{"id":49,"date":"2008-12-13T16:29:27","date_gmt":"2008-12-13T16:29:27","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/?q=node\/49"},"modified":"2018-05-04T21:49:04","modified_gmt":"2018-05-05T00:49:04","slug":"cruzada-ideologia-entre-a-cruz-e-a-espada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2008\/12\/cruzada-ideologia-entre-a-cruz-e-a-espada\/","title":{"rendered":"&#8220;Cruzada&#8221;: Ideologia entre a cruz e a espada"},"content":{"rendered":"<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\"><span style=\"text-transform: uppercase;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<h1><span style=\"text-transform: uppercase;\">\u201cCruzada\u201d: IDEOLOGIA ENTRE A CRUZ E A ESPADA<\/span><\/h1>\n<h1><\/h1>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: center;\" align=\"center\">(Coment\u00e1rio sobre o filme \u201cCruzada\u201d)<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Nome original: Kingdom of heaven<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Produ\u00e7\u00e3o: Inglaterra (UK), Espanha, Estados Unidos, Alemanha<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ano: 2005<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Idiomas: Ingl\u00eas, \u00c1rabe, Alem\u00e3o<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <span lang=\"EN-US\">Diretor: Ridley Scott<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\"><span lang=\"EN-US\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Roteiro: William Monahan<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\"><span lang=\"EN-US\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Elenco: Orlando Bloom, Liam Neeson, Eva Green, Martin Hangcock, Michael Sheen, Nathalie Cox, Eriq Ebouaney, Jouko Ahola, David Thewlis<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">G\u00eanero: a\u00e7\u00e3o, aventura, drama, hist\u00f3ria, guerra<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\"><span lang=\"EN-US\">Fonte: \u201cThe Internet Movie Database\u201d \u2013 <\/span><a href=\"http:\/\/www.imdb.com\/\"><span lang=\"EN-US\">http:\/\/www.imdb.com\/<\/span><\/a><span lang=\"EN-US\">\u00a0 <\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O diretor Ridley Scott \u00e9 um dos poucos realizadores em atividade cuja obra cinematogr\u00e1fica se caracteriza por um eixo de preocupa\u00e7\u00f5es constante. Ao longo de quase tr\u00eas d\u00e9cadas no cinema, onde aportou egresso da publicidade, o cineasta ingl\u00eas deixou uma marca respeit\u00e1vel de mais de uma dezena de filmes, nos quais este escriba julga haver encontrado um certo fio de unidade tem\u00e1tica. Talvez n\u00e3o um fio condutor suficientemente consistente para que seu criador seja chamado de \u201cartista\u201d ou de \u201cautor\u201d conforme as nomenclaturas usuais na cr\u00edtica, mas com certeza peculiar o bastante para identificar uma \u201cpersonalidade\u201d em seus filmes.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ridley Scott invariavelmente coloca um protagonista (ou um pequeno grupo de protagonistas) numa situa\u00e7\u00e3o totalmente estranha ao seu ambiente social original, sob um pretexto qualquer que o(s) tenha levado a afastar-se (uma guerra, uma viagem a um pa\u00eds estrangeiro, ao espa\u00e7o remoto ou em busca de auto-descobrimento, etc.), como forma de explorar os contrastes entre os diferentes ambientes humanos (ou naturais), as condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia que propiciam, os valores que neles vigoram.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">\u00c9 assim tanto em seus cl\u00e1ssicos absolutos, \u201cAlien \u2013 O 8<sup>o<\/sup>. Passageiro\u201d e \u201cBlade Runner\u201d, como nos seus filmes mais subestimados: \u201cOs Duelistas\u201d, \u201cChuva negra\u201d, \u201c1492\u201d; nos filmes muito ruins do tipo \u201cHannibal\u201d e \u201cAt\u00e9 o limite da honra\u201d e nos medianos como \u201cTormenta\u201d e \u201cFalc\u00e3o Negro em Perigo\u201d; naqueles que s\u00e3o sucesso de cr\u00edtica e p\u00fablico tais como \u201cTelma e Louise\u201d e \u201cGladiador\u201d e naqueles em que o diretor foge totalmente ao estilo habitual, como \u201cOs Vigaristas\u201d.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Em todos esses filmes vemos uma esp\u00e9cie de \u201cobservat\u00f3rio humano\u201d em a\u00e7\u00e3o, um \u201czool\u00f3gico\u201d em que os \u201canimais humanos\u201d s\u00e3o expostos fora de seu \u201ch\u00e1bitat\u201d, em situa\u00e7\u00f5es que real\u00e7am seus caracteres e os levam ao seu extremo, para de alguma maneira mostrar sua \u201cverdade\u201d mais profunda. S\u00e3o filmes de observa\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o de tese, evitando expor formalmente essa \u201cverdade profunda\u201d dos personagens e deixando-a em aberto para interpreta\u00e7\u00e3o do espectador.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Isso n\u00e3o significa que o diretor se mantenha inteiramente neutro e n\u00e3o fa\u00e7a escolhas morais\/ideol\u00f3gicas. A escolha se manifesta no pr\u00f3prio estabelecimento do tema, o terreno m\u00ednimo em que se dar\u00e1 o di\u00e1logo. O \u201cobservat\u00f3rio humano\u201d de Ridley Scott volta-se no momento para o fen\u00f4meno das Cruzadas. O epis\u00f3dio escolhido \u00e9 o da reconquista de Jerusal\u00e9m pelos mu\u00e7ulmanos, sob Saladino, em 1184. O ef\u00eamero dom\u00ednio crist\u00e3o sobre a Terra Santa, firmado com a vit\u00f3ria da 1<sup>a<\/sup>. Cruzada em 1096, esvai-se antes de completar um s\u00e9culo.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Esse intervalo de tempo foi o suficiente por\u00e9m para consolidar poderosos interesses materiais. Um reino crist\u00e3o foi criado em Jerusal\u00e9m, c\u00f3pia dos reinos medievais europeus com suas hierarquias e rela\u00e7\u00f5es, seus nobres e vassalos. O \u00faltimo rei crist\u00e3o de Jerusal\u00e9m, Baldu\u00edno IV (Edward Norton desperdi\u00e7ado atr\u00e1s de uma m\u00e1scara), \u00e9 doente de lepra e n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de defender seu reino do avan\u00e7o dos mu\u00e7ulmanos, liderados pelo grande sult\u00e3o Saladino. A tarefa caber\u00e1 ao herdeiro do trono, um certo Guy de Lusignan, casado com Sybilla (a bel\u00edssima Eva Green), a irm\u00e3 do rei. Entretanto, ao inv\u00e9s de conselheiros s\u00e1bios como Tiberias (Jeremy Irons, num papel decente depois de muito tempo), o cunhado do rei prefere Reinald de Chantillon (Brendan Gleeson, um dos meus atores preferidos, habitu\u00e9 dos \u00e9picos desde \u201cCora\u00e7\u00e3o Valente\u201d), um Templ\u00e1rio fan\u00e1tico que n\u00e3o pensa em nada al\u00e9m de provocar os mu\u00e7ulmanos. \u201c\u00c9 um servi\u00e7o que algu\u00e9m tem que fazer\u201d, ele parece dizer, ao chacinar os \u201cinfi\u00e9is\u201d que encontra pelo caminho.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">As provoca\u00e7\u00f5es de Chantillon desencadeiam a guerra contra o ex\u00e9rcito muito mais poderoso de Saladino (um dos mais importantes sult\u00f5es da hist\u00f3ria), que vinha h\u00e1 tempos reagrupando o lado mu\u00e7ulmano para reconquistar Jerusal\u00e9m. \u00c9 nesse cen\u00e1rio que aparece Balian (Orlando Bloom, o ponto fraco do filme), filho do bar\u00e3o Godfrey de Ibelin (Liam Neeson, que est\u00e1 se especializando no papel do mestre-simp\u00e1tico-que-morre-logo-no-come\u00e7o; vide \u201cAmea\u00e7a fantasma\u201d, \u201cGangues de NY\u201d e este \u201cCruzada\u201d). O filho bastardo do nobre embarca na viagem, apesar de alguma relut\u00e2ncia (e assim temos o \u201cobservat\u00f3rio\u201d em a\u00e7\u00e3o). Em Jerusal\u00e9m ele procurar\u00e1 salva\u00e7\u00e3o para sua alma atormentada pelo suic\u00eddio da esposa; assim como o pr\u00f3prio Godfrey, ao ir at\u00e9 uma oficina de ferreiro para encontrar o filho bastardo, procurava se redimir do estupro com que o concebeu anos antes.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">A acidentada viagem que conduz Balian do interior da Fran\u00e7a ao seu feudo em Ibelin, na Palestina crist\u00e3, lhe permitir\u00e1 incorporar os valores da cavalaria (na impressionante cena do juramento perante um pai moribundo); fazer amizade com um nobre mu\u00e7ulmano (o que ter\u00e1 providencial utilidade em aventuras futuras); ser aceito na corte de Jerusal\u00e9m (e no leito da rainha); experimentar o governo de seu pequeno territ\u00f3rio; e destacar-se como her\u00f3i de guerra, paradoxalmente, defendendo o castelo do provocador Chantillon (em um pl\u00e1gio expl\u00edcito da marcha de Faramir para a morte certa em \u201cO Retorno do Rei\u201d).<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">A trajet\u00f3ria de Balian, e n\u00e3o apenas a atua\u00e7\u00e3o de Orlando Bloom, constitui o ponto fraco do filme. O personagem parece deslizar pelos acontecimentos sem experimentar qualquer esp\u00e9cie de conflito, sem ser interiormente transformado por eles. A lenda de seu pai o precede e aplaina o caminho para que se torne um her\u00f3i, como numa esp\u00e9cie de predestina\u00e7\u00e3o. Sem que se perceba como, ele \u00e9 identificado com as id\u00e9ias e as virtudes de seu pai, sem que vejamos onde as adquiriu. E, mais complicado que isso, ele se torna o defensor de Jerusal\u00e9m, sem que se explique propriamente quando aprendeu a lutar, a comandar, a organizar defesas, contra-atacar m\u00e1quinas de ass\u00e9dio, etc.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Ele sabe tudo isso simplesmente porque \u00e9 o mocinho do filme, como est\u00e1 no \u201cscript\u201d, n\u00e3o porque tenha adquirido tais conhecimentos ao longo dos acontecimentos. Pois os acontecimentos se sucedem num ritmo muito r\u00e1pido, acidentado e desconexo, justapostos numa edi\u00e7\u00e3o negligente. Sem consist\u00eancia dram\u00e1tica por parte do roteiro e sem um ator de carisma suficiente (o gladiador de Russel Crowe esmagaria o cruzado de Orlando Bloom como um inseto), Balian funciona apenas como uma esp\u00e9cie de alter-ego neutro do espectador, que trafega pelo cen\u00e1rio, sem se afetar muito por ele.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Provavelmente, Ridley Scott estava mais interessado no contexto do que no personagem em si. Nesse ponto ele se sai melhor do que na condu\u00e7\u00e3o frouxa da trama, mesmo sem chegar a ser brilhante. No aspecto t\u00e9cnico, ficamos na m\u00e9dia das superprodu\u00e7\u00f5es. H\u00e1 toda uma reconstitui\u00e7\u00e3o impressionante das batalhas, mas h\u00e1 tamb\u00e9m a tentativa vazia de poetizar a viol\u00eancia com cenas de luta em c\u00e2mera lenta e violinos chorosos, completados por uma esp\u00e9cie de canto gregoriano, que n\u00e3o comovem mais ningu\u00e9m. O que indica uma evidente satura\u00e7\u00e3o do g\u00eanero \u00e9pico.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Isso contudo j\u00e1 era esperado. O que nos interessa aqui \u00e9 como o filme lida com as quest\u00f5es ideol\u00f3gicas que mencionamos no t\u00edtulo. Como se trata de um realizador de primeiro time, passamos longe, \u00e9 claro, da armadilha do manique\u00edsmo vulgar de colocar os crist\u00e3os como \u201cmocinhos\u201d e os mu\u00e7ulmanos como \u201cvil\u00f5es\u201d. Os dois lados choram por seus mortos. Em determinado momento o protagonista pergunta, a respeito da disputa pela cidade sagrada de tr\u00eas religi\u00f5es: \u201cQual direito \u00e9 mais sagrado? Quem tem mais direito?\u201d. Os ecos dessa pergunta ressoam na atualidade, como uma li\u00e7\u00e3o aos fan\u00e1ticos que ainda hoje se matam mutuamente na Palestina.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">H\u00e1 assim um certo equil\u00edbrio e realismo na reconstitui\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. Ao inv\u00e9s de tratar propriamente de uma Cruzada, o filme retrata uma anti-Cruzada de reconquista. Era uma quest\u00e3o de tempo at\u00e9 que os mu\u00e7ulmanos reconquistassem Jerusal\u00e9m; tempo para que ascendesse ao sultanato um governante com a capacidade de Saladino. O mundo mu\u00e7ulmano era muito mais civilizado que a b\u00e1rbara Europa crist\u00e3; desde o come\u00e7o, as cruzadas foram uma empresa prec\u00e1ria e condenada ao fracasso.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">O que restou das cruzadas foi sua lenda. O termo \u201ccruzada\u201d se tornou sin\u00f4nimo de qualquer empreitada her\u00f3ica dispon\u00edvel. George Bush diria que est\u00e1 em uma \u201ccruzada\u201d para implantar a democracia no Iraque. Logo, o termo \u00e9 amb\u00edguo desde o come\u00e7o. Um filme como \u201cCruzada\u201d ter\u00e1 a \u00f3bvia tarefa de resgatar o conceito dessa ambig\u00fcidade em que jaz. \u00c9 nesse ponto que Ridley Scott faz sua escolha, a de uma cruzada como utopia da \u201cconviv\u00eancia pac\u00edfica entre os povos\u201d. Ele defende por\u00e9m essa id\u00e9ia sem muita convic\u00e7\u00e3o, e quando o espectador percebe que \u00e9 disso que se trata, j\u00e1 \u00e9 tarde demais para se interessar pelo filme.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Ridley Scott teve em \u201cCruzada\u201d a ocasi\u00e3o perfeita para discutir pol\u00edtica, moral e religi\u00e3o, relacionando os eventos de quase um mil\u00eanio atr\u00e1s aos dilemas contempor\u00e2neos. A guerra aos infi\u00e9is foi vendida pela Igreja como uma forma de se redimir pecados, com a boa obra de reconquistar a Terra Santa. Nisso se misturavam interesse econ\u00f4micos, poder pol\u00edtico e ideais morais. Um cruzada \u00e9 uma viagem de transforma\u00e7\u00e3o moral\/pessoal, em meio a uma guerra entre povos de civiliza\u00e7\u00f5es diferentes, em nome de valores religiosos, que se prestam por\u00e9m a utiliza\u00e7\u00f5es pol\u00edtico\/econ\u00f4micas. Basicamente, um resumo da hist\u00f3ria da humanidade. Portanto, um tema perfeito para o nosso \u201cobservat\u00f3rio\u201d.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Escaldado por\u00e9m pelo fracasso de Oliver Stone em \u201cAlexander\u201d, o diretor ingl\u00eas preferiu \u201cjogar na retranca\u201d, e acabou produzindo um filme sem intensidade e sem paix\u00e3o. Se \u201cAlexander\u201d peca pelos excessos, \u201cCruzada\u201d peca por omiss\u00e3o. N\u00e3o apenas a edi\u00e7\u00e3o \u00e9 pregui\u00e7osa, mas o roteiro se ressente da falta de compromisso com o tema. Ridley Scott tem sua vis\u00e3o de uma cruzada \u201cpoliticamente correta\u201d, mas se abst\u00e9m de defend\u00ea-la com garra e deixa os personagens soltos ao sabor das conven\u00e7\u00f5es hollywoodianas mais banais.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Quando Balian se torna o defensor de Jerusal\u00e9m, o que entra em cena \u00e9 o plebe\u00edsmo vulgar do cinema estadunidense convencional. Ele \u00e9 o \u201chomem comum\u201d que subverte as hierarquias para lutar por uma cidade onde todos podem rezar por qualquer f\u00e9 que seja. Onde todos podem ser iguais, etc., no esp\u00edrito do estadunidismo mais rasteiro. A transforma\u00e7\u00e3o tardia do cruzado relutante em general encontra o espectador j\u00e1 desinteressado por uma utopia sem vigor. O ferreiro-que-se-torna-cavaleiro condiz mais com uma com\u00e9dia como o leve e divertido \u201cCora\u00e7\u00e3o de cavaleiro\u201d do que com um \u00e9pico sobre as cruzadas.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Temos ent\u00e3o um filme esteticamente bem constru\u00eddo, mas dramaticamente superficial e sem alma. Um filme sem paix\u00e3o pol\u00edtica, religiosa e nem mesmo rom\u00e2ntica. Todo um universo a ser explorado, o do fasc\u00ednio das mulheres orientais sobre os homens do ocidente, fica em segundo plano, mesmo quando temos em m\u00e3os uma rainha de Jerusal\u00e9m interpretada por uma atriz de beleza estonteante e de talento comprovado (os dois \u00edtens podem ser observados em \u201cOs Sonhadores\u201d, onde Eva Green atua praticamente todo o tempo seminua). A rainha Sybilla representa uma mulher com o raro poder de decidir. Mas tamb\u00e9m nesse caso, Balian parece estar apenas colhendo o que seu pai plantou. Quando a sugest\u00e3o de um romance ardente \u00e9 esvaziada pelo desenrolar da trama, Sybilla acaba desaparecendo lamentavelmente como uma esp\u00e9cie de Madalena arrependida.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Mas cabe ainda \u00e0 Sybilla, antes de seu eclipse, o esbo\u00e7o de uma importante discuss\u00e3o, que entretanto n\u00e3o se concretiza, quando ela sintetiza magistralmente as diferen\u00e7as entre as moralidades mu\u00e7ulmana e crist\u00e3: submeter-se ou decidir. A palavra \u201cIsl\u00e3\u201d em \u00e1rabe significa algo como \u201csubmiss\u00e3o\u201d, indicando que o fiel deve submeter-se inteiramente \u00e0 sua f\u00e9, entregando todos os aspectos de sua vida a seu Deus. J\u00e1 o livre-arb\u00edtrio do crist\u00e3o existe apenas para que ele enfrente o desafio de escolher o bem e com isso tornar-se digno da obra de seu Deus.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Temos a\u00ed, em uma chave religiosa, o contraste embrion\u00e1rio entre duas ideologias, duas vers\u00f5es da civiliza\u00e7\u00e3o que s\u00e3o a matriz daquilo que chamamos de \u201cocidente\u201d e \u201coriente\u201d, o que poderia ser tema de caudalosos ensaios antropol\u00f3gicos e historiogr\u00e1ficos. Qual deles \u00e9 superior? A ant\u00edtese fica no ar para ser desenvolvida pelo desenrolar das escolhas concretas dos personagens.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">A Jerusal\u00e9m de Baldu\u00edno, Godfrey, Tiberias e Balian \u00e9 uma esp\u00e9cie de reino iluminista \u201cavant la lettre\u201d, onde crist\u00e3os, judeus e mu\u00e7ulmanos podem rezar em paz em seus respectivos locais sagrados. Essa parece ser tamb\u00e9m a vis\u00e3o de Saladino, que somente permitia a sobreviv\u00eancia do enclave crist\u00e3o no oriente como uma esp\u00e9cie de concess\u00e3o, condicionada ao \u201cbom comportamento\u201d (que os crist\u00e3os n\u00e3o tiveram), \u00e0 espera da ocasi\u00e3o prop\u00edcia para a reconquista final. Quando sobrev\u00e9m sua vit\u00f3ria, o sult\u00e3o d\u00e1 o exemplo, abstendo-se de afogar a cidade num lago de sangue, como os primeiros cruzados fizeram com a popula\u00e7\u00e3o mu\u00e7ulmana.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">A ocasi\u00e3o para essa vit\u00f3ria seria fornecida pelas provoca\u00e7\u00f5es inconseq\u00fcentes da dupla Chantillon\/Lusignan, os Osama\/Bush da \u00e9poca. Os fan\u00e1ticos s\u00e3o sempre minoria, como esses dois, mas s\u00e3o capazes de precipitar os acontecimentos que p\u00f5em tudo a perder. Pelas m\u00e3os de tais elementos, o idealismo das cruzadas se converte em disfarce grosseiro para ambi\u00e7\u00f5es materiais inconfess\u00e1veis. A pol\u00edtica de Chantillon\/Lusignan (e de Osama\/Bush) \u00e9 orientada pelo fanatismo.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Insinuar que um ex\u00e9rcito que marcha com a bandeira da cruz de Cristo pode ser derrotado \u00e9 blasf\u00eamia. A todo momento, \u00e9 a vontade de Deus em a\u00e7\u00e3o. Lutar \u00e9 vontade de Deus, fugir \u00e9 vontade de Deus. Cada lado interpreta a hist\u00f3ria a seu favor, invocando a vontade de Deus. Logo, as provid\u00eancias mais \u00f3bvias podem ser desprezadas em nome do \u201cin hoc signo vinces\u201d. Lusignan leva o ex\u00e9rcito de Jerusal\u00e9m para a batalha sem cuidar do abastecimento de \u00e1gua (no que \u00e9 contestado por Balian, o estrategista improv\u00e1vel).<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Mais adiante, com a cidade j\u00e1 cercada e diante da morte iminente, o bispo sugere converter-se ao islamismo para salvar a pele e arrepender-se depois. Exemplo t\u00edpico da moralidade cat\u00f3lica, salvar as apar\u00eancias e a pele e jogar os princ\u00edpios pela janela. \u201cSorry for the people\u201d, diz o bispo, com seu tipo peculiar de realismo rasteiro. Balian, a essa altura um cruzado convicto, descarta a apostasia e o perj\u00fario, como j\u00e1 havia antes descartado, coerentemente, a conspira\u00e7\u00e3o como meio de chegar ao poder.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">\u00c0 Saladino, com sua sabedoria de bedu\u00edno do deserto, bastou esperar que os crist\u00e3os fossem destru\u00eddos pela pr\u00f3pria estupidez, para com isso cumprir a promessa feita aos seus pr\u00f3prios fan\u00e1ticos. Nada expressa melhor essa estupidez do que a imagem do rei crist\u00e3o humilhado com chap\u00e9u de burro em frente \u00e0s muralhas da cidade que lhe cabia defender. \u00c9 curioso ver os crist\u00e3os em inferioridade em Jerusal\u00e9m, no mesmo momento em que, \u201cmutatis mutandis\u201d, a \u201ccruzada\u201d de Bush faz areia em Bagd\u00e1.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O naufr\u00e1gio do est\u00fapido idealismo crist\u00e3o dos fan\u00e1ticos Templ\u00e1rios contra o s\u00f3brio realismo de Saladino se anuncia desde o in\u00edcio. J\u00e1 os problemas do idealismo do pr\u00f3prio Balian se manifestam num plano mais sutil. Balian age como um idealista quando, em nome de seus princ\u00edpios, descarta participar de uma conspira\u00e7\u00e3o que lhe daria o comando de Jerusal\u00e9m e ainda por cima lhe daria a m\u00e3o da bela rainha Sybilla. Aqui nas quebradas da zona leste paulistana onde reside este escriba, o sujeito que deixasse escapar tal oportunidade sairia inapelavelmente estigmatizado com a irremov\u00edvel pecha de \u201cvacil\u00e3o\u201d. Nem mesmo o fato de que ele tenha chegado a chefiar Jerusal\u00e9m, e de terminar o filme cavalgando ao lado de Sybilla, remediaria essa situa\u00e7\u00e3o, pois tudo j\u00e1 havia sido posto \u00e0 perder.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ao colocar o idealismo acima da politicagem, Balian d\u00e1 express\u00e3o ao dilema b\u00e1sico de toda pol\u00edtica: agir com uma moralidade que o advers\u00e1rio n\u00e3o exercita. Balian age com escr\u00fapulos que seu advers\u00e1rio (Guy de Lusignan) nem sequer cogita. Isso constitui simultaneamente a fraqueza e a for\u00e7a de toda pol\u00edtica praticada com \u201cboas inten\u00e7\u00f5es\u201d. Na pol\u00edtica de Balian, os fins n\u00e3o justificam os meios. Ao recusar \u201cum pouco de mal por um bem maior\u201d, como sintetizou Sybilla, ele objetivamente condenou a cruzada ao fracasso. Ele estava errado?<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Cabe aos espectadores do \u201cobservat\u00f3rio\u201d julgar. O diretor, coerente com a linha imprimida ao longo de sua obre, n\u00e3o o condena nem absolve. Jerusal\u00e9m cai, mas seu defensor termina cavalgando ao lado da rainha. Em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 outra cruzada? Talvez, pois o final amb\u00edguo insinua essa possibilidade. Uma poss\u00edvel resposta est\u00e1 em que, para Balian, o \u201creino dos c\u00e9us\u201d (\u201cKingdom of heaven\u201d, o t\u00edtulo do filme em ingl\u00eas), n\u00e3o est\u00e1 em Jerusal\u00e9m, nem em lugar nenhum, mas na mente e no cora\u00e7\u00e3o. Essa \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o de Ridley Scott, pessoal, individualista e minimalista, diante dos desafios que as cruzadas contempor\u00e2neas nos colocam. Uma solu\u00e7\u00e3o insuficiente, como o pr\u00f3prio filme.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">Daniel M. Delfino<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">10\/05\/2005<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><span style=\"text-transform: uppercase;\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/span><\/p>\n<h1><span style=\"text-transform: uppercase;\">&ldquo;Cruzada&rdquo;: IDEOLOGIA ENTRE A CRUZ E A ESPADA<o:p><\/o:p><\/span><\/h1>\n<h1><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/h1>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: center;\" class=\"MsoNormal\">(Coment&aacute;rio sobre o filme &ldquo;Cruzada&rdquo;)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9,76],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=49"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6133,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49\/revisions\/6133"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=49"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=49"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=49"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}