{"id":5293,"date":"2017-11-13T02:21:02","date_gmt":"2017-11-13T04:21:02","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=5293"},"modified":"2018-05-28T17:04:59","modified_gmt":"2018-05-28T20:04:59","slug":"quilombo-dos-palmares","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2017\/11\/quilombo-dos-palmares\/","title":{"rendered":"Quilombo dos palmares"},"content":{"rendered":"<p>Ao norte de Macei\u00f3, capital de Alagoas, fica Uni\u00e3o dos Palmares, onde se situa a Serra da Barriga: cen\u00e1rio de um importante epis\u00f3dio da hist\u00f3ria brasileira.\u00a0 L\u00e1 era a sede pol\u00edtica e administrativa do Quilombo dos Palmares, conhecida pelos quilombolas na \u00e9poca por Cerca real dos Macacos, em alus\u00e3o ao Riacho dos Macacos.\u00a0 \u00a0\u00a0A emerg\u00eancia e organiza\u00e7\u00e3o do Quilombo dos Palmares foi um momento \u00fanico na hist\u00f3ria brasileira: foi a maior rebeli\u00e3o de escravos da Am\u00e9rica do Sul, que sobreviveu por mais tempo (por volta de 65 anos), al\u00e9m de ter sido o mais poderoso levante nos dom\u00ednios do Brasil colonial e, por isso, demandou para ser derrotado um grandioso esfor\u00e7o b\u00e9lico.Juntamente com a guerra contra os holandeses, que eclodiu em simult\u00e2neo momento, figura como o maior problema administrativo da \u00e9poca. O tamanho do Quilombo e sua expressiva popula\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o social puderam ser sentidas pelo impedimento que constituiu ao avan\u00e7o da coloniza\u00e7\u00e3o no sul da capitania de Pernambuco, no s\u00e9culo XVI por quase sete d\u00e9cadas.\u00a0As terras do Quilombo dominavam os vales dos rios Para\u00edba e Munda\u00fa, abrangendo suas cabeceiras at\u00e9 desaguarem nas proximidades das lagoas Munda\u00fa e Manguaba. A expressiva presen\u00e7a dos rebeldes na regi\u00e3o punha risco \u00e0 sobreviv\u00eancia da capitania, uma vez que era de Alagoas donde sa\u00eda uma importante parcela da alimenta\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o pernambucana da capitania.\u00a0As principais vilas alagoanas \u2013 na \u00e9poca: Penedo, Alagoas do Sul e Porto Calvo \u2013 ficaram inst\u00e1veis, pois as propriedades ali instaladas eram amea\u00e7adas, os escravos raptados e os canaviais queimados. Devido \u00e0 import\u00e2ncia da regi\u00e3o na pol\u00edtica econ\u00f4mica colonial, o Quilombo n\u00e3o era apenas uma amea\u00e7a local: a pr\u00f3pria coloniza\u00e7\u00e3o portuguesa ficou em cheque.<\/p>\n<h2>A origem<\/h2>\n<p>Um escravo no s\u00e9culo XVI, como uma ferramenta desgastada pelo uso exacerbado, tinha vida \u00fatil de sete anos. Enfrentando todo tipo de viol\u00eancia que sua condi\u00e7\u00e3o possibilitava, restava a submiss\u00e3o ao sistema de explora\u00e7\u00e3o absoluta ou a resist\u00eancia.\u00a0As primeiras formas de resistir \u00e0 explora\u00e7\u00e3o absoluta da escravid\u00e3o se davam de modo estritamente pessoal e iam desde a pr\u00e1tica do \u201cbanzo\u201d \u2013 que era express\u00e3o da tristeza do escravizado frente a sua situa\u00e7\u00e3o e se materializava na falta de aptid\u00e3o ao trabalho for\u00e7ado \u2013 at\u00e9 mesmo ao suic\u00eddio.\u00a0 Com o passar dos anos, se organizaram formas coletivas de resist\u00eancia, que poderiam ser fugas para o mato ou revoltas armadas. Essas formas coletivas de luta desembocaram na constitui\u00e7\u00e3o dos quilombos. A mais antiga not\u00edcia de um quilombo foi uma experi\u00eancia de curta dura\u00e7\u00e3o ocorrida no interior da Bahia.\u00a0 Palmares ocupava uma terra abundante em palmeiras (pindoba ou \u201ccoco catol\u00e9\u201d) e essa caracter\u00edstica acabou por denominar o quilombo popularmente. A \u00e1rea era desabitada desde a fuga dos ind\u00edgenas que abandonaram a regi\u00e3o ap\u00f3s serem massacrados nos conflitos contra os colonos e fugiram para terras sertanejas. Os quilombolas vinham de diversificadas regi\u00f5es da \u00c1frica (com a predomin\u00e2ncia dos \u201cbantos\u201d). Formavam uma sociedade multi\u00e9tnica, constitu\u00edda por tra\u00e7os africanos e portugueses, como ficou vis\u00edvel na religi\u00e3o: uma mistura entre as tradi\u00e7\u00f5es africanas e o catolicismo absorvido no contato com os portugueses.\u00a0 O n\u00facleo inicial teria surgido por volta de 1597, oriundo de Porto Calvo, de onde teriam fugido alguns escravos de um engenho. Segundo historiadores, a \u00e1rea guardava semelhan\u00e7as com as terras de origem dos escravos, na \u00c1frica, devido \u00e0s suas caracter\u00edsticas geogr\u00e1ficas. Com o n\u00facleo oficial estabelecido, outros grupos populacionais foram, com o tempo, chegando e se fixando nos lugares de mata desna, em que poderiam encontrar todas as condi\u00e7\u00f5es de defesa e tirarem seu sustento (terras f\u00e9rteis, \u00e1gua, ca\u00e7a e madeira). As regi\u00f5es de mata fechada eram abrigos naturais aos refugiados, visto que o acesso era muito dif\u00edcil: uma esp\u00e9cie de fortaleza defendida pela floresta e pelas montanhas.\u00a0 Um quilombo (que significa \u201cpovoa\u00e7\u00e3o\u201d, em quimbundo) era formado por um conjunto de \u201cmocambos\u201d: palavra tamb\u00e9m de origem africana que os portugueses usavam para designar as aldeias constru\u00eddas pelos escravos fugidos. Cada quilombo tinha ainda um sistema de prote\u00e7\u00e3o que consistia na constru\u00e7\u00e3o de fossos e armadilhas que rodeavam o espa\u00e7o, al\u00e9m do acesso ser feito atrav\u00e9s de portas, localizadas segundo os pontos cardeais. A totalidade dos \u201cmocambos\u201d palmarinos formava a \u201cAngola Janga\u201d ou Angola Pequena.\u00a0 H\u00e1 registros que denotam conflitos entre os portugueses e quilombolas desde 1602. Aos poucos, os ex-escravos que haviam se estabelecido em Palmares come\u00e7aram a fazer incurs\u00f5es nas \u00e1reas dos engenhos em busca de armas e muni\u00e7\u00e3o, ferramentas de trabalho, al\u00e9m da liberta\u00e7\u00e3o de escravos que se incorporavam \u00e0 comunidade.No in\u00edcio da ocupa\u00e7\u00e3o holandesa, em 1630, a popula\u00e7\u00e3o quilombola era cerca de 3.000 pessoas e a guerra do a\u00e7\u00facar \u2013 por desarticular a economia e a pol\u00edtica da regi\u00e3o \u2013 redundou no fortalecimento do quilombo, que aumentou significativamente seu territ\u00f3rio e popula\u00e7\u00e3o ao fim da ocupa\u00e7\u00e3o holandesa. Chegou a ter relat\u00f3rios do governo batavo dando conta de 10.000 pessoas ocupando a regi\u00e3o do Quilombo. No auge, as terras palmarinas cobriam cerca de 27 mil quil\u00f4metros quadrados. A regi\u00e3o mais importante era a da Cerca Real dos Macacos que correspondia ao centro pol\u00edtico e administrativo.\u00a0 A produ\u00e7\u00e3o no Quilombo tinha como base a propriedade social da terra, em que as fam\u00edlias livres trabalhavam em pequenos ro\u00e7ados e produziam o suficiente para a subsist\u00eancia dos mocambos, al\u00e9m de gerar excedentes que eram trocados nos povoados de fazendas vizinhas por roupas, armas e p\u00f3lvora. Essa estrutura policultora possibilitava a exist\u00eancia de uma popula\u00e7\u00e3o relativamente grande para a \u00e9poca e foi fundamental para a resist\u00eancia militar por tantos anos.\u00a0Al\u00e9m da agricultura, complementavam a economia palmarina a ca\u00e7a, a pesca e a extra\u00e7\u00e3o de mel. Tamb\u00e9m aproveitavam o fruto da palmeira de pindoba para alimenta\u00e7\u00e3o, misturava a polpa \u00e0 farinha de mandioca e extraia o \u00f3leo da am\u00eandoa. O excedente produzido era trocado com comerciantes da regi\u00e3o.<\/p>\n<h2>A guerra<\/h2>\n<p>Na ocasi\u00e3o da morte de Ganga Zumba e a afirma\u00e7\u00e3o de Zumbi enquanto chefe do Quilombo dos Palmares (que passou a reunir todos os quilombos de forma unificada em sua administra\u00e7\u00e3o), a regi\u00e3o abrigava uma vida comunit\u00e1ria politicamente organizada, com administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, leis pr\u00f3prias, forma de governo, princ\u00edpios religiosos e culturais que fundamentavam e fortaleciam sua identidade coletiva, o que servia de uma esp\u00e9cie de chamado aos escravos que trabalhavam nos engenhos\u00a0 para a fuga e para a luta pela liberdade.\u00a0A partir da\u00ed, a administra\u00e7\u00e3o da metr\u00f3pole percebeu o quanto seus dom\u00ednios coloniais estavam amea\u00e7ados, visto que era como se houvesse um Estado funcionando dentro e independentemente da l\u00f3gica a que estava submetida o restante das terras brasileiras. O primeiro ataque contra Palmares foi em 1602, comandado pelos Portugueses. Em geral, as expedi\u00e7\u00f5es contra o Quilombo contavam com a participa\u00e7\u00e3o de ind\u00edgenas ou de seus descendentes, pois estes eram os \u00fanicos capazes de adentrar na mata e conhecer seus caminhos.\u00a0Em 1678, Ganga Zumba, o primeiro l\u00edder reconhecido, assinou um acordo de conviv\u00eancia com o governo de Pernambuco. Esse fato dividiu o Quilombo e a diverg\u00eancia culminou no assassinato de Ganga Zumba por trai\u00e7\u00e3o. Zumbi assumiu a administra\u00e7\u00e3o dos quilombos unificados. O novo l\u00edder teria nascido nas terras ao Norte de Alagoas, recebido educa\u00e7\u00e3o religiosa em Porto Calvo at\u00e9 os 15 anos, quando fugiu para viver no quilombo. L\u00e1, se destacou como comandante e dirigiu a resist\u00eancia at\u00e9 ser assassinado aos 40 anos, na batalha final.\u00a0Sob o comando de Zumbi o Quilombo cresceu, incorporou novas \u00e1reas e chegou a ter uma popula\u00e7\u00e3o com cerca de 30 mil pessoas.\u00a0 Um ano ap\u00f3s a morte de Ganga Zumba os ataques se intensificaram. A resist\u00eancia do Quilombo sob o comando de Zumbi durou 15 aos, enquanto a t\u00e1tica de guerrilha foi eficaz. Com experi\u00eancia a experi\u00eancia e melhores condi\u00e7\u00f5es materiais, as expedi\u00e7\u00f5es de Manuel Lopes e Jorge Carrilho abriram caminho para as for\u00e7as combinadas de Domingos Jorge Velho e Bernardo Vieira de Melo, pois causaram muitos estragos.<\/p>\n<h2>A batalha final<\/h2>\n<p>Depois dos primeiros grandes ataques, Palmares teve uma breve tr\u00e9gua de cinco anos, gra\u00e7as \u00e0 guerra contra os holandeses (1630-1654) e a Guerra dos Jand\u00fas (1678-1692), batalha dos colonos contra os ind\u00edgenas no Rio Grande do Norte. Esses embates tomaram a aten\u00e7\u00e3o da administra\u00e7\u00e3o colonial, dando ao Quilombo um tempo que foi utilizado para fortalecer as fronteiras da Serra da Barriga.\u00a0 A derradeira batalha foi uma verdadeira cruzada contra o Quilombo: Palmares foi cercada por mais de tr\u00eas mil homens comandados por Domingos Jorge Velho, al\u00e9m de experientes bandeirantes paulistas e mineiros. A bandeira foi organizada pelo governo da capitania, com o apoio das c\u00e2maras de vilas existentes e financiadas pelos senhores de engenho, mobilizou o poder pol\u00edtico e econ\u00f4mico da regi\u00e3o, sendo a maior estrutura militar do Brasil colonial. A organiza\u00e7\u00e3o local contava com o apoio colonial que prometia terras e escravos aos que destru\u00edssem Palmares.\u00a0 O cerco asfixiou Palmares por cerca de dois meses e ap\u00f3s os disparos dos canh\u00f5es de bronze, os portugueses conseguiram penetrar na Serra da Barriga. Zumbi conseguiu fugir nessa ocasi\u00e3o, mas foi delatado por um de seus auxiliares e pego em seu esconderijo na Serra Dois Irm\u00e3os por uma coluna de bandeirantes paulistas. Somente um dos vinte homens que estavam com Zumbi foi pego com vida.\u00a0Morto em 20 de novembro de 1695, o comandante negro foi decapitado e teve sua cabe\u00e7a salgada e enviada para Recife, onde ficou em exposi\u00e7\u00e3o. A ca\u00e7ada direta aos negros do Quilombo acabou em 1697, mas a resist\u00eancia dos sobreviventes perdurou e os colonos em 1707 ainda precisavam de medidas de seguran\u00e7a para impedir a reconstru\u00e7\u00e3o do quilombo.<\/p>\n<h2>Os quilombolas<\/h2>\n<p>O fim da guerra contra Palmares marcou a doa\u00e7\u00e3o das terras ocupadas pelo Quilombo, formando imensos latif\u00fandios nos munic\u00edpios da atual microrregi\u00e3o Serrana dos Quilombos e localidades vizinhas.\u00a0O estado de Alagoas \u00e9 marcado pelo latif\u00fandio com a monocultura da cana, que se espelha numa estrutura pol\u00edtica que expressa a secular desigualdade social herdada do per\u00edodo colonial. Os quilombolas tamb\u00e9m foram expulsos da regi\u00e3o, para que n\u00e3o retomassem seu sonho de liberdade. A luta dos negros continuou, mas o tr\u00e1fico negreiro perdurou at\u00e9 1850. Novos quilombos se articularam em terras alagoanas at\u00e9 o s\u00e9culo 19, mas sempre menores e com a economia menos vigorosa do que Palmares. Esse movimento de constitui\u00e7\u00e3o de quilombos perdurou dois s\u00e9culos depois da derrota de Palmares, quando, enfim, a escravid\u00e3o foi abolida.\u00a0 A partir de 1985, em reconhecimento da hist\u00f3ria da resist\u00eancia negra \u00e0 escravid\u00e3o, o Instituto do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico Nacional (IPHAN) tombou a Serra da Barriga. Em 1988, a Serra foi caracterizada como \u201cconjunto hist\u00f3rico paisag\u00edstico\u201d e, por isso, considerada um Monumento Nacional. Inaugurou-se ali, em 2006, o Parque Memorial Quilombo dos Palmares. Demorou quase um s\u00e9culo para que o Estado brasileiro reconhecesse a hist\u00f3ria e a luta do povo de Palmares como patrim\u00f4nio dos brasileiros.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao norte de Macei\u00f3, capital de Alagoas, fica Uni\u00e3o dos Palmares, onde se situa a Serra da Barriga: cen\u00e1rio de<\/p>\n","protected":false},"author":11,"featured_media":5295,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[70,6,63],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5293"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/11"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5293"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5293\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5313,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5293\/revisions\/5313"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5295"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5293"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5293"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5293"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}