{"id":4724,"date":"2016-07-07T20:07:09","date_gmt":"2016-07-07T23:07:09","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=4724"},"modified":"2016-07-07T20:34:13","modified_gmt":"2016-07-07T23:34:13","slug":"jornal-91-materislismo-dialetico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2016\/07\/jornal-91-materislismo-dialetico\/","title":{"rendered":"Jornal 91: Materialismo dial\u00e9tico"},"content":{"rendered":"<style type=\"text\/css\"><!--\np { margin-bottom: 0.1in; line-height: 120%; }\n--><\/style>\n<p>No Jornal Espa\u00e7o Socialista n\u00ba 84, tocamos no tema do materialismo hist\u00f3rico. Argumentamos, ent\u00e3o, que a concep\u00e7\u00e3o materialista de mundo apenas pode se tornar superior \u00e0s concep\u00e7\u00f5es idealistas nas novas condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas trazidas pela Revolu\u00e7\u00e3o Industrial (1776-1830) e a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa (1789-1815).<a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/21.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-4725 alignright\" alt=\"2\" src=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/21-289x300.jpg\" width=\"289\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/21-289x300.jpg 289w, https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/21.jpg 500w\" sizes=\"(max-width: 289px) 100vw, 289px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Antes dessas duas revolu\u00e7\u00f5es, as sociedades de classe eram o meio mais adequado para o r\u00e1pido desenvolvimento das for\u00e7as produtivas e, por isso, as classes dominantes apareciam na vida cotidiana como as &#8220;verdadeiras&#8221; classes produtoras. Nas sociedades de classe, s\u00e3o elas, de fato (e n\u00e3o os trabalhadores) que organizam a produ\u00e7\u00e3o, o Estado, a ideologia e o conjunto da vida social. Como, nas sociedades de classe, temos a separa\u00e7\u00e3o do trabalho intelectual (isto \u00e9, aquele que organiza a produ\u00e7\u00e3o e a sociedade como um todo) do trabalho manual (aquele que converte a natureza em toda a riqueza social) isso gerava \u2013 e ainda gera \u2013 a ilus\u00e3o de que seriam as concep\u00e7\u00f5es e valores da classe dominante a base da vida material e, portanto, seria a ideia que organizaria a mat\u00e9ria. Na rela\u00e7\u00e3o entre ideia e mat\u00e9ria, a primeira seria predominante. Esta a origem hist\u00f3rica dos grandes sistemas filos\u00f3ficos idealistas, desde os gregos at\u00e9 Kant e Hegel.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de idealistas, estes grandes sistemas tinham, ainda, uma segunda caracter\u00edstica importante: eram dualistas. Como a ideia n\u00e3o poderia vir da mat\u00e9ria, a ideia deveria ou ter sido criada por Deus (Agostinho, Tom\u00e1s de Aquino) ou dada aos humanos pela natureza (os gregos, os pensadores do Per\u00edodo Moderno, etc.). Haveria, portanto, duas esferas distintas: a ideia, o esp\u00edrito, de um lado e, de outro, a mat\u00e9ria. E, na rela\u00e7\u00e3o entre as duas esferas, a ideia determinaria a mat\u00e9ria, a consci\u00eancia determinaria a exist\u00eancia: o Mundo das Ideias em Plat\u00e3o, o Logos em Arist\u00f3teles, Deus dos medievais, o Esp\u00edrito de Hegel, etc. \u2013 em que pesem as enormes e importantes diferen\u00e7as entre esses pensadores.<\/p>\n<p>Verdade que h\u00e1, quanto ao dualismo, uma important\u00edssima exce\u00e7\u00e3o. No s\u00e9culo 17, na Holanda de Rembrandt, Hugo Grotius, Vermeer e Erasmo de Roterd\u00e3, Espinosa elaborou um sistema bastante peculiar que, embora idealista, n\u00e3o era dualista. Sua ideia b\u00e1sica era a seguinte: apenas pode haver uma \u00fanica subst\u00e2ncia no universo. Pois, se houvesse mais de uma subst\u00e2ncia, uma teria que ser a causa da outra e, como o que \u00e9 causa de algo n\u00e3o pode ser tamb\u00e9m causado por este mesmo algo, deveria haver infinitas subst\u00e2ncias com infinitas causas: Deus n\u00e3o poderia ser a causa \u00fanica de tudo o que existe. Portanto, raciocina ele, apenas pode existir uma \u00fanica subst\u00e2ncia, Deus, que, por isso, coincide com tudo o que existe, com toda a natureza. Para ele, por isso, n\u00e3o haveria duas subst\u00e2ncias, mat\u00e9ria e esp\u00edrito, mas apenas uma: &#8220;Deus que \u00e9 a natureza&#8221;. Espinosa \u00e9 idealista, contudo, n\u00e3o \u00e9 dualista. Exceto esse caso importante, todas as ontologias (concep\u00e7\u00f5es de mundo) idealistas eram tamb\u00e9m dualistas.<\/p>\n<p>Vimos, tamb\u00e9m no Jornal Espa\u00e7o Socialista n\u00ba 84, que o materialismo marxiano rompe com esse dualismo e abre a possibilidade de uma forma superior, mais desenvolvida, de conhecimento de tudo o que existe, do universo ao ser humano. Pela descoberta do trabalho como a atividade humana que, ao distinguir os seres humanos da natureza, \u00e9 fundante de toda a nossa hist\u00f3ria, Marx e Engels puderam argumentar como, do ser inorg\u00e2nico, se desenvolveu a vida e como, dessa, surgiu o mundo dos homens. Puderam demonstrar que em cada passagem temos um salto de qualidade, um salto ontol\u00f3gico diriam Luk\u00e1cs e M\u00e9sz\u00e1ros, no qual a mesma mat\u00e9ria anteriormente existente se organiza em formas superiores, com propriedades e qualidades essencialmente novas. A vida \u00e9 uma forma superior da mat\u00e9ria inorg\u00e2nica e, o ser humano, uma forma superior da mat\u00e9ria org\u00e2nica. As ideias, os pensamentos, os sentimentos, os projetos idealizados, a subjetividade de cada indiv\u00edduo nada mais s\u00e3o que formas superiores de organiza\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria: daqui o materialismo de Marx e de Engels. Tudo o que existe \u00e9 mat\u00e9ria no seu movimento de evolu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, como j\u00e1 argumentamos no Jornal n\u00ba 84.<\/p>\n<p>Essa concep\u00e7\u00e3o materialista e unit\u00e1ria, que supera as concep\u00e7\u00f5es idealistas e dualistas anteriores, \u00e9 tamb\u00e9m e ao mesmo tempo uma redescoberta da dial\u00e9tica. Por isso, com raz\u00e3o, muitas vezes o pensamento de Marx e Engels \u00e9 denominado de &#8220;concep\u00e7\u00e3o materialista dial\u00e9tica&#8221;. Todavia \u2013 e voltaremos a isso mais abaixo \u2013 n\u00e3o raras vezes, desde os tempos de Kautsky e Lenin at\u00e9 os nossos dias, o materialismo hist\u00f3rico e o materialismo dial\u00e9tico s\u00e3o tratados como duas coisas distintas. Os conhecidos manuais stalinistas s\u00e3o ricos de exemplos semelhantes. Neles, a dial\u00e9tica \u00e9 apresentada como se fosse as leis da l\u00f3gica do bem pensar, algo mais pr\u00f3ximo de Arist\u00f3teles e Bacon do que de Marx. O materialismo seria da hist\u00f3ria e a dial\u00e9tica seria apenas um modo correto de pensar, como se fosse uma &#8220;l\u00f3gica&#8221; do pensamento, um m\u00e9todo cuja aplica\u00e7\u00e3o garante a verdade. Veremos que essa separa\u00e7\u00e3o entre a dial\u00e9tica (restrita ao pensamento) e o materialismo (restrito \u00e0 realidade) \u00e9 completamente distinta do que Marx e Engels descobriram.<\/p>\n<h2>Dial\u00e9tica e mat\u00e9ria<\/h2>\n<p>Voltemos ao princ\u00edpio do princ\u00edpio: com a expans\u00e3o do universo temos a forma\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria inorg\u00e2nica tal como a conhecemos composta por el\u00e9trons, pr\u00f3tons e n\u00eautrons, \u00e1tomos, mol\u00e9culas, etc. Essa expans\u00e3o deu tamb\u00e9m origem a todas as propriedades da mat\u00e9ria inorg\u00e2nica. Surgem assim os in\u00fameros processos da qu\u00edmica e da f\u00edsica que comp\u00f5em a hist\u00f3ria da mat\u00e9ria inorg\u00e2nica.<\/p>\n<p>Nessa evolu\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria inorg\u00e2nica j\u00e1 se manifesta a sua dial\u00e9tica. Evolui do simples ao complexo por processos qu\u00edmicos e f\u00edsicos que, sempre, resultam em algo distinto ao seu ponto de partida. A mol\u00e9cula de \u00e1gua \u00e9 o resultado da rea\u00e7\u00e3o qu\u00edmica que combina dois \u00e1tomos de hidrog\u00eanio a um de oxig\u00eanio, o \u00e1cido sulf\u00farico ao reagir com o ferro resulta em sulfato de ferro e libera hidrog\u00eanio, e assim sucessivamente.<\/p>\n<p>Esta evolu\u00e7\u00e3o do simples ao complexo tamb\u00e9m \u00e9 resultante de um segundo movimento dial\u00e9tico da mat\u00e9ria: ao se combinarem em uma totalidade (isto \u00e9, em um todo articulado no qual cada parte se relaciona com todas as outras partes) a intera\u00e7\u00e3o entre os elementos termina por dar origem a algumas qualidades da mat\u00e9ria, que n\u00e3o existiam antes dessa intera\u00e7\u00e3o. Tanto o \u00e1cido sulf\u00farico quanto o ferro, tanto a o hidrog\u00eanio quanto o oxig\u00eanio dos nossos exemplos possuem qualidades que sequer se aproximam das da \u00e1gua ou das do sulfato de ferro. Esse segundo movimento dial\u00e9tico \u00e9 expresso dizendo-se que a &#8220;totalidade \u00e9 mais do que a soma, \u00e9 a s\u00edntese das partes em totalidade&#8221;. A totalidade do hidrog\u00eanio em intera\u00e7\u00e3o com o oxig\u00eanio possui as qualidades da \u00e1gua que s\u00e3o distintas das qualidades desses gases isoladamente e assim por diante.<\/p>\n<p>Esse movimento real, objetivo \u2013 que independe da consci\u00eancia e da a\u00e7\u00e3o dos seres humanos para existir \u2013 faz parte da dial\u00e9tica da mat\u00e9ria inorg\u00e2nica. A dial\u00e9tica inorg\u00e2nica corresponde ao movimento real da mat\u00e9ria inorg\u00e2nica. E, se quisermos refletir em nossa consci\u00eancia esse movimento precisamos pensar dialeticamente, isto \u00e9, reproduzir na consci\u00eancia o movimento da mat\u00e9ria real, que existe independentemente da nossa subjetividade. Veja, precisamos pensar dialeticamente porque o movimento da mat\u00e9ria inorg\u00e2nica \u00e9 a dial\u00e9tica do inorg\u00e2nico.<\/p>\n<p>Algo similar ocorre com a mat\u00e9ria org\u00e2nica. Uma determinada combina\u00e7\u00e3o dos \u00e1tomos e mol\u00e9culas produzidos pelo desenvolvimento da mat\u00e9ria inorg\u00e2nica gera uma totalidade que produz uma nova qualidade, uma nova propriedade. Diferente das rea\u00e7\u00f5es qu\u00edmicas e f\u00edsicas que produzem sempre algo distinto do seu ponto de partida, agora temos a reprodu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica que produz sempre o mesmo ser (manga, da mangueira que d\u00e1 mangas etc.). A reprodu\u00e7\u00e3o do mesmo requer processos que n\u00e3o existiam antes: na produ\u00e7\u00e3o de energia no interior dos seres vivos, etc. surgem mol\u00e9culas que n\u00e3o existiam antes (RNA, DNA etc.), o planeta Terra se cobriu de seres vivos em poucos bilh\u00f5es de anos e a sele\u00e7\u00e3o natural passa a ser a lei mais geral da reprodu\u00e7\u00e3o da vida.<\/p>\n<p>Vejamos isso com mais vagar.<\/p>\n<p>A mat\u00e9ria viva possui dois movimentos da mat\u00e9ria que n\u00e3o existiam no ser inorg\u00e2nico. O primeiro movimento \u00e9 a passagem do ser inorg\u00e2nico \u00e0 vida, isto \u00e9, o arranjo, em uma nova totalidade, capaz de reprodu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica, dos processos inorg\u00e2nicos e dos elementos inorg\u00e2nicos surgidos pela evolu\u00e7\u00e3o do universo. Essa passagem corresponde ao surgimento de uma nova ess\u00eancia: frente \u00e0 ess\u00eancia da mat\u00e9ria inorg\u00e2nica se desenvolve a ess\u00eancia da reprodu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica. A vida n\u00e3o pode ser reduzida \u00e0 mat\u00e9ria inorg\u00e2nica (mesmo que, como vimos, seja formada pelos \u00e1tomos e mol\u00e9culas de origem inorg\u00e2nica). O surgimento de uma nova ess\u00eancia \u00e9 denominado &#8220;salto de qualidade&#8221; (Engels) ou &#8220;salto ontol\u00f3gico&#8221; (Luk\u00e1cs), como j\u00e1 mencionamos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do salto ontol\u00f3gico, a evolu\u00e7\u00e3o da vida possui ainda outra caracter\u00edstica que n\u00e3o \u00e9 encontrada na mat\u00e9ria inorg\u00e2nica. Em larga medida, a efici\u00eancia maior ou menor das diferentes formas de vida em realizar a sua reprodu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica determina sua sobreviv\u00eancia na concorr\u00eancia com os outros seres vivos: os menos eficientes v\u00e3o sendo substitu\u00eddos pelos mais eficientes em um processo denominado por Darwin de sele\u00e7\u00e3o natural. A sele\u00e7\u00e3o natural ao lado do salto ontol\u00f3gico, que \u00e9 o nascimento e a morte dos organismos, s\u00e3o dois movimentos que a mat\u00e9ria org\u00e2nica possui de novidade em compara\u00e7\u00e3o com o ser inorg\u00e2nico. Ou, para colocar em outras palavras, a dial\u00e9tica da mat\u00e9ria inorg\u00e2nica, al\u00e9m v\u00e1rios de processos qu\u00edmicos e f\u00edsicos que se originaram da evolu\u00e7\u00e3o do inorg\u00e2nico, possui ainda dois movimentos in\u00e9ditos: o salto ontol\u00f3gico do inanimado \u00e0 vida (o nascimento e a morte) e a sele\u00e7\u00e3o natural.<\/p>\n<p>Obviamente, o fato de a vida surgir do desenvolvimento da mat\u00e9ria inanimada faz com que v\u00e1rias das propriedades desta \u00faltima estejam presentes na vida. Tamb\u00e9m nos seres vivos temos rea\u00e7\u00f5es de oxirredu\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m neles a rea\u00e7\u00e3o de \u00e1cido e base resulta em sal+\u00e1gua e assim por diante; tamb\u00e9m o fato de a totalidade ser a s\u00edntese (e n\u00e3o a soma) dos seus elementos \u00e9 uma caracter\u00edstica presente no inorg\u00e2nico e na vida. E, al\u00e9m disso, de que tal como a mat\u00e9ria inanimada, tamb\u00e9m a vida possui a tend\u00eancia de evoluir de formas mais simples a formas mais complexas.<\/p>\n<p>H\u00e1, portanto, uma continuidade entre a dial\u00e9tica do inorg\u00e2nico e a dial\u00e9tica da vida. Essa continuidade se realiza atrav\u00e9s de um salto ontol\u00f3gico \u2013 ou um salto de qualidade, o que se preferir \u2013 n\u00e3o \u00e9 um paradoxo j\u00e1 que a vida apenas pode surgir por meio de um salto ontol\u00f3gico que \u00e9 resultante do desenvolvimento da mat\u00e9ria inorg\u00e2nica.<\/p>\n<p>Dialeticamente (ou seja, no movimento da pr\u00f3pria mat\u00e9ria) continuidade e ruptura (salto ontol\u00f3gico) se articulam como partes de um mesmo processo hist\u00f3rico, qual seja, a evolu\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria inorg\u00e2nica em uma mat\u00e9ria org\u00e2nica.<\/p>\n<p>Em outras palavras, a vida n\u00e3o pode ser reduzida \u00e0 mat\u00e9ria inorg\u00e2nica e, n\u00e3o menos verdadeiro, n\u00e3o pode existir sem ter permanentemente por sua base a mat\u00e9ria inanimada. A dial\u00e9tica da vida n\u00e3o \u00e9 redut\u00edvel \u00e0 dial\u00e9tica do inorg\u00e2nico, ainda que n\u00e3o possa existir sem ter por base o inorg\u00e2nico.<\/p>\n<p>Uma vez mais: quando se trata de reproduzir na consci\u00eancia as qualidades da vida precisamos reproduzir em nossas ideias a dial\u00e9tica da vida, a g\u00eanese e a evolu\u00e7\u00e3o da vida. Precisamos pensar dialeticamente porque a dial\u00e9tica \u00e9 o movimento da mat\u00e9ria. Ao fim e ao cabo, porque a exist\u00eancia determina a consci\u00eancia.<\/p>\n<h2>Dial\u00e9tica e hist\u00f3ria da humanidade<\/h2>\n<p>A g\u00eanese da humanidade tem lugar quando um grupo de primatas adquire a capacidade de trabalho. Discutimos alguns aspectos importantes do surgimento do trabalho nos Jornais Espa\u00e7o Socialista n\u00ba 83 e n\u00ba 84 e, por isso, seremos agora bastante breves.<\/p>\n<p>Todo ser vivo precisa transformar o ambiente no imprescind\u00edvel \u00e0 sua reprodu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica, o mesmo ocorre com os seres humanos. A diferen\u00e7a entre n\u00f3s e todos os outros seres vivos \u00e9 a forma pela qual realizamos essa transforma\u00e7\u00e3o: pelo trabalho. Atrav\u00e9s do trabalho, ao transformarmos a natureza tamb\u00e9m transformamos nossa subst\u00e2ncia social e, deste modo, evolu\u00edmos da sociedade primitiva ao capitalismo de nossos dias.<\/p>\n<p>A passagem da evolu\u00e7\u00e3o da vida, determinada pela sele\u00e7\u00e3o natural, para a hist\u00f3ria da humanidade \u00e9, tamb\u00e9m, um salto ontol\u00f3gico ou um salto de qualidade. Agora, o movimento da mat\u00e9ria social \u00e9 determinado pela reprodu\u00e7\u00e3o social (que passa do modo de produ\u00e7\u00e3o primitivo ao modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, pela media\u00e7\u00e3o dos modos de produ\u00e7\u00e3o asi\u00e1tico, escravista e feudal). A hist\u00f3ria humana \u00e9 o complexo processo de reprodu\u00e7\u00e3o social que sintetiza (lembre-se: a totalidade \u00e9 a s\u00edntese, n\u00e3o a soma, dos seus componentes) os atos humanos singulares nas tend\u00eancias hist\u00f3ricas mais universais.<\/p>\n<p>Ou seja, com o surgimento da humanidade temos, uma vez mais, o surgimento de uma nova ess\u00eancia: o que ir\u00e1 determinar a evolu\u00e7\u00e3o humana n\u00e3o mais ser\u00e1 a passagem para formas superiores da mat\u00e9ria inorg\u00e2nica, mas a passagem de uma forma de trabalho a outra mais eficiente, mais eficaz ao retirar da natureza aquilo que necessitamos. Do trabalho de coleta, passamos ao trabalho prolet\u00e1rio dos nossos dias, pelas media\u00e7\u00f5es todas da hist\u00f3ria (escravismo, feudalismo, etc.). A hist\u00f3ria deixa de ser a evolu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica do g\u00eanero Homo e passa a ser a sucess\u00e3o dos modos de produ\u00e7\u00e3o da sociedade primitiva aos nossos dias, bem como dos indiv\u00edduos que os compuseram. Temos uma nova ess\u00eancia: da reprodu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica, passamos \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Essa ess\u00eancia que se expressa na reprodu\u00e7\u00e3o social possui tr\u00eas caracter\u00edsticas fundamentais (o fato de serem fundamentais n\u00e3o significa que se apresentem de forma linear, n\u00e3o contradit\u00f3ria) que se desdobram ao longo de toda a hist\u00f3ria da humanidade.<\/p>\n<p>A primeira corresponde a que, quanto mais desenvolvemos nossas capacidades, nossas for\u00e7as produtivas, menos peso desempenham os fatores naturais na evolu\u00e7\u00e3o das sociedades. O fato de termos por base um animal biol\u00f3gico (o Homo sapiens), de a reprodu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica permanecer uma condi\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel para a reprodu\u00e7\u00e3o social, implica que os fatores naturais n\u00e3o podem ser eliminados de nossa hist\u00f3ria, podem apenas perder a import\u00e2ncia que possu\u00edam no passado. Essa primeira caracter\u00edstica \u00e9 denominada por Marx e Luk\u00e1cs de &#8220;afastamento das barreiras naturais&#8221;. Afastamento, e n\u00e3o elimina\u00e7\u00e3o, pelo fato de que a natureza permanece uma eterna base para qualquer reprodu\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>A segunda caracter\u00edstica \u00e9 o desenvolvimento de rela\u00e7\u00f5es sociais que abarcam uma parcela cada vez maior da humanidade. De um ponto de partida formado por pequenos bandos, que viviam isolados um do outro; partindo de um in\u00edcio em que o sucedido em um continente nada tinha a ver com o que tinha lugar em outro, chegamos a um ponto da hist\u00f3ria em que a humanidade se unificou em uma \u00fanica hist\u00f3ria. Desde o surgimento do mercado mundial, com as Grandes Navega\u00e7\u00f5es (1450-1650), at\u00e9 a &#8220;mundializa\u00e7\u00e3o do capital&#8221; dos nossos dias, afirmou-se \u2013 com avan\u00e7os e recuos, com contradi\u00e7\u00f5es \u2013 a tend\u00eancia \u00e0 articula\u00e7\u00e3o de toda a humanidade em um \u00fanico processo hist\u00f3rico. Hoje, nenhum dos grandes problemas da humanidade, do patriarcalismo ao desemprego, da destrui\u00e7\u00e3o do planeta \u00e0 crise estrutural do capital, pode ser enfrentado local ou nacionalmente.<\/p>\n<p>A terceira caracter\u00edstica importante \u00e9 que tanto o afastamento das barreiras naturais e tanto o desenvolvimento das for\u00e7as produtivas quanto a unifica\u00e7\u00e3o da humanidade em uma \u00fanica hist\u00f3ria requerem e possibilitam que os indiv\u00edduos desenvolvam cada vez mais as suas personalidades. Quanto mais diferenciadas as a\u00e7\u00f5es, as atitudes que o indiv\u00edduo precisa tomar no dia a dia, quanto mais complexas as escolhas que precisa fazer ao longo de sua vida, quanto mais o indiv\u00edduo precisa desenvolver suas sensibilidades, suas capacidades para pensar e avaliar o mundo em que vive tanto mais precisa desenvolver sua personalidade enquanto ser humano. A hist\u00f3ria dos indiv\u00edduos vai incorporando cada vez mais tanto o afastamento das barreiras naturais quanto possibilidades e necessidades que brotam da totalidade da humanidade. As possibilidades e as necessidades do desenvolvimento dos indiv\u00edduos n\u00e3o param de crescer desde o per\u00edodo primitivo at\u00e9 os nossos dias \u2013 em que pesem todas as aliena\u00e7\u00f5es ao longo da hist\u00f3ria e mesmo que levemos em conta que \u00e9 essa uma tend\u00eancia plena de contradi\u00e7\u00f5es e desigualdades. A consci\u00eancia dos indiv\u00edduos, das classes sociais e da humanidade vai se aproximando cada vez mais do que o mundo objetivamente \u00e9: a forma superior de organiza\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria que \u00e9 o ser social possibilita, pela primeira vez, que se tenha consci\u00eancia do que o universo \u00e9 de fato.<\/p>\n<p>Contudo, de modo semelhante ao que vimos na rela\u00e7\u00e3o entre a vida e a mat\u00e9ria inorg\u00e2nica, tamb\u00e9m na rela\u00e7\u00e3o do ser social com a natureza temos duas rela\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas: a sociedade n\u00e3o pode ser reduzida \u00e0 natureza e, contudo, h\u00e1 elementos de continuidade que as articulam. Por exemplo, sem a reprodu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica dos indiv\u00edduos n\u00e3o h\u00e1 reprodu\u00e7\u00e3o social poss\u00edvel, sem os processos qu\u00edmicos e f\u00edsicos n\u00e3o h\u00e1 humanidade, etc., etc.<\/p>\n<p>Veja: as leis da dial\u00e9tica s\u00e3o a sistematiza\u00e7\u00e3o em teoria (um reflexo na consci\u00eancia) das leis mais gerais do desenvolvimento hist\u00f3rico \u2013 tanto da natureza quanto da humanidade. Dessa sistematiza\u00e7\u00e3o se desenvolve a concep\u00e7\u00e3o de mundo dial\u00e9tica de Marx e de Engels: nada existe que n\u00e3o seja hist\u00f3rico e tudo o que existe \u00e9 mat\u00e9ria. A dial\u00e9tica (as leis mais gerais da hist\u00f3ria) e o materialismo (nada existe que n\u00e3o seja resultante do desenvolvimento da mat\u00e9ria) s\u00e3o &#8220;determina\u00e7\u00f5es da exist\u00eancia&#8221; (Marx) de um \u00fanico e mesmo mundo objetivo e, por isso, ao serem sistematizadas em teoria articulam-se de modo insepar\u00e1vel na concep\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria de Marx e Engels. Aqui, contudo, se iniciam uma s\u00e9rie de graves problemas.<\/p>\n<h2>A dial\u00e9tica contra a hist\u00f3ria<\/h2>\n<p>Admitindo-se muitas e importantes exce\u00e7\u00f5es, n\u00e3o \u00e9 uma falsidade afirmar que, ao longo do s\u00e9culo 20, boa parte (sen\u00e3o a maior parte) das teorias marxistas foi abandonando essa concep\u00e7\u00e3o materialista-dial\u00e9tica original. H\u00e1 v\u00e1rias raz\u00f5es hist\u00f3ricas para esse fato, desde o fato de as revolu\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo 20 n\u00e3o terem tido a possiblidade hist\u00f3rica de abrirem a transi\u00e7\u00e3o ao socialismo e ao comunismo, at\u00e9 o fato n\u00e3o menos expressivo de o capitalismo ter propiciado o desenvolvimento da aristocracia oper\u00e1ria e o aumento do peso social dos assalariados n\u00e3o prolet\u00e1rios, ampliando significativamente a base social para as concep\u00e7\u00f5es reformistas de todos os naipes. \u00c9 importante real\u00e7ar esse aspecto: trata-se de um fen\u00f4meno ideol\u00f3gico e te\u00f3rico t\u00e3o generalizado, que envolveu uma quantidade t\u00e3o variada de situa\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e de indiv\u00edduos \u2013 e por tantas d\u00e9cadas \u2013 que o abandono da concep\u00e7\u00e3o origin\u00e1ria de Marx e Engels n\u00e3o pode ser reduzido a fen\u00f4menos nacionais ou a uma ou outra individualidade.<\/p>\n<p>Essencialmente (portanto, deixando de lado fatores importantes, ainda que n\u00e3o t\u00e3o essenciais) porque para se defender como socialista ou como comunista a antiga URSS (ou mudando o que deve ser mudado, defender hoje como socialista a China, ou Vietnam ou mesmo Cuba) implicava no passado, e implica hoje, duas consequ\u00eancias. A primeira: revisar na ess\u00eancia o que Marx e Engels concebiam como socialismo e comunismo. Deveria ser recusada como ut\u00f3pica a concep\u00e7\u00e3o origin\u00e1ria, segundo a qual o socialismo seria a transi\u00e7\u00e3o ao comunismo e que esse seria uma sociedade sem classes, sem Estado, sem fam\u00edlia monog\u00e2mica e sem a explora\u00e7\u00e3o do homem pelo homem.<\/p>\n<p>A segunda: \u00e9 que \u00e9 preciso velar o fato de que na ex-URSS (bem como na China, Cuba ou Vietnam do presente) a economia se baseava e se baseia na explora\u00e7\u00e3o do trabalho e que, por isso, era uma economia fundada na propriedade privada. Era preciso velar que, por isso, tratava-se de uma sociedade de classe, ainda que um pouco diferente das sociedades burguesas porque as &#8220;personifica\u00e7\u00f5es do capital&#8221; eram os burocratas e, n\u00e3o, os propriet\u00e1rios privados t\u00edpicos da ordem do capital. Por fim, era preciso esconder que tanto l\u00e1 quanto nos pa\u00edses capitalistas t\u00edpicos a mercadoria (com seu fetichismo) era a rela\u00e7\u00e3o social mais universal.<\/p>\n<p>Foi por essa evolu\u00e7\u00e3o que surgiu o &#8220;marxismo vulgar&#8221;, aquele &#8220;marxismo&#8221; que se converteu em instrumento de propaganda pol\u00edtica (no sentido pejorativo) ao inv\u00e9s de cumprir a fun\u00e7\u00e3o e compreender o mundo para auxiliar a transform\u00e1-lo. Claro que esse marxismo nada tem a ver com o pensamento de Marx e Engels e, a seguir, de Rosa Luxemburgo, Lenin e M\u00e9sz\u00e1ros. Sua variante mais significativa \u00e9 o stalinismo. Por essa via, a dial\u00e9tica vai sendo transformada. Deixa de ser o movimento da mat\u00e9ria, o desenvolvimento da realidade objetiva (que o pensamento deve se esfor\u00e7ar por refletir) e vai se convertendo em &#8220;regras l\u00f3gicas&#8221; a partir da qual seria poss\u00edvel &#8220;deduzir&#8221; a hist\u00f3ria, ao inv\u00e9s de investiga-la.<\/p>\n<p>\u00c9 assim que em muitos manuais de marxismo dos nossos dias o materialismo dial\u00e9tico e o materialismo hist\u00f3rico s\u00e3o dissociados. O primeiro \u00e9 uma &#8220;l\u00f3gica do bem pensar&#8221;; o segundo, a hist\u00f3ria deduzida por meio dessas leis l\u00f3gicas. Estuda-se, assim, a dial\u00e9tica apartada da hist\u00f3ria, como se fosse um conjunto de regras l\u00f3gicas; a hist\u00f3ria, por sua vez, estuda-se como se fosse a encarna\u00e7\u00e3o em processos particulares das leis l\u00f3gicas universais. Hist\u00f3ria e dial\u00e9tica est\u00e3o, nessa concep\u00e7\u00e3o, definitivamente apartadas e, por esse meio, a dial\u00e9tica passa a ser fundante da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Nada mais falso e mais distante da concep\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica e materialista de Marx e Engels. Para eles n\u00e3o h\u00e1 materialismo hist\u00f3rico versus materialismo dial\u00e9tico, antes, o materialismo hist\u00f3rico \u00e9 dial\u00e9tico e, o materialismo dial\u00e9tico, hist\u00f3rico. A dial\u00e9tica \u00e9 a sistematiza\u00e7\u00e3o do movimento da mat\u00e9ria natural e da material social. A hist\u00f3ria \u00e9 o movimento dial\u00e9tico da mat\u00e9ria natural e social. N\u00e3o h\u00e1, para Marx e Engels, dois materialismos (o hist\u00f3rico e o dial\u00e9tico), mas apenas uma concep\u00e7\u00e3o materialista-dial\u00e9tica de mundo.<\/p>\n<p>H\u00e1 aqui uma enorme quest\u00e3o que, agora, apenas poderemos mencionar, mas prometemos voltar a ela em um pr\u00f3ximo texto: o problema do m\u00e9todo dial\u00e9tico. Muito brevemente, o stalinismo e o marxismo vulgar (bem como muitos pensadores idealistas) concebem que o m\u00e9todo seria o crit\u00e9rio de verdade. Isto \u00e9, seguindo corretamente o m\u00e9todo tido por correto, a verdade seria uma consequ\u00eancia natural da investiga\u00e7\u00e3o. Para Marx e Engels (e para Luk\u00e1cs e M\u00e9sz\u00e1ros) isso \u00e9 absolutamente falso. O m\u00e9todo n\u00e3o \u00e9 crit\u00e9rio de verdade, mas apenas a sistematiza\u00e7\u00e3o do que, no passado, se revelou adequado no tratamento do desconhecido. Um m\u00e9todo incorreto pode levar a resultados verdadeiros na ci\u00eancia e na filosofia e, o oposto com frequ\u00eancia tamb\u00e9m tem lugar. Isso, contudo, deve ficar para um pr\u00f3ximo artigo: como o marxismo vulgar converteu o m\u00e9todo em algo que substitui a investiga\u00e7\u00e3o do mundo real e, por isso, serve para velar a realidade e, n\u00e3o, para desvela-la.<\/p>\n<h2>Textos recomendados:<\/h2>\n<p>De Engels, Do socialismo ut\u00f3pico ao cient\u00edfico e de Marx, A mis\u00e9ria da filosofia s\u00e3o textos cl\u00e1ssicos sobre essa quest\u00e3o. Sobre a convers\u00e3o do marxismo em \u00f3rg\u00e3o de propaganda conferir, de Fernando Claudin, o cap\u00edtulo &#8220;A crise te\u00f3rica&#8221;, de seu livro A crise do movimento comunista (Express\u00e3o Popular). Como exemplo de manuais do marxismo vulgar, conferir Os fundamentais de filosofia, de G. Politzer e de Stalin Materialismo hist\u00f3rico e materialismo dial\u00e9tico. Por fim, para uma t\u00edpica distor\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria pelo stalinismo, conferir Hist\u00f3ria do PC(b) da URSS, um texto de 1938 reeditado no Brasil pelo PCR. Sobre a quest\u00e3o do m\u00e9todo, ver de Ivo Tonet O m\u00e9todo cient\u00edfico (Instituto Luk\u00e1cs).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Jornal Espa\u00e7o Socialista n\u00ba 84, tocamos no tema do materialismo hist\u00f3rico. 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