{"id":57,"date":"2008-12-13T16:39:52","date_gmt":"2008-12-13T16:39:52","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/?q=node\/57"},"modified":"2018-05-04T21:48:19","modified_gmt":"2018-05-05T00:48:19","slug":"alexandre-politica-e-melodrama","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2008\/12\/alexandre-politica-e-melodrama\/","title":{"rendered":"&#8220;Alexandre&#8221;: Pol\u00edtica e melodrama"},"content":{"rendered":"<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<h1>\u201cALEXANDRE\u201d: POL\u00cdTICA E MELODRAMA<\/h1>\n<h1><\/h1>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: center;\" align=\"center\">(Coment\u00e1rio sobre o filme \u201cAlexandre\u201d)<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Nome original: Alexander<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Produ\u00e7\u00e3o: Alemanha, Estados Unidos, Holanda, Fran\u00e7a<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ano: 2004<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Idiomas: Ingl\u00eas<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Diretor: Oliver Stone<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <span lang=\"EN-US\">Roteiro: Oliver Stone, Christopher Kyle<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\"><span lang=\"EN-US\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Elenco: Collin Farell, Jessie Kamm, Connor Paolo, Angelina Jolie, Val Kilmer, David Bedella, Anthony Hopkins, Fiona O\u2019Shaughnessy, Christopher Plummer<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">G\u00eanero: a\u00e7\u00e3o, aventura, biografia, drama, guerra<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\"><span lang=\"EN-US\">Fonte: \u201cThe Internet Movie Database\u201d \u2013 <\/span><a href=\"http:\/\/www.imdb.com\/\"><span lang=\"EN-US\">http:\/\/www.imdb.com\/<\/span><\/a><span lang=\"EN-US\">\u00a0 <\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">H\u00e1 alguns meses, ao comentar os filmes \u201cRei Artur\u201d e \u201cTr\u00f3ia\u201d, este escriba finalizou seu texto com a seguinte frase: \u201cAo que parece, ser\u00e1 preciso esperar por \u2018Alexander\u2019, vers\u00e3o de Oliver Stone para a hist\u00f3ria de Alexandre Magno, para vermos um \u00e9pico de verdade no cinema\u201d. Agora que o referido filme foi lan\u00e7ado, chegou o momento de acertar as contas com essa expectativa.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">A frase acima citada expressa um evidente tom apreciativo, no sentido de que se considerava Oliver Stone capaz de realizar uma obra infinitamente superior \u00e0quelas duas pequenas aventuras hist\u00f3rico-liter\u00e1rias com as quais seu trabalho estava sendo antecipadamente comparado. Neste sentido, agora que tal trabalho foi lan\u00e7ado, podemos dizer tranq\u00fcilamente que \u201cAlexander\u201d est\u00e1 h\u00e1 anos-luz de dist\u00e2ncia daqueles dois descart\u00e1veis concorrentes. N\u00e3o h\u00e1 o que discutir a esse respeito. Discutiremos aqui sim se \u201cAlexander\u201d \u00e9 um filme \u00e0 altura de suas pr\u00f3prias pretens\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Antes de mais nada, \u00e9 preciso justificar o cr\u00e9dito concedido ao diretor e a confessada expectativa positiva a seu favor. Oliver Stone construiu uma filmografia concebida para servir como uma forma de interven\u00e7\u00e3o no debate pol\u00edtico-cultural acerca dos rumos de seu pa\u00eds. Simplificaremos esse debate reduzindo-o esquematicamente a duas alternativas, \u00e0s quais experimentalmente denominaremos \u201cexemplaristas\u201d e \u201cimperialistas\u201d, tendo em vista t\u00e3o somente o escopo do presente coment\u00e1rio.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Os \u201cimperialistas\u201d s\u00e3o os que consideram leg\u00edtimo impor os valores do capitalismo estadunidense ao resto do mundo, pela for\u00e7a das armas, se for preciso, levando no pacote os dogmas da moral fundamentalista crist\u00e3 conservadora e outros adere\u00e7os ideol\u00f3gicos. Os \u201cexemplaristas\u201d s\u00e3o os que simplesmente amam os Estados Unidos por consider\u00e1-lo a realiza\u00e7\u00e3o de um certo ideal de democracia e igualitarismo, o \u201ctriunfo do homem comum\u201d, conceito l\u00e1 tamb\u00e9m denominado de \u201cpopulismo\u201d (n\u00e3o confundir com o chamado populismo latino-americano) e que vem dos democratas jacksonianos e jeffersonianos, etc. Essa corrente considera ideal o modo de vida estadunidense, mas acredita que os demais povos do mundo devem adot\u00e1-lo t\u00e3o somente se assim o quiserem, voluntariamente, por imita\u00e7\u00e3o, sem a necessidade de imposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Por mais que esse conceito de \u201ctriunfo do homem comum\u201d seja problem\u00e1tico e tamb\u00e9m carregado de ideologia, cujas determina\u00e7\u00f5es n\u00e3o cabe aqui discutir; \u00e9 em nome dele que se ergueram algumas das maiores realiza\u00e7\u00f5es culturais do povo estadunidense, no cinema, na m\u00fasica e nos quadrinhos, em fun\u00e7\u00e3o das quais a ind\u00fastria cultural daquele pa\u00eds merecer\u00e1 ser lembrada na hist\u00f3ria. Oliver Stone milita, pois, nas fileiras daqueles que denominamos \u201cexemplaristas\u201d, raz\u00e3o pela qual sempre se pode esperar resultados interessantes de seu trabalho.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Stone faz de seus filmes uma cruzada contra os \u201cimperialistas\u201d, como em \u201cPlatoon\u201d, \u201cNascido em 4 de Julho\u201d ou \u201cJFK\u201d. Al\u00e9m da cr\u00edtica, o cineasta exercita tamb\u00e9m a defesa das teses \u201cexemplaristas\u201d em seus demais filmes como \u201cThe Doors\u201d ou \u201cUm domingo qualquer\u201d. Dentro de uma trajet\u00f3ria assim descrita, um trabalho como \u201cAlexander\u201d parece de certo modo deslocado. O que Oliver Stone estaria tentando dizer com este filme? Qual o prop\u00f3sito de filmar a hist\u00f3ria de Alexandre Magno no presente contexto?<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Alexandre foi basicamente um jovem que quis terminar o trabalho iniciado por seu pai e conquistar o Oriente M\u00e9dio. Exatamente como George W. Bush! Essa curiosa coincid\u00eancia e o sil\u00eancio de Oliver Stone ao longo da rumorosa campanha de reelei\u00e7\u00e3o de Bush, onde boa parte da classe art\u00edstica estadunidense tomou partido enfaticamente (contra o Presidente), deram um n\u00f3 nas cabe\u00e7as acostumadas a pensar bitoladamente por meio de esquematismos r\u00edgidos. De que lado estaria o diretor?<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Oliver Stone n\u00e3o mudou de lado. Ele simplesmente escolheu um objeto que n\u00e3o se enquadra muito facilmente na sua filosofia da hist\u00f3ria. O pensamento estadunidense, em ambas as correntes acima grosseiramente esquematizadas, tem uma obsess\u00e3o pela hist\u00f3ria do Imp\u00e9rio Romano. A hegemonia que os Estados Unidos exercem hoje \u00e9 usualmente comparada por ambas essas correntes \u00e0quela que os romanos exerceram na Antig\u00fcidade. Os Estados Unidos se consideram a Roma de hoje. Desse ponto de vista, a interpreta\u00e7\u00e3o dos processos da hist\u00f3ria romana parece crucial para determinar os rumos da hist\u00f3ria estadunidense.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Existe uma esp\u00e9cie de consenso de que o Imp\u00e9rio Romano teria tido uma certa \u201cmiss\u00e3o civilizadora\u201d no contexto da Antig\u00fcidade. Roma teria tido a miss\u00e3o de levar a lei e o direito para as terras b\u00e1rbaras da Europa. Suas institui\u00e7\u00f5es, suas estradas, seu com\u00e9rcio, sua moeda, sua l\u00edngua, sua raz\u00e3o, seriam um benef\u00edcio pelo qual seria justo fazer os b\u00e1rbaros pagarem o pre\u00e7o da conquista militar. A partir do momento em que os C\u00e9sares, os senadores e a classe dos patr\u00edcios em geral degeneraram numa oligarquia de nobres ambiciosos, depravados e cultivadores do luxo, o dom\u00ednio romano perdeu a sua justifica\u00e7\u00e3o moral. Amofinados, os romanos foram subjugados pelos b\u00e1rbaros a quem deveriam civilizar.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Essa interpreta\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria de Roma coloca para os Estados Unidos de hoje a necessidade de se manterem moralmente dignos da hegemonia que exercem, sob pena de perderem o \u201cdireito\u201d ao seu \u201cmandato hist\u00f3rico\u201d. Um filme como \u201cAlexander\u201d n\u00e3o est\u00e1 a servi\u00e7o da tese imperialista de que os Estados Unidos devem expandir seu imp\u00e9rio, mas sim se prop\u00f5e a ser um estudo sobre os motivos que justificam a iniciativa de construir um imp\u00e9rio. Oliver Stone expressamente apresenta Alexandre como algu\u00e9m que tinha em mente construir algo parecido com aquilo que o Imp\u00e9rio Romano viria a ser.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">O esfor\u00e7o para transformar Alexandre num her\u00f3i cinematogr\u00e1fico somente se justifica, aos olhos do diretor, se esse her\u00f3i puder ser mostrado como o precursor dos valores que seriam realizados pelos romanos (e conseq\u00fcentemente, pelos estadunidenses), lutando contra a xenofobia arrogante e estreita de seus generais. Entretanto, a id\u00e9ia de direito, de igualitarismo, de cosmopolitismo que os romanos realizaram \u00e9 um saldo positivo que apenas a posteridade p\u00f4de apurar. \u00c9 imposs\u00edvel que algu\u00e9m da \u00e9poca de Alexandre pudesse antecipar aquilo que os historiadores de hoje consideram como resultado positivo das conquistas hel\u00eanicas e romanas.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">\u00c9 historicamente imposs\u00edvel que o pr\u00f3prio Alexandre pudesse projetar a id\u00e9ia de um imp\u00e9rio multinacional livre do despotismo, da tirania e do arb\u00edtrio, onde todos os povos fossem iguais e os indiv\u00edduos tivessem \u201cdireitos\u201d no sentido moderno. Ele podia projetar os valores da educa\u00e7\u00e3o grega que recebeu, porque isso era tudo o que conhecia como modo de reinar, mas n\u00e3o com o objetivo expl\u00edcito de construir uma civiliza\u00e7\u00e3o que atravessasse os s\u00e9culos. Os agentes hist\u00f3ricos, mesmo os maiores como Alexandre, t\u00eam uma consci\u00eancia necessariamente limitada das conseq\u00fc\u00eancias que seus atos acarretam. Essa consci\u00eancia pode ser mais ou menos limitada, mas nunca absolutamente n\u00edtida e clara como no Alexandre de Oliver Stone.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A tentativa anacr\u00f4nica de apresentar Alexandre como um her\u00f3i modernamente palat\u00e1vel foi uma armadilha da qual Oliver Stone n\u00e3o soube como escapar. Isso n\u00e3o significa necessariamente que o filme seja ruim. Mas quando o alicerce conceitual est\u00e1 comprometido, o conjunto da obra n\u00e3o se sustenta. N\u00e3o encontra o equil\u00edbrio ideal entre forma e conte\u00fado. O recurso paliativo dos flashbacks apresentados por Ptolomeu (Antony Hopkins) se torna uma inc\u00f4moda muleta narrativa para a exposi\u00e7\u00e3o de teses interpretativas vagas por meio das quais o diretor tenta pedagogicamente defender suas concep\u00e7\u00f5es de um \u201cbom Imp\u00e9rio\u201d.<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent\">Quando falha desse modo a tentativa de transmitir uma id\u00e9ia dramaticamente precisa, tudo o que resta da obra \u00e9 o espet\u00e1culo visual e sonoro de tr\u00eas horas de superprodu\u00e7\u00e3o. No meio da confus\u00e3o conceitual e narrativa, \u00e9 preciso paci\u00eancia e esfor\u00e7o para resgatar aquilo que merece ser salvo. O filme n\u00e3o \u00e9 ruim, mas \u00e9 irregular, o que basta para conden\u00e1-lo. Uma produ\u00e7\u00e3o do porte de \u201cAlexander\u201d n\u00e3o pode ser simplesmente \u201cboa\u201d. Precisa ser espetacular, esplendorosa, avassaladora, monumental. Vindo do diretor que vem e tratando do tema que trata, o fato de o filme ser apenas \u201cbom\u201d pode ser considerado um fracasso.<\/p>\n<p class=\"MsoBodyText\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Como dissemos acima, se encarado como uma simples aventura hist\u00f3rica, para quem aprecia filmes \u00e9picos, trata-se de um prato cheio. Est\u00e3o l\u00e1 as indefect\u00edveis cenas de batalha, a reconstitui\u00e7\u00e3o visual primorosa de cen\u00e1rios grandiosos, o vasto elenco de curiosos coadjuvantes, etc. Nesse aspecto, \u201cAlexander\u201d est\u00e1 muito acima da m\u00e9dia. Destacando-se entre as ofertas na prateleira de lan\u00e7amentos descart\u00e1veis como a aposta da vez, no g\u00eanero de curiosidade \u00e9pica-aventuresca, tem o m\u00e9rito de ser bastante realista, embora n\u00e3o 100% exato historicamente.<\/p>\n<p class=\"MsoBodyText\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 N\u00e3o \u00e9 exato por conta de pequenos detalhes. Por exemplo, a cena em que o oficial Clito decepa o bra\u00e7o do comandante persa que estava prestes a matar Alexandre aconteceu na batalha do rio Granico, na \u00c1sia Menor, e n\u00e3o em Gaugamela. Do mesmo modo, a cena em que Alexandre toma sob sua prote\u00e7\u00e3o as mulheres da fam\u00edlia de Dario aconteceu logo ap\u00f3s a batalha de Issus, a segunda do ex\u00e9rcito maced\u00f4nio em territ\u00f3rio asi\u00e1tico, e n\u00e3o na chegada (espetacular) \u00e0 Babil\u00f4nia. E assim por diante.<\/p>\n<p class=\"MsoBodyText\" style=\"text-indent: 35.4pt;\">Essas pequenas inexatid\u00f5es s\u00e3o perdo\u00e1veis em vista da necessidade dram\u00e1tica de selecionar e enquadrar os numerosos epis\u00f3dios de uma vida t\u00e3o extraordin\u00e1ria numa edi\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica de dura\u00e7\u00e3o minimamente diger\u00edvel. Epis\u00f3dios como o do n\u00f3 de G\u00f3rdio, o cerco de Tiro, as bodas de Susa, que s\u00e3o t\u00e3o pitorescos como o da aquisi\u00e7\u00e3o de Buc\u00e9falo ou o casamento com Roxana, tem que ficar de fora em nome dos imperativos da economia narrativa cinematogr\u00e1fica.<\/p>\n<p class=\"MsoBodyText\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Apesar dessas pequenas inexatid\u00f5es, o filme \u00e9 realista no que se refere, por exemplo, \u00e0 quest\u00e3o da bissexualidade de Alexandre. Tratando de uma \u00e9poca anterior ao predom\u00ednio da moral judaico-crist\u00e3, o diretor retrata as prefer\u00eancias sexuais tais como elas de fato se desenvolviam, com muito mais liberdade e naturalidade. Os homens precisavam das mulheres para produzir herdeiros, mas podiam preferir a rela\u00e7\u00e3o com outros homens, sem que isso diminu\u00edsse em nada a sua condi\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos habilitados para as tarefas t\u00edpicas do mundo masculino, como a guerra.<\/p>\n<p class=\"MsoBodyText\" style=\"text-indent: 35.4pt;\">A associa\u00e7\u00e3o do prazer sexual anal com a condi\u00e7\u00e3o social simb\u00f3lica de \u201cpassivo\u201d \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica posterior da cultura crist\u00e3. Como diz o amigo Carlos Wellington, antes de ser homof\u00f3bica, a sociedade ocidental-crist\u00e3 \u00e9 sexof\u00f3bica. A repulsa ao que se chama de manifesta\u00e7\u00f5es alternativas ou minorit\u00e1rias de sexualidade \u00e9 uma parte da repulsa ao sexo em geral. A mis\u00e9ria sexual contempor\u00e2nea n\u00e3o assimila a exuber\u00e2ncia espont\u00e2nea e natural da Antiguidade hel\u00eanica. Aos olhos da nossa posteridade machista e homof\u00f3bica, o desinteresse de Alexandre por mulheres o torna rid\u00edculo, embora na \u00e9poca fosse apenas um problema pr\u00e1tico secund\u00e1rio. Mesmo que tenha acarretado ao rei da Maced\u00f4nia a falta de um herdeiro vi\u00e1vel, que se mostrou crucial para a sobreviv\u00eancia de seu imp\u00e9rio.<\/p>\n<p class=\"MsoBodyText\" style=\"text-indent: 35.4pt;\">A rela\u00e7\u00e3o dos gregos com a sexualidade \u00e9 especial n\u00e3o porque l\u00e1 houvesse mais homossexuais do que em qualquer outra \u00e9poca ou lugar, mas porque uma arraigada misoginia relegou as mulheres a um irremedi\u00e1vel segundo plano s\u00f3cio-pol\u00edtico. De tal modo que o amor por excel\u00eancia, tal como foi definido por S\u00f3crates no \u201cBanquete\u201d de Plat\u00e3o, \u00e9 o que se desenvolve entre duas criaturas moralmente livres e iguais, o que s\u00f3 poderia significar dois homens. Mesmo com a ressalva de que esse amor plat\u00f4nico pudesse ser carnal ou n\u00e3o. O que importa para S\u00f3crates, Plat\u00e3o e Arist\u00f3teles \u00e9 amar a virtude, e no caso da Gr\u00e9cia a virtude s\u00f3 pode ser masculina.<\/p>\n<p class=\"MsoBodyText\" style=\"text-indent: 35.4pt;\">\u00c9 certo que Oliver Stone n\u00e3o encontrou o tom adequado para retratar a rela\u00e7\u00e3o entre Alexandre e Hefaistion, mas isso requer outra discuss\u00e3o. Resta-lhe o ineg\u00e1vel m\u00e9rito de ter corajosamente abordado o assunto. Gra\u00e7as a essa \u00fanica ousadia, mais do que a qualquer dos muitos outros defeitos do filme, \u201cAlexander\u201d j\u00e1 nasceu condenado ao fiasco de bilheteria no mercado estadunidense, dominado pela onda neoconservadora do puritanismo hip\u00f3crita de Bush.<\/p>\n<p class=\"MsoBodyText\" style=\"text-indent: 35.4pt;\">Entre essas falhas e virtudes, \u201cAlexander\u201d apresenta problemas tamb\u00e9m com rela\u00e7\u00e3o ao elenco. O caso mais grave \u00e9 o de Angelina Jolie, que apesar de enfeitar o filme com sua beleza hipnotizante, n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o tem idade para ser a m\u00e3e de Alexandre como entrega uma interpreta\u00e7\u00e3o nada menos que rid\u00edcula. Por sua vez, Collin Farrel parece ter aprendido a li\u00e7\u00e3o com Felipe de que os grandes feitos custam grandes sofrimentos: ele chora o filme inteiro. Oliver Stone o sobrecarrega com cenas hist\u00e9ricas, melodram\u00e1ticas, exageradas, dolorosas, atordoantes, pois tudo o que diz respeito a Alexandre parece ter lugar entre bebedeiras hom\u00e9ricas, crises morais dilacerantes e discuss\u00f5es intermin\u00e1veis. E por falar em Felipe, a melhor interpreta\u00e7\u00e3o de todas \u00e9, inacreditavelmente, a de Val Kilmer, o que d\u00e1 uma medida do n\u00edvel da coisa toda.<\/p>\n<p class=\"MsoBodyText\" style=\"text-indent: 35.4pt;\">Um \u00faltimo destaque digno de men\u00e7\u00e3o \u00e9 a trilha sonora criada pelo grego Vangelis, autor da inesquec\u00edvel trilha do cl\u00e1ssico \u201cBlade Runner\u201d. A m\u00fasica de \u201cAlexander\u201d \u00e9 bel\u00edssima, com exce\u00e7\u00e3o dos momentos em que tem que carregar uma apoteose que acaba n\u00e3o se verificando, nas cenas que deveriam ter sido triunfais. Nos seus momentos mais sutis e intimistas a trilha mostra-se capaz de criar atmosferas de delicadeza sublime. Numa fita t\u00e3o irregular, a m\u00fasica \u00e9 um dos poucos elementos que est\u00e3o \u00e0 altura daquilo que deveria ter sido um grande filme sobre Alexandre Magno.<\/p>\n<p class=\"MsoBodyText\">\n<p class=\"MsoBodyText\">Daniel M. Delfino<\/p>\n<p class=\"MsoBodyText\">\n<p class=\"MsoBodyText\">07\/02\/2005<\/p>\n<p class=\"MsoBodyText\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<h1>&ldquo;ALEXANDRE&rdquo;: POL&Iacute;TICA E MELODRAMA<\/h1>\n<h1><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/h1>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: center;\" class=\"MsoNormal\">(Coment&aacute;rio sobre o filme &ldquo;Alexandre&rdquo;)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9,76],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=57"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6125,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57\/revisions\/6125"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=57"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=57"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=57"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}