{"id":5611,"date":"2017-04-01T19:30:22","date_gmt":"2017-04-01T22:30:22","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=5611"},"modified":"2018-04-30T20:41:32","modified_gmt":"2018-04-30T23:41:32","slug":"revolucao-russa-10-dias-9-meses-ou-5-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2017\/04\/revolucao-russa-10-dias-9-meses-ou-5-anos\/","title":{"rendered":"Revolu\u00e7\u00e3o Russa: 10 dias, 9 meses ou 5 anos?"},"content":{"rendered":"<p class=\"western\" style=\"text-align: right;\" align=\"center\">\u00a0Sergio Lessa<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">\u00c9 prov\u00e1vel que a maioria das pessoas que leu algo sobre a Revolu\u00e7\u00e3o Russa tenha lido <i>Os 10 dias que abalaram o mundo<\/i>, de John Reed. \u00c9 um relato jornal\u00edstico de primeira qualidade dos 10 dias que, de fato, &#8220;abalaram o mundo&#8221;, quando os bolcheviques, liderando uma frente de esquerda, tomaram o poder no pa\u00eds dos czares. \u00c9 memor\u00e1vel, mesmo um cl\u00e1ssico do jornalismo mundial, sua descri\u00e7\u00e3o da reuni\u00e3o do Sovi\u00e9t de Petrogrado em que Lenin, saindo de meses na clandestinidade, fez a convoca\u00e7\u00e3o que se tornou o s\u00edmbolo: &#8220;Passemos \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da ordem socialista!&#8221;. Narra Reed que a convoca\u00e7\u00e3o foi seguida por um pandem\u00f4nio de alegria e comemora\u00e7\u00f5es, bon\u00e9s ao ar e urros e l\u00e1grimas por todos os lados!<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">Talvez os que leram algo al\u00e9m de Reed tenham tido em suas m\u00e3os <i>A hist\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o Russa<\/i>, de Leon Trotsky, um texto que, por sua profundidade, an\u00e1lises complexas, reflex\u00f5es sobre a hist\u00f3ria e sobre os processos revolucion\u00e1rios, \u00e9 equipar\u00e1vel ao <i>18 Brum\u00e1rio de Luis Bonaparte<\/i>, reconhecidamente um dos textos mais brilhantes de Marx. O fato de Trotsky ser um grande escritor e n\u00e3o menor jornalista torna o texto f\u00e1cil de ser compreendido e, com todos os m\u00e9ritos, apaixona gera\u00e7\u00f5es desde que foi redigido, em 1930.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">Se Reed escreveu no calor dos acontecimentos, Trotsky redigiu sua obra duas d\u00e9cadas depois, em um momento em que o stalinismo j\u00e1 se consolidava na URSS e na Terceira Internacional. Al\u00e9m disso, os dois textos tamb\u00e9m se diferenciam pelo espa\u00e7o de tempo de que se ocupam. John Reed, os 10 dias de outubro; Trotsky, os nove meses de fevereiro a outubro de 1917. Uma terceira e, talvez, mais importante diferen\u00e7a entre eles, \u00e9 que Trotsky \u00e9 um profundo conhecedor da hist\u00f3ria e da ess\u00eancia da forma\u00e7\u00e3o social russa, Reed \u00e9 um jornalista muito bem informado. A descri\u00e7\u00e3o brilhante de os <i>10 dias<\/i> n\u00e3o cont\u00e9m nada equivalente \u00e0s an\u00e1lises hist\u00f3ricas que Trotsky faz ao longo de sua <i>Hist\u00f3ria<\/i>, tanto nos dois cap\u00edtulos iniciais como, por exemplo, no cap\u00edtulo intitulado &#8220;A arte da insurrei\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">Reed nos entrega a emo\u00e7\u00e3o, a paix\u00e3o e as n\u00e3o menores esperan\u00e7as desencadeadas pela chegada ao poder dos bolcheviques. Trotsky nos conduz pelos meandros de uma terra (chamar a R\u00fassia de na\u00e7\u00e3o, naquele momento, \u00e9 um exagero) cuja \u00e1rea era tr\u00eas vezes maior que o Brasil, que compreendia toda a \u00e1rea entre os limites mais orientais da Europa at\u00e9 o final da \u00c1sia e o oceano Pac\u00edfico, tendo ao sul a Cordilheira do Himalaia e o Mar Negro e, ao norte, as terras g\u00e9lidas que ultrapassavam o C\u00edrculo Polar \u00c1rtico. Nesse enorme territ\u00f3rio, quase uma centena de nacionalidades, com bases econ\u00f4micas por vezes muito distintas, com bases produtivas milenarmente atrasadas ou muito desenvolvidas, se organizavam em classes sociais tamb\u00e9m muito heterog\u00eaneas.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">As classes dominantes eram, de fato, muitas. Enquanto classes dominantes tinham o interesse comum de manter a explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores. Contudo, o modo de explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, fundado pelo modo de produ\u00e7\u00e3o, variava muito fazendo com que essas classes dominantes vivessem em constantes conflitos entre si e eram com muito custo mantidas coesas pela figura do Czar. O modo de produ\u00e7\u00e3o das grandes propriedades produtoras de cereais da Ucr\u00e2nia era essencialmente distinto do das grandes propriedades pecuaristas ou de explora\u00e7\u00e3o de madeira da por\u00e7\u00e3o asi\u00e1tica e, ainda, muito diferente das propriedades, pequenas e m\u00e9dias, dos cossacos no Vale do Rio Don, ao sul, pr\u00f3ximo ao Mar Negro. Os latifundi\u00e1rios da Ucr\u00e2nia desejam uma maior integra\u00e7\u00e3o com o capitalismo europeu, para quem vendiam seus cereais, mas os latifundi\u00e1rios da por\u00e7\u00e3o asi\u00e1tica temiam a concorr\u00eancia que viria com essa integra\u00e7\u00e3o e a ela se opunham. Os cossacos, ao sul, apenas apoiavam o Czar na medida e na propor\u00e7\u00e3o em que mantivessem suas propriedades m\u00e9dias e pequenas \u00e0 salvo da gana por mais terras dos grandes latifundi\u00e1rios.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">Os trabalhadores tamb\u00e9m eram muito distintos, talvez ainda mais diferentes entre si que as classes dominantes. O regime de trabalho, a forma de remunera\u00e7\u00e3o do trabalho, mesmo se o trabalho era permanente ou sazonal, tudo colaborava para uma centen\u00e1ria heterogeneidade entre os trabalhadores. O trabalho assalariado j\u00e1 se fazia presente nas cidades, nas rotas ferrovi\u00e1rias etc. Mas, ainda n\u00e3o abrangia a todos: a maioria dos camponeses pobres, os <i>mujiques<\/i>, recebia <i>in natura<\/i>, isto \u00e9, recebia uma por\u00e7\u00e3o daquilo que produzia em moldes similares aos do antigo feudalismo europeu. Os direitos dos trabalhadores da terra eram estabelecidos segundo crit\u00e9rios e tradi\u00e7\u00f5es que vinham, por vezes, do s\u00e9culo 12, mais comumente que vinham das reformas de Pedro, o Grande, no s\u00e9culo 17 e da reforma agr\u00edcola de 1861. A enorme maioria dos trabalhadores era camponesa, tal como a maior parte das classes dominantes era latifundi\u00e1ria. Contudo, essa denomina\u00e7\u00e3o comum com frequ\u00eancia escondia as diferen\u00e7as existentes no interior de cada uma dessas classes. Essas diferen\u00e7as s\u00e3o da maior import\u00e2ncia para se entender a din\u00e2mica das derrotas de todas as revoltas camponesas at\u00e9 chegarmos \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o Russa, bem como para entendermos o que ocorreu na Guerra Civil, nos anos de 1918-21.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">Para coroar essa forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica t\u00e3o complexa, temos a atua\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica decisiva da Igreja Ortodoxa, apoiada pelo Estado e tradicional pilar do czarismo. As seguidas derrotas das muitas revoltas camponeses instigaram um esp\u00edrito fatalista entre os trabalhadores: imposs\u00edvel escapar dessa mis\u00e9ria e dessa vida de pen\u00farias. A Igreja Ortodoxa fornecia o cimento ideol\u00f3gico para manter essa concep\u00e7\u00e3o de mundo: Deus teria criado o mundo como um vale de l\u00e1grimas pois \u00e9 pelo sofrimento que se chegaria ao Para\u00edso. A Igreja ocupava, assim, um lugar decisivo na vida das pequenas aldeias e servia de importante consolo paralisador das revoltas entre as massas camponesas.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">Mas, tamb\u00e9m entre as classes dominantes a Igreja Ortodoxa era importante. Como sustent\u00e1culo do poder dos czares, se sentia, com raz\u00e3o, com direito a parcela desse poder. As classes dominantes, atrasadas como a base econ\u00f4mica que a sustentava, viam em uma concep\u00e7\u00e3o de mundo fatalista a confirma\u00e7\u00e3o de que eram classes dominantes por uma decis\u00e3o divina. Deus fez delas os dominantes, para sempre, eternamente. O mesmo com a fam\u00edlia do Czar: se Deus n\u00e3o quisesse, n\u00e3o teriam o poder, a riqueza e a gl\u00f3ria. A Igreja Ortodoxa, n\u00e3o apenas servia de consolo aos trabalhadores, como ainda atuava no interior das classes dominantes para confirmar o poder das mesmas como de origem divina e para justificar o Czar como um imperador por direito divino.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">A Igreja ortodoxa \u00e9, por essa via, bem-recebida pelos explorados e pelos exploradores&#8230; mas, isso n\u00e3o duraria muito tempo.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">As coisas se complicaram ainda mais quando o capital estrangeiro, principalmente franc\u00eas, adentrou \u00e0s terras do Czar.<\/p>\n<p align=\"center\"><span style=\"font-family: Arial, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><b>A industrializa\u00e7\u00e3o e o proletariado<\/b><\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">Quando, em 1813, o <i>Grande Ex\u00e9rcito<\/i> de Napole\u00e3o invadiu a R\u00fassia, se tornou ainda mais evidente o quanto o atraso tecnol\u00f3gico debilitava militarmente o poder dos czares. Napole\u00e3o apenas foi derrotado porque Kutuzov, o comandante russo, adotou a t\u00e1tica de ceder terreno para n\u00e3o perder o ex\u00e9rcito. Foi recuando, evitando qualquer grande batalha, at\u00e9 \u00e0s portas de Moscou. Napole\u00e3o, em contrapartida, fazia de tudo para for\u00e7ar um combate decisivo.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">At\u00e9 chegarem \u00e0s portas de Moscou.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">Kutuzov queria recuar para os Montes Urais, a leste de Moscou. O Czar, pressionado pelos nobres que temiam abandonar seus palacetes em Moscou para os invasores, n\u00e3o concorda com seu comandante em chefe e, finalmente, Napole\u00e3o p\u00f4de ter sua batalha. A Batalha de Borodino foi uma das maiores que a Europa conheceu at\u00e9 ent\u00e3o, durou v\u00e1rios dias e terminou sem uma vit\u00f3ria definitiva dos franceses e, os russos, abandonaram Moscou.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">Semanas depois, Moscou estava em chamas e chegava o inverno: o <i>Grande Ex\u00e9rcito<\/i> \u00e9 dizimado pelo frio e pela fome, Napole\u00e3o \u00e9 derrotado e enviado \u00e0 Ilha de Elba.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">A vit\u00f3ria russa garantiu a perman\u00eancia dos czares, mas evidenciou que era preciso industrializar o pa\u00eds para poder contar com um ex\u00e9rcito moderno, com armas mais desenvolvidas. Quando das guerras de unifica\u00e7\u00e3o da Alemanha, em 1870-71, essa necessidade tornou-se ainda mais patente: a influ\u00eancia da R\u00fassia nos B\u00e1lc\u00e3s e na pol\u00edtica europeia necessitava de um apoio militar \u00e0 altura.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">Enquanto a Inglaterra conseguia lucros cada vez maiores na explora\u00e7\u00e3o de suas col\u00f4nias na \u00c1sia, em especial na \u00cdndia, os capitalistas franceses enxergavam na situa\u00e7\u00e3o russa uma excelente oportunidade de neg\u00f3cios. Havia uma enorme massa de trabalhadores miser\u00e1veis, sem experi\u00eancias em uma economia industrializada, sem tradi\u00e7\u00e3o de lutas, sem sindicatos e partidos, controlados a ferro e fogo pelo Czar e por uma nobreza corrupta. Isto, mais um Estado e um governo dispostos a comprarem a pre\u00e7os exorbitantes o que viessem a produzir por l\u00e1, tudo indicava que enormes lucros poderiam advir de investimentos na industrializa\u00e7\u00e3o da R\u00fassia.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">Nas \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo 19, principalmente em Petrogrado, mas tamb\u00e9m em Moscou e mais secundariamente em Kiev, os capitalistas franceses montaram grandes ind\u00fastrias para explorar o m\u00e1ximo de oper\u00e1rios. As condi\u00e7\u00f5es de trabalho eram sub-humanas. Gorki, no seu romance <i>A m\u00e3e<\/i>, fornece um bom quadro do que era a vida oper\u00e1ria naqueles dias em Petrogrado. Em pouco mais de duas d\u00e9cadas, isso criou uma situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3ria in\u00e9dita e, no longo prazo, insustent\u00e1vel: deu origem a um prolet\u00e1rio mais concentrado que o proletariado franc\u00eas ou ingl\u00eas, em condi\u00e7\u00f5es de vida e trabalho brutais, sem que houvesse uma burguesia que pudesse se contrapor na luta de classe a esse jovem proletariado.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">As coisas se tornavam ainda mais inst\u00e1veis porque a repress\u00e3o e a viol\u00eancia com que o czarismo tratava as resist\u00eancias e reivindica\u00e7\u00f5es dos trabalhadores tornavam imposs\u00edvel desarmar, pela negocia\u00e7\u00e3o, as insatisfa\u00e7\u00f5es antes que explodissem em revoltas. As negocia\u00e7\u00f5es, greves, press\u00f5es etc., sempre presentes na rela\u00e7\u00e3o entre burguesia e prolet\u00e1rios nos pa\u00edses capitalistas, eram imposs\u00edveis na R\u00fassia. Organizar uma greve ou um sindicato resultava em ex\u00edlio na Sib\u00e9ria ou na morte pela forca (<i>Os sete enforcados<\/i>, de Andreiev, \u00e9 um belo conto sobre essa situa\u00e7\u00e3o.)<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">Um jovem proletariado, sem experi\u00eancia de luta, mas, tamb\u00e9m, sem a influ\u00eancia contrarrevolucion\u00e1ria dos reformistas e sem a presen\u00e7a de uma aristocracia oper\u00e1ria, se contrapunha a uma classe dominante incapaz de administrar os conflitos inerentes \u00e0 industrializa\u00e7\u00e3o. Sem uma burguesia \u00e0 altura, o proletariado russo vivia uma situa\u00e7\u00e3o in\u00e9dita na hist\u00f3ria: rapidamente a nobreza e o czar se demonstrariam incapazes de dar conta das novas contradi\u00e7\u00f5es, tipicamente capitalistas, e seriam por elas derrubados.<\/p>\n<p align=\"center\"><span style=\"font-family: Arial, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><b>A burocracia<\/b><\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">Uma economia de base agr\u00e1rio-latifundi\u00e1ria n\u00e3o cria espa\u00e7o nem para o desenvolvimento de um mercado interno para al\u00e9m das classes dominantes, nem abre espa\u00e7o para o crescimento das &#8220;classes de transi\u00e7\u00e3o&#8221; (Marx), que nem s\u00e3o os camponeses nem pertencem \u00e0 nobreza. A alternativa a esses indiv\u00edduos era o emprego p\u00fablico, raros os que tinham um emprego fora do Estado.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">Por outro lado, o Czar, a nobreza, a Igreja e o Estado necessitavam de funcion\u00e1rios tanto para as fun\u00e7\u00f5es de administra\u00e7\u00e3o, de repress\u00e3o etc., quanto para as fun\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas. Necessitavam de funcion\u00e1rios p\u00fablicos, ju\u00edzes, advogados, policiais, torturadores, professores, carrascos, jornalistas, fil\u00f3sofos, contadores, m\u00e9dicos, carteiros, enfermeiros, engenheiros, lixeiros etc. Manter o poder, na R\u00fassia de ent\u00e3o, demandava uma vasta quantidade de indiv\u00edduos com alguma instru\u00e7\u00e3o e educa\u00e7\u00e3o, por vezes com elevado conhecimento t\u00e9cnico, outras vezes com vasto conhecimento do submundo do crime (a R\u00fassia j\u00e1 contava com uma poderosa m\u00e1fia que controlava importantes atividades econ\u00f4micas, principalmente na sua por\u00e7\u00e3o asi\u00e1tica), outras vezes com conhecimento da Europa e do franc\u00eas para negociar com os europeus ou com conhecimento das l\u00ednguas, doutrinas e das tradi\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas das diferentes nacionalidades do Imp\u00e9rio Russo etc.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">Essa necessidade e a impossibilidade de a pequena burguesia conseguir sobreviver fora do Estado deram origem a uma vasta burocracia que se estendia por todos os setores da vida social. Uma intelectualidade empregada pelo Estado era a respons\u00e1vel pela produ\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica que sustentava o regime. Este, em contrapartida, premiava essa intelectualidade com algumas recompensas e uma vida com um conforto impens\u00e1vel para os trabalhadores. A maior parte dessa intelectualidade burguesa era conservadora e czarista. Mas, apenas, a maior parte.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">Uma parte minorit\u00e1ria, sempre perseguida, duramente reprimida, percebia logo na juventude que o atraso e a mis\u00e9ria russos apenas poderiam ser superados por uma transforma\u00e7\u00e3o completa da situa\u00e7\u00e3o. Nenhuma reforma poderia converter aquela ordem social e pol\u00edtica em algo mais pr\u00f3ximo aos pa\u00edses mais desenvolvidos da Europa. Neste contexto, mesmo aqueles que n\u00e3o eram socialistas ou anarquistas, que eram apenas democratas, que almejavam um capitalismo desenvolvido, aos moldes europeus, eram for\u00e7ados a a\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias: tratava-se de destruir o czarismo e da elimina\u00e7\u00e3o da nobreza, o que apenas seria poss\u00edvel pela viol\u00eancia revolucion\u00e1ria. Uma enorme quantidade de grupos anarquistas, de grupos partid\u00e1rios do terror revolucion\u00e1rio contra os indiv\u00edduos das classes dominantes, de grupos que se propunham a apoiar com armas os camponeses nas lutas contra os latifundi\u00e1rios, se somavam a grupos marxistas que tinham clareza de que a supera\u00e7\u00e3o do atraso russo s\u00f3 viria pela supera\u00e7\u00e3o do capitalismo. Dessa pequena burguesia, grande parte funcion\u00e1ria p\u00fablica, saiu a maior por\u00e7\u00e3o das ideias e ideologias revolucion\u00e1rias que ter\u00e3o um papel t\u00e3o importante durante a revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">Essa intelectualidade foi tamb\u00e9m o solo social para que o marxismo tivesse se expandido na R\u00fassia muito cedo. A primeira tradu\u00e7\u00e3o de <i>O Capital<\/i>, de Marx, foi para o russo e intelectuais marxistas v\u00e3o surgindo com alguma profus\u00e3o e velocidade. A gera\u00e7\u00e3o de revolucion\u00e1rios de 1917 teve, em geral, essa base social. Tamb\u00e9m foi essa base social que deu origem ao apogeu da literatura russa: Dostoievsky, Tolstoy, Tchekhov, Gorki, Maiakovski etc.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">O atraso da R\u00fassia foi, portanto, o respons\u00e1vel pela forma\u00e7\u00e3o de uma gigante burocracia. Trotsky menciona que, para cada 17 habitantes, havia um funcion\u00e1rio p\u00fablico! Essa burocracia ter\u00e1 grande peso no desdobramento da Revolu\u00e7\u00e3o Russa e ser\u00e1 de um enorme peso conservador, depois de 1917.<\/p>\n<p align=\"center\"><span style=\"font-family: Arial, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><b>O ex\u00e9rcito e a marinha<\/b><\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">Desde a Idade M\u00e9dia, a pot\u00eancia militar russa se apoiou essencialmente na quantidade gigantesca de soldados que podia colocar em combate. O armamento n\u00e3o era o melhor, o comando militar n\u00e3o era t\u00e3o bom, a estrat\u00e9gia militar deixava a desejar. Contudo, essas debilidades eram contrabalan\u00e7adas com folga pelo tamanho do ex\u00e9rcito russo. Os camponeses eram a classe que, por sua mis\u00e9ria, por sua fun\u00e7\u00e3o social e pelo fato de comporem a maior parte da popula\u00e7\u00e3o russa, serviam como a principal fonte de fornecimento da &#8220;carne de canh\u00e3o&#8221;, o soldado raso.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">Esses camponeses-soldados, com uma vida rural longe das ind\u00fastrias, foram se tornando cada vez mais incapazes de serem bons combatentes na medida em que o avan\u00e7o da tecnologia militar exigia um conhecimento e um adestramento mais pr\u00f3ximo \u00e0 ind\u00fastria que da agricultura. Por isso, o ex\u00e9rcito russo foi incorporando uma parcela de oper\u00e1rios para cumprirem as fun\u00e7\u00f5es que requeriam um conhecimento t\u00e9cnico um pouco maior. Principalmente na artilharia, o peso dos soldados oriundos dos centros industriais tendia a crescer conforme avan\u00e7ava no tempo.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">O Alto Comando Militar era composto por nobres e altos funcion\u00e1rios p\u00fablicos atra\u00eddos pelos sal\u00e1rios, pelas vantagens e pela corrup\u00e7\u00e3o do aparato militar: as rela\u00e7\u00f5es com a nobreza, com o Czar e a Czarina eram mais importantes para a obten\u00e7\u00e3o desses cargos do que o conhecimento da &#8220;arte da guerra&#8221; ou a experi\u00eancia militar. A incompet\u00eancia da alta hierarquia militar apenas \u00e9 compar\u00e1vel, em tamanho, \u00e0 dist\u00e2ncia de classe que havia entre ela e a base do ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">O resultado \u00e9 uma estrutura militar em tudo semelhante \u00e0 sociedade. E, tal como o czarismo tratava os trabalhadores com repress\u00e3o e viol\u00eancia, a hierarquia militar ser\u00e1 imposta pela viol\u00eancia e castigos desumanos. O l\u00e1tego, a forca e o <i>knut<\/i> eram castigos corriqueiros e que faziam parte da vida militar.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">Na Marinha, algo similar ocorria. Contudo, com uma diferen\u00e7a importante: em confronto com a nobreza que ocupava o Almirantado, havia uma massa de marinheiros que vinha majoritariamente das cidades industrializadas. Nos navios, a dist\u00e2ncia de classe se reproduzia t\u00e3o duramente quanto na sociedade, todavia em um espa\u00e7o muit\u00edssimo menor: a luta de classes era, na Marinha, muito mais imediata e muito mais direta. (O <i>Encoura\u00e7ado Potenkin<\/i>, de Eisenstein, retrata com maestria essa contradi\u00e7\u00e3o). Por isso a revolta na Marinha veio antes e com mais consist\u00eancia que no Ex\u00e9rcito, quando 1917 chegou.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">Al\u00e9m disso, o czarismo veio desenvolvendo, desde a Idade M\u00e9dia, um aparato de coleta de informa\u00e7\u00f5es e de controle dos trabalhadores que s\u00f3 tem equivalente na m\u00e1fia russa (uma das mais antigas e desenvolvidas do planeta). Ao chegarmos no s\u00e9culo 20, milhares de funcion\u00e1rios p\u00fablicos, policiais, espi\u00f5es de todos os tipos vigiavam a vida de todos: nobres e trabalhadores n\u00e3o estavam livres de sua vigil\u00e2ncia. A tem\u00edvel <i>Okrana<\/i>, a pol\u00edcia secreta, tinha at\u00e9 mesmo um espi\u00e3o infiltrado no Comit\u00ea Central dos bolcheviques quanto da tomada do poder em outubro de 1917!<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">10 dias, 9 meses ou 5 anos?<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">A Revolu\u00e7\u00e3o de Fevereiro (voltaremos a ela em um pr\u00f3ximo artigo), que colocou abaixo o Czar, n\u00e3o alterou a estrutura econ\u00f4mica da sociedade russa. As terras continuaram nas m\u00e3os dos latifundi\u00e1rios, nas f\u00e1bricas continuaram explorando os oper\u00e1rios, os bancos continuaram nas m\u00e3os dos banqueiros \u2013 e assim sucessivamente.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">A r\u00e1pida evolu\u00e7\u00e3o das lutas de classe terminou colocando no poder em outubro um partido, o bolchevique que, em fevereiro, sequer tinha um peso pol\u00edtico significativo. Al\u00e9m disso, foram nas cidades industrializadas (Petrogrado e Moscou, essencialmente) que as lutas de classe evolu\u00edram no sentido de colocar no poder os bolcheviques. No restante da R\u00fassia, o processo era muito mais lento: a tomada do poder pelos bolcheviques nem alterou a propriedade da terra e pouco mexeu nos poderes locais; algumas localidades mais distantes de Petrogrado foram se dar conta do que ocorrera em outubro de 1917 apenas meses depois.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">O novo poder revolucion\u00e1rio enfrentava, portanto, uma situa\u00e7\u00e3o muito desigual: em Petrogrado, oper\u00e1rios, padeiros, artes\u00e3os etc. se radicalizavam \u00e0 esquerda, no restante da R\u00fassia, nada semelhante tinha lugar.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">Foi tirando vantagem desse descompasso que a contrarrevolu\u00e7\u00e3o se levantou em meados de 1918 e levou a R\u00fassia a uma guerra civil que, por pouco, os revolucion\u00e1rios n\u00e3o perderam. Ao final da Guerra Civil, na passagem de 1920 a 1921, a velha classe dominante havia sido derrotada militarmente e socialmente destru\u00edda, as terras foram tomadas pelo Estado ou pelos camponeses, as f\u00e1bricas foram estatizadas assim como os bancos. Uma nova estrutura produtiva tinha, ent\u00e3o, nascido e, a tarefa de toda revolu\u00e7\u00e3o, a de destruir a velha forma de propriedade e dar origem a uma nova sociedade baseada em uma nova estrutura produtiva, estava essencialmente terminada. As bases do que viria a ser a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica estavam assentadas.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">Vejam, nem o ano de 1917, nem os 10 dias que abalaram o mundo, foram capazes de modificar as bases produtivas (a forma de propriedade, a forma de explora\u00e7\u00e3o do trabalho, de apropria\u00e7\u00e3o do trabalho excedente, de distribui\u00e7\u00e3o da riqueza etc.) do velho czarismo. Foi preciso os anos de guerra civil para que essa gigantesca tarefa hist\u00f3ria fosse cumprida. A ess\u00eancia da tarefa revolucion\u00e1ria de 1917, a elimina\u00e7\u00e3o das velhas classes propriet\u00e1rias e a reestrutura\u00e7\u00e3o de toda a base produtiva, n\u00e3o estavam realizadas at\u00e9 chegarmos ao ano de 1921. <i>Os 10 dias que abalaram o mundo<\/i> bem como os 9 meses de <i>A revolu\u00e7\u00e3o russa<\/i> n\u00e3o relatam nem analisam o que ocorreu de novembro de 1917 a mar\u00e7o de 1921. Essas duas obras t\u00e3o importantes, assumem que, com a tomada do poder pelos bolcheviques, estaria realizada a ess\u00eancia do processo revolucion\u00e1rio russo. Tratar-se-ia, a partir de outubro, de construir a &#8220;ordem socialista&#8221;, como Lenin dissera no Sovi\u00e9t de Petrogrado.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">Essa a maior debilidade dos maravilhosos livros <i>A hist\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o russa<\/i>, de Trotsky e <i>Os 10 dias que abalaram o mundo<\/i>, de John Reed. Pressup\u00f5em que, com outubro, a ess\u00eancia do processo revolucion\u00e1rio estaria dada e que o car\u00e1ter de classe do novo Estado e da nova sociedade estaria j\u00e1 posta: o socialismo e o Estado prolet\u00e1rio. A concep\u00e7\u00e3o de Trotsky de que a URSS seria uma Estado oper\u00e1rio degenerado tem um de seus fundamentos na concep\u00e7\u00e3o de que 1917 j\u00e1 decidira o car\u00e1ter de classe e a ess\u00eancia produtiva da nova sociedade. Reed nem imagina que o futuro pudesse ser outro que a humanidade socialista.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">Hoje, do ponto de vista muito mais vantajoso de d\u00e9cadas ap\u00f3s o desaparecimento da ordem sovi\u00e9tica, restam poucas d\u00favidas de que, se o ano de 1917 propiciou uma altera\u00e7\u00e3o na correla\u00e7\u00e3o pol\u00edtica entre as classes sociais da velha russa czarista, foram os anos de Guerra Civil que moldaram a nova base econ\u00f4mica e, com isso, o car\u00e1ter de classe da nova sociedade e do novo Estado. E, portanto, para compreendermos o que ocorreu na Revolu\u00e7\u00e3o Russa, \u00e9 preciso que n\u00e3o nos limitemos aos 9 meses entre fevereiro e outubro, ou aos &#8220;10 dias&#8221;: o processo revolucion\u00e1rio russo se estende de 1917 a 1921, cerca de 5 anos. Nesses 5 anos \u00e9 que foram lan\u00e7adas as bases do que viria a seguir: uma r\u00e1pida industrializa\u00e7\u00e3o, com uma melhoria ainda mais veloz e impressionante das condi\u00e7\u00f5es de vida e trabalho, sob a ditadura de Stalin.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">Como decorreram esses 5 anos, veremos nos pr\u00f3ximos artigos. At\u00e9 l\u00e1, n\u00e3o deixem de ler nem <i>Os 10 dias&#8230;<\/i> de Reed, nem a <i>Hist\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o Russa<\/i>, de Trotsky.<\/p>\n<p align=\"center\"><span style=\"font-family: Arial, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><b>Indica\u00e7\u00e3o de leitura<\/b><\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">Andreiev, L. <i>Os sete enforcados<\/i>; Tolstoy, <i>Guerra e Paz <\/i>e <i>Anna Karenina<\/i>, Gorki, <i>A m\u00e3e<\/i>: como diria meu pai, quem n\u00e3o ler essas tr\u00eas obras liter\u00e1rias n\u00e3o merece os olhos que Deus lhe deu! S\u00e3o um quadro social e pol\u00edtico da R\u00fassia Czarista da mais elevada qualidade liter\u00e1ria.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">Dois os t\u00edtulos fundamentais: o texto de John Reed e o obra-prima de Trotsky, citados no texto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0Sergio Lessa \u00c9 prov\u00e1vel que a maioria das pessoas que leu algo sobre a Revolu\u00e7\u00e3o Russa tenha lido Os 10<\/p>\n","protected":false},"author":12,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[16,6,55,75],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5611"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/12"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5611"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5611\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5612,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5611\/revisions\/5612"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5611"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5611"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5611"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}