{"id":5377,"date":"2017-12-13T15:14:50","date_gmt":"2017-12-13T17:14:50","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=5377"},"modified":"2018-05-04T18:47:15","modified_gmt":"2018-05-04T21:47:15","slug":"a-paciencia-das-massas-trabalhadoras-kronstadt-marco-de-1921","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2017\/12\/a-paciencia-das-massas-trabalhadoras-kronstadt-marco-de-1921\/","title":{"rendered":"A paci\u00eancia das massas trabalhadoras (Kronstadt, mar\u00e7o de 1921)"},"content":{"rendered":"<p>Vimos, nos \u00faltimos dois n\u00fameros do Jornal Espa\u00e7o Socialista, como a vit\u00f3ria dos bolcheviques na Guerra Civil que se iniciara em meados de 1918, aliada \u00e0 aproxima\u00e7\u00e3o da derrota final da Revolu\u00e7\u00e3o na Alemanha, que ocorreria em 1922, deu origem a uma situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica nunca antes contemplada pela teoria revolucion\u00e1ria: a manuten\u00e7\u00e3o de um partido revolucion\u00e1rio no poder em um pa\u00eds atrasado, no qual n\u00e3o era poss\u00edvel a transi\u00e7\u00e3o ao socialismo.<br \/>\nVimos que essa situa\u00e7\u00e3o levou a uma crescente burocratiza\u00e7\u00e3o do partido bolchevique e aumentou as tens\u00f5es com as massas. Os camponeses estavam insatisfeitos com a pol\u00edtica de requisi\u00e7\u00e3o de sua produ\u00e7\u00e3o, e os oper\u00e1rios e soldados, com seu crescente afastamento do poder de decis\u00e3o. E a crise econ\u00f4mica n\u00e3o deixava de se intensificar.<br \/>\nNesse contexto surgiu a Oposi\u00e7\u00e3o Oper\u00e1ria no interior do pr\u00f3prio partido bolchevique e o Congresso do PC(b)R, convocado para mar\u00e7o de 1921, decidiria a quest\u00e3o. Em meio aos trabalhos, contudo, eclodiu a Rebeli\u00e3o de Kronstadt a qual teve tal impacto sobre o Congresso que trataremos dela antes do Congresso enquanto tal, que ser\u00e1 objeto do artigo do m\u00eas que vem.<br \/>\nA insatisfa\u00e7\u00e3o e o afastamento das massas populares em rela\u00e7\u00e3o ao partido bolchevique, resultantes tanto da crise quanto das medidas adotadas pelos bolcheviques para organizarem a economia causaram, no final do ano 1920 e come\u00e7o de 1921, uma onda de revoltas camponesas que obrigaram o governo sovi\u00e9tico a suspender a pol\u00edtica de requisi\u00e7\u00e3o dos produtos agr\u00edcolas em treze prov\u00edncias ainda no in\u00edcio de 1921. Esse afastamento dos camponeses do poder sovi\u00e9tico criava uma situa\u00e7\u00e3o de perigosa instabilidade pol\u00edtica, constituindo um campo f\u00e9rtil para alastrar uma revolta de grandes propor\u00e7\u00f5es contra o governo sovi\u00e9tico. Agora n\u00e3o haviam mais ex\u00e9rcitos brancos no interior da R\u00fassia para justificar a centraliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica-administrativa nem para justificar medidas econ\u00f4micas que prejudicavam os camponeses, como a proibi\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio de alimentos e a requisi\u00e7\u00e3o dos produtos. As revoltas camponesas do inverno de 1920\/21 somente n\u00e3o se alastraram por outras prov\u00edncias e n\u00e3o ganharam maior express\u00e3o devido \u00e0 falta de uma lideran\u00e7a capaz de organiz\u00e1-las, de dar-lhes uma express\u00e3o pol\u00edtica definida.<br \/>\nO descontentamento com o poder bolchevique tamb\u00e9m estava presente nos grandes centros industriais. A fome e o frio trazidos pelo inverno agravaram as condi\u00e7\u00f5es de vida dos trabalhadores urbanos que, enquanto isso, assistiam a uma discuss\u00e3o no interior do partido dirigente se as medidas de coer\u00e7\u00e3o sobre os trabalhadores adotadas a partir de novembro de 1917 deveriam ser intensificadas ou n\u00e3o. O reino de liberdade para os trabalhadores que deveria surgir da revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, como haviam prometido os bolcheviques, estava cada vez mais distante. O dom\u00ednio crescente da pequena burguesia, e mesmo de setores da burguesia no interior do aparelho de estado, no interior do partido e do Ex\u00e9rcito Vermelho parecia insuport\u00e1vel \u00e0s massas. No interior da f\u00e1brica, o oper\u00e1rio que ainda conseguia emprego se via for\u00e7ado a acatar uma disciplina de trabalho semelhante \u00e0 que vigorava durante o czarismo \u2013 e a introdu\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio por produ\u00e7\u00e3o lhe parecia mais uma forma de explora\u00e7\u00e3o capitalista que uma medida destinada a facilitar a transi\u00e7\u00e3o para o socialismo.<br \/>\nEm janeiro\/fevereiro de 1921, uma s\u00e9rie de greves oper\u00e1rias ocorreram nos diversos centros industriais, principalmente Moscou e Petrogrado. Os grevistas protestavam com frequ\u00eancia contra o poder dos comiss\u00e1rios, e contra a falta de canais que viabilizassem a participa\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria no poder, embora com maior frequ\u00eancia ainda protestassem contra a falta de alimentos e de combust\u00edveis.<br \/>\nEssa onda de greves ocorreu de maneira espont\u00e2nea, de forma desorganizada e sem qualquer coordena\u00e7\u00e3o. N\u00e3o conseguiam se expressar numa plataforma pol\u00edtica clara que fosse alternativa de poder. Por isso essas greves terminam isoladas pelo poder bolchevique, cuja imprensa e m\u00e1quina de propaganda estatal os apresentavam como inspiradas pela contrarrevolu\u00e7\u00e3o. Embora elas n\u00e3o significassem nenhum perigo imediato para o poder bolchevique, eram um sintoma alarmante: elas ocorriam por fora e contra o aparelho partid\u00e1rio e o aparelho sindical. Essa insatisfa\u00e7\u00e3o poderia gerar uma outra organiza\u00e7\u00e3o das massas que colocasse em xeque o poder dos bolcheviques, como 1917 criou toda uma rede de organiza\u00e7\u00f5es populares por fora do aparelho estatal existente. Esse era o grande perigo.<br \/>\nNeste contexto, a luta interna do partido continuava, e L\u00eanin publica eu folheto \u201cA Crise no Partido\u201d onde afirma: devemos combater a discrep\u00e2ncia ideol\u00f3gica e aos doentios elementos da oposi\u00e7\u00e3o que chegam at\u00e9 a negar toda \u201cmilitariza\u00e7\u00e3o da economia&#8221;, e n\u00e3o s\u00f3 o \u201cm\u00e9todo das designa\u00e7\u00f5es\u201d, quer dizer, negam em \u00faltima inst\u00e2ncia, o papel dirigente do partido em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s massas sem partido. Devemos combater os desvios sindicalistas, que matar\u00e3o o partido. Um pouco antes, nesse mesmo folheto, L\u00eanin escrevera: \u201cPara que ter um partido se quem dever\u00e1 dirigir a ind\u00fastria ser\u00e3o designados (&#8230;) pelos sindicatos, as 9\/10 partes de cujos membros s\u00e3o oper\u00e1rios sem partido?\u201d<br \/>\nA primeira vez que essa revolta das massas oper\u00e1rias e camponesas recebeu um tratamento te\u00f3rico que lembrava uma plataforma pol\u00edtica foi com a publica\u00e7\u00e3o do texto da Oposi\u00e7\u00e3o Oper\u00e1ria. No entanto, esta possu\u00eda uma s\u00e9ria limita\u00e7\u00e3o: se propunha a lutar exclusivamente no interior do partido. Mesmo assim, a Oposi\u00e7\u00e3o Oper\u00e1ria foi alvo de uma violenta campanha por parte dos escal\u00f5es dirigentes do partido e pareceu a eles algo intoler\u00e1vel.<br \/>\nA primeira vez que as massas descontentes possu\u00edam a possibilidade, n\u00e3o s\u00f3 de contar com uma plataforma pol\u00edtica, mas tamb\u00e9m com armas nas m\u00e3os ocorreu com a Revolta de Kronstadt. Se a Oposi\u00e7\u00e3o Oper\u00e1ria era intoler\u00e1vel ao poder bolchevique, o que n\u00e3o dizer de uma Revolta armada contra o mesmo, que possu\u00eda uma plataforma pol\u00edtica definida e m\u00e9todos de a\u00e7\u00e3o que lembravam a Revolu\u00e7\u00e3o de 1917?<\/p>\n<h2>O PROGRAMA DOS REVOLTOSOS DE KRONSTADT<\/h2>\n<p>No dia 3 de mar\u00e7o de 1921, o primeiro n\u00famero do jornal dos revoltosos, \u201cIzvestia de Kronstadt\u201d, vem \u00e0 luz. Nele \u00e9 publicado o programa de 15 pontos com as principais reivindica\u00e7\u00f5es dos kronstatianos. Como esta plataforma \u00e9 pouco conhecida entre n\u00f3s, e como muito j\u00e1 se falou e escreveu de que essa revolta n\u00e3o teria passado de uma rebeli\u00e3o chefiada pelos guardas brancos, segue na \u00edntegra o programa, com breves coment\u00e1rios:<br \/>\n<strong>\u201c1) Considerando que os sovietes n\u00e3o exprimem mais a vontade dos oper\u00e1rios e camponeses, \u00e9 necess\u00e1rio proceder imediatamente \u00e0 sua reelei\u00e7\u00e3o com escrut\u00ednio secreto. Uma livre campanha eleitoral dever\u00e1 ocorrer antes, para que se possa honestamente informar as massas oper\u00e1rias e camponesas\u201d.<\/strong> O que fica expl\u00edcito neste ponto \u00e9 que os revoltosos de Kronstadt n\u00e3o querem nem o fim do regime sovi\u00e9tico nem a volta do regime czarista. Eles queriam a reelei\u00e7\u00e3o dos sovietes, depois de uma campanha eleitoral \u201clivre\u201d e atrav\u00e9s do voto secreto.<br \/>\n<strong>\u201c2) A liberdade de express\u00e3o e de imprensa para os trabalhadores e camponeses, anarquistas e socialistas de esquerda.\u201d<\/strong> Este ponto esclarece o anterior no que diz respeito \u00e0s elei\u00e7\u00f5es livres: liberdade para todos aqueles partidos que houvessem apoiado a insurrei\u00e7\u00e3o de outubro de 1917; os socialistas de esquerda, os anarquistas e os bolcheviques.<br \/>\nA respeito dos anarquistas russos \u00e9 necess\u00e1rio dizer algumas palavras. Em primeiro lugar eles n\u00e3o formavam um bloco unit\u00e1rio e homog\u00eaneo como n\u00f3s costumamos pensar. Eles se dividem em v\u00e1rias tend\u00eancias, desde a direita, cujo l\u00edder era o principal e mais conhecido anarquista russo, Kropotkin, que apoiou os cadetes durante a Revolu\u00e7\u00e3o de 1917, at\u00e9 a sua ala mais radical que negava todo papel de qualquer tipo de organiza\u00e7\u00e3o na luta da classe oper\u00e1ria. Entre esses dois extremos existiam v\u00e1rias correntes, algumas das quais tiveram um papel importante na forma\u00e7\u00e3o dos comit\u00eas de f\u00e1brica durante 1917, e na luta que estes comit\u00eas travaram para n\u00e3o serem engolidos pelo crescente aparelho administrativo e burocr\u00e1tico sovi\u00e9tico. Durante a Guerra Civil, os anarquistas se comportaram tamb\u00e9m de forma diferenciada. Alguns se aliaram ao poder bolchevique, e mesmo em algumas batalhas os anarquistas realizavam avan\u00e7os considerados imposs\u00edveis pelos estrategistas militares que, muitas vezes, aceleravam a vit\u00f3ria do ex\u00e9rcito vermelho. Outros, depois de terem se aliado aos bolcheviques e derrotado os ex\u00e9rcitos brancos, n\u00e3o aceitaram as restri\u00e7\u00f5es \u00e0 sua autonomia que o poder sovi\u00e9tico deseja impor e foram derrotados militarmente pelo Ex\u00e9rcito Vermelho. Outros ainda, apoiavam os bolcheviques, embora criticando as medidas tomadas na reorganiza\u00e7\u00e3o da economia nacional, por julgarem-nas centralizadoras ao extremo e prejudiciais \u00e0 participa\u00e7\u00e3o e controle da classe oper\u00e1ria sobre o Estado sovi\u00e9tico.<br \/>\nNa Revolta de Kronstadt os anarquistas tiveram novamente comportamento diferenciado. Alguns, como Victor Serge, percebendo que o conflito era inevit\u00e1vel e que toda media\u00e7\u00e3o era infrut\u00edfera, apoiaram os bolcheviques por entenderem que somente esses tinham condi\u00e7\u00f5es de manter o poder na R\u00fassia. A derrota dos bolcheviques, para Victor Serge, significava entregar o poder \u00e0 contrarrevolu\u00e7\u00e3o. Outros, por fim, apoiaram Kronstadt por entenderem que era uma revolta leg\u00edtima dos trabalhadores contra a opress\u00e3o do Estado sovi\u00e9tico. Estes desenvolveram a teoria da Terceira Revolu\u00e7\u00e3o: depois da de fevereiro, que derrubou o czarismo, e da de outubro que derrubou o governo Kerenski, uma terceira revolu\u00e7\u00e3o se fazia necess\u00e1ria para derrubar o novo Estado constru\u00eddo pelos bolcheviques e instalar um regime igualit\u00e1rio.<br \/>\nPor isso, a exig\u00eancia de liberdade para os anarquistas feitas pelos kronstatianos n\u00e3o \u00e9 de estranhar. Em n\u00e3o poucos epis\u00f3dios da vida pol\u00edtica russa dos \u00faltimos anos, estes estiveram presentes, lado a lado, com o proletariado no combate \u00e0 contrarrevolu\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA exig\u00eancia de participa\u00e7\u00e3o dos socialistas de esquerda \u00e9 mais f\u00e1cil de se entender. Estes continuavam com forte influ\u00eancia sobre as massas camponesas, e tal qual esta \u00faltima, apoiaram de maneira vacilante o Ex\u00e9rcito Vermelho na guerra civil. Os socialistas de esquerda n\u00e3o eram, aos olhos da massa, contrarrevolucion\u00e1rios e, em muitas das reivindica\u00e7\u00f5es que faziam, como o fim da pol\u00edtica de requisi\u00e7\u00e3o dos produtos agr\u00edcolas e levantamento da proibi\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio de gr\u00e3os, coincidiam com o desejo de amplos setores das massas trabalhadoras que viam nestas medidas causas da crise por que passava o pa\u00eds. Tanto esse sentimento da massa era forte, e correto, que ainda no X Congresso L\u00eanin propor\u00e1 o fim das requisi\u00e7\u00f5es e a liberdade de com\u00e9rcio dos gr\u00e3os como forma de auxiliar a R\u00fassia a sair da crise.<br \/>\n<strong>\u201c3) Liberdade de reuni\u00e3o para os sindicatos oper\u00e1rios e organiza\u00e7\u00f5es camponesas\u201d.<\/strong><br \/>\n<strong>\u201c4) Convoca\u00e7\u00e3o, antes de 10 de mar\u00e7o de 1921, de uma Assembleia Geral dos oper\u00e1rios, soldados vermelhos, marinheiros de Kronstadt e Petrogrado\u201d.<\/strong> O objetivo dessa reivindica\u00e7\u00e3o era de colocar novamente em contato as massas trabalhadoras de Petrogrado com os marinheiros de Kronstadt, contato esse interrompido desde o m\u00eas de janeiro, quando estalaram as primeiras greves naquela cidade. Not\u00edcias de que o Ex\u00e9rcito Vermelho havia reprimido severamente algumas f\u00e1bricas corriam pela regi\u00e3o, ao mesmo tempo que as autoridades bolcheviques espalhavam com insist\u00eancia not\u00edcia dando conta de que Kronstadt estaria sendo liderada por generais brancos. O que os kronstatianos queriam era obter e fornecer informa\u00e7\u00f5es corretas aos oper\u00e1rios e soldados de Kronstadt, bem como discutir com eles seus problemas comuns.<br \/>\n<strong>\u201c5) Colocar em liberdade todos os socialistas prisioneiros pol\u00edticos bem como todos os oper\u00e1rios e camponeses, soldados vermelhos e marinheiros presos, ap\u00f3s os diversos movimentos populares&#8221;.<\/strong> Ou seja, liberdade para os que divergiam politicamente dos bolcheviques mas que colocavam no campo da revolu\u00e7\u00e3o, bem como de toda a lideran\u00e7a das \u00faltimas greves e levantes camponeses.<br \/>\n<strong>\u201c6) Elei\u00e7\u00e3o de uma comiss\u00e3o encarregada de examinar os casos dos prisioneiros e dos internos em campos de concentra\u00e7\u00e3o\u201d,<\/strong> Desde o 2\u00ba semestre de 1919 que a Checa tinha autonomia para prender e executar pessoas sem ter que recorrer aos tribunais criados pela revolu\u00e7\u00e3o. Esta liberdade concedida \u00e0 Checa estava fazendo com que ela cometesse diversas arbitrariedades contra oper\u00e1rios e camponeses que estavam sendo denunciadas, n\u00e3o s\u00f3 por Kronstadt , mas tamb\u00e9m por muitos membros do partido. Como resultado dessas reclama\u00e7\u00f5es, mais, tarde o CC criar\u00e1 uma Comiss\u00e3o para investigar a Checa. No entanto, o que os kronstatianos exigiam era a elei\u00e7\u00e3o de uma comiss\u00e3o pelos trabalhadores, colocando na comiss\u00e3o elementos de confian\u00e7a dos \u00faltimos, e n\u00e3o da confian\u00e7a dos altos escal\u00f5es do partido ou do Estado.<br \/>\n<strong>\u201c7) Supress\u00e3o de todos os departamentos pol\u00edticos (&#8230;)\u201d.<\/strong> Isto \u00e9, da pol\u00edcia pol\u00edtica e \u00f3rg\u00e3os de investiga\u00e7\u00f5es, fichamento e julgamento da Checa.<br \/>\n<strong>\u201c(&#8230;) Al\u00e9m disso, nenhum partido deve ter o privil\u00e9gio da propaganda ideol\u00f3gica, nem receber por aquela propaganda a menor subven\u00e7\u00e3o governamental. Em seu lugar, n\u00f3s propomos que sejam eleitas em cada vila comiss\u00f5es de cultura e de Educa\u00e7\u00e3o financiadas pelo Estado\u201d.<\/strong><br \/>\n<strong>\u201c8) Supress\u00e3o imediata de todas as barreiras militares\u201d.<\/strong> Criadas durante a Guerra Civil, as barreiras militares permaneceram mesmo depois da guerra para ajudar no controle dos oper\u00e1rios que eram convocados para o trabalho obrigat\u00f3rio e se recusavam a aceitar a nova disciplina de trabalho. Logo depois do in\u00edcio das revoltas camponesas e das greves oper\u00e1rias as barreiras foram refor\u00e7adas para evitar que estas se alastrassem.<br \/>\n<strong>\u201c9) Distribui\u00e7\u00e3o de uma igual ra\u00e7\u00e3o alimentar para todos aqueles que trabalham, salvo aqueles que exer\u00e7am empregos particularmente penosos\u201d.<\/strong> Esta reivindica\u00e7\u00e3o vai contra os crescentes privil\u00e9gios dos altos funcion\u00e1rios p\u00fablicos, do partido e dos oficiais do Ex\u00e9rcito Vermelho.<br \/>\n<strong>\u201c10) Supress\u00e3o dos destacamentos comunistas de choque em todas as se\u00e7\u00f5es militares, o mesmo para a guarda comunista nas usinas e nas minas. Se s\u00e3o necess\u00e1rios destacamentos, que eles sejam designados pelos soldados das se\u00e7\u00f5es militares, que sejam nomeados, pelos pr\u00f3prios trabalhadores\u201d<\/strong>. Novamente uma reivindica\u00e7\u00e3o concreta contra o n\u00e3o acatamento das regras da democracia prolet\u00e1ria pelo poder sovi\u00e9tico.<br \/>\n<strong>\u201c11) No que concerne aos camponeses, direito absoluto de a\u00e7\u00e3o sobre suas pr\u00f3prias terras, direito de criar o gado, na condi\u00e7\u00e3o de que eles mesmo fa\u00e7am o trabalho, quer dizer, sem recorrer aos trabalhadores assalariados\u201d.<\/strong> Esta reivindica\u00e7\u00e3o os bolcheviques trataram como uma contrarrevolu\u00e7\u00e3o pequeno-burguesa que atestaria a colora\u00e7\u00e3o branca na revolta de Kronstadt. N\u00e3o obstante, alguns dias depois de terminada a revolta, ainda durante o X Congresso, L\u00eanin prop\u00f5e exatamente o que os revoltosos exigiam: liberdade de produ\u00e7\u00e3o para os camponeses. A diferen\u00e7a \u00e9 que enquanto os marinheiros concediam esta liberdade aos camponeses com a condi\u00e7\u00e3o de que eles n\u00e3o explorassem outro trabalhador, os bolcheviques n\u00e3o s\u00f3 permitir\u00e3o a explora\u00e7\u00e3o do trabalho assalariado no campo, como promulgar\u00e3o uma lei defendendo os interesses dos camponeses m\u00e9dios contra a reivindica\u00e7\u00e3o de divis\u00e3o igualit\u00e1ria da terra, feita pelos camponeses pobres.<br \/>\n<strong>\u201c12) N\u00f3s apelamos para todas as se\u00e7\u00f5es militares, bem como aos camaradas das escolas de cadetes, que se solidarizem conosco\u201d.<\/strong><br \/>\n<strong>\u201c13) N\u00f3s exigimos que essa resolu\u00e7\u00e3o seja amplamente difundida na imprensa\u201d.<\/strong><br \/>\n<strong>\u201c14) N\u00f3s designamos uma comiss\u00e3o itinerante para acompanhar esta divulga\u00e7\u00e3o\u201d.<\/strong><br \/>\n<strong>\u201c15) N\u00f3s exigimos que seja autorizado o trabalho livre a domic\u00edlio para os trabalhadores independentes\u201d.<\/strong> Este foi outro ponto da plataforma de Kronstadt utilizado pelos bolcheviques para provar o parentesco dos revoltosos com os guardas brancos. No entanto, combinado \u00e0s medidas concedendo maior liberdade para os camponeses, o X Congresso decretou leis que permitiam n\u00e3o s\u00f3 ao trabalhador independente trabalhar a domic\u00edlio, como ainda explorar m\u00e3o-de-obra nessa produ\u00e7\u00e3o. O objetivo dessas medidas era melhorar as condi\u00e7\u00f5es de vida das massas desempregadas, e ao mesmo tempo, reavivar o com\u00e9rcio.<br \/>\nO partido bolchevique recebeu a insurrei\u00e7\u00e3o como uma tentativa contrarrevolucion\u00e1ria, abriu uma violenta campanha de propaganda afirmando que s\u00e3o generais brancos que comandam a revolta, n\u00e3o aceitam a proposta de negocia\u00e7\u00e3o com os revoltosos feita pelos mesmos antes da abertura das hostilidades pelo Ex\u00e9rcito Vermelho e impede qualquer contato dos marinheiros com os soldados e oper\u00e1rios de Petrogrado. Depois de 17 dias de ataque \u00e0 fortaleza, a revolta foi derrotada.<br \/>\nA 12 de mar\u00e7o, o Isveztia de Kronstadt publica a rela\u00e7\u00e3o dos \u201cgenerais brancos\u201d que lideram a revolta. S\u00e3o eles membros do Comit\u00ea Revolucion\u00e1rio Provis\u00f3rio de Kronstadt. Na lista de 15 nomes encontramos 9 oper\u00e1rios metal\u00fargicos ou carpinteiros, 2 timoneiros, um escriv\u00e3o, uma telefonista, uma empregada da 3\u00aa. Escola T\u00e9cnica, um primeiro ajudante m\u00e9dico. Com certeza uma porcentagem muito maior de oper\u00e1rios que em qualquer \u00f3rg\u00e3o dirigente do partido bolchevique bem como do Estado sovi\u00e9tico naquele per\u00edodo.<br \/>\nComo L\u00eanin reconhece no X Congresso, uma enorme simpatia pela revolta tomou conta dos trabalhadores dos principais centros industriais. A esses oper\u00e1rios, o partido explica a violenta repress\u00e3o exercida sobre a revolta, afirmando &#8212; mesmo n\u00e3o conseguindo apresentar nenhuma prova concreta disso \u2013 que a insurrei\u00e7\u00e3o de Kronstadt era a ponta de lan\u00e7a da contrarrevolu\u00e7\u00e3o. Sem poder obter nenhum contato direto com os marinheiros revoltosos, os oper\u00e1rios n\u00e3o tiveram meios de aferir por eles pr\u00f3prios se o que o partido bolchevique afirmava era verdadeiro ou n\u00e3o.<br \/>\nEm suas mem\u00f3rias, Victor Serge, falando desse per\u00edodo (ele estava em Petrogrado), conta como nas ruas desoladas da cidade, no final de um inverno em que o frio e a fome tinham sido os companheiros mais constantes da popula\u00e7\u00e3o, os oper\u00e1rios se perguntavam como os marinheiros de Kronstadt, que durante a revolu\u00e7\u00e3o e a guerra civil n\u00e3o poucas vezes vieram com suas vidas defender os interesses dos trabalhadores, podiam ter passado para a contrarrevolu\u00e7\u00e3o e estarem aceitando a chefia de um general branco.<br \/>\nA verdadeira raz\u00e3o que levou os bolcheviques a tratarem t\u00e3o violentamente os revoltosos \u00e9 que eles constitu\u00edram a primeira formaliza\u00e7\u00e3o de uma plataforma pol\u00edtica e econ\u00f4mica, elaborada pelos trabalhadores e soldados, a ser apresentada ao governo sovi\u00e9tico. E o mais s\u00e9rio ainda era que essa plataforma era apresentada por quem possu\u00eda armas nas m\u00e3os, numa conjuntura onde o descontentamento das massas trabalhadoras em rela\u00e7\u00e3o ao governo bolchevique era maior do que jamais fora.<br \/>\nNo pr\u00f3ximo m\u00eas, no Jornal Espa\u00e7o Socialista, veremos o impacto desses acontecimentos na retomada de trabalho do X Congresso do PC(b)R e, com isso, encerraremos essa s\u00e9ria de mat\u00e9rias sobre a Revolu\u00e7\u00e3o Russa.<br \/>\nAt\u00e9 l\u00e1, viva a Revolu\u00e7\u00e3o de 17!<br \/>\nAbaixo o stalinismo!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vimos, nos \u00faltimos dois n\u00fameros do Jornal Espa\u00e7o Socialista, como a vit\u00f3ria dos bolcheviques na Guerra Civil que se iniciara<\/p>\n","protected":false},"author":11,"featured_media":5383,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[16,6,55,75],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5377"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/11"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5377"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5377\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5378,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5377\/revisions\/5378"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5383"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5377"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5377"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5377"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}