{"id":5078,"date":"2017-05-06T09:49:42","date_gmt":"2017-05-06T12:49:42","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=5078"},"modified":"2018-05-31T17:55:12","modified_gmt":"2018-05-31T20:55:12","slug":"jornal-99-ideologia-uma-breve-introducao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2017\/05\/jornal-99-ideologia-uma-breve-introducao\/","title":{"rendered":"Jornal 99: Ideologia: uma breve introdu\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<style type=\"text\/css\"><!-- p { margin-bottom: 0.1in; direction: ltr; line-height: 120%; text-align: left; orphans: 2; widows: 2; }p.western { font-family: \"Calibri\",serif; font-size: 11pt; }p.cjk { font-family: \"Cambria Math\"; font-size: 11pt; }p.ctl { font-family: \"Times New Roman\"; font-size: 11pt; } --><\/style>\n<p lang=\"pt-BR\" style=\"text-align: right;\">Rafael Rossi<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Um debate \u201cquente\u201d no \u00e2mbito da reflex\u00e3o cient\u00edfica e, principalmente, no seio do marxismo, com certeza, diz respeito ao entendimento sobre a ideologia e sua rela\u00e7\u00e3o com a realidade social. N\u00e3o \u00e9 nosso intuito expor de modo detalhado toda esta discuss\u00e3o mesmo no interior do marxismo. O objetivo \u00e9 explicitar, mesmo que de modo extremamente breve, os fundamentos mais gerais que nos permitem compreender quando determinadas ideias exercem ou n\u00e3o o papel de ideologia. Para tanto, partiremos das pistas deixadas pelo fil\u00f3sofo h\u00fangaro Gyorgy Luk\u00e1cs e, tamb\u00e9m, do pr\u00f3prio Marx. Entretanto, \u00e9 igualmente importante afirmar que n\u00e3o estamos escolhendo estes autores por mero \u201cgosto\u201d ou \u201cprefer\u00eancia acad\u00eamica\u201d. Ao contr\u00e1rio, tais pensadores nos deixaram ind\u00edcios de suma relev\u00e2ncia para a compreens\u00e3o do que \u00e9 ideologia a partir de seu exame em confronto com a pr\u00f3pria realidade objetiva em seu processo hist\u00f3rico e, desse modo, n\u00e3o trataram de \u201cfantasiar\u201d ou \u201cconstruir\u201d suas reflex\u00f5es de modo especulativo ou transcendental, mas sim, a partir da an\u00e1lise real do pr\u00f3prio processo de reprodu\u00e7\u00e3o social.<a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/ideologia.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignright\" src=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/ideologia-215x300.jpg\" alt=\"ideologia\" width=\"215\" height=\"300\" \/><\/a><\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">\u00c9 muito comum observarmos posicionamentos que consideram a ideologia como sin\u00f4nimo de falsa consci\u00eancia e, nesse modo de encarar a quest\u00e3o, tudo que \u00e9 enganador, que escamoteia as contradi\u00e7\u00f5es da realidade e que \u00e9 falso seria, portanto, ideologia. Todavia, se isto fosse real, como explicar aquele conjunto de ideias que orientam a pr\u00e1tica social numa postura revolucion\u00e1ria e, com isso, com pressupostos cient\u00edficos verdadeiros?<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Pois bem. Estamos convencidos de que na investiga\u00e7\u00e3o de qualquer dimens\u00e3o humana devemos sempre realizar uma an\u00e1lise que procure evidenciar 1) a g\u00eanese; 2) a natureza e; 3) a fun\u00e7\u00e3o social que esta atividade humana possui no processo de reprodu\u00e7\u00e3o social. Agora, se escolhermos entender determinada dimens\u00e3o social como a ideologia, por exemplo, apenas escolhendo a defini\u00e7\u00e3o que mais nos agrada, estaremos colocando a nossa subjetividade. Ou seja, o nosso querer acima daquilo que a pr\u00f3pria realidade social demonstra em seu processo hist\u00f3rico.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Se procedermos do primeiro modo (buscando a g\u00eanese, a natureza e a fun\u00e7\u00e3o social) veremos que a ideologia j\u00e1 existia antes do surgimento das sociedades cindidas em classes sociais com interesses antag\u00f4nicos e inconcili\u00e1veis. Nesse per\u00edodo, a ideologia se consubstanciava naquele conjunto de concep\u00e7\u00f5es de mundo que efetivamente orientavam a pr\u00e1xis social dos seres humanos. \u00c0 medida que os seres humanos desenvolviam os atos de trabalho (no sentido da rela\u00e7\u00e3o org\u00e2nica da sociedade com a natureza para a produ\u00e7\u00e3o de valores de uso), uma s\u00e9rie de comportamentos, habilidades, t\u00e9cnicas, conhecimentos, valores etc. foram sendo elaborados e contribuindo na forma\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio material e espiritual da humanidade. Alguns conhecimentos, valores e concep\u00e7\u00f5es de mundo ofereciam orienta\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas \u00e0 vida cotidiana e, precisamente aqui, podemos perceber a g\u00eanese da ideologia num sentido amplo.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Por volta de 12 mil anos atr\u00e1s com a Revolu\u00e7\u00e3o Neol\u00edtica houve o surgimento de uma categoria que nunca antes havia existido na hist\u00f3ria da humanidade: o trabalho excedente. Agora, o que o indiv\u00edduo produzisse era superior \u00e0 sua capacidade de consumo individual. Por\u00e9m, ainda assim, a soma de toda a produ\u00e7\u00e3o social era insuficiente para atender \u00e0s necessidades de todos os indiv\u00edduos. Isto representou um salto fundamental na humanidade, pois se tornava uma possibilidade real e concreta a explora\u00e7\u00e3o do ser humano por outro ser humano. Algumas tribos passaram n\u00e3o s\u00f3 a saquear outras tribos, mas tamb\u00e9m, a escravizar seus membros. Antes da Revolu\u00e7\u00e3o Neol\u00edtica todos os indiv\u00edduos de uma determinada comunidade tinham que trabalhar para poderem garantir a sobreviv\u00eancia do bando. Ap\u00f3s este salto qualitativo essencial que a entrada em cena do trabalho excedente representou, abriu-se a possibilidade de colocar uma parte dos indiv\u00edduos para vigiar, por meio da viol\u00eancia, outros seres humanos em situa\u00e7\u00e3o de escravid\u00e3o.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Estamos assistindo o surgimento das classes sociais que est\u00e3o umbilicalmente articuladas \u00e0 introdu\u00e7\u00e3o da propriedade privada (entendida aqui enquanto o fato de uma classe se apropriar privadamente do fruto do trabalho de outra classe). No \u00e2mbito das sociedades de classes (seja a sociedade escravista, a sociedade feudal ou a sociedade capitalista) a fun\u00e7\u00e3o social da ideologia passa a ser a orienta\u00e7\u00e3o da pr\u00e1xis social perante um conflito social real entre as classes sociais fundamentais daquela forma\u00e7\u00e3o social espec\u00edfica.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Relevante chamar a aten\u00e7\u00e3o para o fato de que uma vez que surgiram as classes sociais, s\u00e3o elas que se conformam no sujeito fundamental \u2013 por\u00e9m n\u00e3o \u00fanico \u2013 do conhecimento. Isso ocorre porque s\u00e3o as classes sociais que colocam determinadas exig\u00eancias e interesses no que diz respeito \u00e0 produ\u00e7\u00e3o do conhecimento e, com isso, os indiv\u00edduos ir\u00e3o pesquisar de modo consciente ou n\u00e3o a partir destas mesmas exig\u00eancias e interesses. Este processo nos indica a impossibilidade real da exig\u00eancia de uma \u201cneutralidade ideol\u00f3gica\u201d na ci\u00eancia ou na educa\u00e7\u00e3o, por exemplo.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Em Marx, basicamente, verificamos a exist\u00eancia de dois sentidos de ideologia. O primeiro e mais famoso est\u00e1 presente no seu livro escrito com Engels intitulado \u201cA Ideologia Alem\u00e3\u201d. Nessa obra o pensador alem\u00e3o denuncia a invers\u00e3o idealista realizada pelos fil\u00f3sofos alem\u00e3es que, de modo geral, n\u00e3o paravam para analisar a vincula\u00e7\u00e3o de suas ideias, discursos e teses com as condi\u00e7\u00f5es materiais da exist\u00eancia social. Por isso, mesmo eles afirmaram que \u201ctotalmente ao contr\u00e1rio da filosofia alem\u00e3, que desce do c\u00e9u \u00e0 terra, aqui \u00e9 da terra que se sobe ao c\u00e9u\u201d, ou seja, \u00e9 a partir da realidade social e concreta que se analisa as concep\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Outro sentido de ideologia est\u00e1 presente em Marx no seu famoso \u201cPref\u00e1cio de 1859\u201d e, inclusive, \u00e9 deste texto que Luk\u00e1cs parte para a considera\u00e7\u00e3o da ideologia como fun\u00e7\u00e3o social. Uma ideia ou uma teoria cient\u00edfica s\u00f3 pode se converter em ideologia, de acordo com Luk\u00e1cs, depois de terem se transformado em \u201cve\u00edculo te\u00f3rico ou pr\u00e1tico\u201d para resolver conflitos sociais.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Luk\u00e1cs cita como exemplo a astronomia helioc\u00eantrica e a teoria do desenvolvimento da vida org\u00e2nica em que ambas se constitu\u00edram em ideologia apenas depois da atua\u00e7\u00e3o de Galileu ou Darwin, pois a partir de suas elabora\u00e7\u00f5es, outros puderam utilizar seus posicionamentos para travar combates \u201cem torno dos antagonismos sociais\u201d e, com isso, elas \u201cse tornaram operantes\u201d enquanto ideologias.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Em s\u00edntese, podemos entender a ideologia como uma forma espec\u00edfica de resposta pr\u00e1tica \u00e0s exig\u00eancias e conflitos sociais desencadeados pelas classes sociais. Algumas ideologias podem se utilizar de conhecimentos cient\u00edficos verdadeiros ou de falsidades para sua operacionaliza\u00e7\u00e3o. Todavia, como vimos, n\u00e3o \u00e9 o crit\u00e9rio de verdade ou falsidade que determina o que \u00e9 ou n\u00e3o uma ideologia, mas sim, a sua fun\u00e7\u00e3o social em tornar a pr\u00e1xis social consciente e operante frente a um conflito social real e concreto.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">Com o desenvolvimento do ser social, certamente, tamb\u00e9m ocorrer\u00e1 o desenvolvimento e a complexifica\u00e7\u00e3o da ideologia enquanto um complexo social. Teremos ideologias puras (pensemos na filosofia e na grande arte) e ideologias espec\u00edficas (o direito e a pol\u00edtica, por exemplo). De modo bem sucinto, as ideologias espec\u00edficas est\u00e3o voltadas para a a\u00e7\u00e3o direta sobre o complexo social da economia e as ideologias puras dirigem-se \u00e0 percep\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo enquanto membro do g\u00eanero humano e, por isso mesmo, est\u00e3o voltadas ao para-si.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">O crit\u00e9rio mais apropriado para a an\u00e1lise das ideologias deve ser a fun\u00e7\u00e3o que ela desempenha no processo de reprodu\u00e7\u00e3o social e, portanto, a sua pr\u00f3pria vincula\u00e7\u00e3o e interfer\u00eancia pr\u00e1tica na realidade objetiva. A ideologia, nos dizeres de Luk\u00e1cs, \u00e9 uma forma de \u201celabora\u00e7\u00e3o ideal da realidade que serve para tornar a pr\u00e1xis social humana consciente e capaz de agir\u201d. Certamente o poder de influ\u00eancia e interfer\u00eancia pr\u00e1tica da ideologia dominante \u00e9 muito maior do que o de ideologias cr\u00edticas e revolucion\u00e1rias, j\u00e1 que o poder da ideologia n\u00e3o se justifica por si mesma, mas sim, emana do solo social e da classe \u00e0 qual est\u00e1 vinculada.<\/p>\n<h2 lang=\"pt-BR\">Sugest\u00e3o de estudos:<\/h2>\n<p lang=\"pt-BR\">De Marx \u00e9 fundamental a leitura de seu \u201cPref\u00e1cio de 1859\u201d. De Luk\u00e1cs, compreendemos que o estudo de sua Ontologia continua a ser tarefa indispens\u00e1vel para a pr\u00e1xis revolucion\u00e1ria hoje. De Sergio Lessa sugerimos seu livro \u201cPara compreender a Ontologia de Luk\u00e1cs\u201d e de Ivo Tonet seu \u201cM\u00e9todo Cient\u00edfico: Uma abordagem ontol\u00f3gica\u201d. De Ester Vaisman a sua tese de doutorado intitulada \u201cA determina\u00e7\u00e3o marxiana da ideologia\u201d. A respeito da articula\u00e7\u00e3o entre trabalho e ideologia na luta socialista, sugerimos nosso texto \u201cTrabalho, Ideologia e Emancipa\u00e7\u00e3o Humana\u201d dispon\u00edvel em: rafaelrossisite.wordpress.com<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rafael Rossi Um debate \u201cquente\u201d no \u00e2mbito da reflex\u00e3o cient\u00edfica e, principalmente, no seio do marxismo, com certeza, diz respeito<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":5079,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[16,6,77],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5078"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5078"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5078\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5557,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5078\/revisions\/5557"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5079"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5078"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5078"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5078"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}