{"id":64,"date":"2008-12-13T16:48:41","date_gmt":"2008-12-13T16:48:41","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/?q=node\/64"},"modified":"2018-05-04T21:47:49","modified_gmt":"2018-05-05T00:47:49","slug":"rei-artur-cade-o-calice-sagrado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2008\/12\/rei-artur-cade-o-calice-sagrado\/","title":{"rendered":"&#8220;Rei Artur&#8221;: Cad\u00ea o c\u00e1lice sagrado?"},"content":{"rendered":"<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<h1>\u201cREI ARTUR\u201d: CAD\u00ca O C\u00c1LICE SAGRADO?<\/h1>\n<h1><\/h1>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: center;\" align=\"center\">(Coment\u00e1rio sobre os filmes \u201cRei Arthur\u201d e \u201cTr\u00f3ia\u201d)<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Nome original: King Arthur<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Produ\u00e7\u00e3o: Estados Unidos, Irlanda, Inglaterra (UK)<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ano: 2004<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Idiomas: Ingl\u00eas, Latim, Ga\u00e9lico<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Diretor: Antoine Fuqua<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Roteiro: David Franzoni<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <span lang=\"EN-US\">Elenco: Clive Owen, Ioan Gruffudd, Mads Mikkelsen, Joel Edgerton, Hugh Dancy, Ray Winstone, Ray Stevenson, Keira Knightley, Stephen Dillane<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">G\u00eanero: a\u00e7\u00e3o, aventura, drama, guerra<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Nome original: Troy<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Produ\u00e7\u00e3o: Estados Unidos, Malta, Inglaterra (UK)<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ano: 2004<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Idiomas: Ingl\u00eas<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Diretor: Wolfgang Peterson<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Roteiro: Homero (poesia), David Benioff<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Elenco: Eric Bana, Orlando Bloom, Julian Glover, Brian Cox, Nathan Jones, Adoni Maropis, Jacob Smith, Brad Pitt, John Shrapnel, Brendan Gleeson, Diane Kruger, Siri Svegler<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 G\u00eanero: a\u00e7\u00e3o, drama, hist\u00f3ria, romance<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\"><span lang=\"EN-US\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Fonte: \u201cThe Internet Movie Database\u201d \u2013 <\/span><a href=\"http:\/\/www.imdb.com\/\"><span lang=\"EN-US\">http:\/\/www.imdb.com\/<\/span><\/a><span lang=\"EN-US\">\u00a0 <\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Est\u00e1 em cartaz um novo filme contando a hist\u00f3ria do Rei Artur. Assim como a recente produ\u00e7\u00e3o de \u201cTr\u00f3ia\u201d, este novo \u201cRei Artur\u201d fica bastante aqu\u00e9m na tarefa a que se prop\u00f5e de apresentar uma vers\u00e3o do que teria sido a hist\u00f3ria real que deu origem \u00e0s lendas. Lendas que por sua vez deram origem \u00e0 literatura. No caso de \u201cTr\u00f3ia\u201d, o fracasso \u00e9 ainda mais estrepitoso, visto que a \u201cIl\u00edada\u201d \u00e9 o marco fundador da literatura ocidental.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Adaptar uma obra liter\u00e1ria para o cinema n\u00e3o \u00e9 uma tarefa f\u00e1cil. N\u00e3o \u00e9 sempre que se tem dispon\u00edvel a paix\u00e3o e a capacidade de um Peter Jackson, respons\u00e1vel pela monumental trilogia \u201cO Senhor dos An\u00e9is\u201d, para fazer o servi\u00e7o. E por falar nisso, \u00e9 evidente que o sucesso art\u00edstico e comercial da saga do Um Anel foi o exemplo que inspirou aos executivos de Hollywood a id\u00e9ia de revisitar alguns mitos liter\u00e1rios cl\u00e1ssicos e transform\u00e1-los em filmes \u00e9picos. O resultado s\u00e3o as produ\u00e7\u00f5es ca\u00e7a-n\u00edqueis com que fomos brindados, \u201cTr\u00f3ia\u201d e \u201cRei Artur\u201d, que nem sequer arranham a densidade liter\u00e1ria das obras em que se basearam.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A trilogia do anel levada \u00e0s telas por Peter Jackson conseguiu indubitavelmente capturar algo do esp\u00edrito da obra liter\u00e1ria de Tolkien. Se n\u00e3o foi poss\u00edvel agradar a todos os f\u00e3s do livro, foi com certeza um exemplo digno e corajoso de recria\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica de um mundo liter\u00e1rio. O mundo fant\u00e1stico tolkeniano ganhou plausibilidade e consist\u00eancia nos filmes. Desde o in\u00edcio da s\u00e9rie, da visita de Gandalf ao Condado dos hobbits, o espectador passa a acreditar que aquelas criaturas existem. O espectador respira a atmosfera da Ter\u00e1 M\u00e9dia, ele assimila sua l\u00f3gica, ele admite um mundo onde existem magos, an\u00f5es, elfos, orcs, etc. O espectador pode se identificar facilmente com aqueles personagens, humanos ou n\u00e3o, e se sentir mais um membro da comitiva do anel.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Isso se deve \u00e9 claro \u00e0 op\u00e7\u00e3o de Peter Jackson de produzir a adapta\u00e7\u00e3o mais literal poss\u00edvel, transpondo para as telas mesmo as criaturas mais fant\u00e1sticas. O diretor neozeland\u00eas teve o suporte financeiro de grandes est\u00fadios para produzir os efeitos especiais e criaturas fant\u00e1sticas necess\u00e1rias para dar realismo \u00e0 adapta\u00e7\u00e3o. Mas esse tipo de apoio \u00e9 algo do qual nenhum diretor hoje pode se queixar, pois qualquer filme como \u201cTr\u00f3ia\u201d e \u201cRei Artur\u201d tem \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o um or\u00e7amento da ordem de 100 milh\u00f5es de d\u00f3lares. N\u00e3o \u00e9 de falta de recursos materiais que esses filmes se ressentem, mas de imagina\u00e7\u00e3o mesmo.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Come\u00e7ando por Tr\u00f3ia. A produ\u00e7\u00e3o de Wolfgang Petersen optou por filmar uma vers\u00e3o \u201crealista\u201d do que teria sido a guerra dos gregos \u00e0 Tr\u00f3ia. Uma vers\u00e3o em que n\u00e3o h\u00e1 deuses, nem tit\u00e3s, nem criaturas fant\u00e1sticas de qualquer esp\u00e9cie. Apenas seres humanos. Isso alivia o filme da necessidade de criar uma atmosfera m\u00e1gica e fant\u00e1stica, na qual os deuses ol\u00edmpicos aparecessem como figuras plaus\u00edveis, intervindo no meio dos homens. Essa op\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m economiza elenco, j\u00e1 que seria preciso contratar mais uma d\u00fazia de grandes estrelas para dar vida aos deuses.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Seja como for, essa op\u00e7\u00e3o enfraquece enormemente o potencial criativo da obra, limitando a presen\u00e7a dos deuses a uma mera cren\u00e7a dos personagens humanos. E por falar em cren\u00e7a, o filme peca exatamente por n\u00e3o apresentar as cren\u00e7as e id\u00e9ias dos gregos e troianos tais como teriam sido na \u00e9poca em que a guerra aconteceu (s\u00e9c. XII a. C.). \u201cTr\u00f3ia\u201d opta por uma hist\u00f3ria apenas com humanos, mas esses humanos n\u00e3o s\u00e3o a recria\u00e7\u00e3o do que teriam sido os homens da Gr\u00e9cia arcaica. O seu pensamento est\u00e1 mais pr\u00f3ximo dos homens de hoje. Os seus valores s\u00e3o os da contemporaneidade, n\u00e3o os da idade hom\u00e9rica.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Agamenon aparece como um conquistador obsessivo, uma esp\u00e9cie de George W. Bush \u201cavant la lettre\u201d, que quer arrebatar Tr\u00f3ia de qualquer jeito. Aquiles aparece como um \u201cpop star\u201d egoman\u00edaco, um astro do esporte que quer a imortalidade a qualquer custo, um \u201cEdmundo\u201d que quer aparecer \u00e0s custas do time. A rela\u00e7\u00e3o de Aquiles com Briseida \u00e9 transformada num romance de tipo moderno, o que n\u00e3o \u00e9 absolutamente o caso da \u201cIl\u00edada\u201d. Se h\u00e1 algo na \u201cIl\u00edada\u201d de Homero semelhante \u00e0quilo que os modernos conhecem como amor, \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre Aquiles e P\u00e1troclo, mas isso deve ter sido considerado embara\u00e7oso e dif\u00edcil demais de ser mostrado.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">O que resta ent\u00e3o \u00e9 uma aventura rasteira, uma produ\u00e7\u00e3o grandiosa, com um elenco at\u00e9 respeit\u00e1vel, mas desperdi\u00e7ado, despejando frases grandiloq\u00fcentes, protagonizando cenas espetaculares, batalhas e duelos que ser\u00e3o esquecidos no fim de semana seguinte. \u00c9 o mesmo caso do novo filme do \u201cRei Artur\u201d. Com o adicional de que esta produ\u00e7\u00e3o comete o mesmo erro, mas com o dobro de incompet\u00eancia. Se a \u201cIl\u00edada\u201d \u00e9 o marco fundador da literatura ocidental, um texto estabelecido h\u00e1 mais de 2000 anos, os contos do ciclo arturiano, datados da baixa Idade M\u00e9dia, proporcionam uma flexibilidade muito maior, que poderia ser criativamente explorada.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">A \u201cIl\u00edada\u201d era originalmente uma cole\u00e7\u00e3o de c\u00e2nticos recitados por poetas ambulantes, os aedos e rapsodos, tendo sido posteriormente reunida e transcrita para o papel por um personagem semilend\u00e1rio, um certo Homero, que teria sido tamb\u00e9m o autor da \u201cOdiss\u00e9ia\u201d. Tanto a exist\u00eancia de Homero, que teria vivido no s\u00e9culo VIII a. C., como a autoria das duas obras que lhe s\u00e3o atribu\u00eddas s\u00e3o contestadas e discutidas pelos estudiosos. Mas o que importa \u00e9 que, no mundo da Gr\u00e9cia cl\u00e1ssica, nos s\u00e9culos VI a. C. em diante, a obra de Homero tinha se tornado o substrato comum da cultura geral popular. A \u201cIl\u00edada\u201d e a \u201cOdiss\u00e9ia\u201d eram uma esp\u00e9cie de B\u00edblia para os gregos.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Ou seja, quando se opta por fazer uma adapta\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria da guerra de Tr\u00f3ia que despreza as duas fontes liter\u00e1rias cl\u00e1ssicas, est\u00e1 sendo jogada fora uma tradi\u00e7\u00e3o de 2000 anos. No caso do ciclo arturiano, a tradi\u00e7\u00e3o a ser manipulada \u00e9 bem mais recente e menos restritiva, proporcionando talvez uma maior liberdade criativa, mas nem por isso o resultado cinematogr\u00e1fico a que assistimos foi melhor.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Se existe a vers\u00e3o definitiva da guerra de Tr\u00f3ia, narrada na \u201cIl\u00edada\u201d e na \u201cOdiss\u00e9ia\u201d (a Il\u00edada \u00e9 na verdade a narra\u00e7\u00e3o da \u201cc\u00f3lera de Aquiles\u201d, que tem lugar durante a guerra de Tr\u00f3ia; alguns dizem que o poema deveria chamar-se \u201cAquileida\u201d; o epis\u00f3dio do cavalo \u00e9 descrito apenas na Odiss\u00e9ia), n\u00e3o h\u00e1 por outro lado uma vers\u00e3o definitiva da narrativa do rei Artur. A hist\u00f3ria do rei Artur aparece pela primeira vez como personagem liter\u00e1rio na \u201cHist\u00f3ria regum Britanniae\u201d (Hist\u00f3ria dos reis da Bretanha), de Geofroy de Monmouth, escrita em 1136 em Oxford. A hist\u00f3ria do c\u00e1lice sagrado (Santo Graal) aparece em \u201cLe conte du Graal\u201d, parte de um ciclo de cinco romances escritos por Chretien de Troyes em 1185, em Champagne. Essas duas grandes narrativas foram posteriormente desenvolvidas por outros autores cortes\u00e3os, tornando-se o eixo da literatura cavalheiresca, superando em fama a narrativa de outros her\u00f3is medievais, como a francesa \u201cCan\u00e7\u00e3o de Rolando\u201d e o espanhol \u201cEl Cid\u201d.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Essa hist\u00f3ria liter\u00e1ria do rei Artur baseia-se em vagos testemunhos legados por manuscritos anteriores, que desde o s\u00e9culo VI mencionam um her\u00f3i bret\u00e3o do s\u00e9culo V que teria combatido os invasores anglo-sax\u00f5es. A partir de um certo momento, as hist\u00f3rias incorporam o tema principal da cultura cavalheiresca medieval, o da demanda do Graal, a busca do c\u00e1lice sagrado, que teria sido usado por Cristo na \u00faltima ceia.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">O rei Artur, mesmo tendo vivido supostamente no s\u00e9culo V, \u00e9 apresentado nessas obras liter\u00e1rias com as caracter\u00edsticas de um rei do s\u00e9culo XII, ou seja, da Baixa Idade M\u00e9dia. Na \u00e9poca em que o chefe bret\u00e3o Artur teria vivido, n\u00e3o existiam castelos, como Camelot, nem cavaleiros de armadura, como os da T\u00e1vola Redonda. Mas para a literatura medieval, isso n\u00e3o importa. Um rei b\u00e1rbaro \u00e9 transformado num rei cortes\u00e3o. Uma tribo bret\u00e3 obscura \u00e9 transformada na corte de Camelot. Um l\u00edder pag\u00e3o seguidor do druida celta Merlin \u00e9 transformado num defensor da cristandade.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">A opera\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica que transforma um personagem hist\u00f3rico obscuro em mito liter\u00e1rio faz parte do processo de consolida\u00e7\u00e3o das monarquias medievais, depois da longa desagrega\u00e7\u00e3o feudal. Encontrar ancestrais mitol\u00f3gicos era algo bastante proveitoso na tentativa de fundar a legitimidade hist\u00f3rica das dinastias brit\u00e2nicas. Mas o ciclo arturiano era um fen\u00f4meno \u201cpan-europeu\u201d e n\u00e3o apenas brit\u00e2nico. A lenda do rei Artur tamb\u00e9m fez bastante sucesso na Fran\u00e7a e na Alemanha (na \u00e9poca essas regi\u00f5es n\u00e3o eram pa\u00edses homog\u00eaneos como os que conhecemos hoje, mas mosaicos de reinos, feudos, bispados e burgos livres).<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Nessas regi\u00f5es, tornou-se parte essencial do ciclo arturiano a busca do Santo Graal. Dentre os cavaleiros da T\u00e1vola Redonda estariam os her\u00f3is que recuperaram o c\u00e1lice para a cristandade. Em algumas vers\u00f5es o autor do feito teria sido Galahad, que teria sido filho de Lancelot. Em outras, o respons\u00e1vel pela conquista do Graal teria sido Parsifal. E ainda, de acordo com outras vers\u00f5es, o nome Santo Graal seria uma corruptela de \u201csangue real\u201d (esse trocadilho s\u00f3 funciona em franc\u00eas), uma alus\u00e3o ao sangue de Cristo, que teria sido herdado pelo filho que o Salvador teria tido com Maria Madalena, que seria o ancestral long\u00ednquo do rei franco Meroveu, fundador hist\u00f3rico da primeira dinastia francesa.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">As vers\u00f5es diferentes para uma mesma hist\u00f3ria atestam a popularidade da lenda. A popularidade experimentada pela hist\u00f3ria do Graal reflete a tentativa de afirma\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica dos valores da cavalaria feudal, depois do fracasso das Cruzadas. Os chefes feudais tentaram em sucessivas expedi\u00e7\u00f5es reconquistar a Terra Santa aos mu\u00e7ulmanos, voltando sempre derrotados. Mas para aplacar seu sentimento de frustra\u00e7\u00e3o, cultivaram um trof\u00e9u mitol\u00f3gico, um c\u00e1lice sagrado, que teria sido encontrado na Terra Santa e trazido para a Europa pelos bravos cavaleiros.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Os senhores feudais n\u00e3o foram bem-sucedidos na reconquista da Terra Santa, mas o foram na cria\u00e7\u00e3o de uma lenda. Com essa lenda, justificaram seu papel social e legitimaram seu poder. Tornaram-se defensores da cristandade. Tornaram-se tamb\u00e9m protagonistas do chamado amor cortes\u00e3o. As mulheres da nobreza, abandonadas pelos cavaleiros que foram para as Cruzadas, tornaram-se destinat\u00e1rias de uma literatura amorosa protagonizada por cavaleiros e damas. O drama de Trist\u00e3o e Isolda tornou-se a mais c\u00e9lebre dessas hist\u00f3rias.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Em resumo, esses dois motivos liter\u00e1rios, o de Artur e do Graal, se entrela\u00e7am quase que indissociavelmente. Conforme as sucessivas adapta\u00e7\u00f5es produzidas pelos autores cortes\u00e3os dos s\u00e9culos XIII, XIV e XV, o ciclo do rei Artur passa a incorporar outras narrativas, como a lenda de Parsifal e o romance de Trist\u00e3o e Isolda. Parsifal (ou Percival, numa grafia mais aportuguesada, juntamente com Trist\u00e3o, aparecem como membros da T\u00e1vola Redonda)<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Com o Renascimento e o Iluminismo, a Idade M\u00e9dia foi denegrida como uma idade das trevas. Os temas do ciclo arturiano sa\u00edram de moda. \u201cDom Quixote\u201d de Cervantes assestou o golpe de morte na literatura cavalheiresca e deu \u00e0 luz o primeiro her\u00f3i liter\u00e1rio propriamente moderno. Ser\u00e1 preciso esperar pelo \u201cParsifal\u201d de Wagner, no s\u00e9culo XIX, para assistir ao renascimento liter\u00e1rio do Graal. A \u00f3pera do compositor alem\u00e3o narra a vers\u00e3o em que Parsifal \u00e9 o cavaleiro que encontra o Graal e representa o auge do medievalismo redivivo no romantismo europeu.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O que se pretende mostrar aqui com essa breve digress\u00e3o hist\u00f3rico-liter\u00e1ria \u00e9 que o universo arturiano possui um rico e flex\u00edvel repert\u00f3rio de temas e narrativas a ser explorado pelo cinema. Mas em vez disso, os produtores do \u201cRei Artur\u201d preferiram tentar uma abordagem \u201chist\u00f3rica\u201d e n\u00e3o liter\u00e1ria. Do cen\u00e1rio da Idade M\u00e9dia mitol\u00f3gica, somos transportados para o da queda do Imp\u00e9rio Romano na Bretanha. Ao inv\u00e9s de um rei b\u00e1rbaro, temos um soldado romano. Ao inv\u00e9s de uma corte de cavaleiros, temos b\u00e1rbaros s\u00e1rmatas incorporados ao ex\u00e9rcito romano.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">O resultado dessa op\u00e7\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o temos o epis\u00f3dio de Excalibur na bigorna, n\u00e3o temos o romance de Lancelot e Guinevere, n\u00e3o temos a feiticeira Morgana, n\u00e3o temos a trai\u00e7\u00e3o de Mordred, n\u00e3o temos a Dama do Lago, n\u00e3o temos a ilha de Avalon. O problema em rela\u00e7\u00e3o ao presente filme \u201cRei Artur\u201d \u00e9 que o sabor anacr\u00f4nico das recria\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias \u00e9 o que constitui a pr\u00f3pria ess\u00eancia da hist\u00f3ria do rei Artur. Ele existe mais como personagem liter\u00e1rio do que hist\u00f3rico. O filme \u201cRei Artur\u201d opta pela vers\u00e3o hist\u00f3rica, n\u00e3o pela liter\u00e1ria, e a\u00ed est\u00e1 sua fraqueza.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">At\u00e9 certo ponto isso \u00e9 aceit\u00e1vel. N\u00e3o se pode \u201cobrigar\u201d uma produ\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica a ser fiel a uma tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, como o foi Peter Jackson em rela\u00e7\u00e3o a Tolkien. A op\u00e7\u00e3o pela abordagem \u201chist\u00f3rica\u201d pode at\u00e9 ser considerada leg\u00edtima. Mas ainda aqui, n\u00e3o se trata de uma abordagem rigorosamente hist\u00f3rica e sim anacr\u00f4nica. E nesse caso, o anacronismo n\u00e3o \u00e9 criativo e sim destrutivo. O Artur do presente filme \u00e9 uma mix\u00f3rdia de ideologias contradit\u00f3rias amarradas de maneira confusa e superficial para se tornarem palat\u00e1veis para o espectador contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Artur, no filme, \u00e9 quase tudo ao mesmo tempo. \u00c9 soldado romano, defensor da civiliza\u00e7\u00e3o romana, mas \u00e9 tamb\u00e9m um Crist\u00e3o, defensor da Igreja, apesar de ser seguidor da heresia de Pel\u00e1gio (que negava o Pecado Original), cujos disc\u00edpulos negavam tamb\u00e9m a necessidade do batismo. Artur era tamb\u00e9m um comandante dedicado a seus homens, fiel \u00e0 \u00e9tica da lealdade militar, praticamente um membro da tribo s\u00e1rmata de \u201cRus\u201d. Tribo cujos soldados, agregados ao ex\u00e9rcito romano, desejam apenas voltar para suas plan\u00edcies e deixar a Bretanha, o que \u00e9 bastante diferente dos ideais da cavalaria medieval, que ainda assim n\u00e3o deixam de ser mencionados. Artur \u00e9 ainda filho de um soldado romano com uma mulher bret\u00e3, portanto \u00e9 parte do povo celta dos bret\u00f5es, o mesmo povo que combatia como legion\u00e1rio. Ele torna-se assim fundador da nacionalidade brit\u00e2nica.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Temos ent\u00e3o o cristianismo her\u00e9tico do s\u00e9culo V, os id\u00e9ias da cavalaria do s\u00e9culo XII, o nacionalismo brit\u00e2nico do s\u00e9culo XIX, como se fossem todos conceitos intercambi\u00e1veis. Todos esses ingredientes s\u00e3o misturados com uma f\u00e1cil palavra m\u00e1gica: \u201cliberdade!\u201d Com essa senha, o nacionalismo brit\u00e2nico precoce, a nostalgia dos cavaleiros s\u00e1rmatas, a civiliza\u00e7\u00e3o romana, os ideais da cavalaria, a heresia de Pel\u00e1gio s\u00e3o todos unificados. Quem pode ser contra a \u201cliberdade\u201d? At\u00e9 George Bush faz guerra em nome da \u201cliberdade\u201d. N\u00e3o h\u00e1 conceito mais vago do que esse ideal abstrato de \u201cliberdade\u201d, facilmente impingido a qualquer personagem de qualquer narrativa, quando n\u00e3o se pode mergulhar nas suas reais motiva\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Quem pode n\u00e3o entender o que \u00e9 liberdade? Com certeza, os bret\u00f5es que combateram no s\u00e9culo V e o Artur hist\u00f3rico n\u00e3o a entendiam do mesmo modo que n\u00f3s o entendemos. N\u00e3o combatiam em nome da \u201cliberdade\u201d, muito menos da civiliza\u00e7\u00e3o, da Bretanha, do cristianismo, etc. O Artur hist\u00f3rico devia ser mais parecido com \u00c1tila, o huno, do que com o \u201cArthorius\u201d do filme.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Ao que parece, ser\u00e1 preciso esperar por \u201cAlexander\u201d, vers\u00e3o de Oliver Stone para a hist\u00f3ria de Alexandre Magno, para vermos um \u00e9pico de verdade no cinema.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">Daniel M. Delfino<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">27\/09\/2004<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<h1>&ldquo;REI ARTUR&rdquo;: CAD&Ecirc; O C&Aacute;LICE SAGRADO?<\/h1>\n<h1><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/h1>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: center;\" class=\"MsoNormal\">(Coment&aacute;rio sobre os filmes &ldquo;Rei Arthur&rdquo; e &ldquo;Tr&oacute;ia&rdquo;)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9,76],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/64"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=64"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/64\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6120,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/64\/revisions\/6120"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=64"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=64"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=64"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}