{"id":4838,"date":"2016-09-21T15:38:02","date_gmt":"2016-09-21T18:38:02","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=4838"},"modified":"2018-04-30T20:42:06","modified_gmt":"2018-04-30T23:42:06","slug":"4838","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2016\/09\/4838\/","title":{"rendered":"Nem Academicismo Burgu\u00eas, Nem Praticismo Infantil"},"content":{"rendered":"<style type=\"text\/css\"><!-- p.sdfootnote-western { margin-bottom: 0.14in; font-family: \"Calibri\",sans-serif; font-size: 10pt; line-height: 115%; }p.sdfootnote-cjk { margin-bottom: 0.14in; font-family: \"Calibri\",sans-serif; font-size: 10pt; line-height: 115%; }p.sdfootnote-ctl { margin-bottom: 0.14in; font-family: \"Times New Roman\",serif; font-size: 10pt; line-height: 115%; }p { margin-bottom: 0.1in; direction: ltr; color: rgb(0, 0, 0); line-height: 120%; orphans: 2; widows: 2; }p.western { font-family: \"Calibri\",sans-serif; font-size: 11pt; }p.cjk { font-family: \"Calibri\",sans-serif; font-size: 11pt; }p.ctl { font-family: \"Times New Roman\",serif; font-size: 11pt; }a.sdfootnoteanc { font-size: 57%; } --><\/style>\n<p lang=\"pt-BR\" style=\"text-align: right;\">Prof. Dr. Rafael Rossi<sup><a href=\"#sdfootnote1sym\" name=\"sdfootnote1anc\"><sup>1<\/sup><\/a><\/sup><\/p>\n<p lang=\"pt-BR\" style=\"text-align: right;\">Desconhecedores da hist\u00f3ria, mesmo da hist\u00f3ria<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\" style=\"text-align: right;\">brasileira mais recente, os praticistas<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\" style=\"text-align: right;\">s\u00e3o incapazes de um projeto estrat\u00e9gico.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\" style=\"text-align: right;\">N\u00e3o lhes resta alternativa sen\u00e3o responder<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\" style=\"text-align: right;\">aos acontecimentos correndo atr\u00e1s dos fatos<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\" style=\"text-align: right;\">como jumentos atr\u00e1s da cenoura:<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\" style=\"text-align: right;\">n\u00e3o h\u00e1 possibilida\u00adde de alcan\u00e7\u00e1-la. (S. Lessa)<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\"><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/marxengels.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-4839 alignright\" src=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/marxengels-300x231.jpg\" alt=\"marxengels\" width=\"300\" height=\"231\" srcset=\"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/marxengels-300x231.jpg 300w, https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/marxengels.jpg 500w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Muitos companheiros, alguns bem intencionados, colocam o velho problema da rela\u00e7\u00e3o entre teoria e pr\u00e1tica constantemente. Alguns deles chegam a afirmar que a teoria j\u00e1 est\u00e1 pronta e que \u00e9 preciso \u201cfazer na pr\u00e1tica o que deve ser feito\u201d e que a teoria, desse modo, supostamente at\u00e9 atrapalharia nessa tarefa. Gostaria de lembrar, sem arrog\u00e2ncia alguma e tentando o di\u00e1logo com esses companheiros, que Marx certa vez afirmou enfaticamente: \u201cA ignor\u00e2ncia jamais ajudou algu\u00e9m!\u201d.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Nesse ponto, coloco a pergunta: Ser\u00e1 que n\u00f3s, direta ou indiretamente ligados \u00e0 classe trabalhadora, sabemos, de fato, \u201caquilo que deve ser feito\u201d? Todos n\u00f3s temos conhecimento de qual a origem e como \u00e9 o funcionamento desta forma de sociabilidade? Todos n\u00f3s sabemos, efetivamente, a origem e a fun\u00e7\u00e3o social do Estado? Todos n\u00f3s sabemos sobre qual o horizonte da luta dos trabalhadores rumo \u00e0 emancipa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Creio que por uma s\u00e9rie de condicionantes materiais, nosso cotidiano inserido numa din\u00e2mica maior dominada pelo capital, impede de v\u00e1rias, in\u00fameras e diversas maneiras com que possamos realmente compreender em profundidade essas quest\u00f5es que elenquei acima e muitas outras de absoluta import\u00e2ncia para a luta socialista. De modo geral, \u00e9, na atualidade, o praticismo\/voluntarista que domina as mentes e os cora\u00e7\u00f5es de v\u00e1rios militantes e intelectuais:<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\" style=\"text-align: right;\">Nos dias em que vivemos, h\u00e1 uma concep\u00e7\u00e3o te\u00f3rica que \u00e9 comum \u00e0 maioria das pessoas que se prop\u00f5em \u201crevolucion\u00e1rias\u201d: ao tratar da rela\u00e7\u00e3o entre a pr\u00e1tica \u2013 para continuarmos imprecisos \u2013 \u201ctransformadora\u201d e a teoria, <strong>a pr\u00e1tica \u00e9 fetichizada at\u00e9 se transformar na esfera produtora e resolutiva da teoria.<\/strong> Como se os problemas te\u00f3ricos colocados pela pr\u00e1tica revolucion\u00e1ria pudessem ser resolvidos no interior da pr\u00f3pria pr\u00e1tica sem nenhum esfor\u00e7o te\u00f3rico [&#8230;] <strong>Se dizemos que a teoria \u00e9 importante e, contudo, n\u00e3o estudamos, \u00e9 porque ela n\u00e3o \u00e9 importante para n\u00f3s. N\u00f3s somos o que n\u00f3s fa\u00adzemos, n\u00e3o o que desejamos ou pensamos que somos.<\/strong> N\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o moral; h\u00e1 uma raz\u00e3o ontol\u00f3gica para esse fato (LESSA, 2014 b, p. 80 e p. 11, grifos nossos).<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Para Marx a teoria, como diz Jos\u00e9 Paulo Netto, \u00e9 \u201ca reprodu\u00e7\u00e3o ideal do movimento real do objeto pelo sujeito que pesquisa\u201d e, por meio da teoria, \u201co sujeito reproduz em seu pensamento a estrutura e a din\u00e2mica do objeto que pesquisa\u201d. Esta reprodu\u00e7\u00e3o ser\u00e1, com efeito, \u201ctanto mais correta e verdadeira quanto mais fiel o sujeito for ao objeto\u201d (NETTO, 2009, p. 776).<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Vejam que, nesta abordagem do conhecimento te\u00f3rico, est\u00e1 exclu\u00edda toda e qualquer atitude perto do \u201cacademicismo burgu\u00eas\u201d que domina os ambientes universit\u00e1rios. Para o \u201cacademicismo burgu\u00eas\u201d, dentre v\u00e1rios outros aspectos, h\u00e1 1) uma <strong>hipervaloriza\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo<\/strong> (e uma desclassifica\u00e7\u00e3o, inclusive, da exist\u00eancia das classes sociais, que passam a ser encaradas enquanto \u201cgrupos\u201d, \u201cfam\u00edlias\u201d, \u201csetores da sociedade\u201d e outras baboseiras); 2) uma <strong>perspectiva irracionalista<\/strong> na compreens\u00e3o e explica\u00e7\u00e3o do ser social e das diversas forma\u00e7\u00f5es sociais espec\u00edficas (abandonando pra bem longe do debate a categoria do trabalho que, para muitos, n\u00e3o \u00e9 exclusiva do ser social, pois, para estes pseudointelectuais aranhas, abelhas etc. tamb\u00e9m trabalham!); 3) uma <strong>supervaloriza\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia\/subjetividade<\/strong> (a realidade seria, para eles, fruto exclusivo do pensamento e que pelo pr\u00f3prio pensamento por si s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel realizar grandes transforma\u00e7\u00f5es como por exemplo as famosas campanhas de \u201cconscientiza\u00e7\u00e3o\u201d); 4) a <strong>defesa de uma ess\u00eancia humana<\/strong> imut\u00e1vel, <strong>essencialmente burguesa<\/strong>, mesquinha e concorrencial (com isso \u201cnaturaliza-se\u201d as desigualdades sociais e a explora\u00e7\u00e3o do homem pelo homem, inclusive, com o argumento da insuperabilidade desta sociedade capitalista e do Estado).<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Todo este movimento n\u00e3o est\u00e1 apartado da crise estrutural do capital que enfrentamos em nossos dias. Esta crise se diferencia de todas as outras, sendo bem r\u00e1pido em nosso debate, em fun\u00e7\u00e3o de n\u00e3o ser mais poss\u00edvel ao capital deslocar suas contradi\u00e7\u00f5es \u201cexplosivas\u201d \u2013 como diria M\u00e9sz\u00e1ros \u2013 de um territ\u00f3rio para outro. Cada vez mais fica expl\u00edcito de v\u00e1rias maneiras que esta crise estrutural afeta a totalidade da vida social. N\u00e3o h\u00e1 um lugar, regi\u00e3o, territ\u00f3rio, pa\u00eds ou continente que n\u00e3o sofra seus efeitos em todas as dimens\u00f5es sociais. Isto tamb\u00e9m se faz presente na classe trabalhadora em sua forma\u00e7\u00e3o ideopol\u00edtica e no \u00e2mbito da produ\u00e7\u00e3o do conhecimento que, acentuadamente, rebaixa seu n\u00edvel de compreens\u00e3o do real a patamares cada vez mais transcendentais, mega idealistas e que se distancia da realidade a passos largos e velozes (M\u00c9SZ\u00c1ROS, 2002).<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Marx, ao partir da an\u00e1lise da <strong>atividade prim\u00e1ria essencial<\/strong> de constitui\u00e7\u00e3o <strong>do ser social<\/strong> que \u00e9 <strong>o trabalho<\/strong>, percebeu que entre a subjetividade e a objetividade h\u00e1 uma articula\u00e7\u00e3o \u2013 apesar se serem dimens\u00f5es distintas \u2013 intr\u00ednseca. Para efetivar atos de trabalho, os homens devem refletir corretamente (por reflexo aqui n\u00e3o deve ser entendido nenhum \u201cespelhismo mec\u00e2nico\u201d) as condi\u00e7\u00f5es materiais da realidade objetiva. Este reflexo, ou melhor, este \u201cconhecimento objetivo\u201d \u2013 nas palavras de Luk\u00e1cs (1981) \u2013 \u00e9 uma reprodu\u00e7\u00e3o, a n\u00edvel de pensamento, das din\u00e2micas que operam na pr\u00f3pria causalidade natural. Sem este conhecimento objetivo \u00e9 imposs\u00edvel que aquele fim previamente idealizado seja, com efeito, objetivado. O fim, a finalidade orientada \u00e9 algo de suma relev\u00e2ncia para a consci\u00eancia humana deixar de ser um mero epifen\u00f4meno, como ocorre no mundo animal. Todavia, ela deve reproduzir idealmente a legalidade (no sentido de movimento pr\u00f3prio) da realidade social. Isso \u00e9 evidente quando Luk\u00e1cs afirma que a finalidade possui origem numa necessidade social, portanto, humana, e ela deve realizar um conhecimento da natureza para que a pr\u00f3pria finalidade n\u00e3o permane\u00e7a enquanto um \u201cmero projeto ut\u00f3pico\u201d, um \u201csonho, como, por exemplo, o voo foi um sonho desde \u00cdcaro at\u00e9 Leonardo e at\u00e9 um bom tempo depois\u201d (LUK\u00c1CS, 1981, p. 18). Em raz\u00e3o disto que:<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\" style=\"text-align: right;\">Uma vez que a pesquisa da natureza, indispens\u00e1vel ao trabalho, est\u00e1, antes de mais nada, concentrada na prepara\u00e7\u00e3o dos meios, s\u00e3o estes os principais portadores da garantia social de que os resultados dos processos de trabalho permane\u00e7am fixados, que haver\u00e1 tanto uma continuidade como, especialmente, um aperfei\u00e7oamento na experi\u00eancia laboral. \u00c9 por isso que o conhecimento mais adequado que fundamenta os meios (utens\u00edlios, etc.) \u00e9, muitas vezes, para o ser social, mais importante do que a satisfa\u00e7\u00e3o daquela necessidade (finalidade). (LUK\u00c1CS, 1981, p. 19)<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Deste modo, o essencial, no trabalho, est\u00e1 na transforma\u00e7\u00e3o da natureza para a produ\u00e7\u00e3o dos valores de uso e, ao mesmo tempo a transforma\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria natureza humana. Com o trabalho \u2013 \u00fanica categoria de claro car\u00e1ter intermedi\u00e1rio<sup><a href=\"#sdfootnote2sym\" name=\"sdfootnote2anc\"><sup>2<\/sup><\/a><\/sup>, no sentido de ser a \u00fanica categoria que estabelece o interc\u00e2mbio org\u00e2nico da sociedade com a natureza \u2013 h\u00e1 o surgimento de novos complexos sociais que ter\u00e3o fun\u00e7\u00f5es distintas no processo de reprodu\u00e7\u00e3o social. Este processo de reprodu\u00e7\u00e3o social ser\u00e1, portanto, sempre a cria\u00e7\u00e3o do novo e n\u00e3o a reposi\u00e7\u00e3o do mesmo como ocorre com a reprodu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica (LESSA 2014 a). Na natureza, nos explica Luk\u00e1cs, \u201ca consci\u00eancia animal jamais vai al\u00e9m de um melhor servi\u00e7o prestado \u00e0 exist\u00eancia biol\u00f3gica e \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o e por isso, considerada ontologicamente, \u00e9 um epifen\u00f4meno do ser org\u00e2nico\u201d (LUK\u00c1CS, 1981, p. 25).<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">No trabalho est\u00e3o contidas \u2013 \u201cem germe\u201d \u2013 as determina\u00e7\u00f5es que constituir\u00e3o a ess\u00eancia dos novos complexos no ser social (LUK\u00c1CS, 1981). Entretanto, todo este processo s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel se a finalidade elaborada idealmente conseguir captar, apreender, idealmente, no plano da subjetividade, a l\u00f3gica e as tend\u00eancias reais e operantes. Em raz\u00e3o disto que:<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\" style=\"text-align: right;\"><strong>Para Marx, n\u00e3o h\u00e1 atividade humana que n\u00e3o seja uma s\u00edntese de pensamento e transforma\u00e7\u00e3o do real.<\/strong> Toda e qualquer a\u00e7\u00e3o hu\u00admana \u00e9, na concep\u00e7\u00e3o marxiana, uma transforma\u00e7\u00e3o do real orien\u00adtada por uma pr\u00e9via-idea\u00e7\u00e3o. Em poucas palavras, <strong>a especificidade ontol\u00f3gica do ser social est\u00e1 na sua capacidade de teleologicamente transformar o real.<\/strong><\/p>\n<p lang=\"pt-BR\" style=\"text-align: right;\"><strong>Tanto a atividade humana mais primordial<\/strong>, a transforma\u00e7\u00e3o dire\u00adta da natureza para a produ\u00e7\u00e3o de valores de uso, <strong>como a atividade social mais desenvolvida, como a luta pol\u00edtica<\/strong> ou a produ\u00e7\u00e3o de obras de arte, <strong>s\u00e3o sempre<\/strong> e necessariamente <strong>s\u00ednteses de pr\u00e9vias-i\u00addea\u00e7\u00f5es com as determina\u00e7\u00f5es causais do mundo objetivo.<\/strong> A cons\u00adci\u00eancia, nesta medida e sentido, \u00e9 \u00f3rg\u00e3o e m\u00e9dium decisivo da repro\u00addu\u00e7\u00e3o social: sem ela n\u00e3o h\u00e1 mundo dos homens (LESSA, 2014 b, p. 93, grifos nossos)<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Isto tamb\u00e9m pode ser verificado, quando Luk\u00e1cs afirma que:<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\" style=\"text-align: right;\">A descri\u00e7\u00e3o do <strong>trabalho<\/strong>, tal como a apresentamos at\u00e9 aqui, embora ainda incompleta, j\u00e1 indica que<strong> com ele surge na ontologia do ser social uma categoria qualitativamente nova<\/strong> com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s precedentes formas de ser tanto do inorg\u00e2nico como do org\u00e2nico. <strong>Esta novidade consiste na realiza\u00e7\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o teleol\u00f3gica como um produto adequado, ideado e desejado.<\/strong> (LUK\u00c1CS, 1981, p. 23, grifos nossos)<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Enfim, podemos dizer que o praticismo centra sua cr\u00edtica numa \u201cteoria que se descola da pr\u00e1tica\u201d e, portanto, \u00e9 a pr\u00e1tica a \u00fanica que deveria ser levada em conta. Todavia, vimos como que, para Marx, a teoria n\u00e3o \u00e9 um guia de verdades a\u00e9reas e incompreens\u00edveis. A teoria \u00e9 a reprodu\u00e7\u00e3o, no plano do pensamento, do pr\u00f3prio movimento hist\u00f3rico e social da realidade objetiva. O pr\u00f3prio Marx j\u00e1 afirmou que as categorias s\u00e3o \u201cformas de ser, determina\u00e7\u00f5es da exist\u00eancia\u201d (MARX, 2011, p. 85). Ali\u00e1s:<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\" style=\"text-align: right;\">Trata-se, pois, <strong>para Marx, de partir n\u00e3o de ideias, especula\u00e7\u00f5es<\/strong> ou fantasias, <strong>mas de fatos reais, \u201cempiricamente verific\u00e1veis\u201d<\/strong>, no caso os indiv\u00edduos concretos, o que eles fazem, <strong>as rela\u00e7\u00f5es que estabelecem entre si e as suas condi\u00e7\u00f5es reais de exist\u00eancia<\/strong>, para ent\u00e3o apreender as determina\u00e7\u00f5es essenciais que caracterizam este tipo de ser e o seu processo de reprodu\u00e7\u00e3o. Vale a pena ressaltar que <strong>a palavra emp\u00edrico tem, aqui, um sentido ontol\u00f3gico e n\u00e3o empiricista<\/strong>. Ou seja, quando Marx diz que estes pressupostos s\u00e3o empiricamente verific\u00e1veis, <strong>est\u00e1 enfatizando o car\u00e1ter de realidade deles em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0s especula\u00e7\u00f5es<\/strong> produzidas apenas pelo automovimento da imagina\u00e7\u00e3o ou da raz\u00e3o. (TONET, 2005, p. 33, grifos nossos)<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Portanto, o primeiro passo \u00e9 saber qual nosso horizonte mais geral, se estamos preocupados a partir dos interesses \u2013 tenham eles consci\u00eancia disso ou n\u00e3o \u2013 dos trabalhadores. Isto n\u00e3o \u00e9 pouca coisa e exige muito de n\u00f3s mesmos. Tanto individualmente para a compreens\u00e3o destas tem\u00e1ticas, quanto em nossa atua\u00e7\u00e3o coletiva junto a outros companheiros que tamb\u00e9m est\u00e3o comprometidos com o projeto revolucion\u00e1rio socialista.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Alguns camaradas compreendem que \u00e9 necess\u00e1rio, por exemplo, a participa\u00e7\u00e3o ativa e o engajamento pr\u00e1tico dos intelectuais nas lutas sociais. Como nos lembra Tonet (2005), os trabalhadores efetuar\u00e3o suas lutas com ou sem a participa\u00e7\u00e3o dos intelectuais. Esta \u00e9 algo imposto pela sua situa\u00e7\u00e3o objetiva, ou seja, pelo local que ocupa no processo produtivo. Todavia, \u00e9 justamente esta posi\u00e7\u00e3o que ocupam no processo produtivo que \u2013 (por exemplo, no capitalismo, cabe aos prolet\u00e1rios a produ\u00e7\u00e3o do capital e da transforma\u00e7\u00e3o da natureza nos meios de produ\u00e7\u00e3o) \u2013 dificulta e impede significativamente que possam se dedicar \u00e0 elabora\u00e7\u00e3o te\u00f3rica. Cabe aos intelectuais, dessa maneira, a elabora\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e \u201cquanto maior for a qualidade desta elabora\u00e7\u00e3o, vale dizer, quanto mais ela permitir compreender o processo real, tanto maior ser\u00e1 a colabora\u00e7\u00e3o que o intelectual prestar\u00e1 \u00e0s classes populares\u201d (TONET, 2005, p. 132). Por isso \u00e9 falso pensar que o compromisso pol\u00edtico do intelectual se mede pelo seu engajamento pr\u00e1tico num movimento social ou pol\u00edtico. O \u201cmomento predominante\u201d, no caso do intelectual, embora n\u00e3o seja o \u00fanico, \u201cque garante este compromisso, \u00e9 a qualidade da sua produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica. Pois, de nada adianta \u00e0quelas classes que o intelectual exer\u00e7a uma intensa atividade pr\u00e1tica enquanto produz uma teoria med\u00edocre\u201d (TONET, 2005, p. 132).<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Temos, decisivamente, que compreender que: \u201cuma pr\u00e1tica sem uma s\u00f3lida teoria que a ilumine \u00e9 uma atividade cega. O cego tamb\u00e9m pode realizar in\u00fameras atividades e poder\u00e1 at\u00e9 iludir-se com a quantidade de coisas que faz. Contudo, sem um guia seus esfor\u00e7os resultar\u00e3o in\u00fateis. Este guia, no caso da pr\u00e1tica, \u00e9 a teoria\u201d (TONET, 2005, p. 131). Os efeitos do reformismo praticista\/voluntarista para o movimento dos trabalhadores \u00e9 grav\u00edssimo, com repercuss\u00f5es em suas concep\u00e7\u00f5es de mundo e, tamb\u00e9m e suas estrat\u00e9gias pr\u00e1ticas de luta. Pouqu\u00edssimos s\u00e3o os que, realmente, se dedicam cotidianamente ao estudo revolucion\u00e1rio dos cl\u00e1ssicos da hist\u00f3ria e do marxismo. N\u00e3o \u00e9 por um acaso que \u201cdesprovido Marx de seu fundamento ontol\u00f3gico, ele e Deus podem coabitar a mesma concep\u00e7\u00e3o de mundo!\u201d (LESSA, 2014 b, p. 92). Sem ter claro qual nosso alvo e qual a nossa meta, muito provavelmente, continuaremos a trope\u00e7ar mais de mil vezes em nossos pr\u00f3prios p\u00e9s reverenciando, durante a queda, a ordem burguesa vigente.<\/p>\n<h2 lang=\"pt-BR\">Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/h2>\n<p lang=\"pt-BR\">LESSA, S. Apresenta\u00e7\u00e3o. In: LUK\u00c1CS, G. <strong>Notas para uma \u00c9tica<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Instituto Luk\u00e1cs, 2014 a.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">LESSA, S. <strong>O revolucion\u00e1rio e o estudo \u2013 Por que n\u00e3o estudamos?<\/strong> S\u00e3o Paulo: Instituto Luk\u00e1cs, 2014 b.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">LUK\u00c1CS, G. Il Lavoro. In: <strong>Per una Ontologia dell\u2019essere sociale<\/strong>. Roma: Riuniti, 1981, p. 11-131. (Tradu\u00e7\u00e3o Mimeo.de Ivo Tonet, 145p.)<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">MARX, K. <strong>Grundrisse<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2011.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">M\u00c9SZ\u00c1ROS, I. <strong>Para Al\u00e9m do Capital<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2002.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">NETTO, J. P. Introdu\u00e7\u00e3o ao m\u00e9todo da teoria social. In: Conselho Federal de Servi\u00e7o Social \u2013 CFESS; Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Ensino e Pesquisa em <strong>Servi\u00e7o Social \u2013 ABEPSS. Servi\u00e7o Social: Direitos Sociais e Compet\u00eancias Profissionais<\/strong>. Bras\u00edlia \u2013 DF, p. 769-806, 2009.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">TONET, I. E<strong>duca\u00e7\u00e3o, Cidadania e Emancipa\u00e7\u00e3o Humana<\/strong>. Iju\u00ed: Uniju\u00ed, 2005.<\/p>\n<div id=\"sdfootnote1\">\n<p lang=\"pt-BR\" align=\"justify\"><a href=\"#sdfootnote1anc\" name=\"sdfootnote1sym\">1<\/a><span style=\"font-family: Times New Roman,serif;\">Docente do curso de Licenciatura em Educa\u00e7\u00e3o do Campo, do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Ensino de Ci\u00eancias e do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Recursos Naturais na UFMS em Campo Grande \u2013 MS. E-mail: rafaelrossi6789@hotmail.com<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote2\">\n<p lang=\"pt-BR\"><a href=\"#sdfootnote2anc\" name=\"sdfootnote2sym\">2<\/a> <span style=\"font-family: Times New Roman,serif;\">Luk\u00e1cs (1981).<\/span><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Prof. Dr. Rafael Rossi1 Desconhecedores da hist\u00f3ria, mesmo da hist\u00f3ria brasileira mais recente, os praticistas s\u00e3o incapazes de um projeto<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":4839,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[11,77],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4838"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4838"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4838\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5930,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4838\/revisions\/5930"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4839"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4838"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4838"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4838"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}