{"id":50,"date":"2008-12-13T16:30:55","date_gmt":"2008-12-13T16:30:55","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/?q=node\/50"},"modified":"2018-05-04T21:48:59","modified_gmt":"2018-05-05T00:48:59","slug":"o-bom-selvagem-e-o-roubo-do-duplimovel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2008\/12\/o-bom-selvagem-e-o-roubo-do-duplimovel\/","title":{"rendered":"O bom selvagem e o roubo do duplim\u00f3vel"},"content":{"rendered":"<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<h1>O BOM SELVAGEM E O ROUBO DO DUPLIM\u00d3VEL<\/h1>\n<h1><\/h1>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Este escriba acaba de ser v\u00edtima de uma contradi\u00e7\u00e3o do capitalismo. O sistema que produz carros \u00e9 o mesmo que produz tamb\u00e9m ladr\u00f5es de carros. A tese e a ant\u00edtese dessa dial\u00e9tica insana entrecruzaram-se numa s\u00edntese perversa de resultado negativo, que foi a subtra\u00e7\u00e3o do duplim\u00f3vel: o carro que serviu bravamente de viatura oficial da Fraternidade por ocasi\u00e3o das tr\u00eas vezes em que os membros do Conselho arquitetaram um dupliencontro em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Dentre os pertences pessoais subtra\u00eddos junto com o ve\u00edculo constava uma pasta de fich\u00e1rio preta na qual havia, entre outras coisas, anota\u00e7\u00f5es ainda n\u00e3o digitadas, fragmentos e embri\u00f5es de futuros artigos, manuscritos ainda a ser desenvolvidos. Rascunhos, esbo\u00e7os, par\u00e1grafos avulsos, indica\u00e7\u00f5es, observa\u00e7\u00f5es, frases, tiradas, s\u00ednteses, sinopses, lapsos, intui\u00e7\u00f5es, viv\u00eancias; perderam-se todos, provavelmente para sempre. N\u00e3o chega a ser um tesouro; ningu\u00e9m ficar\u00e1 rico (com certeza, n\u00e3o materialmente) se encontrar a pasta preta boiando no rio Tamanduate\u00ed ou apodrecendo num terreno baldio qualquer da Zona Leste; mas com certeza far\u00e1 imensa falta. Sem os manuscritos, provavelmente muitos fios de racioc\u00ednio jamais poder\u00e3o ser retomados e muitos artigos jamais poder\u00e3o ser escritos.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">A um escriba, que lhe roubem um autom\u00f3vel, chega a ser indiferente (uma vez que tal esp\u00e9cie de bem material se encontra protegido por seguros, conforme a praxe do mercado de bens de consumo dur\u00e1veis aos quais precariamente se tem acesso), mesmo se tratando de um duplim\u00f3vel; mas que lhe roubem os papiros \u00e9 inadmiss\u00edvel! Porca mis\u00e9ria! Na falta de tais papiros, resta ao escriba oferecer aos leitores este lamento em forma de reflex\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Passemos pois aos fatos. O Boletim de Ocorr\u00eancia policial, na sua linguagem peculiar, registra o seguinte: \u201cCompareceu a v\u00edtima acima qualificada informando que transitava pelo local dos fatos, \u00e0s cerca de 23:45 desta data, voltando de Santo Andr\u00e9, quando, ao diminuir a velocidade do ve\u00edculo para cruzar a ponte que separa este munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo, saltaram em sua frente dois indiv\u00edduos armados que o obrigaram a parar e roubaram seu ve\u00edculo e os objetos adiante descritos\u201d.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Rememorando \u201cos fatos\u201d, o acontecimento foi um tanto mais complexo. Diante da abordagem dos \u201cdois indiv\u00edduos armados\u201d, algumas alternativas se apresentaram.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 1. As armas s\u00e3o verdadeiras.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 2. As armas n\u00e3o s\u00e3o verdadeiras.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Considerando a alternativa 2, este escriba poderia:<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 3. Acelerar o carro e passar por cima dos assaltantes.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Isso significaria:<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">4. Mutilar ou talvez matar uma pessoa por causa de um bem material.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Ou ent\u00e3o:<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">5. Auto-defesa justificada diante de uma amea\u00e7a.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Considerando por\u00e9m a alternativa 1, os criminosos com certeza iriam atirar, de onde se segue:<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 6. Os assaltantes poderiam n\u00e3o ter pontaria ou n\u00e3o ter sorte e a v\u00edtima escapar.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 7. Os assaltantes terem boa pontaria ou sorte e acertar a v\u00edtima.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Mesmo no caso das alternativas 2 ou 6, a a\u00e7\u00e3o descrita em 3 poderia ter como resultado a persegui\u00e7\u00e3o dos criminosos, n\u00e3o apenas naquela noite, pois:<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">8. Identificado o carro e seu motorista, os criminosos poderiam tentar vingan\u00e7a numa outra oportunidade.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Essa hip\u00f3tese \u00e9 bastante realista considerando-se o fato de que o assalto ocorreu a n\u00e3o muitos quarteir\u00f5es da resid\u00eancia da v\u00edtima. Um outro complicador adicionou-se ao cen\u00e1rio quando o escriba se deu conta de que estava vestindo a camiseta de seu time de futebol. Diante disso:<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 9. Os criminosos poderiam ser tamb\u00e9m torcedores do Corinthians (o que de acordo com os estere\u00f3tipos \u00e9 estatisticamente bastante prov\u00e1vel).<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 10. Os criminosos poderiam ser torcedores de outro time e fulminar o escriba apenas por essa diferen\u00e7a.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 11. Essa \u00e9 provavelmente a coisa mais imbecil para se pensar naquela circunst\u00e2ncia.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Todas essas alternativas pipocaram ao mesmo tempo na mente do assustado motorista. Diz-se que o homem, na imin\u00eancia da morte, numa fra\u00e7\u00e3o de segundos, v\u00ea todas as cenas de sua vida numa esp\u00e9cie de filme em \u201cflashback\u201d. At\u00e9 hoje essa hip\u00f3tese n\u00e3o p\u00f4de ser verificada, pois seria preciso que algu\u00e9m do reino dos mortos pudesse voltar para dar testemunho aos vivos a respeito, o que ainda constitui uma hip\u00f3tese em discuss\u00e3o. Na falta dessa disponibilidade este escriba pode atestar o inverso: n\u00e3o vislumbrou um filme com todos os momentos passados de sua vida, mas uma proje\u00e7\u00e3o antecipada de todos os momentos futuros. Al\u00e9m das possibilidades listadas em 1, 3, 7, 8 e 10, desdobrou-se em sua tela mental uma esp\u00e9cie de filme de terror com as seguintes cenas:<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A. Horas infind\u00e1veis numa delegacia \u00e0 espera de atendimento para dar parte do roubo.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 B. Dias ou talvez semanas de espera lidando com o seguro.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 C. Dias ou talvez semanas de aulas perdidas na faculdade, na impossibilidade de contar com o transporte p\u00fablico para ir at\u00e9 a USP.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 D. Uma dolorosa via-cr\u00facis pelas diversas reparti\u00e7\u00f5es p\u00fablicas encarregadas de fornecer as c\u00f3pias dos documentos perdidos.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 As cenas \u201cB\u201d, \u201cC\u201d e \u201cD\u201d, antevistas profeticamente naquela fra\u00e7\u00e3o de segundos, materializaram-se de forma inexor\u00e1vel; j\u00e1 o horror descrito em \u201cA\u201d foi mitigado pelo simples exerc\u00edcio de escrever o presente coment\u00e1rio.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Coment\u00e1rio que constitui pois uma maneira de lidar com o epis\u00f3dio, se poss\u00edvel assimilando alguma li\u00e7\u00e3o dele, tentando restabelecer a normalidade psicol\u00f3gica. De acordo com algumas pessoas de forma\u00e7\u00e3o religiosa, eu deveria agradecer ao Criador por n\u00e3o ter sido morto naquele momento e por me ter sido dada uma \u201csegunda chance\u201d nesta vida. \u00c9 comum a rea\u00e7\u00e3o emocional diante de acontecimentos como esse. \u00c9 comum considerar que de agora em diante \u201cningu\u00e9m est\u00e1 seguro\u201d em nenhum lugar, o \u201ccrime\u201d pode irromper a qualquer momento, a \u201cviol\u00eancia\u201d est\u00e1 \u00e0 solta, etc..<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Adiante teremos oportunidade de discutir esses sentimentos e suas respectivas correla\u00e7\u00f5es pol\u00edtico-ideol\u00f3gicas. N\u00e3o se trata por\u00e9m aqui de afetar indiferen\u00e7a ou frieza diante de um incidente dessa dramaticidade. Trata-se apenas de assinalar o que j\u00e1 \u00e9 de conhecimento de todos os urban\u00f3ides confinados \u00e0s grandes metr\u00f3poles brasileiras: o crime \u00e9 de fato onipresente, qualquer um est\u00e1 sujeito a ser alvo de uma de suas manifesta\u00e7\u00f5es, a qualquer momento. \u00c9 uma quest\u00e3o de tempo at\u00e9 que a estat\u00edstica macabra alcance a v\u00edtima. Cada dia que se sobrevive na selva urbana \u00e9 um dia a ser comemorado, n\u00e3o apenas aquele em que se sobrevive a um assalto. Cada dia \u00e9 um dia que merece ser vivido como se pudesse ser o \u00faltimo, cada momento deve ser aproveitado, cada sensa\u00e7\u00e3o deve ser experimentada intensamente.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Construir uma vida significativa e plena \u00e9 em si uma resposta individual \u00e0 barb\u00e1rie coletiva em que estamos imersos, uma contribui\u00e7\u00e3o para virar a mar\u00e9 em favor do humanismo. \u00c9 justamente algo que se buscava fazer naquela noite. O \u201cbom selvagem\u201d do t\u00edtulo n\u00e3o \u00e9 o pr\u00f3prio escriba, apesar desse seu entusiasmado idealismo ou de seu antiquado m\u00e9todo manuscrito de registrar suas primeiras aproxima\u00e7\u00f5es de cada tema. O \u201cbom selvagem\u201d \u00e9 um certo personagem de filme. Para explicar do que se trata, \u00e9 preciso explicar o que o escriba fazia com seu duplim\u00f3vel naquele local e naquele hor\u00e1rio \u201c\u00e0s cerca de 23:45 desta data\u201d. Voltava ent\u00e3o de S\u00e3o Bernardo, onde um cineclube que projetava um ciclo de produ\u00e7\u00f5es vencedoras do Oscar de melhor filme estrangeiro acabava de exibir o laureado de 1976, \u201cDersu Uzala\u201d, de Akira Kurosawa.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Trata-se de um filme \u201cmenor\u201d de Kurosawa, diretor que n\u00e3o havia sido premiado com a estatueta por cl\u00e1ssicos como \u201cOs sete samurais\u201d e \u201cRashomon\u201d nem por superprodu\u00e7\u00f5es como \u201cRan\u201d e \u201cKagemusha\u201d; o que s\u00f3 serve para relativizar a import\u00e2ncia das premia\u00e7\u00f5es cinematogr\u00e1ficas. Os detratores de Kurosawa o acusam de ser \u201camericanizado\u201d e rotulam \u201cDersu Uzala\u201d de filme de encomenda produzido com financiamento do governo sovi\u00e9tico por um diretor em \u201cfim de carreira\u201d.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Mesmo prevenido por essas insinua\u00e7\u00f5es desabonadoras, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil, no caso do filme em quest\u00e3o, ingressar no universo do diretor, com seus longos planos silenciosos sem di\u00e1logos, suas paisagens contemplativas, sua tentativa de integra\u00e7\u00e3o est\u00e9tica entre natureza e humanidade, mediadas pela m\u00fasica.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Nessa singela aventura ecol\u00f3gica, o ca\u00e7ador de etnia gold de nome Dersu Uzala serve voluntariamente de guia para um destacamento militar russo que fazia levantamento topogr\u00e1fico da remota regi\u00e3o da taiga siberiana. Desenvolve-se uma bela amizade entre o ca\u00e7ador e o capit\u00e3o que comandava o destacamento. Dersu torna-se uma esp\u00e9cie de pai espiritual para o capit\u00e3o, ensinando-o a respeitar todas as formas de vida da floresta e tamb\u00e9m os seres humanos que dela tiram seu sustento.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Nesta f\u00e1bula o que menos importa \u00e9 a conjuntura hist\u00f3rica em quest\u00e3o, a expans\u00e3o do imp\u00e9rio russo pelo interior da \u00c1sia, a frieza do homem branco para com os costumes das etnias selvagens, o \u201cavan\u00e7o do capitalismo\u201d, etc. O que importa \u00e9 a capacidade de integra\u00e7\u00e3o e de entendimento entre os indiv\u00edduos, a sabedoria e a simplicidade de quem vive em harmonia com um meio praticamente intocado.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">A situa\u00e7\u00e3o muda quando o gold siberiano \u00e9 levado para a cidade natal do capit\u00e3o. N\u00e3o lhe parece conceb\u00edvel viver numa \u201ccaixa\u201d (um quarto), alternativa diante da qual ele sugere armar uma barraca na rua. A cidade \u00e9 um lugar irracional, onde n\u00e3o \u00e9 permitido a um ca\u00e7ador atirar, nem que seja para cima. Onde o ca\u00e7ador se escandaliza com a \u201cmaldade\u201d das pessoas que se atrevem a vender \u00e1gua, depois lenha para a mulher do capit\u00e3o. No seu ponto de vista, os bens naturais s\u00e3o d\u00e1divas que est\u00e3o \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do homem, que devem ser utilizadas por cada um na medida de sua necessidade, nunca mercantilizadas (que diria ele dos planos de privatiza\u00e7\u00e3o da \u00e1gua do Banco Mundial?).<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c9 claro que tal ideal de auto-sufici\u00eancia individual n\u00e3o pode ser generalizado para o conjunto da humanidade como alternativa societ\u00e1ria, mas no plano coletivo, constitui um poderoso alerta para que se considere o quanto o homem est\u00e1 degradando a natureza para construir um modo de vida materialmente rico (e insustent\u00e1vel) e paradoxalmente vazio de humanidade. Dersu Uzala sabe o que \u00e9 importante na vida. Por isso, ele \u00e9 sinceramente incapaz de entender porque o comerciante de vodca o embebedou e levou todo o dinheiro que o ca\u00e7ador acumulara numa afortunada temporada de ca\u00e7a de zibelinas. Para que serve o dinheiro?<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A queixa de Dersu como v\u00edtima de roubo \u00e9 muito mais serena, sincera e bem-humorada e muito menos prolixa do que a aqui apresentada pelo escriba. Seja como for o conte\u00fado do filme forneceu uma vacina providencial para imuniza\u00e7\u00e3o preventiva contra os eventos que se seguiriam naquela noite e contra uma certa esp\u00e9cie de pensamento correlato, que vez por outra surge como coment\u00e1rio para a viol\u00eancia que nos assola: \u201cUm conservador \u00e9 um liberal que foi assaltado\u201d, reza uma esp\u00e9cie de ditado comum nos pa\u00edses anglo-sax\u00f4nicos.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Na nomenclatura pol\u00edtica desses pa\u00edses e em especial dos Estados Unidos, o \u201cliberal\u201d \u00e9 o que corresponde a uma pessoa \u201cde esquerda\u201d, de modo que \u00e9 importante distinguir esse termo do ep\u00edteto de \u201cneoliberal\u201d tal como \u00e9 usado no contexto de um pa\u00eds perif\u00e9rico. O termo \u201cconservador\u201d tamb\u00e9m n\u00e3o designa exatamente a mesma coisa aqui e alhures, mas esta segunda distin\u00e7\u00e3o, no caso que aqui se apresenta, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o importante.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O contraste que separa \u201cliberal\u201d e \u201cconservador\u201d como alternativas pol\u00edtico-ideol\u00f3gicas hegem\u00f4nicas, no contexto s\u00f3cio-hist\u00f3rico em que o dito citado articula sua inteligibilidade, \u00e9 dado por aspectos que dizem respeito n\u00e3o ao mecanismo social fundamental totalizador (capitalismo), o qual n\u00e3o se considera que esteja em disputa; mas por quest\u00f5es de escolhas comportamentais pessoais. O liberal se caracteriza pela postura tolerante em rela\u00e7\u00e3o a temas como homossexualidade, amor livre, aborto, eutan\u00e1sia, diversidade \u00e9tnica, cultural e religiosa, al\u00e9m de um eventual apoio a causas ambientais, desarmamento, pesquisas m\u00e9dicas, etc. O conservador \u00e9 de modo geral contr\u00e1rio a todas essas causas e favor\u00e1vel a uma estrita rigidez moral, \u00e0s vezes com base em uma observ\u00e2ncia que tende a ser literal dos textos religiosos.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O dito citado expressa uma concep\u00e7\u00e3o dessa diferen\u00e7a entre \u201cliberal\u201d e \u201cconservador\u201d que se mede como em uma progress\u00e3o, na qual, por uma esp\u00e9cie de evolu\u00e7\u00e3o, o indiv\u00edduo passa de uma postura \u201cing\u00eanua\u201d e benevolente para uma \u201crealista\u201d e desconfiada. O evento que catalisa essa passagem \u00e9 o assalto, o qual introduz o \u201cing\u00eanuo-liberal\u201d no reino da \u201crealidade-conservadora\u201d. O assalto supostamente dissolve a ilus\u00e3o benevolente tipicamente \u201cliberal\u201d de que a \u201cnatureza humana\u201d seja fundamentalmente benigna e converte o antigo portador dessa ilus\u00e3o para a postura mais \u201cracional\u201d de que os homens s\u00e3o em ess\u00eancia maus e ego\u00edstas e de que somente a lei, a ordem e uma moral r\u00edgida, exercidas pela for\u00e7a, podem nos proteger uns dos outros e dos maus instintos de nossa pr\u00f3pria \u201cnatureza deca\u00edda e pecadora\u201d.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O amargo cinismo desse ditado abre as portas para os sentimentos em que vicejam id\u00e9ias perigosas como a defesa da pena de morte, mais dureza contra os criminosos, fim dos \u201cdireitos humanos para bandidos\u201d, etc. Ou como a id\u00e9ia contida na alternativa 3 acima, com a justificativa 5. Id\u00e9ias que ignoram o fato de que, n\u00e3o importa quantos \u201cbandidos\u201d sejam abatidos pela pena de morte ou pela trucul\u00eancia policial oportunisticamente festejada, o sistema continuar\u00e1 produzindo novas levas de criminosos para ocupar seu lugar, indefinidamente. Para cada soldado do narcotr\u00e1fico abatido, dezenas de outros esperam para cumprir o mesmo papel.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">O problema n\u00e3o ser\u00e1 resolvido por essa ponta, embora pudesse ser minorado se se pudesse contar com a pol\u00edcia. Uma pol\u00edcia que n\u00e3o fosse corrupta, que n\u00e3o tivesse uma \u201cbanda podre\u201d e se associasse ou emulasse os criminosos como faz. Mas a pol\u00edcia, como qualquer servi\u00e7o p\u00fablico no Brasil, n\u00e3o passa de um simulacro, sem efetivo, sem recursos, sem equipamento, sem intelig\u00eancia (n\u00e3o subjetiva, mas estrat\u00e9gico-organizativa), sem enraizamento junto ao povo. Se cont\u00e1ssemos por\u00e9m com uma pol\u00edcia minimamente s\u00e9ria, como diz\u00edamos acima, o problema da \u201cviol\u00eancia\u201d talvez pudesse ser minorado, mas n\u00e3o resolvido. E n\u00e3o porque o homem seja \u201cmau por natureza\u201d, mas porque o sistema em que vivemos \u00e9 essencialmente degenerado.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Estamos tratando pois do conceito filos\u00f3fico de \u201cnatureza humana\u201d. Seria ela benigna ou maligna? \u00c9 interessante notar como as posturas \u201cliberal\u201d e \u201cconservadora\u201d variaram a respeito desse tema e se entrecruzaram ao longo da hist\u00f3ria conforme suas determina\u00e7\u00f5es de classe. O liberalismo cl\u00e1ssico de Hobbes e Locke registrou a id\u00e9ia de que os homens s\u00e3o ego\u00edstas por natureza, o que significa que cada um busca seu interesse pessoal acima de qualquer coisa, inclusive por cima dos interesses dos outros. Na amarga f\u00f3rmula de Hobbes, \u201co homem \u00e9 o lobo do homem\u201d (ver \u201cLeviat\u00e3\u201d). Para prevenir a inevit\u00e1vel \u201cguerra de todos contra todos\u201d do estado de natureza, cria-se o Estado civil, uma institui\u00e7\u00e3o estabelecida com o dever prec\u00edpuo de proteger a vida e a propriedade dos cidad\u00e3os.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O desenvolvimento do capitalismo ingl\u00eas no s\u00e9culo XVIII leva Adam Smith a acrescentar que a busca de cada um pelo seu auto-interesse pessoal leva inevitavelmente ao bem-estar coletivo por for\u00e7a de uma \u201cm\u00e3o invis\u00edvel\u201d que regula automaticamente os interc\u00e2mbios entre os homens. Aquilo que deveria ser tomado como uma suposi\u00e7\u00e3o a ser provada, a duvidosa hip\u00f3tese da harmoniza\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica dos interesses individuais num interesse coletivo, por obra de uma entidade m\u00edstica (m\u00e3o invis\u00edvel) que dispensa interven\u00e7\u00e3o racional dos homens; torna-se artigo de f\u00e9 dogmaticamente inquestion\u00e1vel da ideologia liberal.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 No mesmo s\u00e9culo XVIII, na Fran\u00e7a, coube a J.J. Rousseau dar uma guinada total no conceito de \u201cnatureza humana\u201d. Para Rousseau o homem n\u00e3o \u00e9 bom nem mau por natureza, pois n\u00e3o se pode observar o homem em estado natural. Pode-se observar o homem mais ou menos socializado, como o burgu\u00eas e o selvagem, por exemplo. O que se pode verificar a partir da compara\u00e7\u00e3o entre eles \u00e9 que a sociedade indubitavelmente torna o homem mau. A posteridade acabou vulgarizando o pensamento de Rousseau sem as devidas nuances e ressalvas, estabelecendo a vers\u00e3o de que \u201co homem \u00e9 bom por natureza, mas a sociedade o corrompe\u201d. O mito do \u201cbom selvagem\u201d acabou associado ao nome do pensador genebrino, assim como a inven\u00e7\u00e3o do romantismo e da democracia moderna.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Apesar de seu violento ataque \u00e0 propriedade privada (ver \u201cDiscurso sobre a Desigualdade\u201d), Rousseau n\u00e3o p\u00f4de propor como rem\u00e9dio para a degenera\u00e7\u00e3o humana mais do que um novo \u201cContrato Social\u201d baseado numa \u201cvontade geral\u201d abstrata sem as media\u00e7\u00f5es sociais concretas e as determina\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas espec\u00edficas. Por conta disso, o ponto de vista geral de Rousseau \u00e9 pessimista e nisso ele se destaca num s\u00e9culo de ardentes entusiastas iluministas do \u201cprogresso\u201d.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">O desenvolvimento econ\u00f4mico e pol\u00edtico da sociedade burguesa, dando \u00e0 luz a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial e a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, levou o irland\u00eas Edmund Burke a formular, como resposta \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o trazida pela modernidade econ\u00f4mico-pol\u00edtica que se anunciava, as teses b\u00e1sicas do pensamento conservador, recusando o caos da nova sociedade em nome dos valores da antiga sociedade: a ordem, a hierarquia, a autoridade, a moral e a religi\u00e3o devem ser os sustent\u00e1culos de qualquer sociedade. Posteriormente, no s\u00e9culo XIX, quando a pr\u00f3pria burguesia se torna contra-revolucion\u00e1ria, o liberal e o conservador passam a estar unidos na defesa comum contra a amea\u00e7a representada pelo movimento socialista.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Coube a Marx no s\u00e9culo XIX esclarecer o verdadeiro status do conceito de \u201cnatureza humana\u201d. Para Marx o homem n\u00e3o possui uma \u201cnatureza humana\u201d abstrata, imut\u00e1vel e a-hist\u00f3rica, que seria a mesma em qualquer sociedade e em qualquer \u00e9poca, para ser imputada \u201cboa\u201d ou \u201cm\u00e1\u201d. O homem \u00e9 um ser que se origina na natureza, mas constitui um reino \u00e0 parte, que se torna humano e se constitui no processo da Hist\u00f3ria. O Homem se define por uma condi\u00e7\u00e3o humana historicamente mut\u00e1vel, que produz homens bons e maus em quantidades variadas conforme as especificidades das forma\u00e7\u00f5es sociais determinadas.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Atrav\u00e9s da hist\u00f3ria elaboram-se formas mutantes de regular o metabolismo prim\u00e1rio do homem com a natureza, formas pelas quais esta media\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria se desdobra em \u201cmedia\u00e7\u00f5es sociais de segunda ordem\u201d (ver M\u00e9sz\u00e1ros, 2002), como a fam\u00edlia, a propriedade privada e o Estado, com suas m\u00faltiplas institui\u00e7\u00f5es. Na forma capitalista atualmente prevalecente (cujos contornos hist\u00f3ricos plenos Rousseau n\u00e3o estava em condi\u00e7\u00f5es de divisar) as rela\u00e7\u00f5es interpessoais s\u00e3o mediadas pelo instituto da competi\u00e7\u00e3o. Essa determina\u00e7\u00e3o objetiva se irradia somente a partir dos \u00faltimos dois s\u00e9culos e somente a partir das sociedades ocidentais, alcan\u00e7ando a duras penas sua presente abrang\u00eancia global.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Constitui portanto no m\u00ednimo uma grosseira inverdade hist\u00f3rica a mitologia liberal de que o homem sempre foi ego\u00edsta, sempre foi individualista e sempre buscou seu interesse pessoal acima de qualquer coisa; e de que portanto somente o capitalismo traga em seu mecanismo de \u201clivre competi\u00e7\u00e3o\u201d a tradu\u00e7\u00e3o mais racional da \u201cnatureza humana\u201d.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O resultado objetivo dessa inverdade hist\u00f3rica maci\u00e7amente disseminada \u00e9 oblitera\u00e7\u00e3o do fato de que tanto os indiv\u00edduos como os pa\u00edses entram na competi\u00e7\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es extremamente desiguais. Na medida em que s\u00e3o integrados na competi\u00e7\u00e3o, o seu desenvolvimento prossegue de maneira desigual e combinada. A riqueza de uns \u00e9 produzida pela pobreza de muitos. Riqueza e pobreza s\u00e3o p\u00f3los complementares necess\u00e1rios no sistema do capital. \u00c9 nesse sentido que o sistema produz pessoas capazes de comprar carros (como o escriba) e \u201cproduz tamb\u00e9m ladr\u00f5es de carros\u201d.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 No s\u00e9culo XX os liberais \u201cde esquerda\u201d podem se dar ao luxo de ostentar posi\u00e7\u00f5es sociais humanistas e benevolentes conforme lhes seja conjunturalmente franqueada pelo ciclo de acumula\u00e7\u00e3o capitalista a pr\u00e1tica de conceder pol\u00edticas distributivas em favor dos \u201cdesajustados\u201d do sistema. De outro lado, os conservadores podem assumir a defesa \u201crealista\u201d e autorit\u00e1ria do sistema quando a leni\u00eancia para com os pobres e a permissividade comportamental em geral amea\u00e7am corroer a \u201cfibra moral\u201d de sua austera e respeit\u00e1vel sociedade burguesa e puritana.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Mas um \u201cliberal\u201d pode ser assaltado e nem mesmo assim se desesperar da \u201cnatureza humana\u201d e tornar-se conservador. Oferecer o pr\u00f3prio exemplo pessoal como contra-exemplo do ditado citado talvez tenha pouco valor como argumento probante, de vez que esse exemplo se baseia num representante not\u00f3rio de posturas muito mais \u00e0 esquerda do que as dos citados \u201cliberais\u201d; por isso recorreu-se \u00e0 autoridade de Dersu Uzala e seu po\u00e9tico humanismo. Um assalto pode roubar carros, mas n\u00e3o ideais.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">O referido \u00e9 verdade e dou f\u00e9 (apesar da demora kafkiana do atendimento burocr\u00e1tico no distrito policial em que se deu parte do ocorrido e em que se redigiu esse coment\u00e1rio).<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">P.S. O nome \u201cduplim\u00f3vel\u201d se refere ao Duplipensar, site para o qual o autor escrevia na \u00e9poca dos fatos, conforme explicado no \u201cManual do usu\u00e1rio deste blog\u201d.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">Daniel M. Delfino<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">19\/04\/2005<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">Filme Comentado:<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Nome original: Dersu Uzala<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Produ\u00e7\u00e3o: Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, Jap\u00e3o<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ano: 1975<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Idiomas: Russo<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Diretor: Akira Kurosawa<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Roteiro: Vladimir Arsenyev, Akira Kurosawa<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Elenco: Maksim Munzuk, Yuri Solomin, Svetlana Danilchenko, Dmitri Korshikov<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 G\u00eanero: aventura, drama<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <span lang=\"EN-US\">Fonte: \u201cThe Internet Movie Database\u201d \u2013 <\/span><a href=\"http:\/\/www.imdb.com\/\"><span lang=\"EN-US\">http:\/\/www.imdb.com\/<\/span><\/a><span lang=\"EN-US\">\u00a0 <\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<h1>O BOM SELVAGEM E O ROUBO DO DUPLIM&Oacute;VEL<\/h1>\n<h1><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/h1>\n<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9,76],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=50"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6132,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50\/revisions\/6132"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=50"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=50"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=50"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}