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=47"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=47"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}