{"id":6567,"date":"2018-06-05T18:46:50","date_gmt":"2018-06-05T21:46:50","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=6567"},"modified":"2018-07-07T18:45:34","modified_gmt":"2018-07-07T21:45:34","slug":"por-que-a-indiferenca-no-brasil-com-a-copa-do-mundo-parte-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2018\/06\/por-que-a-indiferenca-no-brasil-com-a-copa-do-mundo-parte-i\/","title":{"rendered":"Por que a indiferen\u00e7a no Brasil com a Copa do Mundo? (parte I)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\" align=\"justify\">Alex Brasil*<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\" align=\"justify\"><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/2018\/07\/por-que-a-indiferenca-no-brasil-com-a-copa-do-mundo-parte-ii\/\">Clique aqui<\/a>\u00a0para ler a parte II.<\/p>\n<h3 align=\"justify\">Introdu\u00e7\u00e3o:<\/h3>\n<p align=\"justify\">Faltando poucos dias para o in\u00edcio da 21\u00aa Copa do Mundo tem chamado a aten\u00e7\u00e3o a indiferen\u00e7a com o qual o evento vem sendo tratado no Brasil, \u00fanico pa\u00eds que participou de todas as edi\u00e7\u00f5es da competi\u00e7\u00e3o. Quase nenhuma rua enfeitada, pintada, bem diferente dos climas de Copas passadas. Os suvenires est\u00e3o encalhados. O Alzir\u00e3o, tradicional ponto de encontro da rua Alzira Brand\u00e3o na Tijuca, Rio de Janeiro quando a tem\u00e1tica \u00e9 a Copa do Mundo, est\u00e1 amea\u00e7ado. De acordo com pesquisa do Instituto Paran\u00e1, 66% dos entrevistados tem pouco ou nenhum interesse no evento e 14,5% n\u00e3o sabem nem onde ser\u00e1 disputada a Copa do Mundo.<\/p>\n<p align=\"justify\">Para ilustrar esse cen\u00e1rio, o jornal &#8220;<strong>Extra<\/strong>&#8221; do dia 27 de maio comentou o fato, ap\u00f3s a chegada da sele\u00e7\u00e3o brasileira para se hospedar na Granja Comary, localizada numa cidade da regi\u00e3o serrana do Rio de Janeiro: &#8220;<em>Quatro anos depois, Teres\u00f3polis recebeu a sele\u00e7\u00e3o entre indiferen\u00e7a e tumulto<\/em>&#8220;. J\u00e1 a revista &#8220;<strong>Isto \u00c9<\/strong>&#8220;, na sua edi\u00e7\u00e3o de maio, al\u00e9m de elencar alguns motivos para a falta de interesse (o trauma da derrota de 7 a 1 para Alemanha, em 2014, a corrup\u00e7\u00e3o na CBF, a aus\u00eancia de legado para o pa\u00eds da \u00faltima Copa) perguntou na sua manchete de capa: &#8220;<em>\u00c9 o fim da P\u00e1tria de chuteiras<\/em>?&#8221;.<\/p>\n<p align=\"justify\">O Instituto DataFolha, em pesquisa realizada em in\u00edcio de maio, apontou que 41% das pessoas se mostraram totalmente desinteressadas quando o assunto \u00e9 futebol e que este percentual sobe para 42%, quando o assunto \u00e9 Copa do Mundo. Ao comentar estes dados, o historiador Airton de Farias falou: \u201c<em>Acho que h\u00e1 sim uma contribui\u00e7\u00e3o do epis\u00f3dio do 7 a 1, mas a redu\u00e7\u00e3o pelo interesse pelo futebol vem de um movimento anterior &#8211; a mercantiliza\u00e7\u00e3o do futebol, que come\u00e7ou principalmente no final da d\u00e9cada de 1970<\/em>\u201d .<\/p>\n<p align=\"justify\">Por seu lado, o o baterista do <strong>Ira<\/strong>, Andr\u00e9 Jung, se manifestou no Facebook: \u201c<em>A um m\u00eas da Copa e nada de verde e amarelo \u2026 sinto que o movimento paneleiro, hoje morto de vergonha, \u00e9 o grande respons\u00e1vel pelo fracasso nas vendas de camisas, bandeiras, faixas e outros s\u00edmbolos p\u00e1trios. A camisa da sele\u00e7\u00e3o virou uniforme de pato.<\/em>\u201d. E Jo\u00e3o Gordo, do <strong>Ratos do Por\u00e3o<\/strong>, resumiu: \u201c<em>T\u00e1 chegando a copa e eu n\u00e3o vejo NINGU\u00c9M com a camisa do Brasil. Porque essa camisa virou sin\u00f4nimo de filho da puta, de golpista<\/em>\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">Por fim, o jornalista Renato Maur\u00edcio Prado, na sua coluna no &#8220;<strong>Jornal do Brasil<\/strong>&#8221; de 30 de maio, foi mais al\u00e9m e constatou: &#8220;<em>Resumo da \u00f3pera: al\u00e9m da impressionante indiferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Copa do Mundo (insisto, at\u00e9 o momento, empolga\u00e7\u00e3o s\u00f3 existe nas propagandas de TV), h\u00e1 no ar at\u00e9 certa antipatia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sele\u00e7\u00e3o brasileira e total falta de identifica\u00e7\u00e3o com a maioria dos jogadores &#8211; que atuam fora do pa\u00eds h\u00e1 muito tempo.<\/em>&#8220;.<\/p>\n<p align=\"justify\">Este artigo, dividido em duas partes, procurar\u00e1 dar a sua contribui\u00e7\u00e3o para esse debate: de como se deu esse processo de constru\u00e7\u00e3o desse s\u00edmbolo chamado sele\u00e7\u00e3o brasileira de futebol, a &#8220;a p\u00e1tria de chuteiras&#8221;, no imagin\u00e1rio do nosso povo e quais os elementos que est\u00e3o levando a sua desconstru\u00e7\u00e3o de forma acelerada.<\/p>\n<h3 align=\"justify\">Surge a Sele\u00e7\u00e3o Brasileira como express\u00e3o do nascente Estado nacional brasileiro (1895-1919)<\/h3>\n<p align=\"justify\">O futebol chegou oficialmente como esporte no Brasil, no final do s\u00e9culo XIX, sete anos depois da &#8220;aboli\u00e7\u00e3o&#8221; da escravid\u00e3o e seis anos ap\u00f3s o fim da monarquia e da proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica. A pr\u00e1tica desse esporte, entretanto, n\u00e3o era republicana e reproduzia a exclus\u00e3o dos negros e filhos de negros, teoricamente &#8220;libertos&#8221;, na sociedade brasileira: era praticado somente pelos filhos da elite brasileira, que mandavam os seus filhos para estudar nos col\u00e9gios na Inglaterra, de onde o jogo foi trazido para o nosso pa\u00eds por Charles Miller.<\/p>\n<p align=\"justify\">Nas tr\u00eas primeiras d\u00e9cadas do seu advento, o futebol disputou com outros esportes a prefer\u00eancia popular (o remo, por exemplo). Mas, mesmo assim a pr\u00e1tica do futebol no Brasil continuou extremamente segregacionista, racista e elitista. Permitia-se somente como praticantes, nos principais clubes, rapazes de boa fam\u00edlia, em sua grande maioria brancos, em fun\u00e7\u00e3o de que era um jogo amador. Assim se combatia a pr\u00e1tica de profissionalismo no jogo e evitava-se, dessa forma, a incorpora\u00e7\u00e3o de negros e mesti\u00e7os, de origens bem mais humildes, que tinham que trabalhar para subsistir.<\/p>\n<p align=\"justify\">Como exemplificando esse racismo, no Fluminense do Rio de Janeiro, o grande clube carioca do in\u00edcio do s\u00e9culo XX, o jogador Carlos Alberto passava p\u00f3 de arroz no rosto para atuar pelo tricolor do bairro nobre das Laranjeiras. Veio desse epis\u00f3dio a identifica\u00e7\u00e3o, at\u00e9 hoje, do torcedor desse clube como p\u00f3 de arroz. Por isso, alguns intelectuais como o jornalista e escritor Lima Barreto (tamb\u00e9m v\u00edtima do racismo) atacavam o futebol, apontando o esporte como &#8220;estrangeirismo&#8221;, agressivo a nossa cultura.<\/p>\n<p align=\"justify\">A exce\u00e7\u00e3o parcial ao racismo vigente se deu justamente com o filho de um alem\u00e3o com uma mulata, de nome Arthur Friedenreich, o &#8220;El Tigre&#8221;, o primeiro grande craque do nosso futebol. Mas, Fried, para jogar no futebol paulista, tinha que disfar\u00e7ar a sua cor, alisando os cabelos crespos. Foi justamente ele que garantiu a primeira conquista do selecionado nacional, em 1919, contra o Uruguai, no campo do Fluminense, em um est\u00e1dio abarrotado de torcedores.<\/p>\n<p align=\"justify\">Essa vit\u00f3ria possibilitou o t\u00edtulo do Sulamericano daquele ano e mexeu com o imagin\u00e1rio popular, rendendo at\u00e9 o famoso choro composto por Pixinguinha, &#8220;1 X 0&#8221;. A sele\u00e7\u00e3o brasileira (que iniciara as suas atividades cinco anos antes e que tinha como fomentador uma entidade jur\u00eddico privada, a Confedera\u00e7\u00e3o Brasileira de Desportos, criada em 1916) poderia ser um instrumento importante a ser usado para a afirma\u00e7\u00e3o do Estado nacional brasileiro, cuja &#8220;independ\u00eancia&#8221; do pa\u00eds sequer tinha completado cem anos. Eram tempos de nacionalismo exacerbado (a 1\u00aa Guerra Mundial, tinha acabado um ano antes).<\/p>\n<h3 align=\"justify\">A crise da &#8220;Rep\u00fablica Velha&#8221; no Estado brasileiro bate no selecionado nacional (1920- julho de 1930)<\/h3>\n<p align=\"justify\">Os anos vinte do s\u00e9culo passado foram de profundas transforma\u00e7\u00f5es na sociedade brasileira, que marcaram o fim da chamada &#8220;Rep\u00fablica Velha&#8221;: o movimento tenentista, a semana de Arte Moderna, o surgimento do Partido Comunista do Brasil (PCB), todos acontecimentos em 1922; a Coluna Prestes; o impulso \u00e0 industrializa\u00e7\u00e3o; o fim do modelo agroexportador da &#8220;sociedade do caf\u00e9 com leite&#8221; e a quebra da Bolsa de Nova York. Diante de um modelo de domina\u00e7\u00e3o que ru\u00eda, surgia um novo que buscava incorporar minimamente ao consumo as amplas massas negras e deserdadas desde o fim da escravid\u00e3o no final do s\u00e9culo passado.<\/p>\n<p align=\"justify\">Neste contexto conturbado, n\u00e3o foi \u00e0 toa a apari\u00e7\u00e3o do Clube de Regatas do Vasco da Gama, em 1923, com 12 atletas negros e semi-profissionalizados no elenco, que arrebataram o t\u00edtulo do campeonato do Distrito Federal daquele ano. A resposta dos outros quatro grandes clubes cariocas (America, Botafogo, Flamengo e Fluminense) foi afastar o Vasco da Liga principal, sob acusa\u00e7\u00e3o de pr\u00e1tica de profissionalismo, e exigir do clube da Cruz de Malta a constru\u00e7\u00e3o de um est\u00e1dio pr\u00f3prio.<\/p>\n<p align=\"justify\">Por detr\u00e1s do argumento de profissionalismo se escondia a motiva\u00e7\u00e3o racista: ora, se o Vasco foi o segundo a introduzir o atleta negro nas suas equipes (a primazia coube ao Bangu Atletic Club, time da f\u00e1brica t\u00eaxtil Bangu), entretanto, foi o primeiro a ganhar o t\u00edtulo carioca, quebrando a hegemonia dos times brancos e de filhos boa fam\u00edlia dos chamados quatro grandes. O Vasco s\u00f3 seria readmitido, tempos depois, ao conv\u00edvio dos grandes com a constru\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Janu\u00e1rio, que virou o maior est\u00e1dio do pa\u00eds, no final dos anos vinte.<\/p>\n<p align=\"justify\">Enquanto o futebol se popularizava na Am\u00e9rica Latina (na Argentina e no Uruguai j\u00e1 tinha sido adotado o profissionalismo) e na Europa (surgiram dezenas de times de f\u00e1brica ou diretamente incentivados pelas correntes majorit\u00e1rias no movimento oper\u00e1rio, como os anarquistas, os comunistas e os sociais-democratas), o futebol brasileiro tamb\u00e9m se popularizava , mas resistia \u00e0 ado\u00e7\u00e3o do profissionalismo, reflexo da crise final da &#8220;Rep\u00fablica Velha&#8221;.<\/p>\n<p align=\"justify\">Na primeira Copa do Mundo (competi\u00e7\u00e3o criada pelo franc\u00eas Julles Rimet, na esteira das Olimp\u00edadas modernas), em julho de 1930 no Uruguai, o Brasil teve participa\u00e7\u00e3o melanc\u00f3lica: foi eliminado na primeira fase, em fun\u00e7\u00e3o de n\u00e3o ter mandado a sua for\u00e7a m\u00e1xima, com o boicote dos paulistas ao selecionado nacional, que era sintoma da disputa pol\u00edtico-econ\u00f4mica entre os diversos estados da Federa\u00e7\u00e3o. O craque brasileiro Preguinho (multi-atleta amador, competidor tamb\u00e9m no basquetebol, atletismo e nata\u00e7\u00e3o pelo Fluminense) n\u00e3o pode fazer muita coisa, assim como o primeiro grande \u00eddolo negro do futebol brasileiro, o vasca\u00edno Fausto dos Santos, apelidado pelos anfitri\u00f5es uruguaios (que se tornaram os campe\u00f5es) de &#8220;A Maravilha Negra&#8221;.<\/p>\n<h3 align=\"justify\">A consolida\u00e7\u00e3o do Estado Moderno burgu\u00eas brasileiro, o profissionalismo no futebol e a sele\u00e7\u00e3o brasileira como pol\u00edtica de Estado (outubro de 1930-1938)<\/h3>\n<p align=\"justify\">A chegada de Get\u00falio Vargas ao poder, em outubro de 1930, encabe\u00e7ando as fra\u00e7\u00f5es burguesas que derrubaram a &#8220;Rep\u00fablica Velha&#8221;, foi alterando, aos poucos, o quadro de crise no futebol brasileiro. Mas, mesmo assim, este continuou mergulhado em situa\u00e7\u00e3o conturbada: muitos craques paulistas, inclusive Friedenreich, pegaram em armas ao lado dos insurgentes paulistas contra a &#8220;Rep\u00fablica Nova&#8221; (1932). Somente, em 1933, foi finalmente adotado o profissionalismo, mas com diversas crises: o campeonato do Rio de Janeiro (ent\u00e3o Distrito Federal e juntamente com o paulista o mais importante do pa\u00eds) ficou dividido em duas ligas por quatro anos.<\/p>\n<p align=\"justify\">No ano de 1934, o Brasil, refletindo essa divis\u00e3o, mais uma vez participou de forma melanc\u00f3lica da II Copa do Mundo, na It\u00e1lia, sendo eliminado no primeiro jogo pela Espanha. Neste certame, os jogadores que tinham aderido ao regime profissional n\u00e3o foram convocados. Mesmo assim, o destaque brasileiro foi mais uma vez um atleta negro, Le\u00f4nidas da Silva, &#8220;contratado&#8221; para atuar pela sele\u00e7\u00e3o &#8220;amadora&#8221; brasileira. Curiosamente, foi na II Copa do Mundo, que o futebol pela primeira vez foi adotado como pol\u00edtica de Estado, como no caso da It\u00e1lia presidida pelo fascista Benito Mussolini, por coincid\u00eancia, campe\u00e3 do mundo naquela competi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">O amadorismo acabou sucumbindo, nos meados dos anos trinta. Ajudou para isto o golpe do Estado Novo, dado por Get\u00falio Vargas em 1937, que procurou controlar, cooptar e canalizar as grandes manifesta\u00e7\u00f5es populares, artistas e intelectuais. Entre essas manifesta\u00e7\u00f5es populares estava o futebol, j\u00e1 de longe o esporte com maior penetra\u00e7\u00e3o entre os brasileiro. A sociologia de Gilberto Freire em &#8220;Casagrande e senzala&#8221; (1933) procurou lastrear e legitimar o &#8220;Estado varguista&#8221; que surgia, tentando justificar a integra\u00e7\u00e3o de polos opostos da sociedade brasileira, casagrande e senzala<\/p>\n<p align=\"justify\">Sob o manto do Estado forte, o futebol, como express\u00e3o popular mais contundente, era parte dessa integra\u00e7\u00e3o pregada por Freire, juntando na torcida em torno do mesmo clube, patr\u00f5es e empregados, ricos e pobres, brancos e negros. Get\u00falio seguia os passos do italiano Mussolini, ali\u00e1s, por quem nutria grande admira\u00e7\u00e3o pelo seu anti-comunismo e pelo controle que exercia sobre as classes subalternas.<\/p>\n<p align=\"justify\">O Clube de Regatas do Flamengo, dentre os clubes brasileiros, foi o que mais habilmente percebeu as mudan\u00e7as que se operavam na sociedade brasileira e seus reflexos no futebol. Deslocado da sua base social anterior (o bairro de classe m\u00e9dia hom\u00f4nimo) e passando a funcionar em uma regi\u00e3o de f\u00e1bricas t\u00eaxteis (a G\u00e1vea do in\u00edcio do s\u00e9culo passado, conhecida como &#8220;G\u00e1vea Vermelha&#8221;, pela atua\u00e7\u00e3o de comunistas e anarquistas), o Flamengo, atrav\u00e9s do seu presidente (o publicit\u00e1rio Jos\u00e9 Bastos Padilha), incorporou o ide\u00e1rio populista do &#8220;Estado varguista&#8221;, de integra\u00e7\u00e3o entre as classes e as ra\u00e7as.<\/p>\n<p align=\"justify\">Neste sentido, o Flamengo tornou seu presidente honor\u00e1rio Get\u00falio Vargas e trouxe para o seu elenco de futebol os quatro maiores craques brasileiros dos anos trinta, todos eles negros: Domingos da Guia, o &#8220;Divino&#8221;, Fausto dos Santos, &#8220;A Maravilha Negra&#8221;, Le\u00f4nidas da Silva, o &#8220;Diamante Negro&#8221; e Valdemar de Brito, o &#8220;Bailarino&#8221;. De um clube decadente que tinha se afastado do seu local de origem, o Flamengo se reinventou e passou a ser o de maior penetra\u00e7\u00e3o popular no Brasil, superando o Vasco da Gama. A r\u00e1dio estatal Nacional tamb\u00e9m ajudou a popularizar em todo o territ\u00f3rio brasileiro o rubro-negro do ent\u00e3o Distrito Federal.<\/p>\n<p align=\"justify\">Como reflexo das mudan\u00e7as operadas na sociedade brasileira, a III Copa do Mundo, de 1938 na Fran\u00e7a, foi tratada de forma diferente pelo governo e pelos dirigentes do futebol brasileiro. O Brasil mandou a sua for\u00e7a m\u00e1xima, chegando ao terceiro lugar, sendo eliminado pela bicampe\u00e3 It\u00e1lia de Mussolini e do craque Piola, de forma pol\u00eamica, nas semi-finais. Le\u00f4nidas da Silva, o artilheiro desta Copa, chegou a ser a terceira pessoa mais popular do pa\u00eds, rivalizando com Get\u00falio Vargas e Orlando Silva, contratado da R\u00e1dio Nacional e conhecido como o &#8220;cantor das multid\u00f5es&#8221;. Por esse motivo, Le\u00f4nidas foi o primeiro jogador a se tornar um garoto-propaganda de sucesso: o chocolate &#8220;Diamante Negro&#8221; (existente at\u00e9 hoje) dava a dimens\u00e3o da popularidade do craque.<\/p>\n<h3 align=\"justify\">O nacional desenvolvimentismo desemboca na IV e V Copas do Mundo (1939-1954)<\/h3>\n<p align=\"justify\">Nos anos quarenta, as Copas do Mundo foram suspensas, assim como as Olimp\u00edadas, em fun\u00e7\u00e3o da II Guerra Mundial (1939-1945). O Brasil ditadorial de Vargas acabou entrando na Guerra, em 1943, contra o Eixo (Alemanha, It\u00e1lia e Jap\u00e3o). V\u00e1rios jogadores de futebol estavam entre os 25 mil soldados da For\u00e7a Expedicion\u00e1ria Brasileira (FEB), entre os quais Per\u00e1cio, jogador da Sele\u00e7\u00e3o de 1938 e atleta do Flamengo. J\u00e1 demonstrando o controle que o Estado Brasileiro tinha sobre o futebol, clubes de origem germ\u00e2nica (Novo Hamburgo do Rio Grande do Sul) e italiana (Palestras It\u00e1lias de S\u00e3o Paulo e de Minas Gerais) fundados pela m\u00e3o de obra imigrante, foram &#8220;incentivados&#8221; a mudarem de nome e se tornaram, respectivamente, Floriano, Palmeiras e Cruzeiro, para sobreviver.<\/p>\n<p align=\"justify\">A afirma\u00e7\u00e3o do Estado Nacional Brasileiro, erguido por cima atrav\u00e9s de um &#8220;Pacto Social&#8221; populista iniciado na era varguista, seguia com controle das classes populares, atrav\u00e9s dos sindicatos e das manifesta\u00e7\u00f5es populares, o que se somava \u00e0 persegui\u00e7\u00e3o ao PCB, colocado novamente na ilegalidade, em 1947, reflexo direto da &#8220;Guerra Fria&#8221;. Surgia tamb\u00e9m com for\u00e7a a literatura esportiva, como express\u00e3o desse contexto: no ano de 1947, o livro cl\u00e1ssico de M\u00e1rio Filho, &#8220;O Negro no Futebol Brasileiro&#8221;, foi um correlato \u00e0 &#8220;Casagrande e Senzala&#8221; da sociologia brasileira. Outros intelectuais e artistas de peso se envolveram profundamente com o futebol (e com o Flamengo), como o escritor e jornalista Jos\u00e9 Lins do Rego e o compositor e radialista Ary Barroso.<\/p>\n<p align=\"justify\">Para afirma\u00e7\u00e3o desse Estado desenvolvimentista (balizado pelos acordos da II Guerra Mundial com o imperialismo norte-americano que permitiram a cria\u00e7\u00e3o da Companhia de Sider\u00fargica Nacional) no cen\u00e1rio mundial, nada melhor do que o patroc\u00ednio brasileiro na IV Copa do Mundo, em 1950 e a constru\u00e7\u00e3o do maior est\u00e1dio de futebol do mundo, o Maracan\u00e3 (ent\u00e3o est\u00e1dio Municipal). Com capacidade para duzentas mil pessoas, o Maracan\u00e3 sobrepujou o Pacaembu, constru\u00eddo em 1942, e por oito anos o maior est\u00e1dio brasileiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">O roteiro da IV Copa do Mundo estava perfeito para diversos pol\u00edticos populistas faturarem com a conquista, tida como certa para a sele\u00e7\u00e3o brasileira de craques como o s\u00e3opaulino Bauer, o vasca\u00edno Danilo e o palmeirense Jair Rosa Pinto. Mas o desfecho foi tr\u00e1gico: o Brasil, precisando de um empate, perdeu a final para o Uruguai. Mesmo assim, Ademir do Vasco acabou como o artilheiro da competi\u00e7\u00e3o e Zizinho, o craque negro do Bangu, foi apontado como o principal jogador do certame. Por\u00e9m, a derrota inesperada trouxe \u00e0 baila novamente o racismo, culpabilizando-se pela trag\u00e9dia os jogadores negros Barbosa (Vasco), Juvenal e Bigode (Flamengo), que, supostamente, teriam tremido para o Uruguai de Obd\u00falio Varella, curiosamente, tamb\u00e9m negro.<\/p>\n<p align=\"justify\">Uma nova tentativa de sucesso no futebol brasileiro ocorreu na V Copa do Mundo da Su\u00ed\u00e7a, em 1954. Dessa vez para afastar o trauma de 50, trocou-se o uniforme do selecionado nacional por um mais &#8220;patri\u00f3tico&#8221;, com todas as cores da bandeira nacional. Esfor\u00e7o em v\u00e3o: um novo fracasso aconteceu com a sele\u00e7\u00e3o brasileira do tricolor Castilho e do ponteiro da Portuguesa de Desportos, Julinho Botelho, sendo ela eliminada pela fort\u00edssima sele\u00e7\u00e3o h\u00fangara, uma das melhores da hist\u00f3ria do futebol, nas quartas de final do Mundial.<\/p>\n<p align=\"justify\">Em tempos de Guerra Fria e na Cor\u00e9ia, de macartismo nos EUA, de crise aguda no segundo governo Vargas, atribuiu-se a derrota brasileira \u00e0 &#8220;conspira\u00e7\u00e3o de comunistas&#8221;. Um exagero, sem d\u00favida, mas, de fato, a hist\u00f3rica sele\u00e7\u00e3o h\u00fangara de Puskas e Kocsis (campe\u00e3 das Olimp\u00edadas de 1952) era a vitrine do regime stalinista h\u00fangaro. Contudo, a sele\u00e7\u00e3o alem\u00e3, da mesma maneira surpreendente que o Uruguai quatro anos antes, acabou derrotando os favoritos h\u00fangaros, de virada. Quarenta e seis anos depois, a Universidade de Humboldt, em Berlim, levantou suspeitas que os atletas alem\u00e3es utilizaram estimulantes injet\u00e1veis para ganhar a final, depois de ter perdido da mesma Hungria na primeira fase por 8 X 3. Ali\u00e1s, a vit\u00f3ria da Alemanha na Copa foi mostrada como marco para a reconstru\u00e7\u00e3o nacional desse pa\u00eds, devastado pela guerra nas d\u00e9cadas anteriores e debilitado pela divis\u00e3o em Alemanha Ocidental e Oriental. J\u00e1 percebia-se que os interesses por detr\u00e1s do futebol extrapolavam em muito os marcos esportivos.<\/p>\n<h3 align=\"justify\">O bicampeonato mundial brasileiro em sele\u00e7\u00f5es e clubes: auge e crise do Estado desenvolvimentista nacional (agosto de 1954-1963)<\/h3>\n<p align=\"justify\">A tentativa de golpe patrocinada pelo imperialismo norte-americano, o suic\u00eddio de Get\u00falio Vargas, o governo provis\u00f3rio de Caf\u00e9 Filho e a elei\u00e7\u00e3o conturbada do populista Juscelino Kubitsckek andaram paralelamente \u00e0 crise instalada no comando da CBD. Para solucion\u00e1-la foi necess\u00e1rio pegar um nome desconhecido: um nadador brasileiro nas Olimp\u00edadas de Berlim em 1936 e posteriormente atleta do p\u00f3lo aqu\u00e1tico, que participou das Olimp\u00edadas de Helsinque em 1952 e ganhou a medalha de bronze no p\u00f3lo nos Jogos Panamericanos de 1955. O desconhecido j\u00e1 era o vice-presidente da Confedera\u00e7\u00e3o Brasileira de Desportos e tamb\u00e9m empres\u00e1rio da Via\u00e7\u00e3o Cometa. Como pr\u00eamio ao seu desempenho nas piscinas, comandou a delega\u00e7\u00e3o brasileira nas Olimp\u00edadas de Melbourne, em 1956. Dois anos depois, se elegeu presidente da CBD, em in\u00edcio de 1958. Seu nome: Jo\u00e3o Havelange.<\/p>\n<p align=\"justify\">Muito se fala da import\u00e2ncia de Havelange para o Brasil ter se consagrado campe\u00e3o mundial em 1958, na VI Copa do Mundo da Su\u00e9cia, at\u00e9 como um correlato de JK no mundo esportivo: empreendedor, ainda que pouco honesto, para n\u00e3o dizer nada. Esquece-se, dessa forma, da extraordin\u00e1ria gera\u00e7\u00e3o de super-craques (encabe\u00e7adas pelos negros Pel\u00e9, Garrincha e Didi) que esteve \u00e0 frente do time brasileiro e que derrotou o futebol cient\u00edfico dos sovi\u00e9ticos, bem como o magistral time franc\u00eas de Kopa e Fontaine.<\/p>\n<p align=\"justify\">Esquece-se tamb\u00e9m o quanto foi importante o advento do Torneio Rio-S\u00e3o Paulo, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 50, que acrescentava bastante aos campeonatos regionais e os campeonatos entre sele\u00e7\u00f5es estaduais vigentes. Foi atrav\u00e9s do Rio-S\u00e3o Paulo que craques cariocas como Castilho, Didi, Garrincha, N\u00edlton Santos, Zagallo, Bellini, Orlando, Vav\u00e1 e Dida se tornaram \u00edntimos da plateia paulista, assim como jogadores paulistas como Pel\u00e9, Pepe, Zito, Gylmar, Mazzolla e Djalma Santos do p\u00fablico carioca. Assim, o Brasil formou um time conhecido dos principais centros futebol\u00edsticos do pa\u00eds.<\/p>\n<p align=\"justify\">Mas, para a conquista do primeiro campeonato mundial, os craques brasileiros precisaram tamb\u00e9m superar, na pr\u00e1tica, um &#8220;relat\u00f3rio sigiloso&#8221;. Este sim, na conta e anu\u00eancia de Jo\u00e3o Havelange, foi produzido pela comiss\u00e3o t\u00e9cnica chefiada pelo empres\u00e1rio das comunica\u00e7\u00f5es Paulo Machado de Carvalho (dono das antigas tev\u00eas Record), onde se recomendava que na escolha para a escala\u00e7\u00e3o entre um atleta branco e um atleta negro, se escolhia o primeiro, mais &#8220;equilibrado emocionalmente&#8221;. Estas li\u00e7\u00f5es farsescas, tiradas dos insucessos anteriores, foram jogadas fora, na lata de lixo da hist\u00f3ria, pelos craques brasileiros, que acabaram com o &#8220;complexo de vira-lata&#8221; do nosso futebol, como escrevia o jornalista e dramaturgo N\u00e9lson Rodrigues, irm\u00e3o de M\u00e1rio Filho.<\/p>\n<p align=\"justify\">A conquista de 1958 coincidiu com a abertura do Estado brasileiro ao capital estrangeiro (principalmente na ind\u00fastria de bens dur\u00e1veis), os famosos &#8220;Cinquenta anos em cinco&#8221; do governo de Juscelino Kubitschek. O pa\u00eds vivia um suposto crescimento e o clima de otimismo respirava-se em outros campos: no esportivo (sele\u00e7\u00e3o brasileira campe\u00e3 mundial de basquete, vit\u00f3rias no t\u00eanis com Maria Esther de Bueno, \u00c9der Jofre campe\u00e3o mundial no boxe), no cultural (surgimento da Bossa Nova e tamb\u00e9m do Cinema Novo) e na cria\u00e7\u00e3o de uma nova capital para o pa\u00eds (Bras\u00edlia) para a integra\u00e7\u00e3o nacional. A conta do endividamento externo desse per\u00edodo viria na d\u00e9cada seguinte, de maneira traum\u00e1tica.<\/p>\n<p align=\"justify\">Na esteira da integra\u00e7\u00e3o nacional, surgiria a Ta\u00e7a Brasil, onde se enfrentariam os campe\u00f5es de cada estado. O campe\u00e3o da Ta\u00e7a Brasil participaria do campeonato sulamericano de clubes (posteriormente, chamado de Ta\u00e7a Libertadores da America), criado em 1960. O campe\u00e3o sulamericano de clubes se enfrentaria com o campe\u00e3o europeu de clubes, pois a Europa tinha criado o seu campeonato continental (a atual Liga dos Campe\u00f5es) desde 1955.<\/p>\n<p align=\"justify\">Na VII Copa do Mundo de 1962, no Chile, o Brasil, j\u00e1 com um time envelhecido e com Pel\u00e9 machucado no segundo jogo, ganhou o bicampeonato, gra\u00e7as \u00e0 atua\u00e7\u00e3o decisiva do botafoguense Amarildo no jogo eliminat\u00f3rio das oitavas de final e \u00e0s performances espetaculares de Man\u00e9 Garrincha. Contou, tamb\u00e9m, as ajudas das arbitragens no jogo contra a Espanha e das artimanhas il\u00edcitas que permitiram a escala\u00e7\u00e3o do ponta-direita do Botafogo na final contra a Tchecoslov\u00e1quia, depois dele ter sido expulso nas semifinais contra o Chile. Definitivamente, o futebol j\u00e1 era um esporte com outros interesses em jogo e que era decidido, na maioria das vezes, por fora das quatro linhas.<\/p>\n<p align=\"justify\">Uma prova disso foi o bicampeonato mundial do Santos de Pel\u00e9, Coutinho, Gylmar, Pepe, Zito, Mauro, Dorval e Meng\u00e1lvio em cima do Milan italiano. Em tr\u00eas jogos conturbados (os dois \u00faltimos no Maracan\u00e3 para uma m\u00e9dia de p\u00fablico de 120 mil pagantes), o Santos prevaleceu a sua fama de melhor time do mundo. Mas, segundo Almir, o Pernambuquinho (que substituiu Pel\u00e9 machucado e que foi o personagem central desses dois jogos) no seu livro de mem\u00f3rias &#8220;Eu e o Futebol&#8221;, os dirigentes do Santos doparam praticamente todo o time praieiro e compraram o juiz argentino das duas partidas.<\/p>\n<p align=\"justify\">A conquista santista de forma tumultuada no final de 1963 coincidiu com o final tumultuado do governo Jo\u00e3o Goulart. Depois de uma breve experi\u00eancia parlamentarista (entre os primeiros ministros experimentados o que ficou mais tempo foi Tancredo Neves), Jo\u00e3o Goulart, atrav\u00e9s de um plebiscito, passou a ser presidente de direito e de fato e tentou implementar o projeto nacionalista burgu\u00eas, atrav\u00e9s das Reformas de base. Entretanto, os &#8220;Cinquenta anos em cinco&#8221; de JK deram mais peso no cen\u00e1rio nacional \u00e0s fra\u00e7\u00f5es burguesas ligadas \u00e0s corpora\u00e7\u00f5es internacionais, ao capital rentista e \u00e0s empreiteiras. A conta do desenvolvimentismo de JK estava sendo cobrada.<\/p>\n<h3 align=\"justify\">O Golpe de 1964, a conquista do Estado e a crise na Sele\u00e7\u00e3o Brasileira, identificada com o projeto anterior (1964-68)<\/h3>\n<p align=\"justify\">O Golpe Militar de 01 de abril de 1964 procurou abortar o projeto nacional-desenvolvimentista burgu\u00eas para o Estado brasileiro, alimentado de forma quase ininterrupta pelos populistas, da d\u00e9cada de 30 \u00e0 d\u00e9cada de sessenta, al\u00e9m de tentar acabar com a organiza\u00e7\u00e3o de trabalhadores, estudantes e camponeses, afastando, assim, qualquer amea\u00e7a do surgimento no pa\u00eds, de uma nova &#8220;China&#8221;, &#8220;Cuba&#8221;, ou &#8220;Vietn\u00e3&#8221;, pa\u00edses sacudidos, no per\u00edodo, por revolu\u00e7\u00f5es sociais. Diga-se de passagem, a sele\u00e7\u00e3o brasileira estava colada, desde os anos 30, a esse projeto nacional-desenvolvimentista.<\/p>\n<p align=\"justify\">Dirigentes de clubes importantes como o Corinthians, a Portuguesa de Desportos, o Palmeiras e S\u00e3o Paulo foram express\u00f5es da sociedade civil de apoio ao Golpe. O est\u00e1dio Caio Martins, em Niter\u00f3i, foi utilizado como pris\u00e3o de perseguidos pelo golpe, antecipando nove anos o que iria ocorrer com o est\u00e1dio Nacional, em Santiago do Chile, por ocasi\u00e3o do golpe chefiado pelo general Augusto Pinochet.<\/p>\n<p align=\"justify\">Um dos primeiros reflexos do Golpe de 1964 foi, em seguida, o afastamento da URSS da Ta\u00e7a das Na\u00e7\u00f5es (torneio patrocinado pela Confedera\u00e7\u00e3o Brasileira de Desportos, preparat\u00f3rio para a conquista do tricampeonato em 1966) por exig\u00eancia do reacion\u00e1rio Paulo Machado de Carvalho. Mesmo com uma Ta\u00e7a &#8220;comportada, sem comunistas&#8221;, aben\u00e7oada pela presen\u00e7a da realeza inglesa, o Brasil foi eliminado de forma contundente pela Argentina.<\/p>\n<p align=\"justify\">As li\u00e7\u00f5es dessa derrota n\u00e3o foram tiradas: a sele\u00e7\u00e3o brasileira continuou a ser manipulada politicamente para respaldar a ditadura que se instalava. Aquela que foi considerada a melhor gera\u00e7\u00e3o produzida pelo futebol brasileiro (o cruzamento da gera\u00e7\u00e3o bicampe\u00e3 do mundo com a gera\u00e7\u00e3o que explodiria em 1970, baseado em tr\u00eas times hist\u00f3ricos, Santos, Botafogo e Palmeiras) foi desperdi\u00e7ada, de maneira irrespons\u00e1vel: para a conquista do tricampeonato na VIII Copa do Mundo na Inglaterra foram convocados 45 jogadores, formaram-se 4 times, que algumas vezes, atuavam de forma concomitante, em estados diferentes. O objetivo era utilizar a sele\u00e7\u00e3o brasileira para as elei\u00e7\u00f5es de 1966, as primeiras que o regime militar enfrentava. Ora, pensavam os dirigentes brasileiros, as prioridades eram outras, pois o tricampeonato mundial era tido como certo.<\/p>\n<p align=\"justify\">Sem um time definido, com jogadores mal treinados e preparados, o Brasil, de forma surpreendente para alguns, foi eliminado na primeira fase, aquele que foi considerado para muitos (at\u00e9 os 7 X 1 de 2014), o maior vexame da hist\u00f3ria do futebol brasileiro. A Inglaterra foi campe\u00e3, batendo, em jogos em que a arbitragem lhe favoreceu, Argentina e Alemanha. A elimina\u00e7\u00e3o brasileira foi t\u00e3o surpreendente que o Servi\u00e7o Nacional de Investiga\u00e7\u00e3o (SNI) decidiu apurar se o resultado n\u00e3o fora consequ\u00eancia de uma sabotagem para desmoralizar n\u00e3o somente o selecionado nacional, mas tamb\u00e9m o rec\u00e9m-iniciado regime militar.<\/p>\n<p align=\"justify\">O presidente da CBD desde 1957, Jo\u00e3o Havelange, era suspeito de corrup\u00e7\u00e3o e foi um dos investigados. A sele\u00e7\u00e3o brasileira chegou a \u00edndices baix\u00edssimos de popularidade e jogava para p\u00fablicos irris\u00f3rios, se tratando de um selecionado nacional bicampe\u00e3o do mundo. Contraditoriamente, o futebol brasileiro incorporava novas for\u00e7as regionais (Minas Gerais e Rio Grande do Sul, em primeiro plano, e Bahia, Paran\u00e1 e Pernambuco, em segundo plano) e o Torneio Rio-S\u00e3o Paulo foi ampliado, com a incorpora\u00e7\u00e3o de times dos estados emergentes, se tornando Torneio Roberto Gomes Pedrosa, embri\u00e3o do futuro Campeonato Brasileiro, que substituiria, aos poucos a Ta\u00e7a Brasil. Novos est\u00e1dios com capacidade para dezenas de milhares de torcedores surgiram como o Beira-Rio, o Mineir\u00e3o e o Morumbi.<\/p>\n<p align=\"justify\">No ano de 1968, a sele\u00e7\u00e3o brasileira fez uma pol\u00eamica excurs\u00e3o a Europa, bastante criticada. Mal se sabia que ali estava sendo montado o time que seria considerado o maior da hist\u00f3ria do futebol, dois anos depois. Por\u00e9m, naquele ano, tudo estava sendo questionado por movimentos, explos\u00f5es e revolu\u00e7\u00f5es sociais como o Maio Franc\u00eas, a Primavera de Praga, os Panteras Negras, a contracultura norte-americana e os protestos contra a guerra imperialista ianque no Vietn\u00e3, os vietcongs, as rebeli\u00f5es estudantis no M\u00e9xico, Argentina e Brasil etc.<\/p>\n<p align=\"justify\">Como resposta a essa situa\u00e7\u00e3o, o regime militar deu &#8220;o Golpe dentro do Golpe&#8221;, editando o AI-5, legitimando o Estado de Exce\u00e7\u00e3o ditatorial que j\u00e1 existia. Era necess\u00e1rio criar mais v\u00e1lvulas de escapes para a grande massa: se os clubes nacionais continuavam fortes (destaques para o Santos, Botafogo e o Cruzeiro-MG), revelando craques e mais craques e enchendo est\u00e1dios, era tamb\u00e9m fundamental resgatar no imagin\u00e1rio do povo brasileiro, algo que o fizesse sentir orgulho da imagem do pa\u00eds, atacado externamente por den\u00fancias feitas na imprensa internacional de tortura e maus tratos aos presos pol\u00edticos. Esse algo a mais tinha nome e sobrenome: sele\u00e7\u00e3o brasileira de futebol. Era necess\u00e1rio retomar o projeto do selecionado nacional, abandonado desde 1966. Jo\u00e3o Havelange, not\u00f3rio corrupto, ainda poderia ser muito \u00fatil nessa empreitada.<\/p>\n<h3 align=\"justify\">O &#8220;Topo&#8221; do comunista Jo\u00e3o Saldanha e &#8220;a Epopeia do Tri&#8221; do selecionado nacional: contradi\u00e7\u00f5es no \u00e1pice do Estado de Exce\u00e7\u00e3o (1969-junho de 70)<\/h3>\n<p align=\"justify\">De forma surpreendente, Havelange convidou o jornalista comunista Jo\u00e3o Saldanha, ex-treinador campe\u00e3o pelo Botafogo do Rio, para ser o t\u00e9cnico da sele\u00e7\u00e3o. Saldanha se destacara como o cr\u00edtico mais feroz dos bastidores do futebol brasileiro, sua den\u00fancia contra a explora\u00e7\u00e3o dos jogadores de futebol pelos cartolas, contra o suborno e o doping, contra a pedofilia nas divis\u00f5es de base dos clubes. A CBD estave sempre na sua al\u00e7a de mira. Havelange, dessa forma, n\u00e3o s\u00f3 procurava resgatar a popularidade contratando um jornalista carism\u00e1tico, mas tamb\u00e9m procurava silenciar a imprensa e seu mais ferino jornalista.<\/p>\n<p align=\"justify\">O regime militar engoliu esse &#8220;sapo&#8221;. Sabia, de longa data, das atividades e do posicionamento pol\u00edtico do Jo\u00e3o &#8220;Sem Medo&#8221;, que chegara a ser baleado, no final dos anos quarenta em um congresso estudantil, pelo policial do DOPS, Cecil Borer, o mesmo que balearia o guerrilheiro Carlos Marighella, em 1964. Jo\u00e3o tamb\u00e9m participara ativamente da luta pela terra no Paran\u00e1 e fora &#8220;pombo correio&#8221; de Marighella na greve geral que paralisou S\u00e3o Paulo, em 1953. Mas, para os militares, era necess\u00e1rio resgatar o apoio popular \u00e0 sele\u00e7\u00e3o brasileira, e, nesse intuito, Saldanha poderia ser muito \u00fatil. Foi o que se comprovou.<\/p>\n<p align=\"justify\">Definindo seus titulares e reservas, sem aceitar intromiss\u00f5es, Saldanha, em uma campanha fulminante, conduziu o Brasil, que ganhou todos os jogos e classificou-se nas eliminat\u00f3rias da IX Copa do Mundo, que se realizaria no M\u00e9xico, em 1970. Sua popularidade superava a de Pel\u00e9 e a do artilheiro brasileiro, Tost\u00e3o. &#8220;As Feras do Saldanha&#8221; elevaram a confian\u00e7a no selecionado nacional a patamares \u00edmpares na hist\u00f3ria do nosso futebol. O objetivo estava alcan\u00e7ado. Era necess\u00e1rio, agora, se livrar do estorvo de se ter no comando um treinador comunista.<\/p>\n<p align=\"justify\">A arapuca come\u00e7ou com provoca\u00e7\u00f5es p\u00fablicas do ent\u00e3o treinador do Atl\u00e9tico Mineiro e depois do Flamengo (Yustrich). A temperatura subiu, na passagem de Saldanha no M\u00e9xico para escolher a concentra\u00e7\u00e3o brasileira, quando ele montou um dossi\u00ea, em que citava mais de 3.000 presos pol\u00edticos e centenas de mortos e torturados pela ditadura militar e o distribuiu ao Observer e Le Monde e outros meios de comunica\u00e7\u00e3o europeus.. E temperatura continuou a subir com a oposi\u00e7\u00e3o de Pel\u00e9, que se aproveitou de um trope\u00e7o da sele\u00e7\u00e3o brasileira frente \u00e0 Argentina, para questionar as orienta\u00e7\u00f5es t\u00e1ticas de Jo\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">O epis\u00f3dio envolvendo o pedido do ditador M\u00e9dici para que se convocasse o atacante Dario do Atl\u00e9tico-MG foi o estopim: Saldanha respondeu de forma brusca e n\u00e3o atendeu o pedido. Parecia que n\u00e3o somente a ditadura queria se ver livre do treinador, bem como ele pretendia sair do comando: Jo\u00e3o barrou Pel\u00e9 (para ele parte do compl\u00f4), insinuando que o craque n\u00e3o estava enxergando direito. Ele sabia que estava em um terreno minado: praticamente todo comando t\u00e9cnico era formado por militares, inclusive com a presen\u00e7a do torturador capit\u00e3o Jos\u00e9 Bonetti e do major Ypiranga Guaranys, do SNI, futuro agente da repress\u00e3o no exterm\u00ednio da Guerrilha do Araguaia, quatro anos depois. O preparador f\u00edsico, capit\u00e3o Claudio Coutinho, era informante e irm\u00e3o do coronel Ronaldo Coutinho, que em 2004, confirmou que o coronel Jarbas Passarinho, ministro da Educa\u00e7\u00e3o e um dos articulistas do AI-5, j\u00e1 tinha acertado com Havelange a troca do comando t\u00e9cnico da sele\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">Saldanha n\u00e3o tamb\u00e9m queria ser usado: ele tinha absoluta confian\u00e7a no potencial do seu time e sabia que o regime militar ia querer usar a conquista do tricampeonato, como tinha ocorrido nas partidas eliminat\u00f3rias entre Honduras e El Salvador, usadas como pretexto para um confronto militar entre os dois pa\u00edses, em 1969, epis\u00f3dio que ficou conhecido como &#8220;A Guerra do Futebol&#8221;, que matou tr\u00eas mil pessoas.<\/p>\n<p align=\"justify\">Como consequ\u00eancia do seu posicionamento, o &#8220;Jo\u00e3o Sem Medo&#8221; acabou caindo, entrando no seu lugar Zagallo. Este, para agradar M\u00e9dici, acabou convocando Dario, cortando o craque cruzeirense Dirceu Lopes. Mas, mantendo oito dos titulares de Saldanha e colocando tr\u00eas dos seus reservas, Zagallo confirmou a confian\u00e7a que Jo\u00e3o tinha no seu time e ganhou o tricampeonato, vencendo todos os jogos. Para muitos analistas, o maior time de futebol da hist\u00f3ria (Carlos Alberto, Piazza, Clodoaldo, Jairzinho, G\u00e9rson, Tost\u00e3o, Pel\u00e9 e Rivellino, entre outros). A ditadura, como tamb\u00e9m Jo\u00e3o previa, faturou horrores politicamente com a conquista: M\u00e9dici se popularizou e se tornou uma pessoa frequente nos est\u00e1dios de futebol, nos jogos da sele\u00e7\u00e3o, do Gr\u00eamio e do Flamengo.<\/p>\n<h3 align=\"justify\">O p\u00f3s-Copa: da euforia \u00e0 crise do regime militar com consequ\u00eancias no selecionado nacional (julho de 1970-1978)<\/h3>\n<p align=\"justify\">Em junho 1970, no embalo da participa\u00e7\u00e3o brasileira na Copa do M\u00e9xico, foi criada a Loteria Esportiva. Um jogo de azar, cujo o &#8220;banqueiro&#8221; era o governo federal. Saldanha, j\u00e1 de volta a sua trincheira de jornalista, criticou profundamente o jogo, apontando que o mesmo ajudaria a tirar o torcedor mais humilde dos est\u00e1dios, que preferia apostar na loteria, a comprar um ingresso mais popular. Na verdade, a &#8220;loteca&#8221; era uma forma de vender o sonho de prosperidade para os exclu\u00eddos no Brasil do &#8220;Milagre Econ\u00f4mico&#8221;.<\/p>\n<p align=\"justify\">No ano seguinte, foi realizado o I Campeonato Brasileiro, buscando envolver todo o territ\u00f3rio nacional: o futebol era cada vez mais utilizado como forma de anestesiar as grandes massas populares. Novos est\u00e1dios foram constru\u00eddos: o Rei Pel\u00e9, em Alagoas, o Fonte Nova, na Bahia, o Castel\u00e3o, no Cear\u00e1, o Serra Dourada, em Goi\u00e1s, o Vivald\u00e3o, no Amazonas e o Mangueir\u00e3o, no Par\u00e1 etc.<\/p>\n<p align=\"justify\">Em 1972, Jo\u00e3o Havelange, de olho na presid\u00eancia da FIFA e nos neg\u00f3cios que ela poderia proporcionar, convenceu o regime militar para a realiza\u00e7\u00e3o da Ta\u00e7a da Independ\u00eancia, a Mini-Copa, com o objetivo de comemorar os 150 anos da independ\u00eancia. A ditadura,, voltada para o exterm\u00ednio dos \u00faltimos guetos da luta, pretendia manter a sensa\u00e7\u00e3o criada com a conquista do tricampeonato viva e concordou com Havelange. De certa forma, os idealizadores conseguiram o seu intento: mesmo n\u00e3o jogando bem, o Brasil ganhou o torneio. Havelange tamb\u00e9m conseguiu cabalar bastante votos de pa\u00edses africanos e centro-americanos (representados na competi\u00e7\u00e3o por sele\u00e7\u00f5es continentais) para a sua campanha para a presid\u00eancia da FIFA.<\/p>\n<p align=\"justify\">Em seguida, o governo militar e os dirigentes do futebol brasileiro procuraram, pela primeira vez, apostar na conquista da medalha de ouro nas Olimp\u00edadas de Munique. O fracasso retumbante na primeira fase da competi\u00e7\u00e3o foi o aviso do que poderia ocorrer dois anos depois na Copa a ser realizada no mesmo pa\u00eds. Entretanto, o que mais chamou no selecionado ol\u00edmpico brasileiro foi a n\u00e3o convoca\u00e7\u00e3o do jogador que o classificara na competi\u00e7\u00e3o: Zico. Trinta anos depois se saberia os reais motivos da n\u00e3o convoca\u00e7\u00e3o do atleta do Flamengo: ele era irm\u00e3o de Nando Antunes e primo de Cec\u00edlia Coimbra, que tinham sido presos pol\u00edticos da ditadura brasileira.<\/p>\n<p align=\"justify\">Na X Copa do Mundo, na Alemanha Ocidental, em 1974, apesar da excelente safra de jogadores, o Brasil jogou com medo. Zagallo deixou o craque palmeirense Ademir da Guia no banco e sequer convocou Zico, j\u00e1 o melhor jogador do Campeonato Brasileiro daquele ano, talvez pelos mesmos motivoss que o levaram a n\u00e3o ser chamado nas Olimp\u00edadas. A concentra\u00e7\u00e3o brasileira era cercada militarmente, com receio de que ocorresse com os jogadores brasileiros, a matan\u00e7a que vitimou atletas israelenses, nos jogos de Munique. Tanto medo que o futebol brasileiro, ap\u00f3s uma campanha med\u00edocre, foi suplantado pelo futebol total do Carrossel holand\u00eas, de Cruijff e companhia. Estes, entretanto, perderam a final para a Alemanha Ocidental de Beckembauer.<\/p>\n<p align=\"justify\">Havelange n\u00e3o se preocupou com o rev\u00e9s, pois conseguira o seu intento: ser eleito presidente da poderosa FIFA. Entre o ingl\u00eas Stanley Ross, que tentava a reelei\u00e7\u00e3o e que defendia uma Copa do Mundo com somente com oito pa\u00edses em um movimento contr\u00e1rio \u00e0 internacionaliza\u00e7\u00e3o do Capital, e outro que prometia aumentar o n\u00famero de participantes, vingou o \u00faltimo. Havelange antevia que as competi\u00e7\u00f5es patrocinadas pela FIFA, desde que ampliassem os seus participantes, poderia atrair muito Capital, como o de cervejarias, fabricantes de material esportivo, ind\u00fastrias de refrigerante, bancos etc, \u00e1vidos por novos mercados consumidores. Em pouco mais de duas d\u00e9cadas, Havelange transformaria a FIFA em uma entidade com mais pa\u00edses filiados do que a ONU.<\/p>\n<p align=\"justify\">Entretanto, os militares, preocupados com o fim do &#8220;Milagre Econ\u00f4mico&#8221; e sem mais ver utilidade em ter o corrupto Havelange no comando da CBD, tiraram o mesmo do posto, em janeiro de 1975, colocando no seu lugar o almirante Heleno Nunes, presidente da ARENA (partido da ditadura) fluminense, Heleno Nunes come\u00e7ou a inchar o Campeonato Brasileiro: comentava-se que o lema do almirante era &#8220;onde a ARENA vai mal, um time no Nacional&#8221;.<\/p>\n<p align=\"justify\">Como a copiar a CBD, o Botafogo, clube fundamental para a conquista do tricampeonato mundial pelo Brasil e o preferido por um setor consider\u00e1vel da cr\u00f4nica esportiva carioca (parte dela entricheirada no oposicionista <strong>Jornal do Brasil<\/strong>), passou a ter como presidente, em 1976, Charles Borer, irm\u00e3o do policial Cecil do DOPS, o mesmo que baleou Jo\u00e3o Saldanha e Carlos Marighella.<\/p>\n<p align=\"justify\">Registre-se: mesmo com a presen\u00e7a da ditadura policial no futebol brasileiro, a safra de jogadores revelados naquele per\u00edodo ainda continuava excelente. Os campeonatos regionais atra\u00edam mais interesse que o Campeonato Brasileiro, como demonstrou a como\u00e7\u00e3o nacional causada pela final do campeonato paulista de 1977 ganha pelo Corinthians, ainda que a final do Brasileiro de 1975 (Internacional-RS e Cruzeiro-MG) e a invas\u00e3o da torcida corintiana no Maracan\u00e3, nas semifinais do Brasileiro de 1976, tenham mobilizado a opini\u00e3o p\u00fablica do pa\u00eds.<\/p>\n<p align=\"justify\">Uma prova da grande for\u00e7a do mercado interno brasileiro \u00e9 que a sele\u00e7\u00e3o nacional, nos preparativos para a XII Copa do Mundo que ia ser realizada na Argentina em 1978, disputou uma Copa America com uma sele\u00e7\u00e3o mineira e entre os seus jogos amistosos para o Mundial, intercalando com amistosos e competi\u00e7\u00f5es internacionais, jogou tamb\u00e9m com dois combinados de clubes brasileiros e com sete selecionados regionais.<\/p>\n<p align=\"justify\">Mas, apesar de afastado da CBD, Havelange continuava um homem de confian\u00e7a do regime militar: o Brasil participava da Opera\u00e7\u00e3o Condor, envolvendo principalmente as ditaduras argentina, uruguaia, chilena e paraguaia e ele estava em um posto chave. Segundo denunciou o ponta-direita brasileiro na Copa da Argentina, &#8220;B\u00fafalo&#8221; Gil, o presidente da FIFA, em prele\u00e7\u00e3o aos jogadores brasileiros, disse que ficaria satisfeito se a Argentina fosse campe\u00e3 mundial pela primeira vez. Assim, Havelange cerrava fileiras com a Argentina do general Videla contra a campanha internacional puxada pelo craque holand\u00eas Cruijff de boicote ao certame. Consequentemente, Cruijff se recusou a particpar da Copa.<\/p>\n<p align=\"justify\">O desejo de Havelange acabou se confirmando: com uma sele\u00e7\u00e3o com um regime de caserna (jogadores considerados rebeldes como Paulo C\u00e9zar Caju, Marinho e Falc\u00e3o, n\u00e3o foram convocados) e novamente com um comando militar (cujo treinador era o capit\u00e3o Claudio Coutinho e que acabou perdendo a dire\u00e7\u00e3o do time para o almirante Heleno Nunes, que barrou tr\u00eas jogadores na terceira partida), o Brasil, apesar da muito boa qualidade dos seus jogadores, assistiu paralisado o arranjo entre as ditaduras da Argentina e Peru, no jogo entre esses pa\u00edses, que o tirou do p\u00e1reo. A Argentina de Kempes se tornaria campe\u00e3 mundial em cima da Holanda. E os militares argentinos, com o aprendizado adquirido com a ditadura brasileira, capitalizaram horrores com a conquista.<\/p>\n<p align=\"justify\">Havelange tamb\u00e9m estava satisfeito por outro motivo: foi a Copa onde ele deixaria, pela primeira vez, a sua marca: quase todas as 16 sele\u00e7\u00f5es participantes tinham os fornecedores de material esportivo n\u00e3o somente nas chuteiras, mas agora estampados tamb\u00e9m nas camisas e cal\u00e7\u00f5es, seja da Adidas, seja da Puma, empresas da fam\u00edlia Dassler, outrora fornecedora de cal\u00e7ados para os nazistas.<\/p>\n<h3 align=\"justify\">Transi\u00e7\u00e3o militar-civil no Brasil e no comando do futebol brasileiro e a sele\u00e7\u00e3o de Tel\u00ea (1979-julho de 1982)<\/h3>\n<p align=\"justify\">Mesmo exterminando toda a oposi\u00e7\u00e3o armada e parte da oposi\u00e7\u00e3o civil, o regime militar brasileiro vivia a sua \u00faltima fase, espremido pela crise do endividamento externo (que aumentara bastante desde 1964) e pela retomada das lutas sociais. Nas elei\u00e7\u00f5es parlamentares de 1978, o governo fora novamente derrotado. A sa\u00edda de &#8220;inchar o Campeonato Nacional&#8221; (come\u00e7ara com 26 clubes, em 1971 e estava com 94, em final dos anos setenta) jogava mais crise no futebol brasileiro, a v\u00e1lvula de escape preferida do regime. Como resultado, a sele\u00e7\u00e3o brasileira ficou em um modesto 3\u00ba lugar na Copa America de 1979 e tr\u00eas dos principais clubes paulistas (Santos, Corinthians e S\u00e3o Paulo) boicotaram o Brasileiro daquele ano, em fun\u00e7\u00e3o de briga com a poderosa Federa\u00e7\u00e3o Paulista do Futebol, agora dirigida por Nabi Abi Chedid, tamb\u00e9m da ARENA e correligion\u00e1rio de Heleno Nunes.<\/p>\n<p align=\"justify\">Era necess\u00e1rio repaginar a combalida CBD, assim como os velhos partidos (ARENA e MDB) foram repaginados pela reforma partid\u00e1ria da ditadura, na virada da d\u00e9cada de setenta para oitenta. Surgia a Confedera\u00e7\u00e3o Brasileira de Futebol, um campeonato brasileiro com primeira e segunda divis\u00f5es, sendo o principal &#8220;somente&#8221; com 40 clubes. A discuss\u00e3o de empresariamento do futebol brasileiro vinha com for\u00e7a, atrav\u00e9s principalmente de M\u00e1rcio Braga, presidente do Flamengo, que dera sorte de estar no clube rubro-negro, no momento em que se colhia os excelentes resultados obtidos de anos de investimento nas divis\u00f5es de base, anteriores a Braga, que redundaram em um elenco \u00edmpar. A revista <strong>PLACAR<\/strong>, principal publica\u00e7\u00e3o esportiva do pa\u00eds (e outrora reduto de jornalistas esquerdistas muito deles vinculados ao PCB), atrav\u00e9s do seu jornalista respons\u00e1vel Juca Kfouri, refor\u00e7ava a campanha pelo empresariamento do futebol, de publicidade de empresas na camisa e de televisamento dos jogos.<\/p>\n<p align=\"justify\">Mais uma vez, uma das \u00fanica vozes dissonantes foi a do jornalista Jo\u00e3o Saldanha. Ele chamava aten\u00e7\u00e3o de porque era contr\u00e1rio a qualquer publicidade, mesmo de material esportivo. Alertou ele, profeticamente: &#8220;<em>Daqui a pouco, voc\u00ea vai torcer por um balancete contra o outro&#8221;. A discuss\u00e3o de publicidade impunha, obviamente, o televisamento. Jo\u00e3o era contr\u00e1rio qualquer televisamento, inclusive o v\u00eddeo-tape do jogo e &#8220;os melhores momentos<\/em>&#8220;. Sua solu\u00e7\u00e3o passava pela presen\u00e7a do povo nos est\u00e1dios. Para ele o futebol era a principal manifesta\u00e7\u00e3o cultural brasileira, era preciso saber valoriz\u00e1-la. Equivocadamente, entretanto, Saldanha defendia que o ingresso brasileiro nos est\u00e1dios era extremamente barato e que deveria ser majorado para enfrentar o ass\u00e9dio de clubes estrangeiros aos jogadores brasileiros.<\/p>\n<p align=\"justify\">O comando militar no futebol brasileiro foi trocado: saiu o almirante Heleno Nunes da presid\u00eancia da Confedera\u00e7\u00e3o Brasileira e entrou o empres\u00e1rio e torcedor do America-RJ, Giulite Coutinho; no comando t\u00e9cnico, deixou o cargo o capit\u00e3o Claudio Coutinho e assumiu o treinador palmeirense Tel\u00ea Santanna. Aos poucos, tamb\u00e9m se preparava a transi\u00e7\u00e3o militar-civil no comando do pa\u00eds. O s\u00edmbolo da CBF na camisa do selecionado nacional acabou sendo trocado: a tradicional cruz de malta da CBD deu lugar a imagem da ta\u00e7a Julles Rimet. Agregado a ela, o discreto s\u00edmbolo do Instituto Brasileiro de Caf\u00e9, o patrocinador da sele\u00e7\u00e3o, o raminho de caf\u00e9.<\/p>\n<p align=\"justify\">O Brasil continuava a produzir excelentes times e jogadores. Em 1981, o Flamengo reconquistava o t\u00edtulo Mundial Inter-Clubes para o futebol brasileiro, ap\u00f3s 18 anos, um torneio que andou desvalorizado nos anos setenta, mas que foi revitalizado pelo patroc\u00ednio da empresa montadora automobil\u00edstica japonesa Toyota. Tudo parecia apontar para a conquista brasileira na XIII Copa do Mundo a ser realizada na Espanha, em 1982, a primeira que contaria com 24 sele\u00e7\u00f5es: Havelange cumpria assim sua promessa com as federa\u00e7\u00f5es esportivas dos pa\u00edses que o elegeram e a FIFA ampliava os seus neg\u00f3cios.<\/p>\n<p align=\"justify\">Entretanto, reproduzindo o autoritarismo vigente, Tel\u00ea evitou convocar jogadores pol\u00eamicos ou de opini\u00e3o forte (os goleiros Le\u00e3o do Gr\u00eamio e Raul do Flamengo e os atacantes Reinaldo do Atl\u00e9tico Mineiro, Tita do Flamengo e M\u00e1rio S\u00e9rgio do S\u00e3o Paulo), e, pela primeira vez na hist\u00f3ria, a sele\u00e7\u00e3o brasileira convocou dois jogadores para a Copa que atuavam em clubes do exterior. Tel\u00ea Santanna, com alguma raz\u00e3o, apostou unicamente na excel\u00eancia da maioria dos seus jogadores do seu elenco (Leandro, J\u00fanior, Cerezo, S\u00f3crates, Falc\u00e3o, Zico e \u00c9der, principalmente). A sele\u00e7\u00e3o brasileira ganhou, como na Copa de 1970, a confian\u00e7a popular foi retomada e as ruas das cidades foram pintadas e enfeitadas<\/p>\n<p align=\"justify\">Quase todas as apostas de Tel\u00ea deram muito certo, com exibi\u00e7\u00f5es de gala, at\u00e9 o confronto com a It\u00e1lia de Paolo Rossi. Depois de dois anos suspenso por envolvimento com a m\u00e1fia da loteria esportiva italiana, o atacante italiano foi decisivo para eliminar o futebol arte do Brasil (que s\u00f3 precisava do empate) e conduzir a sele\u00e7\u00e3o italiana e seu futebol pragm\u00e1tico ao t\u00edtulo mundial. Para alguns, a derrota da sele\u00e7\u00e3o brasileira de Tel\u00ea (com o seu capit\u00e3o contestador, o carism\u00e1tico e polemizador S\u00f3crates) simbolizou, naquele momento, a derrota de um projeto aut\u00f4nomo de na\u00e7\u00e3o brasileira e da sua pr\u00f3pria identidade.<\/p>\n<h3 align=\"justify\">O fim do regime militar, a decep\u00e7\u00e3o com a &#8220;Nova Rep\u00fablica&#8221; e a derrota hist\u00f3rica do futebol arte brasileiro (agosto de 1982 a julho de 1986)<\/h3>\n<p align=\"justify\">Ap\u00f3s a derrota na Copa, que o regime militar esperava capitalizar, abriu-se um dos per\u00edodos mais conturbados da hist\u00f3ria da sociedade e do futebol brasileiro. Neste \u00faltimo, a den\u00fancia explosiva da revista <strong>Placar<\/strong> sobre o funcionamento da M\u00e1fia da Loteria brasileira no ano de 1982, reproduzindo o que tinha sido o Totonnero italiano, dois anos antes. Ao mesmo tempo, a revista dava destaque a experi\u00eancia inovadora da &#8220;Democracia Corintiana&#8221;, comandada por S\u00f3crates, Casagrande e Vladimir, que foi embalada pela clima contestador que existia no pa\u00eds (muitas e greves e lutas contra o arrocho salarial e o desemprego) e pela multitudin\u00e1ria campanha das &#8220;Diretas, J\u00e1&#8221;, que encurralou o regime militar, mas que acabou sendo derrota em fun\u00e7\u00e3o dos acordos envolvendo governo e &#8220;oposi\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p align=\"justify\">A publica\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m fazia reportagens onde chamava aten\u00e7\u00e3o de que crescia nas torcidas dos grandes clubes brasileiros, o fen\u00f4meno dos hooligans ingleses e dos barra-bravas argentinos: produto da crise econ\u00f4mica, torcedores desempregados, que viravam &#8220;profissionais&#8221;, e uma juventude sem refer\u00eancias, em nome da &#8220;paix\u00e3o&#8221; por um clube, tinham pr\u00e1ticas fascistas nos est\u00e1dios.<\/p>\n<p align=\"justify\">Como reflexo do que ocorria no comando do pa\u00eds (a transi\u00e7\u00e3o negociada de poder do general Figueiredo para Tancredo Neves e Jos\u00e9 Sarney, representantes da &#8220;Nova Rep\u00fablica&#8221;), a sele\u00e7\u00e3o brasileira tamb\u00e9m trocou seguidas vezes de comandantes (Carlos Alberto Parreira, Edu Antunes e Evaristo Macedo). At\u00e9 que na imin\u00eancia de elimina\u00e7\u00e3o nas eliminat\u00f3rias da Copa do Mundo de 1986, a dire\u00e7\u00e3o do futebol brasileiro trouxe novamente para o comando t\u00e9cnico do selecionado brasileiro Tel\u00ea Santanna, atendendo a um verdadeiro clamor popular: o torcedor n\u00e3o tirava da mem\u00f3ria o time de 1982, apesar da derrota. Em meio a crise, acendeu-se a esperan\u00e7a popular na sele\u00e7\u00e3o, assim como o Plano Cruzado fortaleceu, por alguns meses, a Nova Rep\u00fablica.<\/p>\n<p align=\"justify\">A pr\u00f3pria realiza\u00e7\u00e3o da XIII Copa do Mundo foi uma crise s\u00f3: a Col\u00f4mbia desistiu do patroc\u00ednio, em 1982, em fun\u00e7\u00e3o, entre outras coisas, da guerrilha interna, que ganhou novo f\u00f4lego com a vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o sandinista na Nicar\u00e1gua, tr\u00eas anos antes. O M\u00e9xico foi novamente indicado como pa\u00eds anfitri\u00e3o, por\u00e9m foi sacudido por um violento terremoto e chegou-se a cogitar a troca, mais uma vez, do pa\u00eds sede. Em fun\u00e7\u00e3o disso tudo, foi a \u00faltima Copa do Mundo em que se permitiu, contraditoriamente, alguns improvisos e imprevistos, sem o total controle das grandes corpora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">Tel\u00ea conduziu a sele\u00e7\u00e3o brasileira &#8211; novamente com dois jogadores de clubes do exterior &#8211; com os seus defeitos pessoais (&#8220;cortou&#8221; os rebeldes \u00c9der e Renato Ga\u00facho e, por tabela, o lateral Leandro). Mas, manteve os seus m\u00e9ritos, procurando ficar fiel ao esp\u00edrito do futebol arte da sele\u00e7\u00e3o de 1982 e aos seus craques (J\u00fanior, S\u00f3crates, Falc\u00e3o e Zico), mesmo envelhecidos. Dessa forma, o treinador conseguiu chegar, vencendo (mas n\u00e3o convencendo) todos os jogos, \u00e0s quartas de final da Copa e enfrentou uma Fran\u00e7a t\u00e3o talentosa, como envelhecida.<\/p>\n<p align=\"justify\">No maior jogo de todos os tempos da hist\u00f3ria do futebol, o Brasil, injustamente, acabou sendo eliminado, na disputa de p\u00eanaltis pela Fran\u00e7a. Foi a <strong>DERROTA FINAL DO FUTEBOL ARTE<\/strong>, que ele, Tel\u00ea, personificava. Em seguida, a Fran\u00e7a de Platini foi eliminada pela Alemanha de Rumenigge, que acabou perdendo, justamente, a final para a Argentina do g\u00eanio Maradona. O torcedor brasileiro acabaria por se tornar mais pragm\u00e1tico: de que adiantava jogar bonito e n\u00e3o ganhar? Da mesma forma, o fracasso do Plano Cruzado, alguns meses depois, fez fenecer a confian\u00e7a na &#8220;Nova Rep\u00fablica&#8221;, que de nova n\u00e3o tinha nada.<\/p>\n<p align=\"justify\">A partir da XIII Copa do Mundo, o selecionado brasileiro, como uma express\u00e3o de uma identidade nacional, foi-se desintegrando e virando outra coisa e o futebol e o Mundial de sele\u00e7\u00f5es foram ficando cada vez mais a merc\u00ea dos interesses das grandes corpora\u00e7\u00f5es. \u00c9 o que analisaremos, em seguida.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>*Militante do Movimento de Organiza\u00e7\u00e3o Socialista e torcedor do Flamengo<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alex Brasil* Clique aqui\u00a0para ler a parte II. 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