{"id":5026,"date":"2017-03-12T21:35:25","date_gmt":"2017-03-13T00:35:25","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=5026"},"modified":"2017-03-12T21:35:25","modified_gmt":"2017-03-13T00:35:25","slug":"jornal-97-muros-a-cidade-nao-precisa-de-fronteiras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2017\/03\/jornal-97-muros-a-cidade-nao-precisa-de-fronteiras\/","title":{"rendered":"Jornal 97: Muros: a cidade n\u00e3o precisa de fronteiras"},"content":{"rendered":"<h2 lang=\"pt-BR\"><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/Muros.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-5027 alignright\" alt=\"December 3, 2016\" src=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/Muros-300x242.jpg\" width=\"300\" height=\"242\" srcset=\"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/Muros-300x242.jpg 300w, https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/Muros.jpg 600w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/h2>\n<h2 lang=\"pt-BR\">A fun\u00e7\u00e3o social do muro<\/h2>\n<p lang=\"pt-BR\">Um dos tra\u00e7os mais marcantes do mundo contempor\u00e2neo \u00e9 a forma de prote\u00e7\u00e3o \u00e0 propriedade privada. Assim, como acontece nas demais sociedades de classe que comp\u00f5em a hist\u00f3ria, a classe dominante precisa assegurar tanto a explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica sobre aqueles que trabalham quanto o resguardo dos meios de produ\u00e7\u00e3o e bens de consumo.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Atualmente, vemos espa\u00e7os sociais sendo retalhados por cercas e muros que separam n\u00e3o-possuidores e possuidores, mis\u00e9ria e riqueza. N\u00e3o se trata, sabemos n\u00f3s, apenas de maneiras de demarcar terrenos e im\u00f3veis, mas de um modo de impedir acesso e o usufruto \u00e0queles que pouco &#8211; ou nada &#8211; possuem al\u00e9m da pr\u00f3pria for\u00e7a-de-trabalho para ser vendida.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">\u201cS\u00e3o tempos de roubos e invas\u00f5es!\u201d, desesperam-se \u00e0 medida em que implementam cada vez mais medidas de (in)seguran\u00e7a: guaritas, vigias privados, cercas el\u00e9tricas e c\u00e2meras de seguran\u00e7a alastram-se pela paisagem social tornando-se um elemento constitutivo de nosso dia-a-dia. Mas, se vivemos em tempos de democracia e liberdade, por que tantos muros?<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Ainda que possamos elencar v\u00e1rias fun\u00e7\u00f5es sociais &#8211; como a delimita\u00e7\u00e3o de terrenos, ou a preserva\u00e7\u00e3o da intimidade em ambientes dom\u00e9sticos &#8211; que os muros possam cumprir no cotidiano, tem se tornado cada vez mais evidente seu papel instrumental na \u201cdefesa da propriedade privada e da vida dos cidad\u00e3os\u201d.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Por se tratar de um sistema econ\u00f4mico que tem, em cada degrau de desenvolvimento galgado, n\u00edveis mais elevados de produ\u00e7\u00e3o de riqueza combinado a uma, tamb\u00e9m crescente, desigualdade entre as classes, tem-se como uma das consequ\u00eancias mais diretas as cidades modernas como palcos de contradi\u00e7\u00f5es cada vez mais manifestas. Quando temos esses dois componentes fermentados num meio social de est\u00edmulo ao consumo (atrav\u00e9s dos mais variados mecanismos de propaganda) e de apar\u00eancia (ao se calcular o car\u00e1ter das pessoas pela cifra que elas vestem, comem e dirigem) vislumbra-se o porqu\u00ea de tanto medo, a raz\u00e3o de tantos muros.<\/p>\n<h2 lang=\"pt-BR\">Quando os muros dividem pa\u00edses<\/h2>\n<p lang=\"pt-BR\">Nos \u00faltimos anos, a realidade vivenciada por imigrantes e refugiados veio \u00e0 tona nos notici\u00e1rios quando todo o mundo se abalou com a foto de uma crian\u00e7a s\u00edria morta foi encontrada nas margens do mar Egeu. Iniciou-se, ent\u00e3o, uma ruidosa den\u00fancia sobre as p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de (sobre)viv\u00eancia dessas pessoas, logo seguida por um acalorado debate que buscava decidir sobre a dignidade, ou n\u00e3o, dessas vidas marcadas pelo deslocamento de suas terras natais.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Em nobre tentativa de disfar\u00e7ar sua cr\u00f4nica indiferen\u00e7a aos rec\u00e9m-chegados \u2013 marcados por um maior empobrecimento e vulnerabilidade, mesmo perante os setores mais marginalizados da classe trabalhadora dos pr\u00f3prios pa\u00edses \u2013 governos europeus lacrimejaram discursos de piedade e indigna\u00e7\u00e3o frente aos atrozes acontecimentos.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Enquanto celebravam a caridade \u2013 no acolhimento, constru\u00e7\u00e3o de campos de refugiados e no provimento de bens b\u00e1sicos \u2013 arquitetavam muros para impedir novos fluxos migrat\u00f3rios, e outros para isolar os contingentes j\u00e1 abrigados nesses pa\u00edses.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Embora n\u00e3o seja um fen\u00f4meno recente \u2013 como exemplos, as fronteiras f\u00edsicas erguidas entre Cisjord\u00e2nia e Israel, Espanha e Marrocos, Gr\u00e9cia e Turquia \u2013 \u00e9 not\u00f3rio o crescente af\u00e3 que, desde ent\u00e3o, a pol\u00edtica internacional tem tido por essa forma de \u201csolucionar\u201d o problema da imigra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">H\u00e1 alguns meses, o primeiro-ministro h\u00fangaro anunciou a amplia\u00e7\u00e3o da \u201clinha de defesa\u201d que j\u00e1 separava seu pa\u00eds da S\u00e9rvia como modo de reduzir a entrada de refugiados que rumavam a pa\u00edses como \u00c1ustria, Su\u00e9cia e Alemanha (que, s\u00f3 em 2015, foram 400 mil). Pouco depois, o governo brit\u00e2nico declarou que seria constru\u00eddo um muro de quatro metros para coibir o tr\u00e2nsito de pessoas dos acampamentos de Calais (territ\u00f3rio no norte da Fran\u00e7a) habitados por refugiados do Oriente M\u00e9dio e do Norte da \u00c1frica. Em novembro do ano passado, um centro de refugiados na cidade de Munique foi presenteado, antes mesmo de ser finalizado, com uma estrutura de concreto que o separara de um distrito residencial sob o convincente argumento de que \u201cevitar\u00e1 contamina\u00e7\u00e3o ac\u00fastica\u201d por crian\u00e7as e jovens que se alojar\u00e3o no local. H\u00e1 algumas semanas, o novo presidente estadunidense deu ordem para que fosse erguido um muro ao sul do pa\u00eds para impedir a travessia de mexicanos, sob o pretexto de \u201csalvar empregos e bolsos de contribuintes\u201d, num discurso que &#8211; temerosamente &#8211; nos traz a recorda\u00e7\u00e3o de uma das mais sombrias p\u00e1ginas da hist\u00f3ria do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<h2 lang=\"pt-BR\">Romper os muros e outras amarras<\/h2>\n<p lang=\"pt-BR\">Sendo um modo de produ\u00e7\u00e3o fortemente distinguido por seu car\u00e1ter expansivo, o capitalismo nunca hesitou, ao longo de seu percurso, em reafirmar seu cosmopolitismo: a tend\u00eancia \u00e0 mundializa\u00e7\u00e3o faz parte de sua incessante necessidade de amplia\u00e7\u00e3o de lucro, com o aprofundamento das formas de explora\u00e7\u00e3o de trabalhadores (sejam nativos ou estrangeiros), estejam eles dentro ou fora do pa\u00eds. O dinheiro sempre perambulou livre e sorridente pelos pa\u00edses, cruzando quaisquer fronteiras.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">\u00c9 no m\u00ednimo curioso observar que \u2013 num per\u00edodo hist\u00f3rico em que a financeiriza\u00e7\u00e3o encontra-se em pleno desenvolvimento, as economias dos pa\u00edses perif\u00e9ricos estejam t\u00e3o bem subordinadas aos interesses das na\u00e7\u00f5es do capitalismo central \u2013 esse tipo chauvinismo ganhe tanta express\u00e3o.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">O cinismo maior da quest\u00e3o reside, principalmente, no fato de que parte dos pa\u00edses que t\u00eam institucionalizado pol\u00edticas xenof\u00f3bicas sejam, justamente, aqueles que, al\u00e9m de mais terem se apropriado de recursos naturais em outras terras ao longo da hist\u00f3ria, mais perpetraram as modalidades doentias da explora\u00e7\u00e3o de estrangeiros.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">A sistem\u00e1tica dissemina\u00e7\u00e3o da xenofobia, do racismo e das demais express\u00f5es de \u00f3dio e rejei\u00e7\u00e3o aos trabalhadores estrangeiros t\u00eam sido uma silenciosa, mas poderosa, arma das burguesias nacionais. Lan\u00e7ando m\u00e3o tanto dos meios de comunica\u00e7\u00e3o tradicionais, quanto dos mais contempor\u00e2neos (como as redes sociais) os setores mais chauvinistas da direita t\u00eam proporcionado uma maior fragmenta\u00e7\u00e3o da resist\u00eancia e dos enfrentamentos da classe trabalhadora.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Na medida em que enxerga a deteriora\u00e7\u00e3o de suas condi\u00e7\u00f5es de vida como sendo ocasionada pela \u201cpresen\u00e7a indesejada\u201d de imigrantes e refugiados, as classes trabalhadoras desses pa\u00edses recaem no enfraquecimento de seu poder de confronto pol\u00edtico com a ordem vigente. As lutas das trabalhadoras e trabalhadores n\u00e3o t\u00eam nacionalidade! Confrontemos o dom\u00ednio pol\u00edtico e econ\u00f4mico dos propriet\u00e1rios dos meios de produ\u00e7\u00e3o! A luta contra o capitalismo \u00e9 a luta contra as p\u00e1trias, muros e suas fronteiras!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A fun\u00e7\u00e3o social do muro Um dos tra\u00e7os mais marcantes do mundo contempor\u00e2neo \u00e9 a forma de prote\u00e7\u00e3o \u00e0 propriedade<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":5027,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5026"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5026"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5026\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5028,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5026\/revisions\/5028"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5027"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5026"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5026"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5026"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}