{"id":5229,"date":"2017-07-01T00:40:01","date_gmt":"2017-07-01T03:40:01","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=5229"},"modified":"2017-10-27T00:49:11","modified_gmt":"2017-10-27T02:49:11","slug":"uma-guerra-aos-excluidos-os-ataques-do-estado-a-populacao-moradia-de-rua-na-cracolandia-sp","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2017\/07\/uma-guerra-aos-excluidos-os-ataques-do-estado-a-populacao-moradia-de-rua-na-cracolandia-sp\/","title":{"rendered":"Uma guerra aos exclu\u00eddos: os ataques do Estado \u00e0 popula\u00e7\u00e3o moradia de rua na cracol\u00e2ndia (SP)"},"content":{"rendered":"<p>A regi\u00e3o da Luz, na capital paulista, \u00e9 palco, h\u00e1 anos, de uma intensa marginaliza\u00e7\u00e3o e exclus\u00e3o da vida humana. A regi\u00e3o, conhecida como \u201cCracol\u00e2ndia\u201d, apresenta uma enorme popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua, destacando-se tamb\u00e9m a grande circula\u00e7\u00e3o e tr\u00e1fico de drogas, como o crack.<br \/>\nPor\u00e9m, muito mais do que mis\u00e9ria, essa regi\u00e3o apresenta muitos mitos que s\u00e3o propagados para garantir a\u00e7\u00f5es truculentas e higienistas. Isso foi o que vimos em 21 de maio \u00faltimo, promovido pela gest\u00e3o municipal de Jo\u00e3o D\u00f3ria e a gest\u00e3o estadual de Alckmin, ambos do PSDB. Colocaram a Pol\u00edcia Militar e Guarda Civil Municipal para atuar de forma violenta e opressora contra a popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua.<br \/>\nAl\u00e9m do tr\u00e1fico e do consumo de drogas estima-se que h\u00e1 cerca de 1.000 a 1.500 pessoas (apesar da dificuldade de encontrar esses dados) na regi\u00e3o. Nem todas usam drogas. H\u00e1 viajantes, ex-caminhoneiros, estrangeiros, m\u00e3es fortes, pais desaparecidos e \u00f3rf\u00e3os de fam\u00edlia inteira. S\u00e3o pessoas que t\u00eam em comum a vulnerabilidade social.<\/p>\n<h2>Um pouco da hist\u00f3ria da &#8220;Craco&#8221;<\/h2>\n<p>O centro de S\u00e3o Paulo e seus bairros pr\u00f3ximos abrigam diversos pr\u00e9dios tombados pelo patrim\u00f4nio hist\u00f3rico. Com o tempo e com a mudan\u00e7a de investimentos do capital com a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria para outros bairros, a regi\u00e3o foi ficando abandonada pelo poder p\u00fablico e se tornando espa\u00e7o de acesso da popula\u00e7\u00e3o mais pauperizada.<br \/>\nNos anos 1990 j\u00e1 havia um alto \u00edndice de usu\u00e1rios de crack e de outras drogas na regi\u00e3o, especialmente nas pens\u00f5es e hot\u00e9is. Ap\u00f3s a\u00e7\u00f5es do Estado de fechamento e lacra\u00e7\u00e3o desses espa\u00e7os, os usu\u00e1rios e demais moradores da regi\u00e3o foram ocupando as ruas.<br \/>\nSob as diversas gest\u00f5es posteriores, a\u00e7\u00f5es truculentas ocorreram e o \u201cfluxo\u201d (ponto de consumo e tr\u00e1fico de drogas) foi migrando e se espalhando pela regi\u00e3o. Nessa \u00faltima a\u00e7\u00e3o, a GCM registrou 23 pontos de deslocamento dessa popula\u00e7\u00e3o pelos bairros arredores, como Liberdade e Barra Funda.<\/p>\n<h2>O projeto de revitaliza\u00e7\u00e3o que ignora as vidas<\/h2>\n<p>Ao mesmo tempo em que o abandono e essas diversas a\u00e7\u00f5es violentas ocorrem, as gest\u00f5es municipal e estadual realizam uma s\u00e9rie de investimentos para tentar mudar o cen\u00e1rio social e geogr\u00e1fico urbano. Foram investidos dinheiro p\u00fablico em diversos projetos culturais na regi\u00e3o que est\u00e3o sob gest\u00e3o p\u00fablica e privada como a Sala S\u00e3o Paulo, Museu da L\u00edngua Portuguesa, a Esta\u00e7\u00e3o Pinacoteca e o Centro Paula Souza.<br \/>\nTamb\u00e9m h\u00e1 uma intensa disputa por terrenos pela especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, que visa utilizar essa regi\u00e3o estrategicamente localizada. S\u00f3 para se ter uma ideia, a Seguradora Porto Seguro j\u00e1 possui 10 terrenos na regi\u00e3o.<br \/>\nConcomitantemente, a prefeitura vem realizando a\u00e7\u00f5es para privatiza\u00e7\u00e3o de terrenos, como em 2005 com o Projeto Nova Luz \u2013 que tinha o prop\u00f3sito de remover fam\u00edlias que viviam h\u00e1 d\u00e9cadas na regi\u00e3o \u2013 para garantir espa\u00e7o aos grandes empreendimentos e atender um p\u00fablico bem mais elitizado, diferente do que frequenta a regi\u00e3o. Gra\u00e7as a mobiliza\u00e7\u00e3o dos moradores e comerciantes esse projeto foi barrado.<br \/>\nNessa recente a\u00e7\u00e3o, novamente violenta, a prefeitura demoliu pr\u00e9dios (Pasmem! Com pessoas dentro! E tombados pelo patrim\u00f4nio hist\u00f3rico!), al\u00e9m de novamente fechar outros.<br \/>\nPretende tamb\u00e9m negociar esses terrenos com a Habitacional, uma parceria p\u00fablico-privada (PPP), que pretende construir moradias para popula\u00e7\u00e3o com renda entre 1 a 10 sal\u00e1rios m\u00ednimos, ou seja, a popula\u00e7\u00e3o que j\u00e1 vive na regi\u00e3o foi expulsa para constru\u00e7\u00e3o de habita\u00e7\u00f5es populares para outro p\u00fablico e que tem renda, visto que a popula\u00e7\u00e3o atual n\u00e3o possui renda nenhuma ou \u00e9 inferior a um sal\u00e1rio m\u00ednimo. Tamb\u00e9m destacamos a falta de comprometimento com o patrim\u00f4nio hist\u00f3rico.<br \/>\nA prefeitura, ent\u00e3o, negocia a privatiza\u00e7\u00e3o (a entrega para a iniciativa privada) dessa regi\u00e3o para \u201crevitalizar\u201d, isto \u00e9, para manter no local uma popula\u00e7\u00e3o que possa pagar para consumir, um p\u00fablico abastado. Para isso, n\u00e3o isso integra e sim expulsa, agride e exclui vidas que j\u00e1 vivem h\u00e1 anos no local.<\/p>\n<h2>Precisamos falar sobre o crack tamb\u00e9m<\/h2>\n<p>A droga que d\u00e1 o nome de Cracol\u00e2ndia \u00e0 regi\u00e3o ainda permeia diversos tabus e mitos. De fato, assim como todas as drogas, causa prazer e provoca o v\u00edcio. Seu baixo custo de produ\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o, sua r\u00e1pida absor\u00e7\u00e3o pelo organismo, assim como seus efeitos: perda do apetite, excita\u00e7\u00e3o, hiperatividade, ins\u00f4nia e perda da sensa\u00e7\u00e3o de cansa\u00e7o s\u00e3o condi\u00e7\u00f5es bem atrativas para uma pessoa em situa\u00e7\u00e3o de rua, que por n\u00e3o possui recursos e precisa criar suas t\u00e1ticas de sobreviv\u00eancia contra a fome e a viol\u00eancia policial.<br \/>\nPara al\u00e9m disso, estudos recentes t\u00eam mostrado que as condi\u00e7\u00f5es de v\u00edcio s\u00e3o de efeito social e n\u00e3o por causa de problemas na vida dessas pessoas.<br \/>\nO neurocientista Dr. Carl Hart mostrou com seus estudos que 80% a 90% dos usu\u00e1rios de crack n\u00e3o s\u00e3o viciados na droga e que possuem consci\u00eancia de fazer novas escolhas na vida, caso sejam oferecidas propostas atraentes.<br \/>\nDessa forma, se mostra necess\u00e1rio a constru\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas que busquem n\u00e3o somente a desintoxica\u00e7\u00e3o org\u00e2nica de seus corpos, mas a emancipa\u00e7\u00e3o social dessa popula\u00e7\u00e3o para que tenha condi\u00e7\u00f5es de manter ou descartar o uso dessas drogas de forma aut\u00f4noma e controlada.<br \/>\nN\u00e3o haver\u00e1 o fim do tr\u00e1fico das drogas que d\u00e3o lucro, matam e mutilam sem que haja a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade sem exclu\u00eddos em que tudo o que produzimos seja de bem comum, uma sociedade socialista.<br \/>\nNo entanto, precisamos ter um olhar mais atento \u00e0s chamadas \u201cCracol\u00e2ndias\u201d, que se desenvolvem em diversos locais do pa\u00eds (na regi\u00e3o de SP \u00e9 a maior, mas n\u00e3o a \u00fanica). Precisamos lutar conjuntamente com essa popula\u00e7\u00e3o para a descriminaliza\u00e7\u00e3o e para que as a\u00e7\u00f5es sejam de fortalecimento e n\u00e3o de dizima\u00e7\u00e3o dessa parcela da sociedade!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A regi\u00e3o da Luz, na capital paulista, \u00e9 palco, h\u00e1 anos, de uma intensa marginaliza\u00e7\u00e3o e exclus\u00e3o da vida humana.<\/p>\n","protected":false},"author":10,"featured_media":5233,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5229"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/10"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5229"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5229\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5232,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5229\/revisions\/5232"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5233"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5229"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5229"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5229"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}