{"id":4808,"date":"2016-09-10T18:59:33","date_gmt":"2016-09-10T21:59:33","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=4808"},"modified":"2018-04-30T20:42:13","modified_gmt":"2018-04-30T23:42:13","slug":"jornal-93-capital-genocidio-indigena-e-agronegocio-no-mato-grosso-do-sul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2016\/09\/jornal-93-capital-genocidio-indigena-e-agronegocio-no-mato-grosso-do-sul\/","title":{"rendered":"Jornal 93: Capital, genoc\u00eddio ind\u00edgena e agroneg\u00f3cio no Mato Grosso do Sul"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Rafael Rossi<\/p>\n<h1>Desenvolvimento capitalista e agricultura no Brasil<\/h1>\n<p><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/3.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-4809 alignright\" src=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/3-300x157.jpg\" alt=\"3\" width=\"300\" height=\"157\" srcset=\"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/3-300x157.jpg 300w, https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/3.jpg 600w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>O genoc\u00eddio ind\u00edgena em nosso pa\u00eds n\u00e3o \u00e9 exclusivo da atualidade. \u00c0 \u00e9poca da chegada dos portugueses, estima-se que haviam entre 3 a 4 milh\u00f5es de ind\u00edgenas e, hoje, s\u00e3o algo em torno de 300 a 400 mil habitantes. Boa parte dos fatores hist\u00f3ricos que se relacionam a essa chacina se referem \u00e0 maneira como a agricultura, historicamente no Brasil, obedeceu \u00e0s demandas de cada momento da reprodu\u00e7\u00e3o do capital em escala internacional. Desse modo, para entendermos a barb\u00e1rie que ocorre n\u00e3o s\u00f3 com os ind\u00edgenas em Mato Grosso do Sul, mas, em todo territ\u00f3rio nacional com a classe trabalhadora, devemos associar esta discuss\u00e3o \u00e0 g\u00eanese do agroneg\u00f3cio e sua vincula\u00e7\u00e3o com o capital.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso compreender que o agroneg\u00f3cio n\u00e3o \u00e9 apenas uma \u201ct\u00e9cnica\u201d de agricultura ou um \u201cmodelo\u201d. Trata-se da din\u00e2mica mais prop\u00edcia para garantir na atualidade as necessidades de reprodu\u00e7\u00e3o do capital na agricultura.<\/p>\n<p>Quando falamos em agroneg\u00f3cio \u00e9 preciso associ\u00e1-lo, sempre, \u00e0 1) concentra\u00e7\u00e3o de terra e renda; 2) concentra\u00e7\u00e3o de poder pol\u00edtico parlamentar; 3) alto n\u00edvel de mecaniza\u00e7\u00e3o das lavouras com intensivo uso de agrot\u00f3xicos (venenos); 4) concentra\u00e7\u00e3o de poder ideol\u00f3gico.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 por um acaso qualquer que a intelectualidade burguesa aponta o agroneg\u00f3cio como \u201co\u201d \u00fanico \u201cmodelo de desenvolvimento\u201d agr\u00e1rio poss\u00edvel, j\u00e1 que esse corresponde plenamente \u00e0 ordem societ\u00e1ria vigente. Vejamos isso mais de perto: o Brasil, desde 2008, \u00e9 o maior consumidor de agrot\u00f3xicos em escala global, inclusive, v\u00e1rios deles s\u00e3o proibidos em todo o mundo e, aqui, comercializados e utilizados nas planta\u00e7\u00f5es livremente. Em m\u00e9dia, cada brasileiro consome por ano 8 litros de agrot\u00f3xicos presentes na \u00e1gua, nos alimentos e at\u00e9 no ar que respiramos.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 falta de conhecimentos t\u00e9cnicos ou cient\u00edficos que justifica esse alto \u00edndice de consumo de venenos em nossas vidas. Ao contr\u00e1rio, durante a maior parte da hist\u00f3ria da humanidade os homens desenvolveram a pr\u00e1tica da agricultura sem utilizar uma gota de veneno e, ainda hoje, isto \u00e9 mais poss\u00edvel do que nunca.<\/p>\n<p>O que ocorre \u00e9 que a ci\u00eancia e a tecnologia est\u00e3o intimamente articuladas \u00e0s rela\u00e7\u00f5es sociais de produ\u00e7\u00e3o. Toda sociedade necessita transformar a natureza para produzir as condi\u00e7\u00f5es materiais da exist\u00eancia social. Pois bem, as rela\u00e7\u00f5es sociais de produ\u00e7\u00e3o s\u00e3o justamente as rela\u00e7\u00f5es sociais que os homens estabelecem entre si no processo de transforma\u00e7\u00e3o da natureza.<\/p>\n<p>No capitalismo, tais rela\u00e7\u00f5es sociais de produ\u00e7\u00e3o est\u00e3o baseadas na extra\u00e7\u00e3o da mais-valia (veja jornal Espa\u00e7o Socialista n\u00ba 81). Isto quer dizer que tais rela\u00e7\u00f5es sociais de produ\u00e7\u00e3o possuem em sua ess\u00eancia uma estrutura baseada na desigualdade real a partir da forma concreta do trabalho assalariado.<\/p>\n<p>O capitalismo \u00e9 o modo de produ\u00e7\u00e3o historicamente constru\u00eddo mais favor\u00e1vel ao desenvolvimento incontrol\u00e1vel \u2013 nos dizeres de M\u00e9sz\u00e1ros \u2013 do capital. Com efeito, a ci\u00eancia e a tecnologia ser\u00e3o determinadas pelas rela\u00e7\u00f5es sociais de produ\u00e7\u00e3o capitalistas e elas ir\u00e3o desenvolver suas fun\u00e7\u00f5es para atender ao capital.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma discuss\u00e3o completamente abandonada na maioria das an\u00e1lises que defendem a agroecologia, por exemplo. Querem, seus defensores, uma \u201cagricultura saud\u00e1vel, sustent\u00e1vel e justa\u201d em prol da \u201csoberania alimentar\u201d etc., todavia, acreditam ser poss\u00edvel fazer isso dentro da sociabilidade capitalista e, portanto, sem romper com o trabalho assalariado, com o Estado e com a explora\u00e7\u00e3o do homem pelo homem. O que estas an\u00e1lises se equivocam \u00e9 imputar uma autonomia absoluta da ci\u00eancia e da tecnologia frente \u00e0s rela\u00e7\u00f5es sociais de produ\u00e7\u00e3o capitalistas, quando na verdade, esta autonomia \u00e9 sempre relativa, isto \u00e9, trata-se de uma autonomia em raz\u00e3o do campo de possibilidades delineado pelo pr\u00f3prio capital.<\/p>\n<p>As ra\u00edzes hist\u00f3ricas do agroneg\u00f3cio se relacionam \u00e0quilo que se convencionou chamar de \u201crevolu\u00e7\u00e3o verde\u201d. Resumidamente, podemos dizer que a revolu\u00e7\u00e3o verde foi o processo hist\u00f3rico pelo qual o capital fez com que, n\u00e3o s\u00f3 no Brasil, mas na Am\u00e9rica Latina como um todo, o uso extensivo de agrot\u00f3xicos e da agricultura passassem a atender uma l\u00f3gica cada vez mais intensa e extensa de produzir para o mercado internacional.<\/p>\n<p>Esse processo contou, em nosso caso, com apoio maci\u00e7o da ditadura militar e teve como consequ\u00eancia a persegui\u00e7\u00e3o e o assassinato de v\u00e1rios trabalhadores rurais que, por diversas vezes, se organizavam em movimentos camponeses de luta pela terra. Um contingente populacional enorme n\u00e3o teve como se manter em suas terras e foram expulsos do campo tendo que se submeter a trabalhos informais e vender sua for\u00e7a de trabalho nas cidades. Foi isso que, costumeiramente, se denominou pelo eufemismo de \u201c\u00eaxodo rural\u201d.<\/p>\n<h1>Agroneg\u00f3cio: um modelo a servi\u00e7o do genoc\u00eddio ind\u00edgena<\/h1>\n<p>Sem a interven\u00e7\u00e3o direta do Estado o agroneg\u00f3cio jamais poderia ter adquirido tamanha for\u00e7a material e ideol\u00f3gica como ocorre em nossos dias. O resultado \u00e9 uma crescente destrui\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica e de milh\u00f5es de vidas humanas. Anualmente, no Brasil, 400.000 mil pessoas s\u00e3o contaminadas por agrot\u00f3xicos e 4.000 chegam a \u00f3bito.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao Mato Grosso do Sul, as regi\u00f5es com maior n\u00edvel de concentra\u00e7\u00e3o da propriedade da terra s\u00e3o o pantanal e centro-sul do estado. Justamente nessa \u00faltima est\u00e1 localizada a maior concentra\u00e7\u00e3o de reservas ind\u00edgenas e de assentamentos rurais e, dessa forma, tamb\u00e9m \u00e9 uma das regi\u00f5es com maior genoc\u00eddio dos ind\u00edgenas e de trabalhadores rurais por jagun\u00e7os dos latifundi\u00e1rios.<\/p>\n<p>De acordo com dados levantados pelo Conselho Indigenista Mission\u00e1rio \u2013 CIMI \u2013 ao menos 500 ind\u00edgenas foram assassinados na \u00faltima d\u00e9cada e durante os governos de Lula e Dilma houve o menor n\u00famero de demarca\u00e7\u00f5es de terras. Desde 2006 em torno de 50 ind\u00edgenas s\u00e3o mortos por ano em todo o pa\u00eds e a maioria ocorre em MS, sendo o estado que registrou a maior viol\u00eancia em todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Importante notar que s\u00e3o dois processos que ocorrem ao mesmo tempo e articulados pela mesma necessidade de reprodu\u00e7\u00e3o do capital em nosso momento e contexto hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar temos cada vez menos terras ind\u00edgenas sendo demarcadas, com um aumento do assassinato e do suic\u00eddio de suas popula\u00e7\u00f5es. Em 2013, ainda de acordo com dados do CIMI, 73 ind\u00edgenas cometeram suic\u00eddio, sendo a maioria do povo Guarani-Kaiow\u00e1 entre 15 e 30 anos de idade. Em segundo lugar, a bancada ruralista financiada pelo agroneg\u00f3cio faz avan\u00e7ar as legisla\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para aumentar o consumo de agrot\u00f3xicos, aumentar a destrui\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica com avan\u00e7o dos diversos cultivos em \u00e1reas que, at\u00e9 ent\u00e3o, eram consideradas de preserva\u00e7\u00e3o permanente e, al\u00e9m de tudo isso, a apropria\u00e7\u00e3o ilegal \u2013 por meio de grilagem de terras, principalmente \u2013 de vastas extens\u00f5es territoriais por grandes multinacionais internacionais que se apropriam, inclusive, das reservas de \u00e1gua dispon\u00edveis no estado.<\/p>\n<p>Um dado alarmante para termos dimens\u00e3o do n\u00edvel da barb\u00e1rie que o capital opera em Mato Grosso do Sul atrav\u00e9s do agroneg\u00f3cio: a \u00e1rea total desse estado \u00e9 de pouco mais de 35 milh\u00f5es de hectares. Os Guarani-Kaiow\u00e1s ocupam algo ao redor de 35 mil hectares do estado. De acordo com dados do CIMI, as terras reivindicadas pelos ind\u00edgenas totalizam algo perto de 900 mil hectares, portanto, menos de 2,5% do territ\u00f3rio de Mato Grosso do Sul.<\/p>\n<p>A conclus\u00e3o n\u00e3o poderia ser outra: sob a l\u00f3gica do capital sempre haver\u00e1 mais terras para pasto para atender as necessidades da pecu\u00e1ria desenvolvida pelas classes dominantes do que terras para fam\u00edlias de trabalhadores ou de ind\u00edgenas criarem seus filhos.<\/p>\n<p>O genoc\u00eddio das popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas n\u00e3o ser\u00e1 resolvido por movimentos sociais, sindicais ou ONG\u00b4s que apenas intentam a cria\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas e mais recursos para os pequenos agricultores, numa clara postura reformista que acredita na \u201camplia\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica do Estado\u201d. A luta socialista, tamb\u00e9m aqui, precisa estar orientada pela supera\u00e7\u00e3o total do capital, do Estado, da propriedade privada e das classes sociais. \u00c9 preciso repetir incansavelmente que: \u201cAbandonado o horizonte comunista, todos os gatos tornam-se pardos\u201d (S. Lessa).<\/p>\n<h1>Informa\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis em:<\/h1>\n<p>BOAS, K. V. Mato Grosso do Sul concentra mais de 60% dos assassinatos de ind\u00edgenas do Brasil. 2016. Dispon\u00edvel em: http:\/\/migre.me\/uN1kq. Acesso: ago. 2016.<\/p>\n<p>C\u00c9ZAR, J. Agrot\u00f3xicos contaminam 400 mil pessoas por ano no Brasil. 2013. Dispon\u00edvel em http:\/\/migre.me\/uN1qA. \u00daltimo acesso: ago. 2016.<\/p>\n<p>MST. Dez empresas s\u00e3o donas de 73% das sementes de todo o mundo. 2014. Dispon\u00edvel em: http:\/\/migre.me\/uN1ug. Acesso em: ago. 2016.<\/p>\n<p>MULLER, I. Ao menos 50 ind\u00edgenas s\u00e3o assassinados ao ano no Brasil, mostram dados do CIMI. 2013. Dispon\u00edvel em: http:\/\/migre.me\/uN254. Acesso: ago. 2016.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rafael Rossi Desenvolvimento capitalista e agricultura no Brasil O genoc\u00eddio ind\u00edgena em nosso pa\u00eds n\u00e3o \u00e9 exclusivo da atualidade. \u00c0<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":4809,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[70,6,77],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4808"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4808"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4808\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5878,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4808\/revisions\/5878"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4809"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4808"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4808"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4808"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}