{"id":48,"date":"2008-12-13T16:28:13","date_gmt":"2008-12-13T16:28:13","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/?q=node\/48"},"modified":"2018-05-04T21:49:09","modified_gmt":"2018-05-05T00:49:09","slug":"a-queda-contradicoes-do-nazismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2008\/12\/a-queda-contradicoes-do-nazismo\/","title":{"rendered":"&#8220;A Queda&#8221;: Contradi\u00e7\u00f5es do nazismo"},"content":{"rendered":"<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<h1>\u201cA QUEDA\u201d:<\/h1>\n<h1>CONTRADI\u00c7\u00d5ES DO NAZISMO<\/h1>\n<h1><\/h1>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Nome original: Untergang, der<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Produ\u00e7\u00e3o: Alemanha, It\u00e1lia, \u00c1ustria<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ano: 2004<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Idiomas: Alem\u00e3o, Russo<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Diretor: Oliver Hirschbiegel<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Roteiro: Joachim Fest, Traudl Junge<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Elenco: Bruno Ganz, Alexandra Maria Lara, Corinna Harfouch, Ulrich Matthes, Juliane K\u00f6hler, Heino Ferch, Christian Berkel, Matthias Habich<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 G\u00eanero: drama, hist\u00f3ria, guerra<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O filme alem\u00e3o \u201cA Queda\u201d vem oportunamente apresentar os momentos finais da derrota alem\u00e3 na Segunda Guerra Mundial, no momento em que comemoramos, em 8 de maio \u00faltimo, os 60 anos do fim dos combates na Europa. \u201cA Queda\u201d \u00e9 baseado em livros de personagens que acompanharam de perto os eventos finais do conflito, na condi\u00e7\u00e3o de elementos pr\u00f3ximos de Hitler e com ele refugiados no seu bunker em Berlim. Esses personagens, como a secret\u00e1ria Traudl Junge, constituem o eixo narrativo do filme. Ainda que, inevitavelmente, a hist\u00f3ria gire em torno do pr\u00f3prio Hitler, permitindo que o ator Bruno Ganz roube a cena no papel. Sua interpreta\u00e7\u00e3o constr\u00f3i um personagem extremamente veross\u00edmil e fascinante.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O que demonstra uma coragem not\u00e1vel, pelo fato de que o nazismo \u00e9 tratado como o pr\u00f3prio mal absoluto pelo cinema e pelo senso comum em geral. O mal absoluto ganha contornos concretos nessa produ\u00e7\u00e3o. O que o filme possui de qualidade hist\u00f3rica, lhe falta, por\u00e9m, em acessibilidade cinematogr\u00e1fica. Assist\u00ed-lo n\u00e3o \u00e9 uma experi\u00eancia das mais suaves, com suas quase tr\u00eas horas de dura\u00e7\u00e3o, no ritmo arrastado t\u00edpico do cinema europeu e da meditativa est\u00e9tica alem\u00e3. Suave ou n\u00e3o, a experi\u00eancia proporciona uma aproxima\u00e7\u00e3o bastante proveitosa das quest\u00f5es que envolvem Hitler, o nazismo e a Segunda Guerra.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Na leitura predominante sobre a Segunda Guerra Mundial, o conflito foi causado pelo nazismo alem\u00e3o, pelo fascismo italiano e pelo \u201cmilitarismo\u201d japon\u00eas. Os tr\u00eas componentes do Eixo s\u00e3o tratados como os \u00fanicos \u201cculpados\u201d pela guerra, cujo maior \u201ccrime\u201d teria sido o exterm\u00ednio de seis milh\u00f5es de judeus em campos de concentra\u00e7\u00e3o. Essa leitura est\u00e1 correta em alguns de seus elementos fundamentais: n\u00e3o se discute que o nazismo seja o paroxismo do mal e que o holocausto judeu seja um crime inomin\u00e1vel.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Mas a leitura n\u00e3o est\u00e1 completa. O nazismo e o fascismo s\u00e3o movimentos pol\u00edtico-ideol\u00f3gicos de contornos bem definidos, que podem ser classificados dentro de uma mesma fam\u00edlia. \u00c0s vezes, diz-se \u201cnazi-fascismo\u201d, ou inclui-se o nazismo como \u201cparte\u201d do fen\u00f4meno do fascismo, definido como um \u201cmovimento\u201d mais geral, iniciado por Mussolini na It\u00e1lia, que incluiu tamb\u00e9m os regimes da Espanha de Franco, do Portugal de Salazar, da Hungria de Horty (do Estado Novo de Vargas?), etc.; ainda que a Alemanha de Hitler tenha se mostrado o mais formid\u00e1vel deles.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Esse grupo de regimes pode ser identificado por um programa comum a ser implantado em face do fracasso generalizado da democracia liberal-burguesa europ\u00e9ia nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX. Nazi-fascismo, social-democracia e comunismo (stalinista) disputavam encarni\u00e7adamente os despojos da democracia liberal-burguesa, enfrentando uns aos outros e aos sup\u00e9rstites daquele regime, estilha\u00e7ado pelas cat\u00e1strofes da I Grande Guerra e de crises como a de 1929.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Mas o que \u00e9 o tal \u201cmilitarismo\u201d japon\u00eas? Porque ele se encaixa no Eixo? Por afinidade ideol\u00f3gica ou por conveni\u00eancia t\u00e1tica? Qual \u00e9 a natureza comum desses regimes? E qual \u00e9 a sua diferen\u00e7a essencial em rela\u00e7\u00e3o aos Aliados? Ser\u00e1 a \u201cdemocracia\u201d? E quanto \u00e0 Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica de Stalin, um regime t\u00e3o terrorista quanto o de Hitler? O que explica sua presen\u00e7a na lista de Aliados? A agress\u00e3o alem\u00e3? H\u00e1 uma diferen\u00e7a fundamental entre a I e a II Guerra Mundial, no sentido de que na II o \u201cbem\u201d e o \u201cmal\u201d podiam ser nitidamente discernidos? At\u00e9 que ponto ambas n\u00e3o passam de gigantescas confronta\u00e7\u00f5es interimperialistas? Pela presen\u00e7a da URSS no segundo conflito?<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">O quadro dos grandes confrontos da era de cat\u00e1strofes que foi a primeira metade do s\u00e9culo XX somente se torna intelig\u00edvel, como qualquer per\u00edodo da Hist\u00f3ria, \u00e0 luz dos movimentos da luta de classes, que explicitam concretamente o papel objetivamente progressista ou regressivo de cada movimento pol\u00edtico ou tend\u00eancia ideol\u00f3gica em disputa pela hegemonia. O filme \u201cA Queda\u201d traz elementos que ajudam a clarificar o car\u00e1ter de classe do regime de Hitler e das for\u00e7as envolvidas na Segunda Guerra de modo geral.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Voltemos, pois, ao filme. A princ\u00edpio, trata-se de mais uma reflex\u00e3o sobre a facilidade com que as pessoas se deixaram seduzir pelo nazismo. Traudl Junge \u00e9 uma jovem b\u00e1vara que conseguiu o emprego de secret\u00e1ria particular de Hitler, encarregada de datilografar os discursos do F\u00fchrer. Chama aten\u00e7\u00e3o, na cena em que ela \u00e9 selecionada, a maneira como as mulheres ocupam posi\u00e7\u00f5es claramente subalternas. O mundo dos anos 40 era ainda totalmente machista. Aos mais afoitos, adiantamos que para Hitler uma secret\u00e1ria era apenas uma secret\u00e1ria, n\u00e3o tinha as mesmas fun\u00e7\u00f5es que lhes atribu\u00eda Bill Clinton.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">A secret\u00e1ria ficar\u00e1 com o F\u00fchrer at\u00e9 o fim, testemunhando a agonia de seu regime, no claustrof\u00f3bico ambiente do bunker. Nas horas finais, a sede do regime nazista se resume a um bando de generais b\u00eabados e secret\u00e1rias batendo papo com os guardas, nos corredores em que Joseph Goebbels e sua esposa regiam um coral infantil formado por seus seis filhos, enquanto o F\u00fchrer, em seu gabinete, alimentava Blondi, sua cadela pastora-alem\u00e3. Em outra cena, Hitler discute m\u00e9todos de suic\u00eddio na sala de estar, surrealisticamente. Nesses momentos, ele centraliza as aten\u00e7\u00f5es como se fosse um grande pai de fam\u00edlia, de cujo humor depende a estabilidade da casa. O humor da casa n\u00e3o anda l\u00e1 muito bom, j\u00e1 que papai-Hitler tem freq\u00fcentes crises hist\u00e9ricas com as derrotas que se multiplicam na guerra.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">T\u00eam-se criticado o filme por supostamente humanizar Hitler em cenas como essas. Ora, essa cr\u00edtica \u00e9 totalmente vazia. Hitler era um ser humano, ou seria por acaso um alien\u00edgena ou um vegetal? Ele era humano, do contr\u00e1rio n\u00e3o seria explic\u00e1vel. Himmler o considera louco, por decidir permanecer em Berlim, quando o Ex\u00e9rcito Vermelho sovi\u00e9tico j\u00e1 punha em cerco a capital do Reich. Fegelein, assistente do chefe da SS, explica essa loucura com sua naturalidade de bo\u00eamio-aventureiro: \u201cO que se pode esperar de um abst\u00eamio, n\u00e3o-fumante, vegetariano (sen\u00e3o que enlouque\u00e7a)?\u201d<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Hitler n\u00e3o era louco, no sentido patol\u00f3gico, psiqui\u00e1trico, mas era bastante perturbado. As bombas ca\u00edam sobre o bunker e n\u00e3o o impediam de fazer planos com as maquetes para a reconstru\u00e7\u00e3o de Berlim ao lado de seu amigo, o arquiteto Albert Speer, o \u00fanico que entendia suas inten\u00e7\u00f5es de criar uma \u201cciviliza\u00e7\u00e3o superior\u201d. O sonho de Hitler, tal como este o entendia, era de natureza est\u00e9tica. A transforma\u00e7\u00e3o das cidades alem\u00e3s em ru\u00ednas facilitaria a sua reconstru\u00e7\u00e3o. O fasc\u00ednio pelas ru\u00ednas gregas cl\u00e1ssicas guiava o ideal est\u00e9tico de Hitler e Speer, que desejavam ressuscitar o esplendor helen\u00edstico no \u201cReich de mil anos\u201d.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">A \u00fanica coisa que se pode dizer em defesa de Speer \u00e9 que, como encarregado pelas constru\u00e7\u00f5es e infra-estrutura do governo, recusou-se a p\u00f4r em pr\u00e1tica a pol\u00edtica de terra devastada ordenada pelo F\u00fchrer. E por essa desobedi\u00eancia, Hitler recusou-lhe o aperto de m\u00e3os de despedida. Hitler n\u00e3o era louco, repito, mas era fan\u00e1tico. Speer falhou com ele por se recusar a destruir a Alemanha e acabar com as chances de sobreviv\u00eancia do povo alem\u00e3o. Hitler, que estava disposto a sacrificar o povo inteiro para perseguir seu ideal est\u00e9tico de sociedade, desprezou Speer como um artista e idealista. \u201cNuma guerra como essa n\u00e3o h\u00e1 civis\u201d, ele chegou a dizer. Explicava-se a destrui\u00e7\u00e3o do povo alem\u00e3o como uma esp\u00e9cie de ditado da natureza, no esp\u00edrito do mais rasteiro darwinismo social. \u201cCompaix\u00e3o pelos fracos \u00e9 um pecado contra a lei da natureza\u201d, ele diz.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Temos, portanto, um homem perturbado e fan\u00e1tico, mas n\u00e3o um louco. Algu\u00e9m que fazia de seus preconceitos pequeno-burgueses uma \u201cfilosofia da Hist\u00f3ria\u201d. Uma \u201cteoria\u201d capaz de explicar o mundo e o papel da Alemanha (a p\u00e1tria da \u201cra\u00e7a ariana\u201d). Essa teoria, o \u201cNacional-Socialismo\u201d, n\u00e3o passa de um grosseiro am\u00e1lgama de preconceitos e rancores do senso comum: anti-semitismo, anti-intelectualismo, chauvinismo, xenofobia, darwinismo social; mas seduziu o desesperado povo alem\u00e3o, com sua vis\u00e3o tr\u00e1gico-rom\u00e2ntica da Hist\u00f3ria. Esse conceito, o \u201cNacional-Socialismo\u201d, \u00e9 totalmente vazio, ainda que, pronunciado em alem\u00e3o, o nome pare\u00e7a bastante imponente.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Magda Goebbels diz que n\u00e3o vale a pena viver num mundo sem o \u201cNacional-Socialismo\u201d, e isso justifica o seu suic\u00eddio e o de seus seis filhos. Com essa atitude da matrona nazista, o \u201cNacional-Socialismo\u201d parece ganhar a nossos olhos a dignidade de uma \u201ccausa\u201d pela qual vale \u00e0 pena morrer heroicamente. Goebbels e a mulher se suicidam com a proverbial frieza germ\u00e2nica, assim como foi executada a morte dos filhos. Ao cobrir o rosto das crian\u00e7as, uma a uma, frau Goebbels lhes descobre os p\u00e9s. N\u00e3o h\u00e1 um cobertor de mentiras amplo o bastante para ocultar a Hist\u00f3ria, parece dizer o filme sutilmente com essa cena, exibida tamb\u00e9m com a met\u00f3dica mecanicidade germ\u00e2nica.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Mas o que \u00e9 afinal esse \u201cNacional-Socialismo\u201d, sem o qual n\u00e3o se pode viver? Eu sou nacionalista, porque amo meu pa\u00eds, e sou socialista, porque sou humanista. Logo, eu sou \u201cNacional-Socialista\u201d? Eu sou nazista? Nazista? Pronunciado assim no seu apelido diminutivo, \u201cnazismo\u201d assume imediatamente a fei\u00e7\u00e3o de um adjetivo para crueldade e autoritarismo, de conota\u00e7\u00e3o obviamente negativa. Mas prossigamos na an\u00e1lise. O socialismo \u00e9 uma causa internacionalista, logo, o \u201cNacional-Socialismo\u201d seria uma exce\u00e7\u00e3o no movimento, um socialismo apenas para a na\u00e7\u00e3o alem\u00e3. Ele seria \u201cum tipo de socialismo\u201d, com a diferen\u00e7a de ser exclusivamente nacional.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O nazismo \u00e9 um socialismo? Mais do que uma contradi\u00e7\u00e3o, essa defini\u00e7\u00e3o \u00e9 um absurdo. N\u00e3o foi por simpatia ao socialismo que os grandes industriais alem\u00e3es financiaram as SS e as SA, as mil\u00edcias paramilitares nazistas compostas de marginais, vagabundos, aventureiros e l\u00fampens uniformizados. Foi com esses elementos, e contando com a providencial divis\u00e3o fratricida da esquerda alem\u00e3 entre social-democratas e comunistas, que os nazistas disputaram o espa\u00e7o pol\u00edtico da moribunda Rep\u00fablica de Weimar, na base da briga de rua. N\u00e3o foi por simpatia ao socialismo que Hitler, j\u00e1 no poder, massacrou, baniu e perseguiu a esquerda, enquadrou os sindicatos e garantiu aos grandes industriais alem\u00e3es um novo ciclo de acumula\u00e7\u00e3o capitalista, calcado no expansionismo e na corrida armamentista dos anos 30.<\/p>\n<p class=\"MsoBodyText\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Foi a burguesia alem\u00e3 que entregou o poder a Hitler, para impedir a ascens\u00e3o da esquerda. Preferiu-se a ideologia irracionalista do \u201cNacional-Socialismo\u201d ao socialismo real, qualquer que fosse a forma que ele pudesse tomar na Alemanha. Com a agravante de que o l\u00edder desse movimento era um homem perturbado e fan\u00e1tico, mas tamb\u00e9m orgulhoso e est\u00fapido. Incapaz de vencer a guerra que havia precipitado, s\u00f3 lhe cabia desempenhar o papel de her\u00f3i tr\u00e1gico na pantomima wagneriana que imaginava estar protagonizando. \u201cA Queda\u201d retrata \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o a determina\u00e7\u00e3o tr\u00e1gica de Hitler.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Testemunhamos penosamente esse personagem wagneriano de segunda categoria oscilar entre a esperan\u00e7a de vit\u00f3ria e a admiss\u00e3o da derrota. Nunca se sabe no que o F\u00fchrer realmente acredita. Ele faz quest\u00e3o de manter o teatro at\u00e9 o fim. No meio do massacre, Hitler diz que \u201c\u00e9 preciso recuperar os campos petrol\u00edferos\u201d, como se ainda estivesse em condi\u00e7\u00f5es de exercer a fun\u00e7\u00e3o de um estrategista racional, coisa que nunca foi. Hitler estava t\u00e3o acostumado a ter poder que tinha o h\u00e1bito de proferir bravatas as mais insanas como se pudesse realizar o que prometia.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Esse h\u00e1bito se tornou uma segunda natureza e acaba por reduz\u00ed-lo ao buf\u00e3o pat\u00e9tico que era, como quando promete aos fan\u00e1ticos aviadores que o seguiam milhares de jatos para uma nova for\u00e7a a\u00e9rea. Algumas cenas se repetem como um disco riscado: a qualquer momento, o general fulano-de-tal vai desferir o ataque salvador, rompendo o cerco russo e salvando o III Reich; o que se revelava sempre uma esperan\u00e7a quim\u00e9rica.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Cabe a Junge sintetizar bem o clima daqueles momentos: \u201cum pesadelo do qual n\u00e3o se consegue acordar\u201d. O clima de pesadelo intermin\u00e1vel est\u00e1 expl\u00edcito no olhar sempre assustadi\u00e7o e incr\u00e9dulo da secret\u00e1ria, real\u00e7ado pelos belos e expressivos olhos da atriz; e em cenas como a do telegrafista que termina perambulando sozinho num bunker fantasma. De sua parte, Eva Braun, a amante de Hitler, que s\u00f3 assume o casamento \u00e0s v\u00e9speras do suic\u00eddio, ri histericamente o filme inteiro, como que para n\u00e3o encarar a realidade. Um exerc\u00edcio de fuga da realidade, \u00e9 no que se converte a vida da entourage do F\u00fchrer em suas horas finais.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">O pr\u00f3prio Hitler s\u00f3 consegue explicar o fracasso como uma trai\u00e7\u00e3o da parte dos generais. \u201cDevia ter fuzilado os generais, como Stalin fez\u201d. Os oficiais da Wehrmacht (o ex\u00e9rcito regular alem\u00e3o), representantes da velha aristocracia prussiana, como Weidling, provavelmente n\u00e3o apreciavam muito aquele cabo austr\u00edaco ignorante, mas cumpriram germanicamente seu dever. E o F\u00fchrer se lamenta por n\u00e3o t\u00ea-los fuzilado, justamente aos generais, que \u00e0quela altura s\u00e3o os \u00fanicos elementos com algum grau de compromisso com a racionalidade!<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A racionalidade n\u00e3o era o forte de Hitler, nem do regime nazista, com sua confusa sobreposi\u00e7\u00e3o de hierarquias e estruturas: governo, Partido Nazista, Wehrmacht, SS e SA, mil\u00edcia popular, juventude hitlerista, etc.; todos desfilando em seus vistosos figurinos. Nas horas finais, os civis eram fuzilados sob a acusa\u00e7\u00e3o de deser\u00e7\u00e3o. O pequeno Peter Kranz, her\u00f3i ultra-tardio e ef\u00eamero da juventude hitlerista, viu seus pais serem mortos pelos mesmos homens a quem seguia dias antes.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">O regime de Stalin n\u00e3o era t\u00e3o irracional, mas era igualmente brutal. Stalin de fato fuzilou os generais do Ex\u00e9rcito Vermelho, por medo de competi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Com isso ele decapitou a resist\u00eancia sovi\u00e9tica, que quase sucumbiu \u00e0 \u201cOpera\u00e7\u00e3o Barbarossa\u201d alem\u00e3. No momento de que tratamos, por\u00e9m, isso j\u00e1 era passado. O Ex\u00e9rcito Vermelho havia tomado novo impulso. Testemunhamos aqui os momentos finais da contra-ofensiva sovi\u00e9tica. Os russos n\u00e3o t\u00eam uma face humana identific\u00e1vel na maior parte do filme e s\u00e3o sentidos apenas por meio das bombas que caem implac\u00e1veis. Os soldados s\u00f3 se tornam vis\u00edveis no final, dan\u00e7ando a balalaica pela vit\u00f3ria.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Terminados os combates, a secret\u00e1ria e o pequeno Peter passam, temerosos, pelo cerco de soldados russos. T\u00eam-se tentado censurar Junge por ter permanecido at\u00e9 o fim fiel ao regime. \u00c9 preciso dizer, por\u00e9m, que a \u201chero\u00edna\u201d do filme se comporta da maneira mais natural que se poderia esperar nas circunst\u00e2ncias. Como exigir de uma secret\u00e1ria que perceba a barb\u00e1rie que era o regime nazista e abandone o F\u00fchrer no meio do filme, ou melhor, da guerra?<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Claro, n\u00e3o embarcamos aqui no discurso de defesa usado em Nuremberg, em que os nazistas se justificam dizendo que estavam apenas \u201ccumprindo ordens\u201d. Goebbels \u00e9 muito claro a respeito: \u201co povo alem\u00e3o escolheu seu destino, n\u00e3o foi for\u00e7ado a nada\u201d. Mas uma secret\u00e1ria n\u00e3o \u00e9 uma oficial da SS, ou seja, n\u00e3o tem o mesmo grau de responsabilidade. No quadro tra\u00e7ado pelo filme, Junge \u00e9 uma esp\u00e9cie de representante do povo alem\u00e3o comum. Para o \u201cpovo alem\u00e3o comum\u201d, o nazismo era a forma de governo do pa\u00eds, e era-se fiel a ele como se seria a qualquer outro. Para o cidad\u00e3o alem\u00e3o comum, o regime do pa\u00eds era nazista, mas poderia ser stalinista ou monarquista, e mesmo assim esse \u201calem\u00e3o comum\u201d o defenderia. O Estado moderno de modo geral sempre p\u00f4de contar com um certo grau de chauvinismo espont\u00e2neo das massas, como contou na I Guerra.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O que queremos dizer aqui \u00e9 que o povo alem\u00e3o \u00e9 t\u00e3o culpado de ter aderido ao regime na II Guerra como o foi na I Grande Guerra. \u00c9 um pouco mais, porque o regime do pa\u00eds era nazista. N\u00e3o relativizamos a afirma\u00e7\u00e3o de que o nazismo \u00e9 o paroxismo do mal, mas a completamos pela pondera\u00e7\u00e3o de que o imperialismo do Kaiser estava poucos \u201cgraus de maldade\u201d abaixo. Assim como o imperialismo brit\u00e2nico, o franc\u00eas, o estadunidense ou o japon\u00eas daquelas mesmas d\u00e9cadas. O nazismo \u00e9 uma forma um pouco mais degenerada, um imperialismo com hidrofobia.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Hitler, o c\u00e3o raivoso-mor, entre um latido e outro, diz que \u201cas decadentes democracias ocidentais ser\u00e3o vencidas pelos disciplinados povos do leste\u201d, como se estivesse enunciando uma profunda verdade geopol\u00edtica, coisa que n\u00e3o tinha nenhuma habilita\u00e7\u00e3o para fazer, na sua condi\u00e7\u00e3o de absoluto diletante. Chegamos assim ao ponto aludido do lugar do nazismo na luta de classes. Com toda a contradi\u00e7\u00e3o interimperialista que havia, os Aliados estavam no mesmo campo de classe do nazismo. \u201cA Queda\u201d deixa isso inequivocamente claro. Goebbels n\u00e3o aceita se render para os comunistas. Himmler j\u00e1 sugerira render-se aos aliados, antes de deixar Berlim. Para os nazistas, os Aliados eram apenas advers\u00e1rios, decadentes, mas aceit\u00e1veis; enquanto que russos eram o mal absoluto, o nada.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Os russos estavam sob o tac\u00e3o de um regime, dissemos acima, t\u00e3o terrorista quanto o pr\u00f3prio nazismo. O stalinismo era um aborto monstruoso do socialismo. No entanto, com todos os retrocessos das d\u00e9cadas de 1920 e 30, o povo russo ainda se achava em alguma medida mobilizado para a defesa de seu pa\u00eds. Em suas veias ainda ardia a chama da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro. Sob esse ponto de vista da defesa das conquistas da revolu\u00e7\u00e3o, apenas a Segunda Guerra trouxe a conclus\u00e3o da guerra civil revolucion\u00e1ria. Os Partidos Comunistas lideraram a resist\u00eancia ao nazismo na maior parte da Europa. As revolu\u00e7\u00f5es que se seguiram \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o nacional foram tamb\u00e9m tra\u00eddas pelo stalinismo, mas isso j\u00e1 \u00e9 uma outra hist\u00f3ria&#8230;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">Daniel M. Delfino<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">26\/05\/2005<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<h1>&ldquo;A QUEDA&rdquo;:<\/h1>\n<h1>CONTRADI&Ccedil;&Otilde;ES DO NAZISMO<\/h1>\n<h1><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/h1>\n<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/span>Nome original: Untergang, der<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9,76],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=48"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6134,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48\/revisions\/6134"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=48"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=48"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=48"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}