{"id":58,"date":"2008-12-13T16:41:36","date_gmt":"2008-12-13T16:41:36","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/?q=node\/58"},"modified":"2018-05-04T21:48:13","modified_gmt":"2018-05-05T00:48:13","slug":"peoes-debate-sobre-os-filmes-da-campanha-de-lula-em-2002","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2008\/12\/peoes-debate-sobre-os-filmes-da-campanha-de-lula-em-2002\/","title":{"rendered":"&#8220;Pe\u00f5es&#8221; (Debate sobre os filmes da campanha de Lula em 2002)"},"content":{"rendered":"<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<h1>PE\u00d5ES (DEBATE SOBRE OS FILMES DA CAMPANHA DE LULLA EM 2002)<\/h1>\n<h1><\/h1>\n<p class=\"MsoNormal\"><span lang=\"EN-US\">\u00a0 <\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Nome original: Pe\u00f5es<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Produ\u00e7\u00e3o: Brasil<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ano: 2004<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Idiomas: Portugu\u00eas<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Diretor: Eduardo Coutinho<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Roteiro:<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Elenco: Maria Socorro Morais Alves, Jos\u00e9 Alves Bezerra, Zacarias Feitosa de Morais<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 G\u00eanero: document\u00e1rio<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <span lang=\"EN-US\">Fonte: \u201cThe Internet Movie Database\u201d \u2013 <\/span><a href=\"http:\/\/www.imdb.com\/\"><span lang=\"EN-US\">http:\/\/www.imdb.com\/<\/span><\/a><span lang=\"EN-US\">\u00a0 <\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\"><span lang=\"EN-US\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">O filme de Eduardo Coutinho se constitui de 21 depoimentos de ex-oper\u00e1rios que foram liderados por Lulla nas greves de 1979-80. Em plena campanha do ex-pe\u00e3o \u00e0 Presid\u00eancia, em 2002, os seus ex-companheiros refletem sobre suas vidas e sobre o significado que sua rela\u00e7\u00e3o com o ilustre ex-l\u00edder sindical teve para elas. O grande interesse do filme s\u00e3o essas vidas, as trajet\u00f3rias dos pe\u00f5es entrevistados. A trajet\u00f3ria de Lulla e a elei\u00e7\u00e3o servem apenas de ilustra\u00e7\u00e3o para elas. De pano de fundo hist\u00f3rico.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Por meio desses depoimentos, podemos evidentemente ter uma amostra do que significa socialmente e historicamente a elei\u00e7\u00e3o de Lulla. Elei\u00e7\u00e3o \u00e0 parte, por\u00e9m, o filme tem um grande interesse humano, que transcende o processo das elei\u00e7\u00f5es. Ele vale muito esteticamente por si mesmo, independente da conjuntura pol\u00edtica. Nenhum coment\u00e1rio como o aqui apresentado pode \u00e9 claro pretender substituir a experi\u00eancia de assistir o pr\u00f3prio filme. Pode apenas tentar sinalizar algumas das linhas tem\u00e1ticas consideradas mais significativas. As quest\u00f5es relativas \u00e0 campanha eleitoral, aos seus \u201cEntreatos\u201d e ao pr\u00f3prio governo Lulla s\u00e3o debatidas nos demais textos desta s\u00e9rie.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">\u00c9 imposs\u00edvel tamb\u00e9m registrar aqui nominalmente os depoimentos de cada um dos \u201cPe\u00f5es\u201d. Cada um \u00e9 como um cap\u00edtulo de um livro, cada um conta uma interessant\u00edssima hist\u00f3ria e revela uma personalidade humana \u00fanica, que tem muito a nos ensinar com suas viv\u00eancias. Em \u201cPe\u00f5es\u201d conhecemos uma s\u00e9rie de figuras humanas muito ricas. Pessoas de vocabul\u00e1rio paup\u00e9rrimo, experi\u00eancia valios\u00edssima e sabedoria aguda. Encontramos doses fartas de ingenuidade, sinceridade e honestidade. Um dos aspectos a se destacar a esse respeito \u00e9 a extraordin\u00e1ria capacidade do entrevistador de fazer com que seus entrevistados falem de si. Marca de toda sua obra.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O filme de Eduardo Coutinho \u00e9 um document\u00e1rio que documenta a sua pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o. \u201cPe\u00f5es\u201d se utiliza muito significativamente de trechos de outros filmes como \u201cABC da greve\u201d de Leon Hirszman, \u201cLinha de montagem\u201d de Renato Tapaj\u00f3s e \u201cGreve\u201d de Jo\u00e3o Batista de Andrade, todos realizados no decurso das hist\u00f3ricas greves do ABC de 1979-80 e lan\u00e7ados imediatamente ap\u00f3s os acontecimentos. Alguns trechos importantes destes filmes s\u00e3o reproduzidos para ilustrar as falas dos pe\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">\u00c9 a partir desses filmes que Eduardo Coutinho chega \u00e0 sua lista de entrevistados. Para produzir a lista, o cineasta pede a alguns dos grevistas hist\u00f3ricos de 1979-80, ainda reunidos em torno do Sindicato dos Metal\u00fargicos, que identifiquem, em cenas dos filmes citados e em ilustra\u00e7\u00f5es de revistas e jornais da \u00e9poca do movimento, os companheiros dos quais pudessem lembrar os nomes. Os nomes daqueles rostos an\u00f4nimos na multid\u00e3o. \u00c9 com esses nomes que o diretor trabalha para chegar ao \u201celenco\u201d do filme.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A maioria absoluta dos entrevistados \u00e9 composta de nordestinos. Migrantes que mesmo depois de d\u00e9cadas n\u00e3o perderam o forte acento regional na pron\u00fancia. \u00c9 sempre interessante ver num filme como este a disposi\u00e7\u00e3o de mostrar a verdadeira face do povo brasileiro, a grande massa daqueles que nunca s\u00e3o protagonistas, agora ocupando brevemente o merecido lugar de destaque. Em \u201cPe\u00f5es\u201d n\u00e3o temos os pobres estilizados das novelas da Rede Globo, com seu sotaque nordestino fajuto.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Os nordestinos s\u00e3o o principal componente da classe oper\u00e1ria que se forma no Brasil a partir da industrializa\u00e7\u00e3o que toma impulso nos anos 50. Esse componente nordestino se sobrep\u00f5e e em menor medida se mistura \u00e0s demais fra\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias anteriores a esse surto de industrializa\u00e7\u00e3o, como os italianos, que predominavam desde o fim do s\u00e9culo XIX. A hist\u00f3ria contada em \u201cPe\u00f5es\u201d \u00e9 a de toda uma gera\u00e7\u00e3o. Os personagens ali retratados s\u00e3o representativos da trajet\u00f3ria de outros milh\u00f5es de migrantes que vieram para S\u00e3o Paulo para \u201cganhar a vida\u201d (como fez o pai deste escriba).<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">\u201cPe\u00f5es\u201d n\u00e3o enfeita o passado. A hist\u00f3ria dos grevistas n\u00e3o \u00e9 uma hist\u00f3ria com final feliz. Muitos deles foram demitidos ao final das greves e j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o \u201cpe\u00f5es\u201d desde ent\u00e3o. \u00c9 importante lembrar que na \u00e9poca das greves a economia brasileira ainda estava em crescimento. Em se saindo de um emprego, era poss\u00edvel conseguir outro. Situa\u00e7\u00e3o muito diferente daquela que se vive nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas perdidas. Hoje, muitos dos ex-pe\u00f5es vivem portanto de outras profiss\u00f5es. Mas lembram com orgulho a participa\u00e7\u00e3o na luta sindical da \u00e9poca.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">\u201cTecnicamente\u201d, as greves lideradas por Lulla em 1979-1980 foram greves fracassadas. As reivindica\u00e7\u00f5es especificamente econ\u00f4micas n\u00e3o foram concedidas naquele momento. Os grevistas foram nesse sentido derrotados. Entretanto, politicamente, as greves foram vitoriosas, pois produziram uma eleva\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia de classe entre os oper\u00e1rios. A classe oper\u00e1ria brasileira agora tinha um exemplo de a\u00e7\u00e3o e um ponto de refer\u00eancia pol\u00edtico. As greves do ABC de 1979-80 foram o ponto de partida para a funda\u00e7\u00e3o da CUT e do PT. Outras greves viriam e outras conquistas seriam obtidas nos anos seguintes. O impulso ali iniciado beneficiou outros setores da classe trabalhadora. Uma das mulheres entrevistadas, que n\u00e3o chegou a trabalhar nas montadoras do ABC, diz que se sente \u201cmetal\u00fargica de cora\u00e7\u00e3o\u201d, porque era a luta dos metal\u00fargicos que inspirava o conjunto dos trabalhadores brasileiros de ent\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Quando se fala de luta, n\u00e3o se trata apenas de uma met\u00e1fora, mas de uma descri\u00e7\u00e3o literal dos fatos. Como em toda greve, a pol\u00edcia est\u00e1 sempre a servi\u00e7o da classe patronal. Os oper\u00e1rios que querem tentar impedir os companheiros de trabalhar s\u00e3o recebidos na porta das f\u00e1bricas pelos cacetetes dos policiais (como acaba de acontecer a este escriba, <i>mutatis mutandis<\/i>, na greve dos banc\u00e1rios de 2004).<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">A vida de oper\u00e1rio e a milit\u00e2ncia sindical \u00e9 uma luta que deixa cicatrizes f\u00edsicas (menciona-se o inevit\u00e1vel dedo perdido de Lulla) e tamb\u00e9m morais. A hist\u00f3ria dos \u201cPe\u00f5es\u201d \u00e9 uma hist\u00f3ria de sacrif\u00edcios pessoais. Os grevistas que participavam de piquetes, manifesta\u00e7\u00f5es e assembl\u00e9ias deixavam as fam\u00edlias em segundo plano. Sobre esse ponto, n\u00e3o manifestam arrependimento, mas uma consci\u00eancia dolorida de uma lacuna em suas vidas, a qual tentam de diversas maneiras reparar, com maior ou menor sucesso em cada caso. Milit\u00e2ncia e fam\u00edlia s\u00e3o ant\u00edteses dif\u00edceis de serem conciliadas.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Um dos aspectos que salta \u00e0 vista em \u201cPe\u00f5es\u201d \u00e9 a grande presen\u00e7a de mulheres. Alguns dos depoimentos mais fortes e mais emocionantes s\u00e3o de mulheres. A luta dos grevistas n\u00e3o era uma luta sustentada exclusivamente por homens-chefes-de-fam\u00edlia, era uma luta de fam\u00edlias inteiras, de m\u00e3es, esposas, irm\u00e3s e filhas. E as mulheres n\u00e3o desempenhavam apenas um papel ancilar, mas tamb\u00e9m tomavam frente na luta, participando t\u00e3o ativamente da milit\u00e2ncia sindical quanto os homens.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Tamb\u00e9m havia mulheres oper\u00e1rias envolvidas no movimento. E n\u00e3o apenas as oper\u00e1rias tem coisas importantes a dizer. As mulheres em posi\u00e7\u00f5es \u201csubalternas\u201d, serventes, copeiras e faxineiras do sindicato, tamb\u00e9m eram companheiras na luta. A solidariedade de classe n\u00e3o fazia distin\u00e7\u00e3o de campo de trabalho. A luta era dos metal\u00fargicos e de todos os trabalhadores. Foi gra\u00e7as a uma ent\u00e3o faxineira do sindicato dos metal\u00fargicos que o filme \u201cLinha de montagem\u201d escapou da apreens\u00e3o pela Pol\u00edcia Federal, em 1980, de modo que a hist\u00f3ria da greve pudesse ser contada. A hoje copeira, apesar de iletrada, mostra uma consci\u00eancia muito mais aguda que a de muitos intelectuais da import\u00e2ncia de que as pessoas conhe\u00e7am a Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Do ponto de vista dos pe\u00f5es entrevistados, a participa\u00e7\u00e3o no movimento social faz parte da vida de oper\u00e1rio. Ser oper\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 apenas trabalhar em f\u00e1brica, \u00e9 participar das lutas dos companheiros trabalhadores. N\u00e3o se distingue neste filme o orgulho por um desses aspectos do outro. N\u00e3o se fala apenas das greves, mas da vida de trabalhador em todos os seus aspectos. Os \u201cPe\u00f5es\u201d retratados no filme demonstram um peculiar orgulho pelo trabalho realizado nas linhas de montagem.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Um dos grevistas, posteriormente demitido, lembra com orgulho que seu filho apontava todos os caminh\u00f5es da marca Mercedes, dizendo: \u201cali tem uma pe\u00e7a que o senhor colocou\u201d. O verdadeiro pe\u00e3o se orgulha n\u00e3o s\u00f3 do esfor\u00e7o despendido no trabalho, mas da qualidade do trabalho por ele executado. O \u00faltimo dos \u201cPe\u00f5es\u201d pergunta: \u201cvoc\u00ea j\u00e1 foi pe\u00e3o?\u201d ao entrevistador, e atrav\u00e9s dele, a todos os espectadores. Com isso ele explica que s\u00f3 quem o foi entende esse orgulho por um trabalho bra\u00e7al tido como degradante.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Outro se lembra com orgulho de que trabalhou um ano inteiro fazendo apenas tr\u00eas dias de descanso, para com o dinheiro das horas-extras construir a casa em que mora. Em outro momento, como em \u201cTempos modernos\u201d de Chaplin, vemos o depoimento de uma oper\u00e1ria que teve os movimentos do corpo condicionados pelo ritmo das m\u00e1quinas. Os bra\u00e7os se moviam \u00e0 noite repetindo os mesmos movimentos realizados durante o dia na f\u00e1brica.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 As marcas f\u00edsicas e emocionais daquele per\u00edodo persistiram por toda a vida dos entrevistados. Mas como dissemos, n\u00e3o se trata sempre de hist\u00f3rias com finais felizes. Um dos aspectos mais dolorosos mostrados em \u201cPe\u00f5es\u201d \u00e9 o da velhice abandonada. Muitos dos grevistas hist\u00f3ricos s\u00e3o hoje idosos, aposentados, solit\u00e1rios, abandonados por suas fam\u00edlias. Alguns encontram consolo e sustent\u00e1culo material na religi\u00e3o, geralmente evang\u00e9lica.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Entretanto o que restou para a maioria foi uma fidelidade ao personagem paradigm\u00e1tico de Lulla. O tema de sua elei\u00e7\u00e3o \u00e9 um dos assuntos inevit\u00e1veis no document\u00e1rio. Muitos dos pe\u00f5es, al\u00e9m de continuarem fi\u00e9is \u00e0s id\u00e9ias pol\u00edticas da \u00e9poca em que participaram diretamente da luta, continuam diretamente envolvidos na luta pr\u00e1tica, participando de diversas formas de milit\u00e2ncia.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Uma das frases mais marcantes \u00e9 a de que \u201cos mandatos passam, os trabalhadores ficam\u201d. Isso indica a percep\u00e7\u00e3o de que a luta de classes produz resultados coletivamente e a longo prazo. A Hist\u00f3ria n\u00e3o pertence a Lulla e ao PT, mas ao conjunto da classe oper\u00e1ria brasileira. Apenas em uma das falas transparece a percep\u00e7\u00e3o de que foi Lulla o eleito (o que ent\u00e3o seria eleito), n\u00e3o o PT. Ou seja, n\u00e3o o projeto original do PT, que era um projeto classista, mas um projeto ancorado na proje\u00e7\u00e3o pessoal de Lulla.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Seria interessante confrontar a expectativa daqueles pe\u00f5es ali, no momento da elei\u00e7\u00e3o, com a avalia\u00e7\u00e3o que fariam hoje do governo Lulla. Isso seria por\u00e9m um outro filme, uma obra de natureza completamente diferente daquela que temos em m\u00e3os. Mas mesmo assim, \u201cPe\u00f5es\u201d deixa algumas pistas. Outro entrevistado cita a promessa de campanha de Lulla: \u201cEu n\u00e3o vou governar para meia d\u00fazia de banqueiros\u201d. Diante da possibilidade do descumprimento da promessa, o entrevistado avisa, com sua objetividade tipicamente nordestina: se a promessa n\u00e3o for cumprida, \u201co bicho vai pegar\u201d.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O encerramento do filme se d\u00e1 com a discuss\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o dos \u201cPe\u00f5es\u201d de hoje, mais de vinte anos depois das greves hist\u00f3ricas do ABC. A discuss\u00e3o se d\u00e1 por meio do depoimento de um oper\u00e1rio que veio da cidade onde trabalha apenas para votar em Lulla. Na defini\u00e7\u00e3o lapidar por ele apresentada, o pe\u00e3o \u00e9 aquele que bate cart\u00e3o. Essa defini\u00e7\u00e3o revela uma afiada percep\u00e7\u00e3o do funcionamento da economia capitalista. O trabalhador que bate cart\u00e3o \u00e9 aquele que tem o seu tempo de trabalho controlado pelo patr\u00e3o. O controle do tempo de trabalho \u00e9 o que propicia a mais-valia ao capital. O pe\u00e3o \u00e9 portanto aquele indiv\u00edduo que est\u00e1 no centro ativo do sistema capitalista, o seu centro produtivo. No entanto, a realidade do pe\u00e3o hoje \u00e9 a do trabalhador prec\u00e1rio, que trabalha por empreitada, freq\u00fcentemente terceirizado, sem seguran\u00e7a do emprego.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">A tend\u00eancia do sistema capitalista \u00e9 cada vez mais excluir trabalhadores das linhas de montagem. O sistema tenta excluir o ser humano da produ\u00e7\u00e3o, na mesma medida em que precisa dele para consumir sua produ\u00e7\u00e3o. Ao mesmo tempo que a diminui\u00e7\u00e3o do n\u00famero de prolet\u00e1rios \u00e9 um tend\u00eancia econ\u00f4mica conjuntural, a exist\u00eancia do trabalhador assalariado \u00e9 uma necessidade sist\u00eamica estrutural do capitalismo. Por mais que o sistema queira excluir a realidade de sua exist\u00eancia, esta se afirma reiteradamente a cada objeto fabricado. Os \u201cPe\u00f5es\u201d insistem teimosamente em se fazer aparecer na Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">Daniel M. Delfino<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">23\/11\/2004<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<h1>PE&Otilde;ES (DEBATE SOBRE OS FILMES DA CAMPANHA DE LULLA EM 2002)<\/h1>\n<h1><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/h1>\n<p class=\"MsoNormal\"><span lang=\"EN-US\" style=\"\"><span style=\"\">&nbsp; <\/span><o:p><\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/span>Nome original: Pe&otilde;es<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9,76],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=58"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6124,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58\/revisions\/6124"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=58"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=58"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=58"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}