{"id":5235,"date":"2017-10-01T15:17:01","date_gmt":"2017-10-01T18:17:01","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=5235"},"modified":"2018-04-30T20:40:46","modified_gmt":"2018-04-30T23:40:46","slug":"revolucao-russa-guerra-civil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2017\/10\/revolucao-russa-guerra-civil\/","title":{"rendered":"Revolu\u00e7\u00e3o Russa: Guerra Civil"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Sergio Lessa<\/p>\n<p>No Jornal Espa\u00e7o Socialista de agosto, vimos que, ao chegarem ao poder em Outubro de 1917, os bolcheviques se defrontaram com uma situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica jamais considerada: a vit\u00f3ria de um partido revolucion\u00e1rio em um \u00fanico, isolado e atrasado pa\u00eds. Nem mesmo Lenin e os bolcheviques consideravam poss\u00edvel manter o poder sem a vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o na Europa \u2013 at\u00e9 que essa possibilidade foi se concretizando ao longo dos poucos meses entre junho de 1918 e mar\u00e7o de 1921. Neste artigo veremos o in\u00edcio da adapta\u00e7\u00e3o da Revolu\u00e7\u00e3o Russa a essa nova situa\u00e7\u00e3o durante o per\u00edodo da Guerra Civil, e, nos \u00faltimos 3 artigos dessa s\u00e9rie sobre a Revolu\u00e7\u00e3o Russa, veremos como o Partido Bolchevique foi impactado por essa situa\u00e7\u00e3o, em seguida, a Rebeli\u00e3o de Kronstadt e, no \u00faltimo artigo, o X Congresso do Partido Bolchevique, em mar\u00e7o de 1921.<\/p>\n<p>O agravamento da situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da R\u00fassia sovi\u00e9tica no per\u00edodo da Guerra Civil teve como principais consequ\u00eancias a paralisa\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o industrial, a desvaloriza\u00e7\u00e3o da moeda e a decorrente paralisia do com\u00e9rcio.<\/p>\n<p>Nas cidades, a falta de combust\u00edveis, agravada pela ocupa\u00e7\u00e3o das minas de carv\u00e3o do sul e dos Montes Urais pelos ex\u00e9rcitos brancos e a queda do abastecimento de mat\u00e9rias-primas devido \u00e0 interrup\u00e7\u00e3o dos transportes ferrovi\u00e1rio e fluvial, levaram a um verdadeiro colapso das atividades industriais. A produ\u00e7\u00e3o industrial naqueles anos era muitas vezes inferior \u00e0 de antes da guerra. Muitas plantas industriais estavam paradas e sem qualquer manuten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No campo, a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o era melhor. A agricultura russa daquele per\u00edodo se caracterizava pela exist\u00eancia de pequenos e m\u00e9dios propriet\u00e1rios que conquistaram suas terras com a Revolu\u00e7\u00e3o. Eles produziam de acordo com a possibilidade de comercializar sua produ\u00e7\u00e3o ao final da safra. Ou seja, eles produziam de acordo com a quantia de produtos que a cidade tinha a lhes oferecer em troca de sua produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola. E a desvaloriza\u00e7\u00e3o da moeda fazia com que os camponeses n\u00e3o vissem com bons olhos a perspectiva de receber em troca de seus produtos o papel moeda que se desvalorizava rapidamente.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o era agravada pela atua\u00e7\u00e3o dos especuladores, que escondiam parte dos produtos agr\u00edcolas para for\u00e7ar uma alta artificial nos pre\u00e7os.<\/p>\n<p>A paralisa\u00e7\u00e3o industrial, com o desemprego que a acompanha, a desvaloriza\u00e7\u00e3o da moeda e o decl\u00ednio do com\u00e9rcio fizeram com que as grandes cidades russas come\u00e7assem a passar fome. O racionamento de alimentos &#8211; seguido do mercado negro &#8211; foi a consequ\u00eancia imediata. A fome e o frio amea\u00e7avam a cada inverno fazer mais v\u00edtimas entre a popula\u00e7\u00e3o urbana do que no ano anterior.<\/p>\n<p>Milhares de trabalhadores urbanos migraram neste per\u00edodo para os seus locais de origem no campo &#8211; a classe oper\u00e1ria vivia um processo de extin\u00e7\u00e3o. De 11 milh\u00f5es de oper\u00e1rios, em 1922 somente restariam 4,6 milh\u00f5es, dos quais 1,2 milh\u00f5es eram oper\u00e1rios agr\u00edcolas.<\/p>\n<p>A guerra civil colocou um pesado \u00f4nus sobre essa economia j\u00e1 desestruturada. O pre\u00e7o da guerra, a alimenta\u00e7\u00e3o, o transporte e o armamento do Ex\u00e9rcito Vermelho (dificuldades essas agravadas pela op\u00e7\u00e3o de se montar um ex\u00e9rcito tradicional, e n\u00e3o um ex\u00e9rcito guerrilheiro que poderia se sustentar) deterioraram ainda mais a situa\u00e7\u00e3o. Os privil\u00e9gios que gozavam os altos funcion\u00e1rios (em geral de origem burguesa) e os oficias do Ex\u00e9rcito Vermelho continuavam a aumentar. A escala de sal\u00e1rios foi sucessivamente modificada favorecendo as camadas mais altas da administra\u00e7\u00e3o do Estado e do partido bolchevique.<\/p>\n<p>Nessa situa\u00e7\u00e3o, o poder sovi\u00e9tico decide recorrer \u00e0 requisi\u00e7\u00e3o dos produtos agr\u00edcolas dos camponeses, como \u00fanica forma de evitar o desaparecimento das cidades e a fome no Ex\u00e9rcito Vermelho. Destacamentos militares, muitas vezes comandados pela Checa (a pol\u00edcia secreta), se dirigiam ao interior para tomar os produtos agr\u00edcolas dos camponeses. Ao mesmo tempo, o com\u00e9rcio de gr\u00e3os e alimentos foi proibido e o mercado negro severamente perseguido com o objetivo de melhorar o abastecimento e evitar a especula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O quanto essas medidas descontentaram os camponeses n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil de imaginar. Para conter tal descontentamento, e levar a cabo as medidas adotadas, foi necess\u00e1rio um refor\u00e7o ainda maior do aparelho repressivo-burocr\u00e1tico em patamar nunca at\u00e9 ent\u00e3o atingido. Era necess\u00e1rio impedir a todo custo uma revolta camponesa que se transformasse em aliada dos Ex\u00e9rcitos Brancos. As medidas repressivas, acompanhadas de intensa propaganda feita pelos bolcheviques da necessidade imperiosa das requisi\u00e7\u00f5es para evitar a derrota da revolu\u00e7\u00e3o, aliadas ao temor que as massas camponesas tinham do retorno do regime czarista; todos esses fatores fizeram com que se adiasse a eclos\u00e3o de um revolta camponesa at\u00e9 o inverno de 1920\/21. A consequ\u00eancia \u201cmilitar\u201d desse descontentamento e desconfian\u00e7a dos camponeses em rela\u00e7\u00e3o aos bolcheviques \u00e9 a inviabiliza\u00e7\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o de um ex\u00e9rcito de mil\u00edcias que defendesse a rep\u00fablica sovi\u00e9tica empregando a t\u00e1tica de guerrilha. A partir de ent\u00e3o, a \u00fanica sa\u00edda que restava era seguir o caminho da constru\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito vermelho como foi feito: mantendo muitas das caracter\u00edsticas e rela\u00e7\u00f5es de ex\u00e9rcito burgu\u00eas.<\/p>\n<p>Uma ideia de como era profunda a desconfian\u00e7a e o descontentamento dos camponeses em rela\u00e7\u00e3o ao poder sovi\u00e9tico \u00e9 dada pela substitui\u00e7\u00e3o, nos sovietes rurais, dos delegados mencheviques, sociais-revolucion\u00e1rios e anarquistas na medida em que esses grupos s\u00e3o colocados na ilegalidade pela revolu\u00e7\u00e3o. No lugar desses delegados s\u00e3o eleitos outros sem partido, fazendo com que diminu\u00edsse a porcentagem de delegados bolcheviques eleitos para esses sovietes, que caiu de 61%, em 1918, para 43% em 1920, e 44% em 1921<strong>(1)<\/strong>.<\/p>\n<p>O descontentamento que grassa no campo acaba por atingir tamb\u00e9m as cidades. O desemprego, o aviltamento dos sal\u00e1rios com a infla\u00e7\u00e3o, o racionamento de alimentos, a perda de poder efetivo dos oper\u00e1rios sobre os aparelhos de Estado, onde altos funcion\u00e1rios e os oficiais militares possu\u00edam cada vez mais regalias, aliado ao esvaziamento do poder de influ\u00eancia dos oper\u00e1rios dentro das f\u00e1bricas &#8211; todos esses fatores lan\u00e7aram a classe oper\u00e1ria russa numa enorme onda de descontentamento, des\u00e2nimo e apatia: caiu a produ\u00e7\u00e3o, decresceu a produtividade etc.<\/p>\n<p>Essa onda de descontentamento vai ter sua primeira grande express\u00e3o por ocasi\u00e3o do VIII Congresso do PC(b)R que se realizou entre 18 e 23 de mar\u00e7o de 1919. O crescente poder do aparelho burocr\u00e1tico sobre as massas oper\u00e1rias que tem como contra partida o esvaziamento dos \u00f3rg\u00e3os sovi\u00e9ticos, fez com que as decis\u00f5es fossem tomadas \u201ccada vez mais frequentemente pelos membros do partido que trabalham no aparelho sovi\u00e9tico\u201d.<\/p>\n<p>A Oposi\u00e7\u00e3o de Esquerda, que surgiu no decorrer de 1918, se pronunciou principalmente atrav\u00e9s de Osinski, um velho militante do tempo da clandestinidade. Critica a pouca influ\u00eancia da classe oper\u00e1ria sobre o poder sovi\u00e9tico, o aumento do poder dos burocratas tanto dentro do aparelho estatal quanto no interior do partido; e prop\u00f5e, entre outras coisas, que sejam admitidos um n\u00famero suficiente de oper\u00e1rios no CC para proletariz\u00e1-lo A Oposi\u00e7\u00e3o de Esquerda pede que o Congresso respeite as normas de democracia prolet\u00e1ria e retorne ao m\u00e9todo de elei\u00e7\u00e3o dos funcion\u00e1rios a cargos dirigentes, e que seja abandonada a pr\u00e1tica habitual de nomea\u00e7\u00f5es desde acima.<\/p>\n<p>Essas reivindica\u00e7\u00f5es feitas pela oposi\u00e7\u00e3o de esquerda t\u00eam mais uma raz\u00e3o de ser se nos lembrarmos das resolu\u00e7\u00f5es adotadas no II Congresso Panrusso dos Sindicatos no come\u00e7o de 1919, que aumentavam sobremaneira o poder de coer\u00e7\u00e3o do aparelho burocr\u00e1tico sobre as massas. A primeira resolu\u00e7\u00e3o adotada pelo II congresso Panrusso dos Sindicatos afirma que as decis\u00f5es do Comit\u00ea Executivo dos Sindicatos s\u00e3o obrigat\u00f3rias para todos os membros dos sindicatos, e a desobedi\u00eancia significa a exclus\u00e3o. Com essa resolu\u00e7\u00e3o, passa a vigorar um regime no interior dos sindicatos muito semelhante ao que vigorava no interior do partido bolchevique. A possibilidade que os membros dos sindicatos tinham de reverter uma resolu\u00e7\u00e3o ficava cada vez menor na medida em que tinham que passar por cima de um aparelho burocr\u00e1tico estruturado de cima para baixo &#8211; e mais que isso &#8211; no processo de luta contra a resolu\u00e7\u00e3o adotada, n\u00e3o poderia desobedecer ao executivo, pois isso significava a exclus\u00e3o. Outro aspecto significativo dessa decis\u00e3o \u00e9 que as resolu\u00e7\u00f5es do executivo (n\u00e3o as do congresso) \u00e9 que eram obrigat\u00f3rias para todos os membros. Nesse Congresso ocorrem protestos contra o fato de que o Conselho Central e outros \u00f3rg\u00e3os centrais tenham anulado a elei\u00e7\u00e3o de delegados sindicais realizadas pela base dos sindicatos. Segundo esses protestos, a elei\u00e7\u00e3o de delegados que n\u00e3o defendessem o ponto de vista oficial bolchevique implicava na anula\u00e7\u00e3o dessas elei\u00e7\u00f5es e, n\u00e3o poucas vezes, a nomea\u00e7\u00e3o de delegados pelas inst\u00e2ncias superiores como representantes dos trabalhadores.<\/p>\n<p>O eco que essas cr\u00edticas encontram na base da estrutura partid\u00e1ria, principalmente entre os oper\u00e1rios, faz com que seja aprovado pelo congresso um novo programa do partido bolchevique, que no ponto 5 de sua parte econ\u00f4mica afirma que a dire\u00e7\u00e3o da economia deveria ser entregue aos sindicatos.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, a argumenta\u00e7\u00e3o levantada pela dire\u00e7\u00e3o do partido de que era necess\u00e1rio aumentar a centraliza\u00e7\u00e3o para enfrentar a crise que atingia a jovem rep\u00fablica sovi\u00e9tica encontra muitos partid\u00e1rios no interior do Congresso. N\u00e3o podemos nos esquecer do prest\u00edgio que gozavam os dirigentes bolcheviques entre as massas, prest\u00edgio esse angariado durante o ano de 1917. Al\u00e9m disso, os dirigentes bolcheviques faziam crer em seus discursos que essas medidas eram provis\u00f3rias e, uma vez que superada a crise, deveriam ser abandonadas. Ningu\u00e9m ainda defendia que essas medidas eram pr\u00f3prias de um longo per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o para o socialismo, que n\u00e3o eram simples medidas provis\u00f3rias, como ocorrer\u00e1 mais tarde no correr do ano de 1920.<\/p>\n<p>Com essa argumenta\u00e7\u00e3o, a dire\u00e7\u00e3o do partido consegue que o VIII Congresso do PC(b)R aprove uma resolu\u00e7\u00e3o afirmando que as decis\u00f5es da dire\u00e7\u00e3o somente poderiam ser questionadas depois de cumpridas &#8211; o que \u00e9 uma clara limita\u00e7\u00e3o ao direito (pelo menos formal) que os membros do Partido at\u00e9 ent\u00e3o tinham de questionar abertamente as decis\u00f5es tomadas pelos \u00f3rg\u00e3os de dire\u00e7\u00e3o, como L\u00eanin fez in\u00fameras vezes durante sua vida de militante pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o Congresso cria tr\u00eas novos organismos que centralizar\u00e3o ainda mais o poder em seu interior: o Politburo, o Orgburo e o Ouchaspred. O primeiro se converteria no deposit\u00e1rio de todo o poder do CC, que passa a reunir com todos os membros em espa\u00e7os de tempo cada vez maiores. O segundo e o terceiro passam a controlar um enorme fich\u00e1rio com informa\u00e7\u00f5es sobre todos os quadros partid\u00e1rios e se torna o respons\u00e1vel pela maior parte das transfer\u00eancias e nomea\u00e7\u00f5es que faz o partido.<\/p>\n<p>\u201c&#8230; entre abril e novembro de 1919, o Ouchraspred faz 2.182 nomea\u00e7\u00f5es, contra 544 efetuados pelo Orgburo (organismo eleito). De abril de 1920 a meados de fevereiro de 1921, o Ouchraspred nomeia 40 mil funcion\u00e1rios\u201d. \u201cEm novembro de 1921, o Ouchaspred disp\u00f5e de relat\u00f3rios sobre cerca de 23.500 quadros do partido&#8230; Alguns meses mais tarde, o Ouchraspred tem um fich\u00e1rio organizado de 26 mil quadros, o que lhe permite seguir e determinar amplamente uma \u2018carreira\u2019. Em junho de 1922, ap\u00f3s a sua fus\u00e3o com o Orgotdel (\u00f3rg\u00e3o encarregado da organiza\u00e7\u00e3o e da regulamenta\u00e7\u00e3o), aquele \u00f3rg\u00e3o toma-se ainda mais poderoso. O Orgotdel disp\u00f5e da\u00ed por diante, de seu pr\u00f3prio Estado-Maior de &#8216;instrutores\u2019, encarregados de inspecionar as organiza\u00e7\u00f5es locais do partido e com acesso a todos os documentos e a todas as reuni\u00f5es, inclusive as realizadas secretamente. Os instrutores podem formular todas as recomenda\u00e7\u00f5es a fim de modificar as decis\u00f5es dos comit\u00eas provinciais, embora estes preservem o direito de apelar para o Comit\u00ea Central\u201d.<\/p>\n<p>Dessa forma, o controle deste \u00f3rg\u00e3o burocr\u00e1tico se converte numa formid\u00e1vel ferramenta de luta interna no partido: controlar o Orgotdel significa ter o poder de transferir membros \u201cdescontentes\u201d para regi\u00f5es distantes ou onde suas ideias encontrar\u00e3o pouco eco e, ao mesmo tempo, fazer nomea\u00e7\u00f5es que fortale\u00e7am esta ou aquela posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No correr do ano de 1919, e no come\u00e7o do ano de 1920, continua o processo de centraliza\u00e7\u00e3o administrativa e de crescimento do aparelho burocr\u00e1tico. As interven\u00e7\u00f5es da Checa no interior do partido bolchevique, afastando os militantes \u201cdescontentes\u201d ou \u201cinvestigando conspira\u00e7\u00f5es\u201d v\u00e3o se tornando cada vez mais fortes. Em junho, s\u00e3o recriadas as cadernetas de trabalho para os oper\u00e1rios em Moscou e Petrogrado, com o objetivo de aumentar a efic\u00e1cia do controle dos trabalhadores. Essas cadernetas haviam sido abolidas no correr do ano de 1917 pelos pr\u00f3prios oper\u00e1rios, que as consideravam uma forma de domina\u00e7\u00e3o capitalista. No in\u00edcio de 1920, um relat\u00f3rio do III Congresso dos Sindicatos, chegar\u00e1 a lamentar o desaparecimento da m\u00e1quina policial czarista que sabia como fichar e classificar as pessoas, tanto na cidade como no campo.<\/p>\n<p>No segundo semestre de 1919, explode uma enorme discuss\u00e3o no seio do partido bolchevique sobre a quest\u00e3o da militariza\u00e7\u00e3o do trabalho e o problema do dirigente \u00fanico na f\u00e1brica.<\/p>\n<p>A militariza\u00e7\u00e3o do trabalho, cujo principal defensor era Trotsky, contar\u00e1 com o apoio de L\u00eanin no decorrer do ano de 1919 e boa parte em 1920. Constava de uma s\u00e9rie de medidas que for\u00e7ariam os oper\u00e1rios a trabalhar onde, como, quando e no que determinassem os \u00f3rg\u00e3os centrais; medidas que legalizariam a pr\u00e1tica do partido poder destituir dirigentes sindicais eleitos que n\u00e3o se ajustassem \u00e0s novas orienta\u00e7\u00f5es e substitui-los por dirigentes mais \u201ccompreensivos\u201d; e tamb\u00e9m medidas criando campos de concentra\u00e7\u00e3o para os oper\u00e1rios que se negassem a se submeter \u00e0s novas condi\u00e7\u00f5es de trabalho, que seriam considerados como desertores.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o do dirigente \u00fanico na f\u00e1brica \u00e9 a proposta de L\u00eanin para substituir a dire\u00e7\u00e3o coletiva das f\u00e1bricas. Este administrador individual seria nomeado \u201cde cima\u201d e respons\u00e1vel n\u00e3o perante os oper\u00e1rios e os comit\u00eas de f\u00e1brica, mas sim \u00e0s inst\u00e2ncias centrais de decis\u00e3o na R\u00fassia sovi\u00e9tica. O argumento utilizado a favor do dirigente \u00fanico \u00e9 que ele seria mais eficiente &#8211; a mesma argumenta\u00e7\u00e3o utilizada para justificar a estrutura\u00e7\u00e3o do Ex\u00e9rcito Vermelho da forma como se deu e para extinguir o poder dos comit\u00eas de f\u00e1brica no interior das ind\u00fastrias.<\/p>\n<p>Em dezembro de 1919, Trotsky apresenta ao CC, para ser discutido somente no seu interior, as \u201cTeses sobre a Transi\u00e7\u00e3o da Guerra \u00e0 Paz\u201d. Nela, Trotsky argumentava que a requisi\u00e7\u00e3o, o estabelecimento do princ\u00edpio da dire\u00e7\u00e3o \u00fanica nas f\u00e1bricas e a militariza\u00e7\u00e3o do trabalho eram medidas que deveriam se estender por um longo per\u00edodo de tempo, partes integrantes que eram do processo de transi\u00e7\u00e3o do capitalismo para o socialismo. Nesta mesma linha, Bukarin argumentar\u00e1 que o desaparecimento do com\u00e9rcio e a desvaloriza\u00e7\u00e3o da moeda, com a introdu\u00e7\u00e3o das trocas naturais &#8211; manifesta\u00e7\u00f5es da agudeza da crise econ\u00f4mica naquela momento &#8211; eram sinais de que avan\u00e7avam em dire\u00e7\u00e3o ao socialismo. Opini\u00e3o semelhante possu\u00eda L\u00eanin.<\/p>\n<p>No dia seguinte, por \u201cengano\u201d, Bukarin, redator do Pravda, publica suas teses tentando desmoralizar as posi\u00e7\u00f5es de Trotsky e o debate vem a p\u00fablico.<\/p>\n<p>Entre 10 e 21 de janeiro de 1920, re\u00fane-se o 3o. Congresso dos Conselhos Econ\u00f4micos. Alguns dias antes L\u00eanin e Trotsky apresentam a proposta do dirigente \u00fanico e da militariza\u00e7\u00e3o do trabalho para a fra\u00e7\u00e3o bolchevique na reuni\u00e3o do Conselho Central Panrusso dos Sindicatos, e toda a fra\u00e7\u00e3o se manifesta contr\u00e1ria a ela.<\/p>\n<p>O 3o. Congresso dos Conselhos Econ\u00f4micos aprova uma resolu\u00e7\u00e3o a favor da dire\u00e7\u00e3o coletiva na ind\u00fastria, contra a posi\u00e7\u00e3o de L\u00eanin, quem afirmou: \u201c&#8230; O princ\u00edpio colegiado (isto \u00e9, dire\u00e7\u00e3o coletiva)&#8230; \u00e9 algo rudimentar, que pode ser necess\u00e1rio numa primeira etapa, quando se tem que construir partindo do zero. (&#8230;) A passagem a um trabalho pr\u00e1tico est\u00e1 ligada \u00e0 autoridade individual. \u00c9 o sistema que melhor garante a utiliza\u00e7\u00e3o dos recursos humanos.\u201d J\u00e1 em 1918, lembremos, L\u00eanin pregava a ado\u00e7\u00e3o de \u201cin\u00fameros aspectos progressistas e cient\u00edficos do taylorismo\u201d.<\/p>\n<p>Em fevereiro, a oposi\u00e7\u00e3o no interior do Partido \u00e0 proposta do dirigente \u00fanico e \u00e0 militariza\u00e7\u00e3o do trabalho \u00e9 grande. As confer\u00eancias do Partido em Karkov e Moscou aprovam resolu\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias a elas. Tomski redige suas teses, afirmando que o \u201cprinc\u00edpio fundamental que serve de guia ao trabalho de diversos organismos que dirigem e administram nossa economia \u00e9 o princ\u00edpio vigente: o da dire\u00e7\u00e3o coletiva\u201d. As teses de Tomski conquistam uma simpatia cada vez maior entre os ativistas sindicais e na base do partido.<\/p>\n<p>Nas fileiras partid\u00e1rias, neste per\u00edodo que se estende do in\u00edcio de 1919 at\u00e9 o X Congresso em mar\u00e7o de 1921, se vive um misto de surpresa e des\u00e2nimo, principalmente entre os setores mais pr\u00f3ximos ao proletariado. As medidas aprovadas pelo partido durante a guerra civil, fortalecendo o aparelho burocr\u00e1tico, o aparelho repressivo e os meios de controle sobre a massa e sobre os militantes sindicais e do partido; o fortalecimento dos \u00f3rg\u00e3os centrais e dos de decis\u00e3o em detrimento dos \u00f3rg\u00e3os locais e dos princ\u00edpios da democracia oper\u00e1ria; tais medidas que inicialmente eram apresentadas como provis\u00f3rias, come\u00e7avam a se revestir de um novo car\u00e1ter. Agora s\u00e3o medidas que deveriam perdurar por um longo per\u00edodo de tempo e que garantiriam a transi\u00e7\u00e3o para o socialismo. O fim do poder oper\u00e1rio dentro das f\u00e1bricas, agora nas m\u00e3os dos dirigentes \u00fanicos nomeados pelos \u00f3rg\u00e3os centrais do governo; o soldado russo tendo que se submeter a um regime de disciplina semelhante ao do ex\u00e9rcito burgu\u00eas, sem poder contar com a for\u00e7a dos comit\u00eas de soldados para defender seus direitos e vendo seus superiores &#8211; muitas vezes declarados czaristas que combatiam a revolu\u00e7\u00e3o &#8211; com privil\u00e9gios sempre crescentes; o campon\u00eas russo tendo que se submeter ao odiado funcion\u00e1rio p\u00fablico, que durante o velho regime lhe cobrava altos impostos e agora, sob regime sovi\u00e9tico, lhe retirava parte da produ\u00e7\u00e3o sem compensa\u00e7\u00e3o alguma &#8211; essa situa\u00e7\u00e3o toda provocava um profundo descontentamento entre as massas trabalhadoras que se afastam paulatinamente do poder sovi\u00e9tico.<\/p>\n<p>Em mar\u00e7o de 1920, o 2o. Congresso Panrusso dos Trabalhadores em Alimenta\u00e7\u00e3o aprovou uma resolu\u00e7\u00e3o \u201ccensurando o partido bolchevique por haver instaurado uma domina\u00e7\u00e3o ilimitada e incontrolada sobre o proletariado e o campesinato, e haver levado at\u00e9 o absurdo uma centraliza\u00e7\u00e3o espantosa (&#8230;) destruindo todo elemento de espontaneidade e de vida do pa\u00eds\u201d. \u201cA chamada ditadura do proletariado \u00e9 na realidade uma ditadura sobre o proletariado do partido, e at\u00e9 de uns quantos indiv\u00edduos\u201d.<\/p>\n<p>Apesar deste descontentamento, o aparelho burocr\u00e1tico funciona. Transfer\u00eancias s\u00e3o realizadas, a Checa investiga \u201catividades suspeitas\u201d de tal forma que o IX Congresso do PC(b)R aprova as teses de L\u00eanin e Trotsky, que conta agora com o apoio de Radek: \u201cA classe oper\u00e1ria organizada deve superar o preconceito burgu\u00eas da liberdade do trabalho, t\u00e3o cara ao cora\u00e7\u00e3o dos mencheviques e conciliadores de toda esp\u00e9cie\u201d.<\/p>\n<p>O trabalho obrigat\u00f3rio \u00e9 mantido, assim como o racionamento estrito sobre os bens de consumo, o sal\u00e1rio em esp\u00e9cie, a requisi\u00e7\u00e3o dos produtos agr\u00edcolas e a proibi\u00e7\u00e3o sobre o com\u00e9rcio. O Congresso aprova a substitui\u00e7\u00e3o do \u201cprinc\u00edpio da elei\u00e7\u00e3o\u201d dos dirigentes econ\u00f4micos e industriais com base na sua efici\u00eancia \u201ct\u00e9cnica\u201d. A dire\u00e7\u00e3o coletiva \u00e9 taxada de \u201cut\u00f3pica\u201d, \u201cnada pr\u00e1tica\u201d e \u201cnociva\u201d, o Congresso se prop\u00f5e a lutar \u201ccontra a presun\u00e7\u00e3o ignorante (&#8230;) de elementos demagogos (&#8230;) que cr\u00eaem que a classe oper\u00e1ria pode resolver seus problemas sem utilizar especialistas burgueses nos postos de maior responsabilidade. N\u00e3o pode haver lugar nas fileiras do partido do socialismo cient\u00edfico a demagogos que ati\u00e7am este tipo de preconceitos nos setores mais atrasados da classe oper\u00e1ria\u201d.\u201cO IX Congresso decide explicitamente que nenhum grupo sindical pode intervir diretamente na gest\u00e3o industrial e que os comit\u00eas de f\u00e1brica devem consagrar-se a assuntos de disciplina no trabalho, de propaganda e educa\u00e7\u00e3o dos oper\u00e1rios\u201d.<\/p>\n<p>Por fim, o IX Congresso confere o poder ao Orgburo, composto por 5 membros do CC, de transferir os quadros do partido sem submeter o assunto ao Politburo. Essa resolu\u00e7\u00e3o vem na verdade legalizar uma pr\u00e1tica que j\u00e1 vinha acontecendo em maior ou menor escala.<\/p>\n<p>Durante todo o primeiro semestre continua a luta de L\u00eanin, Trotsky e Bukarin a favor da militariza\u00e7\u00e3o do trabalho e da institui\u00e7\u00e3o do dirigente \u00fanico que, n\u00e3o obstante a aprova\u00e7\u00e3o pelo IX Congresso, continua encontrando resist\u00eancia nas bases para sua aplica\u00e7\u00e3o. Para Trotsky, o princ\u00edpio da dire\u00e7\u00e3o coletiva \u00e9 um preconceito \u201cmenchevique\u201d. Em abril ele \u00e9 nomeado para o Comissariado dos Transportes, que se encontrava \u00e0 beira de um colapso. \u201cO Politburo (promete) &#8230; apoi\u00e1-lo sem reservas em qualquer decis\u00e3o que tomasse, por mais rigorosa que fosse\u201d.<\/p>\n<p>L\u00eanin neste semestre se vangloria de ter sido partid\u00e1rio do dirigente \u00fanico desde o primeiro momento. J\u00e1 em 1918, segundo ele, \u201chavia assinalado a necessidade de admitir a autoridade ditatorial de indiv\u00edduos isolados, se queria a realiza\u00e7\u00e3o do ideal sovi\u00e9tico\u201d.<\/p>\n<p>Para Bukarin, \u201cresolvido no essencial o problema da consolida\u00e7\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o de classe do proletariado\u201d, n\u00e3o h\u00e1 mais necessidade de \u201cdar \u00eanfase \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, e sim \u00e0 ado\u00e7\u00e3o de uma forma de gest\u00e3o que garanta o m\u00e1ximo de compet\u00eancia. O Princ\u00edpio de uma ampla elegibilidade pela base (ordinariamente pelos pr\u00f3prios oper\u00e1rios de uma f\u00e1brica) \u00e9 substitu\u00eddo pelo princ\u00edpio da sele\u00e7\u00e3o cuidadosa que leva em conta a compet\u00eancia. para o pessoal t\u00e9cnico e administrativo\u201d.<\/p>\n<p>O segundo semestre do ano de 1920 se inicia prometendo grandes lutas pol\u00edticas. A vit\u00f3ria certa do poder bolchevique contra os ex\u00e9rcitos brancos e o estabelecimento dos primeiros la\u00e7os com os pa\u00edses capitalistas para a realiza\u00e7\u00e3o de um com\u00e9rcio regular entre a R\u00fassia e o resto do mundo, melhoraram sensivelmente as expectativas para os bolcheviques. Os trabalhadores e os membros do Partido se sentem mais \u00e0 vontade para dizerem o que pensam.<\/p>\n<p>O descontentamento no campo continuava aumentando e na passagem do ano de 1920\/21 eclodiram diversas revoltas camponesas que for\u00e7aram o fim da pol\u00edtica das requisi\u00e7\u00f5es dos produtos agr\u00edcolas. Nas cidades, uma onda de greves atingir\u00e1 os principais centros industriais em fevereiro e janeiro de 1921. Nos \u00faltimos meses de 1920 a Oposi\u00e7\u00e3o Oper\u00e1ria consegue se fortalecer nos centros oper\u00e1rios mais importantes.<\/p>\n<p>Ao nos aproximarmos do final da Guerra Civil, com a vit\u00f3ria bolchevique no horizonte pr\u00f3ximo, a situa\u00e7\u00e3o na R\u00fassia havia se transformado profundamente. A Revolu\u00e7\u00e3o Russa, iniciada em fevereiro de 1917 com um poderoso movimento de massa, em pouco mais de quatro anos via esse mesmo movimento em seu ocaso. A car\u00eancia econ\u00f4mica e a Guerra Civil est\u00e3o na base da crescente centraliza\u00e7\u00e3o que tornava cada vez mais poderosa a burocracia que se desenvolve ap\u00f3s 1917. O Partido Bolchevique n\u00e3o fica imune a essa tend\u00eancia: isso veremos no pr\u00f3ximo m\u00eas e, poderemos, ent\u00e3o, adentrar ao per\u00edodo decisivo para a evolu\u00e7\u00e3o posterior do processo hist\u00f3rico iniciado em 1917: os primeiros meses do ano de 1921.<\/p>\n<p>(1) As informa\u00e7\u00f5es aqui citadas s\u00e3o de Maurice Brinton, Os Bolcheviques e o controle oper\u00e1rio (v\u00e1rias edi\u00e7\u00f5es), de A oposi\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria, de Alexandra Kollontai (idem), de Betelheim, C. A Luta de Classes na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica (1917-1923) Ed. Paz e Terra, 1976, de Lenin, Obras completas E. H. Carr, History of Soviet Russia al\u00e9m de Fernando Claudin, A crise do movimento comunista e L. Trotsky, Hist\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o russa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sergio Lessa No Jornal Espa\u00e7o Socialista de agosto, vimos que, ao chegarem ao poder em Outubro de 1917, os bolcheviques<\/p>\n","protected":false},"author":10,"featured_media":5236,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[16,6,55,75],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5235"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/10"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5235"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5235\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5237,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5235\/revisions\/5237"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5236"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5235"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5235"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5235"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}