{"id":6,"date":"2008-12-13T14:17:50","date_gmt":"2008-12-13T14:17:50","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/?q=node\/6"},"modified":"2018-06-01T15:33:06","modified_gmt":"2018-06-01T18:33:06","slug":"no-28-novdez-2008","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2008\/12\/no-28-novdez-2008\/","title":{"rendered":"Jornal 28: Novembro\/Dezembro de 2008"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><a name=\"indice\"><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Leia as mat\u00e9rias online:<\/p>\n<ul>\n<li><a href=\"#titulo1\">A crise econ\u00f4mica atual<\/a><\/li>\n<li><a href=\"#titulo2\">Por um programa socialista para enfrentar a crise no Brasil<\/a><\/li>\n<li><a href=\"#titulo3\">As elei\u00e7\u00f5es estadunidenses<\/a><\/li>\n<li><a href=\"#titulo4\">A crise econ\u00f4mica mundial e os negros<\/a><\/li>\n<li><a href=\"#titulo5\">Crise econ\u00f4mica, crise ambiental: crise da humanidade!<\/a><\/li>\n<li><a href=\"#titulo6\">O homem e a natureza no s\u00e9culo XXI &#8211; a Vila de Paranapiacaba<\/a><\/li>\n<li><a href=\"#titulo7\">A quem interessa uma educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica de qualidade? E o que est\u00e1 por tr\u00e1s da avalia\u00e7\u00e3o dos professores?<\/a><\/li>\n<li><a href=\"#titulo8\">Homossexualidade<\/a><\/li>\n<li><a href=\"#titulo9\">Ensaio Sobre a Cegueira<\/a><\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a name=\"titulo1\"><\/a><\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">A CRISE ECON\u00d4MICA ATUAL<\/h2>\n<h4 style=\"text-align: justify;\">A l\u00f3gica do capital e as crises<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">O m\u00eas de outubro de 2008 finalmente trouxe \u00e0 tona aquilo que vinha se gestando h\u00e1 tempos na economia mundial, ou seja, a eclos\u00e3o de mais uma crise peri\u00f3dica do capitalismo. As crises econ\u00f4micas s\u00e3o parte essencial do mecanismo do sistema capitalista. N\u00e3o s\u00e3o um evento extraordin\u00e1rio, acidental, inesperado, que poderia ser evitado caso se adotasse habilidosamente algum tipo de medida preventiva. A imprensa burguesa e seus batalh\u00f5es de jornalistas, analistas, economistas e intelectuais regiamente pagos tentam apresentar a vers\u00e3o de que se trata de um fen\u00f4meno \u201canormal\u201d, imprevisto, desencadeado aleatoriamente, como uma tempestade enviada por um capricho dos deuses. Impossibilitada de explicar o mecanismo b\u00e1sico da economia capitalista, a ideologia burguesa est\u00e1 tamb\u00e9m impedida de compreender suas crises.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A explica\u00e7\u00e3o real das crises econ\u00f4micas capitalistas est\u00e1 na economia pol\u00edtica dos trabalhadores, ou seja, na ci\u00eancia da hist\u00f3ria fundada por Karl Marx no s\u00e9culo XIX. A origem das crises econ\u00f4micas est\u00e1 na irracionalidade fundamental do sistema capitalista. O capitalismo \u00e9 um sistema que se caracteriza pela anarquia da produ\u00e7\u00e3o. A aloca\u00e7\u00e3o dos recursos, ou seja, a decis\u00e3o sobre os bens que precisam ser produzidos e em que quantidade, n\u00e3o \u00e9 planejada antecipadamente de maneira racional a partir das necessidades da popula\u00e7\u00e3o e dos recursos e tecnologias dispon\u00edveis. Ao contr\u00e1rio, as decis\u00f5es sobre a produ\u00e7\u00e3o s\u00e3o tomadas pelos propriet\u00e1rios dos meios de produ\u00e7\u00e3o, que atuam como personifica\u00e7\u00f5es do capital.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As diversas fra\u00e7\u00f5es do capital (empresas) buscam seu lucro individualmente, produzindo de forma ca\u00f3tica, sem coordena\u00e7\u00e3o. Apenas \u201ca posteriori\u201d, quando os produtos j\u00e1 est\u00e3o no mercado, \u00e9 que se descobre se a produ\u00e7\u00e3o efetivada correspondia a uma capacidade de poder de compra realmente dispon\u00edvel ou n\u00e3o. As empresas produzem primeiro e somente depois saber\u00e3o se poder\u00e3o vender. Lan\u00e7am os produtos no mercado na expectativa de obter um retorno maior do que aquilo que investiram na produ\u00e7\u00e3o. Somente assim podem realizar a mais-valia (trabalho n\u00e3o pago) incorporada \u00e0s mercadorias no momento da produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A l\u00f3gica da concorr\u00eancia leva ao aumento da produ\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m ao desemprego. A conjuga\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea desses fen\u00f4menos faz com que haja em determinado momento uma quantidade maior de produtos dispon\u00edveis e uma quantidade menor de consumidores aptos a adquir\u00ed-los. Gera-se portanto uma crise de superprodu\u00e7\u00e3o de mercadorias. Quando se fala em \u201csuperprodu\u00e7\u00e3o\u201d, o excesso n\u00e3o se refere \u00e0s necessidades humanas, mas \u00e0 quantidade de seres humanos que possuem a condi\u00e7\u00e3o de consumidores, pois \u00e9 apenas a estes que a produ\u00e7\u00e3o capitalista se dirige. Do ponto de vista dos capitalistas, a crise aparece como um fen\u00f4meno de \u201csubconsumo\u201d. Na sua \u00f3tica, falta aos consumidores a \u201cpropens\u00e3o a consumir\u201d que poderia resolver o problema da demanda e manter a roda da expans\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o em movimento.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify;\">O mecanismo do cr\u00e9dito e as crises peri\u00f3dicas<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das formas de contornar os limites para a capacidade de compra dos consumidores e das empresas \u00e9 o cr\u00e9dito. Os bancos e o conjunto do sistema financeiro d\u00e3o flexibilidade ao capitalismo, permitindo que os tomadores de empr\u00e9stimo comprem agora aquilo que somente poder\u00e3o pagar depois, conforme entrarem de posse de sua renda futura. Os bancos cobram por esse servi\u00e7o uma remunera\u00e7\u00e3o, uma parte da mais-valia social, que s\u00e3o os juros. Entretanto, por suas pr\u00f3prias caracter\u00edsticas, o sistema de cr\u00e9dito \u00e9 inst\u00e1vel, pois pode haver empr\u00e9stimos que n\u00e3o ser\u00e3o pagos, porque a renda dos tomadores n\u00e3o ser\u00e1 gerada (porque h\u00e1 empresas que n\u00e3o v\u00e3o vender o que produziram, assim como trabalhadores que v\u00e3o ficar desempregados).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Justamente por isso, as primeiras manifesta\u00e7\u00f5es das crises est\u00e3o no mercado de capitais, nos bancos e bolsas de valores, que adiantaram capitais ao sistema produtivo sem lastro em riqueza real a ser gerada. Isso faz com que a crise apare\u00e7a de maneira invertida, como uma crise acion\u00e1ria, banc\u00e1ria e de cr\u00e9dito, que bloqueia o financiamento \u00e0 produ\u00e7\u00e3o material e acarreta ulteriormente a recess\u00e3o no conjunto da economia. A produ\u00e7\u00e3o material e as finan\u00e7as est\u00e3o entrela\u00e7adas, de tal forma que a crise em um setor afeta o outro, mas o papel origin\u00e1rio \u00e9 sempre da produ\u00e7\u00e3o material, enquanto que as finan\u00e7as s\u00e3o um instrumento acess\u00f3rio, uma alavanca para o crescimento, que no momento da crise acaba aparecendo como freio para a atividade econ\u00f4mica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.espacosocialista.org\/sites\/default\/files\/USCurrency_Federal_Reserve.jpg\" alt=\"A crise econ\u00f4mica n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 estadunidense: \u00e9 uma crise estrutural do capital global\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De um movimento inicial de aumento da produ\u00e7\u00e3o e de lucros extraordin\u00e1rios para as empresas tecnologicamente mais inovadoras, passa-se no momento seguinte para uma situa\u00e7\u00e3o de queda do consumo, desemprego, fechamento de empresas, etc., num c\u00edrculo vicioso que se auto-alimenta e produz a crise. A crise \u00e9 o momento em que se d\u00e1 o ajuste entre as expectativas iniciais dos capitalistas individuais que deram a partida no ciclo de alta da produ\u00e7\u00e3o e a capacidade real de consumo dispon\u00edvel na linha de chegada. Na falta de uma coordena\u00e7\u00e3o racional pr\u00e9via da produ\u00e7\u00e3o, acontece a superprodu\u00e7\u00e3o de mercadorias e um ajustamento posterior na forma da crise.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify;\">\u00a0As crises peri\u00f3dicas e a hist\u00f3ria do capitalismo<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse movimento de ascens\u00e3o e queda constitui o mecanismo b\u00e1sico da economia capitalista, desde sua origem na Revolu\u00e7\u00e3o Industrial at\u00e9 os dias de hoje. As crises peri\u00f3dicas s\u00e3o um fen\u00f4meno inelimin\u00e1vel e s\u00f3 podem desaparecer com a desapari\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio capitalismo. A hist\u00f3ria do capitalismo se comp\u00f5e de ciclos peri\u00f3dicos, de dura\u00e7\u00e3o relativamente curta, em que se sucedem as fases de acelera\u00e7\u00e3o, desacelera\u00e7\u00e3o, crise (chamada de depress\u00e3o, quando muito grave, ou de recess\u00e3o, quando menos grave), recupera\u00e7\u00e3o e novamente acelera\u00e7\u00e3o. Os ciclos peri\u00f3dicos historicamente apresentam uma dura\u00e7\u00e3o que tem oscilado entre 6 e 10 anos, contados a partir de uma acelera\u00e7\u00e3o inicial at\u00e9 a pr\u00f3xima retomada da acelera\u00e7\u00e3o, depois da crise.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A maior das crises peri\u00f3dicas da hist\u00f3ria do capitalismo se iniciou em 1929, quando aconteceu a quebra da bolsa de valores de Nova York, tendo sido seguida pela chamada Grande Depress\u00e3o do in\u00edcio da d\u00e9cada de 1930, uma grav\u00edssima crise mundial que teve entre seus efeitos diretos a ascens\u00e3o do nazismo na Alemanha (1933). Apenas nos Estados Unidos, epicentro daquela crise, 4.000 bancos fecharam e 25% dos trabalhadores ficaram desempregados. A solu\u00e7\u00e3o para a crise somente veio com a 2\u00aa Guerra Mundial (1939-45), quando as encomendas do Estado ao complexo industrial-militar para abastecer os aliados reaqueceram a economia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No p\u00f3s-2\u00aa Guerra, al\u00e9m dos mecanismos de cr\u00e9dito, desenvolveram-se v\u00e1rias v\u00e1lvulas de escape que permitiram ao capitalismo deslocar suas contradi\u00e7\u00f5es internas (a anarquia da produ\u00e7\u00e3o) e afastar temporariamente as crises mais virulentas: a interven\u00e7\u00e3o do Estado, que consome improdutivamente a capacidade do trabalho social, na forma, por exemplo, do consumo de armamentos (guerras mundiais, guerra fria, corrida espacial, guerra ao tr\u00e1fico, guerra ao terror, etc.); aumentos limitados do poder de compra dos trabalhadores (em alguns pa\u00edses e em algumas \u00e9pocas) por pol\u00edticas de bem-estar social; cria\u00e7\u00e3o de novas necessidades artificiais; redu\u00e7\u00e3o do tempo de vida \u00fatil dos produtos (obsolesc\u00eancia programada); cria\u00e7\u00e3o de novas ind\u00fastrias, novos ramos econ\u00f4micos, coloniza\u00e7\u00e3o de novos territ\u00f3rios, mercantiliza\u00e7\u00e3o de outras esferas da atividade humana (artes, esportes, religi\u00e3o, sexo, etc.), etc.; etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir do in\u00edcio da d\u00e9cada de 1970 desencadeou-se outro fen\u00f4meno, a crise estrutural do capital. Num quadro hist\u00f3rico geral que se caracteriza por uma sucess\u00e3o de pequenas curvas ascendentes e descendentes (os ciclos peri\u00f3dicos), produziu-se uma grande curva que aponta para uma tend\u00eancia geral de queda. A tend\u00eancia geral resultante do jogo entre as for\u00e7as contradit\u00f3rias de ascens\u00e3o e de queda passou a apontar para o predom\u00ednio da queda. O problema fundamental, que escapa \u00e0 teoria e \u00e0 pr\u00e1tica das personifica\u00e7\u00f5es do capital, \u00e9 que o sistema se aproxima dos seus limites internos absolutos. As v\u00e1lvulas que lhe permitiam deslocar as contradi\u00e7\u00f5es est\u00e3o definitivamente bloqueadas por obst\u00e1culos irremov\u00edveis, dentre os quais podemos citar: o desemprego tecnol\u00f3gico estrutural de massa, a crise ambiental, o agravamento da rivalidade entre os Estados capitalistas (sem a possibilidade de novas guerras mundiais para lhe dar solu\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify;\">As crises econ\u00f4micas e a luta de classes<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">As crises econ\u00f4micas n\u00e3o se desenrolam num v\u00e1cuo hist\u00f3rico-social. As classes sociais em luta n\u00e3o s\u00e3o prisioneiras inermes dos mecanismos cegos da economia. As respostas pol\u00edticas das classe sociais em luta determinam o cen\u00e1rio concreto em que se movem os fatores econ\u00f4micos. Cada crise peri\u00f3dica possui caracter\u00edsticas pr\u00f3prias, que s\u00e3o derivadas das solu\u00e7\u00f5es pol\u00edticas adotadas na crise anterior. As medidas lan\u00e7adas para administrar a crise pelas personifica\u00e7\u00f5es do capital, que na condi\u00e7\u00e3o de classe dominante, controlam o Estado burgu\u00eas, ser\u00e3o as causas da crise seguinte. O capitalismo est\u00e1 permanentemente fugindo da pr\u00f3pria sombra, empurrando o problema para frente, j\u00e1 que n\u00e3o pode resolv\u00ea-lo sem se dissolver enquanto modo de produ\u00e7\u00e3o. Ou seja, o sistema est\u00e1 sempre preparando crises cada vez mais catastr\u00f3ficas para o futuro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A atual crise c\u00edclica se desenrola num cen\u00e1rio hist\u00f3rico determinado pela crise estrutural do capital, pela hegemonia do neoliberalismo, pela queda da URSS e a conseq\u00fcente aus\u00eancia da alternativa socialista. As personifica\u00e7\u00f5es do capital acreditaram no discurso do \u201cfim da hist\u00f3ria\u201d e da vit\u00f3ria definitiva do capitalismo e dissolveram todas as restri\u00e7\u00f5es ao movimento dos capitais especulativos. Teve in\u00edcio uma superprodu\u00e7\u00e3o desenfreada de capital fict\u00edcio (Marx), ou seja, de ativos financeiros sem correspond\u00eancia em nenhuma riqueza real. Os capitalistas tentaram materializar a utopia de produzir dinheiro a partir do dinheiro: \u201cO estoque financeiro mundial \u2013 o total de dep\u00f3sitos banc\u00e1rios, t\u00edtulos de d\u00edvida privada, d\u00edvidas governamentais e participa\u00e7\u00f5es acion\u00e1rias passou de US$ 10 trilh\u00f5es em 1980 (&#8230;) para US$ 167 trilh\u00f5es em 2006, quase quatro vezes o PIB mundial\u201d (Braudel Papers, n\u00ba43\/2008).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao mesmo, desencadeou-se uma brutal ofensiva pol\u00edtica e ideol\u00f3gica contra a classe trabalhadora mundial. Sob o pretexto de \u201cfim do socialismo\u201d, foi retirado do horizonte hist\u00f3rico o projeto de uma alternativa societ\u00e1ria global ao capitalismo, privando os trabalhadores de um projeto pol\u00edtico pr\u00f3prio e for\u00e7ando-os a encontrar alternativas individuais de acomoda\u00e7\u00e3o e sobreviv\u00eancia nos marcos da sociedade existente. Desarticularam-se os mecanismos coletivos de luta e resist\u00eancia contra a domina\u00e7\u00e3o capitalista. Os partidos pol\u00edticos e sindicatos converteram-se em \u00f3rg\u00e3os auxiliares da gest\u00e3o neoliberal do sistema, sem qualquer pretens\u00e3o de reform\u00e1-lo e muito menos de revolucionar a sociedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entrementes, a globaliza\u00e7\u00e3o prosseguiu sem controle pela d\u00e9cada de 1990 adentro, for\u00e7ando os pa\u00edses perif\u00e9ricos a abrirem seus mercados, criando um mercado mundial de for\u00e7a de trabalho, deslocando a produ\u00e7\u00e3o industrial para os pa\u00edses de m\u00e3o-de-obra mais barata (a maioria dos quais est\u00e1 na \u00c1sia), incorporando maci\u00e7amente as novas tecnologias (automa\u00e7\u00e3o, inform\u00e1tica, telecomunica\u00e7\u00f5es, internet, biotecnologia), reduzindo a for\u00e7a de trabalho no setor industrial e precarizando o trabalho de modo geral. A conseq\u00fcente eleva\u00e7\u00e3o da composi\u00e7\u00e3o org\u00e2nica do capital (propor\u00e7\u00e3o do capital fixo em rela\u00e7\u00e3o ao capital vari\u00e1vel, aquele que gera mais-valia) n\u00e3o deixou outra sa\u00edda aos capitalistas sen\u00e3o a amplia\u00e7\u00e3o da especula\u00e7\u00e3o, por meio das facilidades para o deslocamento dos capitais e a da cria\u00e7\u00e3o de instrumentos financeiros mais \u201c\u00e1geis\u201d (ou seja, descolados da realidade) como os chamados \u201cderivativos\u201d.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify;\">A crise atual<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">O final do ciclo especulativo da d\u00e9cada de 1990 se deu com o estouro da bolha das a\u00e7\u00f5es de empresas de tecnologia (NASDAQ), em 2000, quando se descobriu que tais empresas jamais produziriam uma quantidade de riqueza real capaz de recompensar o valor pelo qual suas a\u00e7\u00f5es eram negociadas. A solu\u00e7\u00e3o adotada pelo governo estadunidense para contornar a recess\u00e3o se deu em dois n\u00edveis: no plano geopol\u00edtico, a resposta aos atentados de 11\/09\/2001 propiciou uma violenta ofensiva militar contra os pa\u00edses perif\u00e9ricos, em especial os do Oriente M\u00e9dio; no plano econ\u00f4mico, foi reduzida a taxa de juros administrada pelo Banco Central estadunidense (FED), criando as condi\u00e7\u00f5es para um novo ciclo de crescimento, baseado nas facilidades para o cr\u00e9dito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A queda da taxa de juros faz com que caiam os juros ao consumidor no financiamento de varejo. A queda dos juros nos empr\u00e9stimos desencadeou uma euforia de empr\u00e9stimos imobili\u00e1rios, em que os consumidores tomavam dinheiro das financeiras hipotecando seus im\u00f3veis como garantia. Na febre das hipotecas, muitas financeiras come\u00e7aram a negociar com um segmento do mercado denominado \u201csubprime\u201d, que designa as pessoas com renda insuficiente para quitar as presta\u00e7\u00f5es, ou ainda pessoas j\u00e1 muito endividadas, com hist\u00f3rico de calote na pra\u00e7a, etc. Criaram-se tamb\u00e9m empr\u00e9stimos em que o valor das presta\u00e7\u00f5es somente come\u00e7a a subir depois de dois anos, entre outras modalidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A febre das hipotecas estimulou a ind\u00fastria da constru\u00e7\u00e3o civil, j\u00e1 que os im\u00f3veis passaram a ser uma aplica\u00e7\u00e3o bastante rent\u00e1vel. \u00c9 evidente que em determinado momento haveria um n\u00famero de casas constru\u00eddas maior do que o n\u00famero de pessoas aptas a pagar o valor das hipotecas (ou seja, uma crise de superprodu\u00e7\u00e3o de im\u00f3veis). Mas at\u00e9 que esse momento tivesse chegado, em meados de 2007, a especula\u00e7\u00e3o j\u00e1 tinha ido longe. A criatividade dos estelionat\u00e1rios capitalistas n\u00e3o tem limites. As d\u00edvidas hipotec\u00e1rias eram negociadas no mercado financeiro como \u201ccr\u00e9ditos a receber\u201d. Esses t\u00edtulos de \u201ccr\u00e9ditos a receber\u201d originados em hipotecas subprime eram \u201cempacotados\u201d em aplica\u00e7\u00f5es no mercado financeiro e vendidos sem que os aplicadores tivessem no\u00e7\u00e3o de qu\u00e3o duvidosa era a qualidade de tais cr\u00e9ditos. Vendeu-se gato por lebre numa especula\u00e7\u00e3o desenfreada. Os grandes bancos rechearam suas carteiras com t\u00edtulos desse tipo e a globaliza\u00e7\u00e3o fez o resto: o risco financeiro alastrou-se pelo mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando um grande n\u00famero de hipotecas subprime come\u00e7ou a n\u00e3o ser pago, as financeiras que haviam oferecido os empr\u00e9stimos come\u00e7aram a quebrar. Por sua vez, os bancos que negociavam os t\u00edtulos dessas financeiras tamb\u00e9m come\u00e7aram quebrar. Quando a quebradeira atingiu gigantes do mercado financeiro estadunidense, como a seguradora AIG, o banco comercial Lehman Brothers e o banco de investimentos Merryl Lynch, o governo estadunidense foi for\u00e7ado a agir. Nesse momento, a crise j\u00e1 havia atingido os mercados financeiros internacionais, pois muitos bancos europeus tamb\u00e9m haviam comprado os t\u00edtulos podres do mercado imobili\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A crise econ\u00f4mica atual, ao contr\u00e1rio do que \u00e9 propagandeado pela imprensa burguesa, n\u00e3o come\u00e7a nos bancos nem nas bolsas de valores, mas na produ\u00e7\u00e3o material de im\u00f3veis. Os mercados financeiros n\u00e3o geram riquezas, eles apenas realizam riquezas geradas na produ\u00e7\u00e3o. Quando n\u00e3o h\u00e1 essa riqueza material, os t\u00edtulos negociados no mercado financeiro reduzem-se a meros pap\u00e9is sem valor. A crise financeira \u00e9 apenas a manifesta\u00e7\u00e3o da aus\u00eancia de valor desses pap\u00e9is.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify;\">A socializa\u00e7\u00e3o dos preju\u00edzos e o car\u00e1ter de classe do Estado<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para tentar acalmar os mercados, o governo estadunidense exigiu do Congresso um pacote de US$ 700 bilh\u00f5es, o qual seria usado para adquirir os t\u00edtulos podres do mercado financeiro, dando uma sobrevida \u00e0s empresas especuladoras que haviam feito a farra. No caso da AIG, o empr\u00e9stimo de salvamento foi feito tomando-se como garantia o controle acion\u00e1rio da empresa. Ou seja, na pr\u00e1tica, a AIG foi estatizada pelo tesouro estadunidense.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As medidas iniciais do governo estadunidense n\u00e3o foram por\u00e9m suficientes para fazer subir as bolsas. Na segunda semana de outubro, foi feita uma a\u00e7\u00e3o conjunta in\u00e9dita dos dez maiores bancos centrais do mundo no sentido de baixar as taxas de juros. Finalmente, no fim de semana de 12 de outubro, os governos europeus anunciaram pacotes de ajuda aos seus bancos que ultrapassaram o total de US$ 2 trilh\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No momento mais agudo da crise, o Estado burgu\u00eas revelou escancaradamente o seu car\u00e1ter de classe. O discurso sobre o \u201clivre mercado\u201d, desregulamenta\u00e7\u00e3o, \u201caus\u00eancia do Estado na economia\u201d, etc., revelou-se o contr\u00e1rio disso na pr\u00e1tica do maior pa\u00eds imperialista. Tal discurso n\u00e3o passava de uma impostura ideol\u00f3gica destinada a for\u00e7ar os pa\u00edses perif\u00e9ricos a abrir seus mercados, privatizar seu patrim\u00f4nio, retirar direitos dos trabalhadores, etc.. No momento da crise, o Estado abandonou o discurso neoliberal, assumiu para si os riscos da atividade dos capitalistas e socializou o preju\u00edzo das falcatruas privadas. Revelou-se tamb\u00e9m o car\u00e1ter prom\u00edscuo e mafioso das personifica\u00e7\u00f5es do capital que dirigem o Estado burgu\u00eas: o secret\u00e1rio do tesouro da administra\u00e7\u00e3o Bush, Henri Paulson, trabalhou desde 1974 no banco Goldman Sachs e detinha ainda a\u00e7\u00f5es do banco em seu nome. Por coincid\u00eancia, o Goldman Sachs foi um dos principais beneficiados do pacote de US$ 700 bilh\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A \u00fanica sa\u00edda encontrada pela burguesia diante da crise \u00e9 socializar os preju\u00edzos, fazendo com que o Estado indenize os bancos e financeiras pela sua gest\u00e3o temer\u00e1ria. Ao todo, os governos dos Estados Unidos e Europa injetaram nos bancos algo em torno de US$ 3 trilh\u00f5es. Isso equivale a uma vez e meia o PIB do Brasil (soma de de todas as riquezas produzidas no pa\u00eds em um ano). Essa montanha de dinheiro aplicada pelos governos nos bancos n\u00e3o pode ser tirada da cartola num passe de m\u00e1gica, precisa estar lastreada em algo. Ao emitir esse dinheiro, os governos est\u00e3o na verdade se endividando. Essa d\u00edvida ser\u00e1 paga pelo conjunto da sociedade que sustenta o Estado, ou seja, pela classe trabalhadora, \u00fanica classe social que de fato gera riqueza. Direta ou indiretamente, a burguesia tentar\u00e1 fazer com que os trabalhadores paguem pela crise.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify;\">Conclus\u00e3o<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais impressionante do que a monumental quantia desembolsada pelo Estado burgu\u00eas \u00e9 o fato de que tamanha presteza e prodigalidade jamais seja vista em a\u00e7\u00e3o para debelar a verdadeira crise que afeta a humanidade, ou seja, a mis\u00e9ria em que vivem bilh\u00f5es de seres humanos. N\u00e3o \u00e9 preciso fazer as contas na ponta do l\u00e1pis para saber que uma quantia do porte desse pacote destinado aos bancos seria suficiente para propiciar a todos os seres humanos do planeta alimento, vestu\u00e1rio, moradia, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, transporte, etc. Seria suficiente, mas nunca \u00e9 concretizado, porque o bem-estar da humanidade \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o que passa longe das personifica\u00e7\u00f5es do capital que dirigem o Estado. Suas preocupa\u00e7\u00f5es est\u00e3o concentradas no bem-estar dos bancos, no risco de \u201ccrise sist\u00eamica\u201d, na continuidade dos lucros privados e da acumula\u00e7\u00e3o de capital.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se a burguesia tentar\u00e1 fazer com que os trabalhadores paguem pela crise, cabe aos trabalhadores se reorganizar para reagir. Dadas as circunst\u00e2ncias excepcionais da crise peri\u00f3dica atual, que coincide com uma s\u00e9rie de fen\u00f4menos como a crise energ\u00e9tica (alta do pre\u00e7o do petr\u00f3leo), crise ambiental (aquecimento global, cat\u00e1strofes), crise da domina\u00e7\u00e3o imperialista (empantanamento das invas\u00f5es do Iraque e Afeganist\u00e3o); o desafio dessa reorganiza\u00e7\u00e3o se mostra ainda mais dram\u00e1tico e imp\u00f5e objetivamente ao debate a necessidade de se discutir o socialismo como \u00fanica alternativa para a sobreviv\u00eancia da humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#indice\">\u25b2 voltar ao \u00edndice<\/a><\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\"><a name=\"titulo2\"><\/a><\/h2>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">POR UM PROGRAMA SOCIALISTA PARA ENFRENTAR A CRISE NO BRASIL<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando a imprensa burguesa em massa come\u00e7a a bombardear incessantemente os trabalhadores com o discurso da crise, isso s\u00f3 pode ter um significado: querem nos passar a conta. A crise \u00e9 apresentada como um fen\u00f4meno externo, alien\u00edgena, que desponta no horizonte como uma nuvem de tempestade, aparecendo repentinamente, sem que se possa impedir e contra a qual n\u00e3o se pode fazer nada, a n\u00e3o ser apertar o cinto (o nosso cinto). Esse discurso de p\u00e2nico e fatalismo tem um objetivo preciso: preparar os ataques contra a classe trabalhadora que ser\u00e3o desencadeados no pr\u00f3ximo per\u00edodo com a justificativa da necessidade de se combater a crise.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do outro lado, a burocracia do PT, na condi\u00e7\u00e3o de dirigente do Estado, precisa propagar a vers\u00e3o de que nada vai acontecer e de que o Brasil est\u00e1 protegido da crise, porque est\u00e1 \u201cdescolado\u201d da economia mundial (ou estadunidense), possui reservas em moeda forte, e \u201cseus fundamentos s\u00e3o s\u00f3lidos\u201d. O governo Lula\/PT precisa desse discurso mistificador para defender a gest\u00e3o neoliberal do Estado burgu\u00eas que vem realizando desde 2002, para eleger seus candidatos no segundo turno das elei\u00e7\u00f5es municipais em 26 de outubro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tanto um discurso como o outro s\u00e3o falsos. A crise \u00e9 real e tem origem na economia internacional. O Brasil, como um pa\u00eds capitalista perif\u00e9rico, ocupa uma fun\u00e7\u00e3o determinada na divis\u00e3o internacional do trabalho, que \u00e9 a de fornecedor de mat\u00e9rias-primas (commodities) e manufaturados de baixo valor. Nessa fun\u00e7\u00e3o de pa\u00eds perif\u00e9rico, o seu crescimento depende da demanda dos centros industriais (hoje majoritariamente localizados na \u00c1sia) por mat\u00e9ria-primas, a qual por sua vez depende da demanda dos mercados consumidores, especialmente o dos Estados Unidos. Com a crise do mercado financeiro e a retra\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito, o consumo dos pa\u00edses imperialistas centrais deve diminuir e com ele a demanda pelos nossos produtos. O mercado interno brasileiro tem crescido nos \u00faltimo 12 meses com base na oferta de cr\u00e9dito, ou seja, de empr\u00e9stimos, justamente o mecanismo que por primeiro ser\u00e1 afetado pela crise financeira internacional. As reservas em d\u00f3lar do Banco Central n\u00e3o ser\u00e3o suficientes para enfrentar uma fuga maci\u00e7a de capitais e a conseq\u00fcente desvaloriza\u00e7\u00e3o do real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo isso aponta para a conclus\u00e3o de que o Brasil n\u00e3o est\u00e1 descolado da economia mundial e n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de enfrentar uma crise de grandes propor\u00e7\u00f5es. A crise e a rela\u00e7\u00e3o do Brasil com ela n\u00e3o s\u00e3o fen\u00f4menos aleat\u00f3rios e imprevis\u00edveis, pois decorrem das op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que determinam a forma como o pa\u00eds se localiza na divis\u00e3o internacional do trabalho. Tanto a m\u00eddia burguesa como o governo Lula \/PT n\u00e3o oferecem alternativas capazes de enfrentar a crise, pois est\u00e3o comprometidos com a continuidade da explora\u00e7\u00e3o capitalista e da subordina\u00e7\u00e3o do pa\u00eds ao imperialismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A resposta da burguesia diante das crises j\u00e1 \u00e9 conhecida: demiss\u00f5es, fechamento de empresas, corte de direitos, degrada\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de trabalho, intensifica\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o. Para salvar o capital, v\u00e3o nos dizer que a \u00fanica sa\u00edda \u00e9 atacar as condi\u00e7\u00f5es de vida da classe trabalhadora, j\u00e1 que a crise \u00e9 incontrol\u00e1vel e somos v\u00edtimas passivas desse destino cruel. O governo Lula\/PT n\u00e3o vai reagir contra esses ataques da burguesia, pois est\u00e1 comprometido com a continuidade dos lucros do capital. Os principais organismos do movimento de massas, como CUT, UNE, MST, na medida em que n\u00e3o se enfrentam com o governo Lula, colaboram para desarmar o proletariado brasileiro e impedir a prepara\u00e7\u00e3o e a organiza\u00e7\u00e3o da classe para lutar contra os ataques da burguesia. Diante disso, consideramos que a principal tarefa dos socialistas nesse momento \u00e9 organizar a resist\u00eancia da classe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00f3s do Espa\u00e7o Socialista estamos propondo a organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores a partir da base para enfrentar os ataques que ser\u00e3o desencadeados por conta da crise. Estamos propondo um encontro dos ativistas, militantes e organiza\u00e7\u00f5es que atuam na regi\u00e3o do ABC para discutir um plano de lutas para o pr\u00f3ximo per\u00edodo, a exemplo daquele que realizamos em 2007 contra a pol\u00edtica do governo Lula.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir desses encontros de base nas regi\u00f5es, estamos propondo uma plen\u00e1ria nacional dos ativistas e lutadores de todo o pa\u00eds, a exemplo do encontro de mar\u00e7o de 2007 no Ibirapuera, para discutir um plano nacional de lutas dos trabalhadores contra a crise. Esse encontro deve ser aberto a todos os partidos, organiza\u00e7\u00f5es e ativistas independentes que se coloquem no campo da classe trabalhadora, contra a burguesia e o governo Lula, bem como a todas as entidades do movimento social, como Conlutas, Intersindical, os setores do MST, Consulta Popular, pastorais sociais, sem teto, movimentos de minorias. Esse encontro \u00e9 uma necessidade objetiva da classe, que coloca para a esquerda brasileira a tarefa de buscar a unidade para lutar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse encontro nacional deve discutir um programa emergencial para a crise, que contenha medidas defensivas como:<\/p>\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li>N\u00e3o fechamento de f\u00e1bricas e empresas; estatiza\u00e7\u00e3o sobre controle dos trabalhadores das empresas que amea\u00e7arem fechar ou transferir suas f\u00e1bricas;<\/li>\n<li>Nenhum apoio do governo aos bancos e grandes empresas; que os capitalistas paguem pela crise;<\/li>\n<li>N\u00e3o \u00e0 alta dos alimentos, congelamento dos pre\u00e7os dos g\u00eaneros de primeira necessidade;<\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na medida em que essa crise n\u00e3o \u00e9 uma fatalidade inexplic\u00e1vel ou um castigo dos deuses, mas um produto inevit\u00e1vel das rela\u00e7\u00f5es sociais capitalistas, \u00e9 preciso colocar em discuss\u00e3o o projeto de uma alternativa de sociedade, na qual os trabalhadores tenham o controle da produ\u00e7\u00e3o e das condi\u00e7\u00f5es de vida, ou seja, o projeto de uma sociedade socialista. Como o socialismo n\u00e3o \u00e9 uma abstra\u00e7\u00e3o, mas deve se construir a partir de medidas concretas, \u00e9 preciso come\u00e7ar a discutir com as massas um programa que contenha medidas como:<\/p>\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li>N\u00e3o pagamento da d\u00edvida p\u00fablica, interna e externa, e investimento desse dinheiro num programa de obras e servi\u00e7os p\u00fablicos sob controle dos trabalhadores, para gerar empregos e melhorar as condi\u00e7\u00f5es imediatas de sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, moradia, transporte, cultura e lazer.<\/li>\n<li>Redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho para 30 horas semanais, sem redu\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio;<\/li>\n<li>Carteira de trabalho e direitos trabalhistas para todos, em todos os ramos da economia, da cidade e do campo; fim das terceiriza\u00e7\u00f5es e do trabalho prec\u00e1rio;<\/li>\n<li>Sal\u00e1rio m\u00ednimo do DIEESE para toda a classe trabalhadora;<\/li>\n<li>Reestatiza\u00e7\u00e3o das empresas privatizadas, sob controle dos trabalhadores, com reintegra\u00e7\u00e3o dos demitidos;<\/li>\n<li>Estatiza\u00e7\u00e3o do sistema financeiro sob controle dos trabalhadores;<\/li>\n<li>Reforma agr\u00e1ria sob controle dos trabalhadores, fim do latif\u00fandio e do agro-neg\u00f3cio, por uma agricultura coletiva, org\u00e2nica e ecol\u00f3gica voltada para as necessidades da classe trabalhadora;<\/li>\n<li>Por um governo socialista dos trabalhadores baseado em suas organiza\u00e7\u00f5es de luta;<\/li>\n<li>Por uma sociedade socialista;<\/li>\n<\/ul>\n<p><a href=\"#indice\">\u25b2 voltar ao \u00edndice<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a name=\"titulo3\"><\/a><\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">AS ELEI\u00c7\u00d5ES ESTADUNIDENSES<\/h2>\n<p class=\"rteright\" style=\"text-align: right;\">Daniel M. Delfino<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As elei\u00e7\u00f5es para a presid\u00eancia dos Estados Unidos, em 4 de novembro de 2008, op\u00f5em o democrata Barack Obama ao republicano John McCain. A atual campanha tem sido uma das mais movimentadas em todos os tempos, desde a acirrada disputa entre Obama e Hillary Clinton pela indica\u00e7\u00e3o do partido democrata (que seria in\u00e9dita tanto para um negro como para uma mulher), at\u00e9 a eclos\u00e3o da crise financeira no in\u00edcio de outubro. A candidatura democrata de Obama tem sido vista tanto interna quanto externamente como uma alternativa de mudan\u00e7a na pol\u00edtica estadunidense. H\u00e1 uma indisfar\u00e7ada torcida pr\u00f3-Obama em curso, contagiando a opini\u00e3o p\u00fablica pequeno-burguesa e at\u00e9 a esquerda reformista, n\u00e3o s\u00f3 nos Estados Unidos como no restante do mundo, que acompanha intensamente essas elei\u00e7\u00f5es. Essa torcida superestima tanto as chances de vit\u00f3ria do candidato democrata quanto, muito mais grave, a possibilidade de um eventual governo Obama realizar mudan\u00e7as efetivas na pol\u00edtica do imperialismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Come\u00e7ando pelo primeiro ponto: embora a administra\u00e7\u00e3o Bush esteja afundando em impopularidade, devido ao desastre da invas\u00e3o do Iraque, \u00e0 alta do petr\u00f3leo, \u00e0 criminosa omiss\u00e3o na cat\u00e1strofe do furac\u00e3o Katrina e \u00e0 crise econ\u00f4mica que recentemente se somou ao ros\u00e1rio de trag\u00e9dias; n\u00e3o se pode subestimar o peso do atraso ideol\u00f3gico do eleitorado conservador estadunidense. Para o eleitorado branco religioso que constitui a maioria nos estados do interior, a possibilidade de um candidato negro e ainda por cima ligado \u00e0s causas \u201cliberais\u201d chegar \u00e0 presid\u00eancia \u00e9 inaceit\u00e1vel. O eleitorado conservador v\u00ea a pol\u00edtica como um terreno de disputa entre alternativas morais e individuais, em que se defrontam posi\u00e7\u00f5es pr\u00f3 e contra o aborto, o casamento homossexual, a descriminaliza\u00e7\u00e3o das drogas, o multiculturalismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Paradoxalmente, as concep\u00e7\u00f5es reformistas que defendem a candidatura Obama enxergam a pol\u00edtica sob esse mesmo prisma, o das op\u00e7\u00f5es morais e individuais. Obama \u00e9 visto favoravelmente pelo fato de ser negro. Sua ascens\u00e3o \u00e0 presid\u00eancia representaria uma vit\u00f3ria simb\u00f3lica da minoria negra da popula\u00e7\u00e3o estadunidense, exatamente 40 anos depois do assassinato de Martin Luther King, l\u00edder da luta pelos direitos civis. Tal ponto de vista coloca a identidade \u00e9tnica acima do conte\u00fado pol\u00edtico-ideol\u00f3gico de classe, o que constitui um erro crasso. Basta lembrar o caso de Condoleeza Rice, Secret\u00e1ria de Estado do governo Bush, que al\u00e9m de ser mulher \u00e9 negra, e aplica ferozmente a pol\u00edtica externa do imperialismo contra os trabalhadores e os povos oprimidos do planeta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que se deve verificar em cada elei\u00e7\u00e3o s\u00e3o os interesses de classe representados por cada candidatura. Tanto McCain quanto Obama representam os interesses do grande capital estadunidense. Os partidos republicano e democrata s\u00e3o na verdade as duas alas do partido \u00fanico da burguesia. Em que pesem as diferen\u00e7as superficiais entre os partidos, que de fato existem, os dois est\u00e3o ideologicamente comprometidos com a pol\u00edtica geral da classe dominante. O imperialismo estadunidense atua por meio de uma pol\u00edtica de Estado, que transcende os partidos. Al\u00e9m do parlamento e do judici\u00e1rio, h\u00e1 no pr\u00f3prio poder executivo uma burocracia composta de milhares de funcion\u00e1rios de carreira (que permanecem nos cargos por v\u00e1rios mandatos presidenciais) pagos para manter o sistema em funcionamento segundo diretrizes precisas, ditadas pelos interesses das corpora\u00e7\u00f5es estadunidenses. Essa burocracia se espalha pelas for\u00e7as armadas, servi\u00e7os de intelig\u00eancia, diplomacia, organismos internacionais, ag\u00eancias reguladoras, institui\u00e7\u00f5es financeiras, aparelhos ideol\u00f3gicos, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A gigantesca m\u00e1quina do Estado faz o seu servi\u00e7o, independentemente de quem esteja na Casa Branca. O presidente dos Estados Unidos n\u00e3o chega a ser uma figura decorativa, como a rainha da Inglaterra, que reina mas n\u00e3o governa. Por outro lado, est\u00e1 longe de ser \u201co homem mais poderoso do mundo\u201d, como se costuma designar o ocupante de tal cargo. N\u00e3o se trata de negar que o presidente dos Estados Unidos tenha poder, pois basta lembrar o comando das for\u00e7as armadas, que inclui um arsenal nuclear capaz de aniquilar a vida na Terra centenas de vezes. Trata-se de dizer que este poder n\u00e3o est\u00e1 \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de um indiv\u00edduo para que o utilize a seu bel prazer, conforme caprichos ou inclina\u00e7\u00f5es pessoais. O poder do presidente dos Estados Unidos existe apenas enquanto este cumprir o papel de executor das pol\u00edticas de interesse do capital, por mais que se tente mitificar figuras como Lincoln, Roosevelt ou Kennedy.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Obama pode ser mais um nesta lista. Pode entrar para a hist\u00f3ria como aquele que tirou o pa\u00eds da crise econ\u00f4mica, caso de Roosevelt, ou pode ser assassinado, como Lincoln e Kennedy. Seja como for, os limites da sua atua\u00e7\u00e3o j\u00e1 est\u00e3o tra\u00e7ados por uma pol\u00edtica de Estado bastante precisa. Essa pol\u00edtica \u00e9 determinada por algumas linhas fundamentais inalter\u00e1veis:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1. Complexo industrial militar. As ind\u00fastrias que fornecem armamentos ao governo consomem anualmente algo em torno de meio trilh\u00e3o de d\u00f3lares do or\u00e7amento p\u00fablico. Para continuar lucrando, essas empresas precisam das guerras que o imperialismo estadunidense desencadeia sobre o mundo. As guerras dever\u00e3o continuar, pois os executivos dessas empresas controlam a maior parte daquele aparelho de Estado (Pent\u00e1gono, CIA, ONU e demais organismos internacionais, etc.). Obama j\u00e1 sinalizou a continuidade da pol\u00edtica belicista do imperialismo, apenas deslocando o principal foco das opera\u00e7\u00f5es do Iraque para o Afeganist\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2. Petr\u00f3leo. As reservas pr\u00f3prias de petr\u00f3leo dos Estados Unidos, estimadas em cerca de 7 bilh\u00f5es de barris, s\u00e3o suficientes apenas para cerca de 4 anos de consumo. Os Estados Unidos dependem mortalmente do petr\u00f3leo estrangeiro, importado em sua maioria do Oriente M\u00e9dio, mas tamb\u00e9m da Am\u00e9rica Latina (Venezuela e Equador). O controle sobre esses pa\u00edses \u00e9 uma necessidade vital do imp\u00e9rio, o que explica por exemplo a reativa\u00e7\u00e3o da 4\u00aa Frota t\u00e3o logo foi anunciada a descoberta de petr\u00f3leo na camada geol\u00f3gica de pr\u00e9-sal do litoral brasileiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3. Israel. A popula\u00e7\u00e3o judaica nos Estados Unidos comp\u00f5e uma importante minoria de cerca de 10 milh\u00f5es de habitantes, maior mesmo do que a pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o judaica em Israel. A alta burguesia judia-estadunidense controla ramos fundamentais da economia, como as finan\u00e7as, a m\u00eddia e a ind\u00fastria cultural (Hollywood). Nenhum presidente estadunidense assumir\u00e1 o poder sem se comprometer perante esse setor a manter o apoio incondicional ao Estado de Israel, o que significa o apoio \u00e0 pol\u00edtica de exterm\u00ednio dos palestinos e de confronto com pa\u00edses n\u00e3o-alinhados ao imperialismo, como Ir\u00e3 e S\u00edria. Sabedor disso, Obama j\u00e1 discursou perante a alta burguesia judia-estadunidense comprometendo-se a manter essa pol\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4. Finan\u00e7as. As corpora\u00e7\u00f5es do mercado financeiro est\u00e3o entre as maiores doadoras de fundos para as campanhas eleitorais dos dois partidos. A rapinagem financeira de Wall Street sobre as economias do mundo inteiro deve continuar intocada. Antes mesmo das elei\u00e7\u00f5es, Obama se reuniu com Bush e McCain na Casa Branca para discutir as linhas gerais da a\u00e7\u00e3o entre amigos para salvar os banqueiros, encobrir suas falcatruas e diluir o custo do resgate na conta dos contribuintes (trabalhadores) estadunidenses e do restante do mundo explorado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5. Corpora\u00e7\u00f5es. Assim como o mercado financeiro, o conjunto das grandes corpora\u00e7\u00f5es, das empresas industriais, dos laborat\u00f3rios, do agro-neg\u00f3cio, etc., controlam a sociedade estadunidense e devem continuar atuando livres de qualquer regulamenta\u00e7\u00e3o p\u00fablica, superexplorando seus trabalhadores, destruindo o meio ambiente, degradando a sa\u00fade p\u00fablica, etc. A campanha de um candidato presidencial nos Estados Unidos custa centenas de milh\u00f5es de d\u00f3lares, de modo que as grandes corpora\u00e7\u00f5es, \u00fanicas capazes de financiar tais campanhas, ter\u00e3o o controle do governo eleito e ditar\u00e3o sua pol\u00edtica como sempre t\u00eam feito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6. M\u00eddia. Os interesses de todos esses setores da burguesia estadunidense s\u00e3o preservados pela maci\u00e7a propaganda ideol\u00f3gica da m\u00eddia, das grandes cadeias de televis\u00e3o, dos jornais e da ind\u00fastria cultural. Os meios de comunica\u00e7\u00e3o difundem o consumismo, o preconceito, o medo, o individualismo, o moralismo hip\u00f3crita, o misticismo, valores que sustentam o capitalismo estadunidense. O bloqueio ideol\u00f3gico cerrado impede a popula\u00e7\u00e3o de obter um conhecimento m\u00ednimo da realidade e do papel do capitalismo estadunidense na perpetua\u00e7\u00e3o da mis\u00e9ria mundial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por todos esses motivos, uma eventual vit\u00f3ria de Obama n\u00e3o traria al\u00edvio nenhum para os trabalhadores do mundo inteiro, nem mesmo para os dos Estados Unidos. Nas elei\u00e7\u00f5es do Estado burgu\u00eas, os trabalhadores precisam se colocar por meio de uma alternativa de classe e independente, que se expresse por meio de um programa socialista e de uma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica aut\u00f4noma. Esse programa deveria conter medidas como: desmantelamento do arsenal nuclear, retirada das tropas estadunidenses do Oriente M\u00e9dio (e fim do apoio a Israel), retirada das bases militares estadunidenses em todo o mundo, nenhuma indeniza\u00e7\u00e3o aos banqueiros pela crise, estatiza\u00e7\u00e3o do sistema financeiro sob controle dos trabalhadores, legaliza\u00e7\u00e3o de todos os imigrantes, direitos e servi\u00e7os sociais para todos, expropria\u00e7\u00e3o das grandes corpora\u00e7\u00f5es, entre outras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de todo o discurso sobre democracia, n\u00e3o existe nas elei\u00e7\u00f5es estadunidenses a possibilidade de se discutir tal programa, e tamb\u00e9m n\u00e3o existe a possibilidade de um outro partido, que n\u00e3o seja o republicano-democrata, atuar nessas elei\u00e7\u00f5es. Logo, os trabalhadores que se v\u00eaem for\u00e7ados a optar entre McCain e Obama est\u00e3o diante de uma falsa alternativa. A \u00fanica sa\u00edda para o proletariado estadunidense \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o de uma alternativa pol\u00edtica pr\u00f3pria, classista e socialista, que pode se expressar pela via do movimento social, sindical ou como partido, que questione as bases do capitalismo naquele pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#indice\">\u25b2 voltar ao \u00edndice<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a name=\"titulo4\"><\/a><\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">A CRISE ECON\u00d4MICA MUNDIAL E OS NEGROS<\/h2>\n<p class=\"rteright\" style=\"text-align: right;\">Fernando Brito e Eduardo Rosa<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma crise no setor financeiro mundial deve ser observada em v\u00e1rios aspectos. A grande m\u00eddia faz notar a todo momento que os bancos est\u00e3o perdendo a\u00e7\u00f5es bilion\u00e1rias, os investimentos est\u00e3o em queda, os trabalhadores est\u00e3o perdendo seus bens de consumo, numa crise que tem seu come\u00e7o h\u00e1 quase dois anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">V\u00e1rios economistas ao redor do mundo a comparam com a crise econ\u00f4mica de 1929, afirmam que essa ser\u00e1 a pior crise da hist\u00f3ria do capitalismo. A burguesia de todo o planeta \u201crebola\u201d dia e noite, atenta, diante da crise que abala os Estados Unidos e a Europa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para o negro, os reflexos da crise econ\u00f4mica mundial s\u00e3o nefastos mesmo quando n\u00e3o s\u00e3o vis\u00edveis para todos.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Na Europa:<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">V\u00edtimas de uma pol\u00edtica de exclus\u00e3o racial promovida pela sociedade francesa e o governo que a representa, a juventude negra sacudiu a Fran\u00e7a em Outubro de 2005. O jovens lutavam contra essa pol\u00edtica de exclus\u00e3o, mas os jornais do mundo inteiro trataram a revolta negra como atos isolados de vandalismo. Na pr\u00f3pria Fran\u00e7a, at\u00e9 o movimento sindical e estudantil se posicionaram publicamente contra a juventude negra, que segundo jornais da \u00e9poca estariam promovendo o vandalismo e o terror.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esses negros lutavam por emprego e melhores condi\u00e7\u00f5es de vida, foram tratados com viol\u00eancia e responderam \u00e0 altura, e ainda assim foram tratados como criminosos. O interessante \u00e9 que, quando o governo franc\u00eas prop\u00f4s um projeto de primeiro emprego precarizado para a juventude de classe m\u00e9dia, esses reagiram ocuparam pr\u00e9dios p\u00fablicos, mas foram defendidos tanto pelo movimento estudantil quando pelas lideran\u00e7as sindicais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que justifica duas manifesta\u00e7\u00f5es t\u00e3o diferentes: para a juventude branca apoio e solidariedade; para a juventude negra discrimina\u00e7\u00e3o e tentativa de criminaliza\u00e7\u00e3o da luta por direito a trabalho e melhores condi\u00e7\u00f5es de vida?<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify;\">O cinismo do governo e da sociedade francesa<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">A morte acidental de dois garotos que estariam sendo perseguidos pela pol\u00edcia em Clichy-sous-Bois, na periferia de Paris, estopim de uma onda de viol\u00eancia que durou semanas e se alastrou para outros sub\u00farbios da regi\u00e3o, relan\u00e7ou novamente o debate sobre a pol\u00edtica de integra\u00e7\u00e3o social na Fran\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8230; O \u00edndice de desemprego \u00e9 elevad\u00edssimo nessas periferias, de acordo com dados do pr\u00f3prio governo: 21%, o dobro da m\u00e9dia nacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre os jovens, o \u00edndice chega a atingir cerca de 40%, de acordo com o recente relat\u00f3rio do Observat\u00f3rio Nacional de Zonas Urbanas Sens\u00edveis, divulgado em outubro pelo Minist\u00e9rio do Trabalho e da Coes\u00e3o Social&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8230; &#8220;A viol\u00eancia que ocorre atualmente na periferia de Paris \u00e9 a express\u00e3o de um certo desespero, de c\u00f3lera, de raiva e de um sentimento de injusti\u00e7a&#8221;, diz o soci\u00f3logo Michel Wieviorka, da Escola de Altos Estudos em Ci\u00eancias Sociais de Paris e um dos maiores especialistas franceses em viol\u00eancia urbana. Ele acaba de publicar o livro Viol\u00eancia, sobre o problema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para o soci\u00f3logo, os jovens de bairros populares estimam viver em um &#8220;estado de guerra, que os op\u00f5em a um sistema que eles julgam como repressivo&#8221;&#8230;<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify;\">&#8216;Ral\u00e9&#8217;<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ent\u00e3o Ministro do Interior e hoje Presidente, Nicolas Sarkozy, acusado de ter piorado a situa\u00e7\u00e3o ao utilizar termos como &#8220;ral\u00e9&#8221; para designar jovens dessas periferias, diz que a Fran\u00e7a enfrenta h\u00e1 tr\u00eas d\u00e9cadas problemas nas periferias consideradas &#8220;sens\u00edveis&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A primeira gera\u00e7\u00e3o de imigrantes se integrou melhor do que a terceira gera\u00e7\u00e3o&#8221;, disse o ministro em uma entrevista ao jornal Le Parisien. &#8220;Os av\u00f3s estrangeiros se sentem mais aceitos do que seus netos que nasceram na Fran\u00e7a e s\u00e3o, portanto, franceses&#8221;, afirmou o ministro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo ele, o problema \u00e9 resultado da instala\u00e7\u00e3o na periferia de trabalhadores imigrantes que a Fran\u00e7a solicitou ap\u00f3s o fim da Segunda Guerra e cujos descendentes n\u00e3o tiveram as mesmas oportunidades de trabalho&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: BBC Brasil de 03 de novembro, 2005 &#8211; 17h23 GMT (15h23 Bras\u00edlia) por Daniela Fernandes de Paris<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify;\">Nos Estados Unidos:<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um furac\u00e3o atinge a Calif\u00f3rnia, estado com maioria de popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o negra e rapidamente chega socorro governamental. Outro furac\u00e3o atinge Nova Orleans, cidade com maioria de popula\u00e7\u00e3o negra e at\u00e9 hoje grande parte da popula\u00e7\u00e3o aguarda ajuda. Cinicamente at\u00e9 Bush reconhece que houve demora na resposta \u00e0 situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recentemente, uma eleitora de John McCain disse que ele n\u00e3o deveria confiar em Barack Obama por que ele era \u00e1rabe, e o candidato republicano retrucou: \u201cn\u00e3o, ele \u00e9 gente boa\u201d; como se ser \u00e1rabe fosse sin\u00f4nimo de coisa ruim. De qualquer forma, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos, e porque n\u00e3o dizer, no resto do mundo, parece que a maneira civilizada de lidar com a crise \u00e9 promover o racismo. Vale lembrar que a promo\u00e7\u00e3o do racismo teve peso determinante no desencadeamento da Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify;\">No Brasil:<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqui a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 muito diferente. Sendo o pa\u00eds tamb\u00e9m atingido pela crise mundial, em propor\u00e7\u00f5es diferentes, evidentemente, as conseq\u00fc\u00eancias ainda n\u00e3o podem ser mensuradas. Entretanto, o que mudaria nas propostas de solu\u00e7\u00e3o para crise? De onde vir\u00e3o os recursos para cobrir o rombo mundial? Quem pagar\u00e1 ou j\u00e1 est\u00e1 arcando com o \u00f4nus da quebradeira? Para n\u00f3s, n\u00e3o restam duvidas, de que ser\u00e1 a classe trabalhadora como um todo e n\u00f3s os negros em particular sofreremos o impacto maior desse pagamento. Se a classe m\u00e9dia composta, praticamente na sua totalidade por n\u00e3o negros, est\u00e1 perdendo seu poder de compra, como fica nossa popula\u00e7\u00e3o, que em sua grande maioria sobrevive das migalhas oferecidas pela sociedade racista e excludente?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sa\u00edda proposta pela elite vem no sentido de garantir os lucros daqueles que nos exploram, ou seja, os mega-empres\u00e1rios, banqueiros e latifundi\u00e1rios. Para isso ser\u00e1 necess\u00e1rio que eles juntem for\u00e7as com o governo que os representa para atacar a classe trabalhadora como um todo atrav\u00e9s de arrocho salariais e retiradas de conquistas hist\u00f3ricas. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que setores do governo defendem que \u00e9 esse o momento de se fazer as reformas trabalhista e sindical.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Paralelamente, ser\u00e3o cortados investimentos sociais cujos maiores benefici\u00e1rios est\u00e3o na popula\u00e7\u00e3o negra de baixa ou com nenhuma renda. Quando governo e empres\u00e1rios falam de cortes nos gastos p\u00fablicos, n\u00e3o est\u00e3o falando de cortar sal\u00e1rios de deputados, senadores, governadores, ministros, juizes, etc. Est\u00e3o falando de cortar investimentos em saneamento b\u00e1sico, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, sal\u00e1rio e renda. Na ponta destes investimentos sociais est\u00e1 o nosso povo, a popula\u00e7\u00e3o negra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Infelizmente, o movimento sindical est\u00e1 quase que totalmente atrelado ao governo e em conseq\u00fc\u00eancia disso n\u00e3o organiza os trabalhadores para lutar por seus direitos, garantindo com isso que governo e empres\u00e1rios ataquem a classe trabalhadora praticamente sem nenhuma resist\u00eancia. Da mesma forma, o movimento negro tamb\u00e9m n\u00e3o organiza nosso povo para lutar por melhores condi\u00e7\u00f5es de vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Anestesiados com as pol\u00edticas de bolsa-mis\u00e9ria e do pr\u00f3-uni, salvo rar\u00edssimas exce\u00e7\u00f5es, as lideran\u00e7as negras, direta ou indiretamente, deixam governo e empres\u00e1rios manter nosso povo fora do processo produtivo formal. Gastam energias com eventos e encontros vazios sem conte\u00fado pol\u00edtico. Por estarem mal informados (a maioria) e mal intencionados (minoria bem colocada nas estruturas), gastam quase todo o tempo desses eventos defendendo o governo. Afirmam que oito anos \u00e9 pouco tempo para se fazer o que n\u00e3o foi feito em quinhentos anos. Em que pese um fundo muito opaco de verdade nisso, os mesmos oito anos foram suficientes para os empres\u00e1rios do ensino superior aumentaram in\u00fameras vezes seus rendimentos com recursos p\u00fablicos atrav\u00e9s do pr\u00f3-uni, para os banqueiros ficarem mais ricos, e nunca os especuladores do sistema financeiro se sentiram t\u00e3o felizes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitos desses dirigentes do movimento negro ficam no aguardo de um cargo que lhes permita ascender socialmente e assim passar a justificar para os demais negros porque o governo n\u00e3o pode fazer mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c&#8230; N\u00e3o existe capitalismo sem racismo\u201d&#8230; essas foram as palavras de Malcolm X. Observando as palavras do governo franc\u00eas, dos eleitores de John McCain e do cinismo de Bush, resta-nos reafirmar essas palavras hoje, pois s\u00e3o mais atuais do que nunca. \u00c9 necess\u00e1rio suplantar o capitalismo para apontarmos o caminho de destrui\u00e7\u00e3o do racismo. Entretanto, temos a dif\u00edcil tarefa de juntar a luta do todo, a classe trabalhadora, com a nossa de combate ao racismo, seja dentro do sistema capitalista, seja na constru\u00e7\u00e3o da sociedade socialista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo Malcolm, para acabarmos com o racismo \u00e9 necess\u00e1rio destruirmos o capitalismo, e jamais destruiremos o capitalismo se nos contentarmos com as migalhas que caem da mesa da elite racista e dos governos que a representam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#indice\">\u25b2 voltar ao \u00edndice<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a name=\"titulo5\"><\/a><\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">CRISE ECON\u00d4MICA, CRISE AMBIENTAL: CRISE DA HUMANIDADE!<\/h2>\n<p class=\"rteright\" style=\"text-align: right;\">Tuca Fontes<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sabemos que o capitalismo cont\u00e9m em si todas as contradi\u00e7\u00f5es poss\u00edveis e imagin\u00e1veis, com ele \u201ctudo que \u00e9 s\u00f3lido se desmancha no ar\u201d e o homem moderno vive sob o \u201credemoinho de permanente mudan\u00e7a e renova\u00e7\u00e3o, de luta e contradi\u00e7\u00e3o, de ambig\u00fcidade e ang\u00fastia\u201d, como disse Marshall Berman. Nesse sentido \u00e9 que atualmente, em pleno s\u00e9culo XXI, estamos testemunhando acontecimentos que n\u00e3o deixam d\u00favidas quanto ao car\u00e1ter contradit\u00f3rio deste sistema econ\u00f4mico que sobrevive da cria\u00e7\u00e3o e recria\u00e7\u00e3o de necessidades, criando-se e recriando-se permanentemente na perspectiva do infinito. Ocorre que tudo no Planeta Terra \u00e9 finito e se esgota. A aplica\u00e7\u00e3o deste fato vem sendo demonstrada pela crise ambiental porque passamos e que \u00e9 fruto obviamente do modo de produ\u00e7\u00e3o acima mencionado, uma vez que este, conforme Marx em O Capital tem um tipo de produ\u00e7\u00e3o pretensamente ilimitada:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A produ\u00e7\u00e3o capitalista aspira constantemente a superar estes limites imanentes a ela, mas s\u00f3 pode super\u00e1-los recorrendo a meios que voltam a levantar diante dela estes mesmo limites, e ainda com mais for\u00e7a&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os recursos naturais, no entanto, s\u00e3o limitados, eles acabam e a\u00ed est\u00e1 estabelecida a grande contradi\u00e7\u00e3o, pois crescimento econ\u00f4mico desenfreado n\u00e3o combina com preserva\u00e7\u00e3o dos recursos naturais e estes por sua vez, est\u00e3o com seus dias contados, s\u00e3o duas coisas, portanto, que se chocam diretamente e nesse choque \u00e9 sempre o planeta que perde e em \u00faltima inst\u00e2ncia a pr\u00f3pria humanidade. Exemplo disso s\u00e3o os Estados Unidos, que s\u00e3o os maiores poluidores do planeta e se recusam sistematicamente a assumir qualquer compromisso no sentido de reduzir impactos ambientais, alegando que reduzir a emiss\u00e3o de gases na atmosfera ou reduzir a produ\u00e7\u00e3o de lixo comprometeria seu supostamente eterno desenvolvimento econ\u00f4mico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O desenvolvimento econ\u00f4mico de que tanto se gabam os estadunidenses, contudo, n\u00e3o \u00e9 eterno e ele est\u00e1 em plena crise, ao que tudo indica trata-se daquelas crises c\u00edclicas que ocorrem periodicamente no capitalismo. A novidade, contudo, \u00e9 que esta crise econ\u00f4mica mundial est\u00e1 coincidindo com a maior crise ambiental da hist\u00f3ria. Enquanto em 1929 n\u00e3o havia a preocupa\u00e7\u00e3o com o esgotamento dos recursos naturais fundamentais ao avan\u00e7o da produ\u00e7\u00e3o capitalista, tais como petr\u00f3leo, \u00e1gua, madeira, min\u00e9rios, dentre outros, hoje, todos os estudos apontam para o colapso dos setores dependentes dessas fontes em algumas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O economista marxista franc\u00eas Fran\u00e7ois Chesnais chama de \u201ccrise da humanidade\u201d a combina\u00e7\u00e3o das atuais crises, a crise do capital que contribui para o que Marx chamou de centraliza\u00e7\u00e3o e concentra\u00e7\u00e3o do capital e a crise ambiental planet\u00e1ria. Ambas resultam de uma trajet\u00f3ria social em que a produ\u00e7\u00e3o de bens consum\u00edveis esteve sempre fundamentada no car\u00e1ter de subordina\u00e7\u00e3o da natureza em rela\u00e7\u00e3o ao homem, sendo a primeira vista como instrumento livremente manipul\u00e1vel pelo homem para servir a seus interesses, mantendo a ilus\u00e3o do controle durante s\u00e9culos. O auge do desenvolvimento capitalista coincide com o auge da destrui\u00e7\u00e3o da natureza, foi assim na Europa, nos Estados Unidos e est\u00e1 sendo assim na China. Ao que parece, estamos agora come\u00e7ando a pagar uma conta alta, o planeta est\u00e1 dando todas as pistas de que est\u00e1 no limite.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os impactos sociais desta peculiar \u201ccrise da humanidade\u201d por que passamos, evidentemente ainda n\u00e3o est\u00e3o claros, mas h\u00e1 ind\u00edcios de que n\u00e3o ser\u00e3o amenos. Alguns casos que merecem destaque:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os glaciares andinos dos quais flui a \u00e1gua com que se abastecem as cidades de La Paz e El Alto j\u00e1 perderam cerca de 80% de sua capacidade e a perspectiva \u00e9 de que em 15 anos La Paz e El Alto n\u00e3o ter\u00e3o \u00e1gua. Embora a situa\u00e7\u00e3o j\u00e1 seja bastante grave isto jamais foi visto como um problema social grav\u00edssimo que \u00e9, que poder\u00e1 causar s\u00e9rios impactos na pr\u00f3pria luta de classes da Bol\u00edvia, podendo obrigar uma mudan\u00e7a de capital para Sucre, pois se acabar a \u00e1gua em La Paz&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) atribui \u00e0 modifica\u00e7\u00e3o do clima 2,4% dos casos de diarr\u00e9ia e 2% dos de mal\u00e1ria em todo o mundo. Esse quadro pode se agarvar ainda mais, pois alguns cientistas alertam que o aquecimento global pode piorar nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas e a OMS calcula que para o ano de 2030 as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas poder\u00e3o causar 300 mil mortes por ano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A realidade pr\u00e1tica, dial\u00e9tica que \u00e9, mostra que a combina\u00e7\u00e3o dessas duas crises mostra-se algo extremamente grave, pois pode resultar na aniquila\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria humanidade e da vida na Terra. Embora ainda muito pouco estudada e pouco valorizada tal conflu\u00eancia mostra, entretanto, que a \u201ccrise da humanidade\u201d que est\u00e1 se configurando somente poder\u00e1 ser plenamente superada mediante a supera\u00e7\u00e3o do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, que possibilitar\u00e1 colocar como foco principal da produ\u00e7\u00e3o as necessidades humanas e n\u00e3o mais o lucro, quando enfim, a classe trabalhadora, \u00fanica que produz riqueza, tiver tal produ\u00e7\u00e3o voltada para suas pr\u00f3prias necessidades. Apenas a supera\u00e7\u00e3o do capitalismo e a extin\u00e7\u00e3o das classes sociais poder\u00e1 transformar a busca por salvar o Planeta Terra e a preserva\u00e7\u00e3o dos recursos naturais essenciais \u00e0 sobreviv\u00eancia humana em algo poss\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#indice\">\u25b2 voltar ao \u00edndice<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a name=\"titulo6\"><\/a><\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">O HOMEM E A NATUREZA NO S\u00c9CULO XXI &#8211; A VILA DE PARANAPIACABA<\/h2>\n<p class=\"rteright\" style=\"text-align: right;\">Mayara Pastore<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A rela\u00e7\u00e3o da sociedade com a natureza vem sendo tratada mundialmente com maior import\u00e2ncia diante das conseq\u00fc\u00eancias das a\u00e7\u00f5es predat\u00f3rias das civiliza\u00e7\u00f5es, as quais se tornam inevit\u00e1veis em fun\u00e7\u00e3o do sistema capitalista implantado. Algo que deve ser questionado \u00e9 onde o homem se encaixa na natureza. De fato n\u00f3s somos parte dela, mas ocorre uma separa\u00e7\u00e3o nessa rela\u00e7\u00e3o, como se f\u00f4ssemos os seres superiores a todos. \u00c9 dif\u00edcil imaginar o que nos leva a pensar sobre essa superioridade? Talvez seja apenas o desenvolvimento de nossas c\u00e9lulas com maior complexidade, evoluindo para a capacidade do pensamento e habilidade f\u00edsica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com os estudos baseados na hist\u00f3ria humana e experi\u00eancias emp\u00edricas, p\u00f4de se entender de forma racional que nenhum ser reinante consegue sobreviver sozinho. \u00c9 preciso que haja equil\u00edbrio entre os ecossistemas, t\u00e3o amea\u00e7ado pela humanidade no decorrer de pouco tempo se comparado ao tempo geol\u00f3gico. Na medida em que nossa esp\u00e9cie se reproduz em um n\u00edvel de crescimento constante e desequilibrado, criaram-se modos de vida desiguais entre as popula\u00e7\u00f5es. Dentro das sociedades modernas um indiv\u00edduo \u00e9 valorizado pelo que possui em bens materiais, gerando necessidades para o capitalismo, perdendo-se as verdadeiras necessidades de busca pela energia \u2013 alimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde o nascimento de um novo indiv\u00edduo humano na modernidade, este \u00e9 educado e se adapta a modos de vida voltados para o consumismo e a transforma\u00e7\u00e3o dos recursos naturais, de forma que ap\u00f3s o seu uso perdem o valor em um ciclo insustent\u00e1vel. O indiv\u00edduo talvez possa dar valor para a cultura com a terra, ap\u00f3s uma oportunidade de viv\u00eancia na mata. Mas o que normalmente ocorre \u00e9 uma rejei\u00e7\u00e3o, por falta de habilidade e distanciamento da natureza, originada nos costumes voltados ao conforto e na busca de energia no \u201csupermercado\u201d, por interm\u00e9dio da moeda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s a transforma\u00e7\u00e3o da natureza por a\u00e7\u00f5es antr\u00f3picas, resta pouco de sua originalidade. A Mata Atl\u00e2ntica estende-se praticamente por todo o litoral brasileiro, atingindo 13 estados, al\u00e9m das encostas do Planalto Atl\u00e2ntico, restando atualmente, entretanto, apenas cerca de 7% da \u00e1rea original. \u00c9 um exemplo da efici\u00eancia destruidora da esp\u00e9cie humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro exemplo \u00e9 a Vila de Paranapiacaba, que abrigou a sede da empresa ferrovi\u00e1ria S\u00e3o Paulo Railway Co. e se localiza em \u00e1rea de Mata Atl\u00e2ntica, a qual sofre as s\u00e9rias conseq\u00fc\u00eancias dos interesses econ\u00f4micos que utilizam o pouco que restou da floresta como instrumento do \u201ccapitalismo verde\u201d. Como a Vila se situa no alto da Serra do Mar, a a\u00e7\u00e3o antr\u00f3pica n\u00e3o chegou com intensa for\u00e7a devido \u00e0 inviabilidade causada pela inclina\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o. Esta \u00e1rea est\u00e1 em est\u00e1gio de regenera\u00e7\u00e3o ap\u00f3s a perda de valor do transporte ferrovi\u00e1rio. Hoje os problemas s\u00e3o causados pelo turismo, o qual \u00e9 uma forma burguesa de atribuir valor econ\u00f4mico a \u00e1reas onde se utiliza o marketing voltado para as quest\u00f5es ambientais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em pontos de turismo ecol\u00f3gico s\u00e3o criados mecanismos para camuflar as verdadeiras conseq\u00fc\u00eancias predat\u00f3rias do sistema. Em Paranapiacaba n\u00e3o \u00e9 diferente. Na medida em que o ser humano \u00e9 privado de ter contato com o seu local de origem, a mata se torna um produto de com\u00e9rcio, onde apenas os mais favorecidos podem ter um acesso superficial, em troca da moeda. Ao mesmo tempo, as pessoas que reconhecem o verdadeiro valor da floresta como habitat natural s\u00e3o bloqueadas de viver nela de forma primitiva. O fato \u00e9 que essa privatiza\u00e7\u00e3o reduziu, superficialmente, o impacto ambiental por se ter agora um controle. Mas a\u00ed \u00e9 que est\u00e1 a quest\u00e3o: quem \u00e9 o controlador? O controle \u00e9 feito pelos propriet\u00e1rios privados dos meios de produ\u00e7\u00e3o, enquanto que os trabalhadores cumprem diretrizes previamente tra\u00e7adas e nunca de acordo com seus interesses e necessidades. Portanto existe a prega\u00e7\u00e3o de uma falsa conscientiza\u00e7\u00e3o ambiental de forma que o povo \u00e9 induzido a acreditar que a solu\u00e7\u00e3o para minimizar os problemas predat\u00f3rios seja o distanciamento da natureza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dentro e no entorno da Vila de Paranapiacaba poucas pessoas t\u00eam o contato com a floresta acompanhadas por guias tur\u00edsticos, sendo um servi\u00e7o comercializado, enquanto que empresas continuam degradando o solo com as planta\u00e7\u00f5es de Eucaliptos e despejos poluentes nas nascentes. No regime capitalista se criam falsas necessidades para alimentar o crescente aumento da produ\u00e7\u00e3o e o conseq\u00fcente lucro desenfreado da burguesia. Devido aos inevit\u00e1veis problemas causados pela destrui\u00e7\u00e3o da natureza para ser transformada em mercadoria, se torna dif\u00edcil impedir a que discuss\u00e3o ambiental ganhe espa\u00e7o no cotidiano atual. No entanto, \u00e9 utilizada a linguagem de desenvolvimento sustent\u00e1vel como estrat\u00e9gia pela qual o sistema instrumentaliza o problema a seu favor. Por meio da educa\u00e7\u00e3o ambiental a comunica\u00e7\u00e3o de massa mascara a degrada\u00e7\u00e3o do meio ambiente, de modo que na pr\u00e1tica o desenvolvimento \u00e9 o oposto, \u00e9 insustent\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A discuss\u00e3o ecol\u00f3gica ganhou contornos e par\u00e2metros de luta pol\u00edtica, social, econ\u00f4mica e ideol\u00f3gica, pois n\u00e3o se trata simplesmente de preserva\u00e7\u00e3o e conserva\u00e7\u00e3o do meio ambiente. A rela\u00e7\u00e3o\/ homem natureza precisa ser repensada e reformulada dialeticamente. A quest\u00e3o vai al\u00e9m do fato de que o homem est\u00e1 destruindo o planeta, torna-se necess\u00e1rio avaliar a divis\u00e3o de classes e a apropria\u00e7\u00e3o da natureza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Refer\u00eancias:<br \/>\nBERMAN, Marshall. (1986) Tudo que \u00e9 s\u00f3lido desmancha no ar. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras.<br \/>\nCHESNAIS, Fran\u00e7ois. Apresenta\u00e7\u00e3o realizada no encontro organizado pela revista argentina &#8220;Herramienta&#8221; em 18 de Setembro de 2008. A transcri\u00e7\u00e3o \u00e9 de Aldo Casas. Vers\u00e3o publicada no portal Esquerda.Net. Tradu\u00e7\u00e3o para o portugu\u00eas: Luis Leiria (Esquerda.Net)<br \/>\nFRIEDRICH, Engels. A dial\u00e9tica da Natureza. Escrito e publicado em 1896.<br \/>\nMARX, Karl. O Capital.<br \/>\nWALDMAN, Mauricio. Ecologia e as Lutas Sociais no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#indice\">\u25b2 voltar ao \u00edndice<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a name=\"titulo7\"><\/a><\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">A QUEM INTERESSA UMA EDUCA\u00c7\u00c3O P\u00daBLICA DE QUALIDADE? E O QUE EST\u00c1 POR TR\u00c1S DA AVALIA\u00c7\u00c3O DOS PROFESSORES?<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A proclamada morte da Hist\u00f3ria que significa, em \u00faltima an\u00e1lise, a morte da utopia e do sonho, refor\u00e7a, indiscutivelmente, os mecanismos de afixia da liberdade. Da\u00ed a briga pelo resgate do sentido da utopia de que a pr\u00e1tica educativa humanizante n\u00e3o pode deixar de estar impregnada tenha de ser uma sua constante&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fala-se bastante nos dia de hoje sobre a qualidade do ensino p\u00fablico no pa\u00eds. No estado de S\u00e3o Paulo, a discuss\u00e3o \u00e9 mais aguda. Procura-se o respons\u00e1vel pelo o sucateamento do ensino p\u00fablico estadual. O governador Jos\u00e9 Serra e sua secret\u00e1ria Maria Helena Guimar\u00e3es responsabilizam os professores e, a partir da\u00ed, tramam toda uma campanha (que n\u00e3o se restringe a S\u00e3o Paulo) para responsabilizar os professores pelos \u00edndices negativos dos alunos nas avalia\u00e7\u00f5es extra-escola (SARESP, ENEM, PISA e Prova Brasil).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a responsabiliza\u00e7\u00e3o do professor pelo fracasso escolar, o que se pretende \u00e9 encobrir que esse \u00e9 o modelo que interessa ao capital.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do ponto de vista do sistema capitalista e seus agentes (empres\u00e1rios e governos), n\u00e3o interessa uma educa\u00e7\u00e3o de qualidade para jovens desempregados ou precarizados. S\u00e3o custos absolutamente desnecess\u00e1rios, ou pior, gastos esbanjadores&#8230; As empresas pressionam os governantes para reduzir os gastos estatais com os servi\u00e7os p\u00fablicos a fim de que o Estado direcione mais dinheiro para ajud\u00e1-las a se manter lucrando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O modelo de Educa\u00e7\u00e3o hoje em vig\u00eancia n\u00e3o \u00e9 um resultado da incompet\u00eancia, desorganiza\u00e7\u00e3o ou falta de informa\u00e7\u00e3o dos governantes, nem muito menos culpa dos professores, mas representa a inten\u00e7\u00e3o do Estado e das empresas de que as coisas sejam realmente assim. \u00c9 justamente desse tipo de Educa\u00e7\u00e3o precarizada que o Estado precisa para manter a situa\u00e7\u00e3o de aliena\u00e7\u00e3o das pessoas e formar uma m\u00e3o-de-obra precarizada. E \u00e9 somente este tipo de Educa\u00e7\u00e3o que o Estado se disp\u00f5e a manter, dada a nova situa\u00e7\u00e3o pela qual o sistema do capital est\u00e1 passando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, boa parte dessa m\u00e3o-de-obra \u00e9 formada para trabalhar em shoppings, lojas, padarias, mercados, oficinas, etc, em atividades que n\u00e3o necessitam de grandes habilidades intelectuais. Trata-se de uma m\u00e3o-de-obra precarizada e barata.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, o crescimento vertiginoso da tecnologia, aliado \u00e0s pol\u00edticas de fus\u00f5es de empresas e aumento da intensidade do trabalho imposto sobre toda a classe trabalhadora, fazem com que o sistema, como um todo, possa produzir mais mercadorias com uma quantidade menor de trabalhadores, o que faz com que se amplie o chamado desemprego estrutural, agravado agora pela crise econ\u00f4mica em andamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na etapa atual, o capitalismo e seu Estado querem que a fun\u00e7\u00e3o priorit\u00e1ria da escola seja de conten\u00e7\u00e3o, difus\u00e3o de habilidades m\u00ednimas e doutrinamento dos jovens, para que esse setor do proletariado aceite ideologicamente que n\u00e3o h\u00e1 outra sa\u00edda e que a culpa por estar nessa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 deles mesmos e n\u00e3o do sistema. A escola passa a ser uma institui\u00e7\u00e3o, acima de tudo, de car\u00e1ter assistencial, o que traz graves conseq\u00fc\u00eancias para o aprendizado e o trabalho docente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por sua vez, a situa\u00e7\u00e3o de exclus\u00e3o social e educacional a que esse setor amplo da m\u00e3o-de-obra juvenil est\u00e1 sujeito &#8211; pelo car\u00e1ter prec\u00e1rio do tipo de trabalho que o sistema lhe oferece &#8211; faz com que a chance de superar essa situa\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s dos estudos seja muito dif\u00edcil, o que acarreta a perda de est\u00edmulo de grande parte dos jovens para estudar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa situa\u00e7\u00e3o de perda de perspectivas e de sentido de vida se espalha pelo conjunto da sociedade em uma decad\u00eancia geral da cultura, que mergulha a exist\u00eancia das pessoas num individualismo e imediatismo cada vez maiores, a ponto de as atividades mais humanas parecerem in\u00fateis, e a as atividades mais animais e instintivas aparecerem como as mais realizadoras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vemos que a falta de motiva\u00e7\u00e3o dos jovens em aprender \u00e9 produzida pelo pr\u00f3prio sistema capitalista<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para que isso n\u00e3o seja questionado, o Estado hierarquiza as escolas (a divis\u00e3o entre algumas escolas, com alunos de melhor condi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, taxa de APM maior e melhor estrutura, e as escolas de periferia, sem qualquer condi\u00e7\u00e3o e totalmente abandonadas), de modo que se tenha algumas escolas que se destacam perante as demais e com isso sejam usadas para que se possa dizer que esse modelo de educa\u00e7\u00e3o \u00e9 eficiente, e s\u00f3 n\u00e3o funciona por culpa do professor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da\u00ed a import\u00e2ncia de uma ampla campanha de den\u00fancias e mobiliza\u00e7\u00f5es junto aos professores, pais e alunos, explicando que essa situa\u00e7\u00e3o faz parte da divis\u00e3o que o Estado capitalista quer criar entre um setor da classe trabalhadora com um pouco mais de condi\u00e7\u00f5es, e outro setor que, desprovido de quase tudo, j\u00e1 est\u00e1 direcionado para os piores servi\u00e7os, para o desemprego, ou at\u00e9 mesmo para as duas situa\u00e7\u00f5es combinadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa fragmenta\u00e7\u00e3o \u00e9 funcional ao sistema no aspecto da domina\u00e7\u00e3o, pois divide n\u00e3o apenas as comunidades, mas tamb\u00e9m os professores com realidades diferenciadas, uma vez que passa a id\u00e9ia de que os professores e a comunidade de uma determinada escola s\u00e3o mais capazes ou mais esfor\u00e7ados do que os outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A a\u00e7\u00e3o do Estado visando difundir que esse modelo de educa\u00e7\u00e3o \u00e9 correto e eficiente ganha agora um novo contorno com a avalia\u00e7\u00e3o do professor. Procura-se com isso, caso o professor tenha um resultado insatisfat\u00f3rio, responsabilizar ainda mais os professores pelo caos do ensino p\u00fablico e fragilizar a sua imagem perante a opini\u00e3o p\u00fablica. Com isso se viabilizam posteriormente novos ataques, seja atrav\u00e9s da retirada de direitos, seja para culpabilizar o professor pela inefici\u00eancia do sistema de ensino p\u00fablico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assistimos com isso ao enquadramento do professor, tanto em termos profissionais como tamb\u00e9m ideol\u00f3gicos, j\u00e1 que o professor \u00e9 avaliado dentro da l\u00f3gica de funcionamento do Estado capitalista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diante dessa situa\u00e7\u00e3o precisamos combinar a luta contra a pol\u00edtica educacional dos governos Serra e Lula e por condi\u00e7\u00f5es dignas de ensino com a luta contra o capitalismo e a vida sem sentido que ele oferece aos filhos dos trabalhadores, a fim de demonstrar que o problema n\u00e3o \u00e9 apenas a Educa\u00e7\u00e3o atual , mas o capitalismo como um todo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao mesmo tempo, precisamos apresentar as propostas de transi\u00e7\u00e3o que sejam capazes de retomar, junto aos trabalhadores, o debate e a luta por uma sociedade socialista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#indice\">\u25b2 voltar ao \u00edndice<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a name=\"titulo8\"><\/a><\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">HOMOSSEXUALIDADE<\/h2>\n<p class=\"rteright\" style=\"text-align: right;\">Fl\u00e1vio Pereira e Camila Couras<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A homossexualidade at\u00e9 hoje \u00e9 um tabu. H\u00e1 v\u00e1rias pesquisas no campo cient\u00edfico e psicol\u00f3gico que geram discuss\u00f5es acaloradas. Uns dizem que a condi\u00e7\u00e3o homossexual adv\u00eam de uma variedade gen\u00e9tica, outros que \u00e9 de origem psicol\u00f3gica e outros ainda que se trata de uam combina\u00e7\u00e3o dos dois fatores. Enquanto isso, a sociedade tira suas pr\u00f3prias conclus\u00f5es, e baseada no senso comum, julga os homossexuais como doentes, prom\u00edscuos, pervertidos, libertinos sexuais com mau car\u00e1ter, entre outros muitos termos pejorativos. E os homossexuais ficam no meio de tudo isso, oprimidos, discriminados e marginalizados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde o surgimento da humanidade j\u00e1 havia homossexualidade. Na antiguidade, as tribos matriarcais a aceitavam como algo natural. Em grandes civiliza\u00e7\u00f5es como: o Egito, a P\u00e9rsia e a Gr\u00e9cia a homossexualidade era vista como algo comum, e at\u00e9 existiam reconhecimentos institucionalizados. Roma tamb\u00e9m teve alguns ilustres homossexuais, como por exemplo Nero e C\u00e9sar. Em v\u00e1rias hist\u00f3rias da mitologia grega haviam rela\u00e7\u00f5es entre deuses e pessoas do mesmo sexo, como Apolo, Aquiles, Afrodite, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A verdadeira opress\u00e3o come\u00e7ou a surgir com a fam\u00edlia patriarcal. A Igreja desde o in\u00edcio repreendeu os homossexuais. Diziam e dizem que era coisa do dem\u00f4nio, pervers\u00e3o. Em tempos como os da Inquisi\u00e7\u00e3o, homossexuais eram ca\u00e7ados e queimados vivos, no caso das mulheres eram tamb\u00e9m mutiladas. Na 2\u00aa Guerra Mundial, milhares de gays foram mortos nos campos de concentra\u00e7\u00e3o nazistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 mais da metade do s\u00e9culo XX (1973), acreditava-se que a homossexualidade era doen\u00e7a e havia tratamentos para uma suposta \u201ccura\u201d, dentre eles: a Avers\u00e3o \u2013 nos anos 50, na Checoslov\u00e1quia, pacientes tomaram uma droga indutora de v\u00f4mito e eram obrigados a ver cenas de homens nus, depois receberam uma inje\u00e7\u00e3o de testosterona e eram expostos a imagens de mulheres nuas; a Hipnose tamb\u00e9m foi muito usada; Choques \u2013 diziam que dez sess\u00f5es de eletro-choque os fariam desistir do \u201cv\u00edcio\u201d e a Lobotomia \u2013 que era uma interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica. Mas a partir de 1973 a homossexualidade foi retirada da lista de dist\u00farbios mentais pela Associa\u00e7\u00e3o Psiqui\u00e1trica Americana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com todo esse hist\u00f3rico e com a press\u00e3o social, muitos homossexuais n\u00e3o assumem a sua sexualidade e passam a viver sob m\u00e1scaras. Disfar\u00e7am seus desejos e reprimem sua sexualidade e seu sentimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, por mais que o sistema capitalista tente transformar a homossexualidade em mercadoria, a sociedade a reprime de maneira implac\u00e1vel. Os homossexuais t\u00eam sido sistematicamente v\u00edtimas de preconceitos em todos os momentos e por todos os lados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto a Igreja continua cumprindo o papel opressor de coloc\u00e1-los como criaturas diab\u00f3licas e de car\u00e1ter transviado, outras institui\u00e7\u00f5es tentam barrar projetos que possibilitariam uma \u201ccerta igualdade\u201d como o casamento no civil (hoje inexistente e tratado como uni\u00e3o homo-afetiva), direito \u00e0 heran\u00e7a, e a ado\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, \u00e9 poss\u00edvel existir igualdade entre o modo de vida do homossexual da classe trabalhadora e o da burguesia?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sociedade burguesa se construiu com a marginaliza\u00e7\u00e3o. A burguesia, para se manter como classe dominante, precisa mostrar-se solid\u00e1ria com os interesses de todos e, dentro do que chama de democracia, cria condi\u00e7\u00f5es, mesmo de maneira velada e hip\u00f3crita, para que a homossexualidade seja desfrutada e fa\u00e7a parte de seu meio social como forma de viver intensamente o prazer. Portanto, independente do conservadorismo de uns e dos direitos n\u00e3o conquistados no Brasil, a classe que vive do trabalho alheio desfruta da sexualidade em todas suas dimens\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 o que vemos com a sexualidade da classe trabalhadora. Desde a fam\u00edlia, passando pela escola p\u00fablica, primeiro emprego ou outras dimens\u00f5es da vida sentimos o peso da repress\u00e3o sexual. Quando nos sentimos na condi\u00e7\u00e3o homossexual a repress\u00e3o \u00e9 ainda maior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quebrar essa barreira entre as pessoas mais pr\u00f3ximas n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, pois carregam toda a ideologia conservadora da Igreja em uma sociedade burguesa. Mais dif\u00edcil ainda \u00e9 lidar com a intoler\u00e2ncia existente. Existem grupos homof\u00f3bicos empenhados em agredir homossexuais at\u00e9 a morte. Policiais, que deveriam proteger a popula\u00e7\u00e3o, os reprimem e os agridem periferias afora. Al\u00e9m, \u00e9 claro, daqueles a quem a repress\u00e3o sexual j\u00e1 causou transtornos e que tentam impor sobre os outros as suas verdades, mesmo que estas sejam apenas para humilhar e camuflar seus pr\u00f3prios desejos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ser homossexual e assumir este lado da sexualidade, principalmente na periferia, requer autocontrole emocional e consci\u00eancia pol\u00edtica para n\u00e3o sucumbirmos \u00e0s imposi\u00e7\u00f5es sociais de uma sociedade hip\u00f3crita. Consci\u00eancia de que sentimento reprimido quer dizer liberdade reprimida, de que a restri\u00e7\u00e3o \u00e0 sexualidade da classe trabalhadora tem a fun\u00e7\u00e3o de exercer um maior controle, isto \u00e9, torn\u00e1-la controlada e submissa para ser mais f\u00e1cil de assustar e de explorar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando um indiv\u00edduo est\u00e1 satisfeito sexualmente e sentimentalmente torna-se mais forte, mais corajoso, mais decidido e se torna perigoso para o sistema. Talvez seja por essa raz\u00e3o que a homossexualidade entre a burguesia \u00e9 t\u00e3o viva e entre a classe trabalhadora t\u00e3o reprimida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m de lutarmos para conquistar alguns direitos, para decidirmos sobre o nosso pr\u00f3prio corpo e sobre nossa sexualidade, temos que lutar tamb\u00e9m para transformar essa sociedade a fim de resgatarmos a liberdade que nos foi usurpada na sociedade capitalista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitos homossexuais da classe trabalhadora j\u00e1 entendem essa necessidade e buscam organiza\u00e7\u00f5es de esquerda para fortalecerem seus posicionamentos pol\u00edticos. Al\u00e9m de trabalharmos e estudarmos para sobreviver e al\u00e9m de participarmos de eventos culturais, shows e paradas gays tamb\u00e9m discutimos os problemas econ\u00f4micos, pol\u00edticos e sociais. Lutamos por uma sociedade socialista, onde desfrutaremos de todos os nossos desejos e desenvolveremos todas as potencialidades humanas. Enfim buscamos quebrar todas as barreiras impostas por uma sociedade dividida em classes. A unidade de todos os explorados \u00e9 uma necessidade para p\u00f4r fim \u00e0 opress\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para n\u00f3s viver a nossa sexualidade e assumir a nossa homossexualidade s\u00e3o tarefas para hoje, mas estamos dispostos a contribuir para construirmos o caminho para o amanh\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Contra todo tipo de preconceito e discrimina\u00e7\u00e3o;<br \/>\n&#8211; Que sejam abolidas as formas subjetivas de contrata\u00e7\u00e3o em processos seletivos ou concursos p\u00fablicos tais como: foto, din\u00e2mica de grupo, etc;<br \/>\n&#8211; Pela uni\u00e3o civil homossexual, inclusive com direitos \u00e0 ado\u00e7\u00e3o;<br \/>\n&#8211; Por uma sexualidade livre dos preconceitos religiosos, homof\u00f3bicos, de ra\u00e7a, de orienta\u00e7\u00e3o sexual e n\u00e3o submetida \u00e0s imposi\u00e7\u00f5es do capital.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#indice\">\u25b2 voltar ao \u00edndice<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a name=\"titulo9\"><\/a><\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA<\/h2>\n<p class=\"rteright\" style=\"text-align: right;\">Adneide Andrade<\/p>\n<p class=\"rteleft\" style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cEu tive uma vida que n\u00e3o tinha nada a ver com a literatura. Eu fui v\u00e1rias coisas na vida: trabalhei numa oficina mec\u00e2nica, fui desenhista, funcion\u00e1rio da sa\u00fade p\u00fablica, depois n\u00e3o sei o qu\u00ea, depois editor, e era assim.\u201d<\/em> Jos\u00e9 Saramago. (Entrevista a Hor\u00e1cio Costa. \u201cO Despertar da Palavra\u201d. In: CULT. Revista Brasileira de Literatura. S\u00e3o Paulo: Lemos Editorial, 1998. p.18)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O escritor portugu\u00eas Jos\u00e9 de Sousa Saramago nasceu na aldeia Ribatejana de Azinhaga, no dia 16 de novembro de 1922. Em 1975, fica desempregado, e ent\u00e3o se dedica mais assiduamente \u00e0 carreira liter\u00e1ria, escrevendo biografias, cr\u00f4nicas, poesias e teatros, e assim se destacando neste meio. A tend\u00eancia liter\u00e1ria predominante nas obras feitas por Jos\u00e9 Saramago \u00e9 o Neo-Realismo, corrente liter\u00e1ria que se define fundamentalmente pela proposta de desnudamento dos mecanismos socioecon\u00f4micos que regem a vida humana \u2013 propiciando a explica\u00e7\u00e3o dos seus dramas e conflitos &#8211; e pelo incitamento a uma transforma\u00e7\u00e3o radical da ordem burguesa atrav\u00e9s da a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O movimento neo-realista prop\u00f5e a exposi\u00e7\u00e3o e debate com toda a sociedade, sobre temas pol\u00edticos, s\u00f3cio-culturais, governamentais, institucionais e ideol\u00f3gicos, uma vez que interferem de forma direta no cotidiano dos habitantes e, portanto, devem estar sob conhecimento e consci\u00eancia das pessoas. Em outras palavras, a escrita neo-realista pretende servir de instrumento de debate e combate dos valores religiosos, est\u00e9ticos, econ\u00f4micos e morais burgueses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Neo-Realismo defende que o romance seja um instrumento de resgate das classes desfavorecidas e um instrumento de den\u00fancia dos desmandos dos poderosos. Por isso, sua escrita \u00e9 peculiar por inventar um narrador fortemente comprometido com uma ideologia, que, na maioria das vezes, mais do que apresentar os fatos, procura coment\u00e1-los de modo a investir criticamente na realidade. (GOMES, \u00c1lvaro Cardoso. A Voz Itinerante: ensaio sobre o romance contempor\u00e2neo. S\u00e3o Paulo: Edusp, 1993. p.34)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jos\u00e9 Saramago utiliza poucos sinais de pontua\u00e7\u00e3o, tem\u00e1ticas universais, geralmente insere alguma situa\u00e7\u00e3o fant\u00e1stica \u00e0s suas obras \u2013 em decorr\u00eancia destes fatores inesperados, exp\u00f5e as mazelas e corrup\u00e7\u00f5es encobertas por v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es capitalistas \u2013 usa linguagem bastante ir\u00f4nica, que normalmente aponta sua vis\u00e3o sobre um determinado assunto: \u201co homem n\u00e3o somente recebe o impacto dos fatos hist\u00f3ricos, mas tamb\u00e9m (&#8230;) \u00e9 capaz de fazer hist\u00f3ria. (&#8230;) Assim, a fic\u00e7\u00e3o se apresenta como um meio de modificar a realidade, ou ainda, de modificar o olhar, a interpreta\u00e7\u00e3o que o homem faz dessa mesma realidade.\u201d (GOMES, 1993. p. 43)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1995, Jos\u00e9 Saramago foi premiado com o mais importante trof\u00e9u liter\u00e1rio para obras em L\u00edngua Portuguesa: o Pr\u00eamio Cam\u00f5es. A obra que lhe rendeu este pr\u00eamio foi um de seus romances mais conhecidos, o Ensaio Sobre a Cegueira, que em setembro estreou nos cinemas do Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O filme foi dirigido por Fernando Meirelles (O Jardineiro Fiel\/Cidade de Deus) e conta com Julianne Moore (a mulher do m\u00e9dico), Mark Ruffallo (o m\u00e9dico), a atriz brasileira Alice Braga (a mulher dos \u00f3culos escuros), entre outros grandes atores em seu elenco: \u201cj\u00e1 \u00e9ramos cegos no momento em que cegamos, o medo nos cegou, o medo nos far\u00e1 continuar cegos.\u201d (SARAMAGO, Jos\u00e9. Ensaio Sobre a Cegueira. 1995. p.131)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seguindo fielmente o enredo criado por Jos\u00e9 Saramago, o filme conta a hist\u00f3ria de um pa\u00eds onde as pessoas repentinamente se surpreendem cegas. Diferente da cegueira da qual sempre ouvimos falar, esta se caracteriza pelo fato de ser altamente contagiosa e por deixar suas v\u00edtimas \u201cenxergando\u201d tudo branco, como num mar de leite. Na tentativa de evitar que o pa\u00eds inteiro fique cego, as primeiras centenas de pessoas a apresentarem a doen\u00e7a s\u00e3o isoladas em uma estrutura velha \u2013 que antigamente fora um manic\u00f4mio \u2013 e ali necessitam aprender formas diferentes de conviv\u00eancia, haja vista a fr\u00e1gil situa\u00e7\u00e3o em que se encontram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um outro acontecimento imprevisto \u00e9 o fato de uma das personagens deste cen\u00e1rio, a mulher do m\u00e9dico, n\u00e3o ter contra\u00eddo a cegueira, e mesmo assim ter se juntado aos demais cegos, apenas para auxiliar seu marido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O filme \u00e9 marcado por duas problem\u00e1ticas principais que d\u00e3o a din\u00e2mica para a hist\u00f3ria. A primeira delas \u00e9 a desordem que paulatinamente se instaura tanto no lugar onde foram trancados os primeiros cegos, quanto no restante do pa\u00eds, que n\u00e3o consegue conter a epidemia e rapidamente se v\u00ea no meio do caos, sem comida e \u00e1gua suficientes, sem condi\u00e7\u00f5es de higiene, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A segunda problem\u00e1tica fica por conta de alguns homens cegos maus \u2013 eles tinham em seu grupo alguns cegos antigos, acometidos pela cegueira comum, e que portanto tiveram tempo de aprender a escrita braile, al\u00e9m de lidar muito melhor com a aus\u00eancia de vis\u00e3o \u2013, que roubaram os objetos de valor dos outros cegos, se apropriaram da comida que era mandada para ser dividida entre todos e, num outro momento, exigiram visitas \u00edntimas das mulheres dos outros quartos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podemos identificar no livro e, com as devidas ressalvas, no filme de Fernando Meirelles diversas cr\u00edticas s\u00f3cio-culturais e pol\u00edticas que certamente se aplicam \u00e0 sociedade em que vivemos. Nesse sentido, um fator digno de nota \u00e9 a aus\u00eancia de identidade do pa\u00eds e das personagens da hist\u00f3ria. Nenhum deles \u00e9 mencionado pelo nome, mas sim pelo papel que cumprem em seu meio social, o que nos d\u00e1 maior liberdade de associa\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria com a nossa realidade. Vemos tamb\u00e9m a posi\u00e7\u00e3o negligente do governo ao isolar os primeiros cegos, sem se preocupar em dar-lhes a assist\u00eancia devida. Diante dos desafios inesperados, as pessoas adotam tanto comportamentos solid\u00e1rios e fraternais, como machistas, corruptos, ego\u00edstas e ofensivos entre si.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro cego come\u00e7a por declarar que mulher sua n\u00e3o se sujeitaria \u00e0 vergonha de entregar o corpo a desconhecidos em troca do que fosse [neste caso, comida], que nem ela o quereria nem ele o permitiria, que a dignidade n\u00e3o tem pre\u00e7o, (&#8230;) Sou tanto como as outras, fa\u00e7o o que elas fizerem (&#8230;) \u00c9 uma indec\u00eancia, Est\u00e1 na tua m\u00e3o n\u00e3o seres indecente, a partir de agora n\u00e3o comas, foi esta a cruel resposta, inesperada em pessoa que at\u00e9 hoje se mostrara d\u00f3cil e respeitadora do seu marido. (SARAMAGO, 1995. p.167-68)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enfim, os padr\u00f5es morais e \u00e9ticos da vida interior ficam totalmente questionados, dando origem a novos padr\u00f5es morais e \u00e9ticos, totalmente imprevistos. Ensaio sobre a Cegueira se mostra um filme interessante, e principalmente um livro imprescind\u00edvel \u2013 devido \u00e0 riqueza e maior aprofundamento das discuss\u00f5es a que se prop\u00f5e realizar \u2013 sobre os riscos e dramas da vida humana, que nos traz uma grande reflex\u00e3o sobre nossa sociedade atual.<\/p>\n<p><a href=\"#indice\">\u25b2 voltar ao \u00edndice<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<h1>A CRISE ECON&Ocirc;MICA ATUAL<\/h1>\n<h2>\nA l&oacute;gica do capital e as crises<\/h2>\n<p><\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[99],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6427,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6\/revisions\/6427"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}