{"id":6656,"date":"2018-07-04T22:50:41","date_gmt":"2018-07-05T01:50:41","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=6656"},"modified":"2018-07-07T18:44:29","modified_gmt":"2018-07-07T21:44:29","slug":"por-que-a-indiferenca-no-brasil-com-a-copa-do-mundo-parte-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2018\/07\/por-que-a-indiferenca-no-brasil-com-a-copa-do-mundo-parte-ii\/","title":{"rendered":"Por que a indiferen\u00e7a no Brasil com a Copa do Mundo? (parte II)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Alex Brasil*<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/2018\/06\/por-que-a-indiferenca-no-brasil-com-a-copa-do-mundo-parte-i\/\">Clique aqui<\/a>\u00a0para ler a parte I.<\/p>\n<h3 class=\"western\" lang=\"pt-BR\" align=\"justify\"><b>A Era Collor e a seu correlato no futebol: a Era Dunga<\/b><\/h3>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span lang=\"pt-BR\">O per\u00edodo posterior a segunda Copa do M\u00e9xico mostrou a profunda crise que vivia o futebol brasileiro. O Campeonato Brasileiro de 1986 s\u00f3 terminou no ano seguinte e a CBF se declarou incompetente para realizar o novo campeonato nacional, o de 1987. Formou-se, ent\u00e3o, aquilo que vinha se desenhando desde o in\u00edcio dos anos oitenta: uma articula\u00e7\u00e3o dos times de maior torcida no pa\u00eds (o Clube dos 13 com Flamengo, Vasco, Fluminense, Botafogo, Corinthians, S\u00e3o Paulo, Palmeiras, Santos, Internacional, Gr\u00eamio, Atl\u00e9tico Mineiro, Cruzeiro e Bahia), que em alian\u00e7a com a Rede Globo e a Coca-Cola tomaram para si a realiza\u00e7\u00e3o da Copa Uni\u00e3o. Foram convidados mais tr\u00eas times para o certame: Santa Cruz, Goi\u00e1s e Coritiba.<\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span lang=\"pt-BR\">O convite, por si s\u00f3, n\u00e3o levava em considera\u00e7\u00e3o que o Guarani-SP tinha sido o vice-campe\u00e3o do ano anterior e o America-RJ, o quarto lugar. Esses clubes tradicionais (o Guarani, campe\u00e3o brasileiro de 1978, e o America, campe\u00e3o do Torneio dos Campe\u00f5es de 1978, que envolveu quase todos os grandes brasileiros) jamais iriam se recuperar do crit\u00e9rio adotado pelo Clube dos 13 para realizar a Copa Uni\u00e3o. <\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span lang=\"pt-BR\">Com o sucesso da Copa Uni\u00e3o, a Coca-Cola tentou botar a sua propaganda na camisa da sele\u00e7\u00e3o brasileira em um amistoso contra o Chile, em final de 1987. A repercuss\u00e3o foi extremamente negativa, mostrando o quanto a hist\u00f3ria da &#8220;p\u00e1tria de chuteiras&#8221; era levado a s\u00e9rio. Mas, mesmo 100% nacional (os melhores jogadores continuavam indo jogar na Europa) a Sele\u00e7\u00e3o Brasileira n\u00e3o deslanchava, acompanhando a marcha do governo Sarney, que ap\u00f3s \u00edndices elevados de popularidade, caiu em desgra\u00e7a com o Plano Cruzado e chegou a decretar a morat\u00f3ria do pagamento da d\u00edvida externa. Mesmo com Rom\u00e1rio, Bebeto, Jorginho, Mazinho e Taffarel (jogadores que seriam campe\u00f5es mundiais em 1994) o time treinado por Carlos Alberto Silva foi medalha de prata nas Olimp\u00edadas de Seul, perdeu para a sele\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica a final e ficou com o bi-vice ol\u00edmpico.<\/span><\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\" align=\"justify\">Concomitantemente, iniciou-se o esvaziamento dos campeonatos estaduais, motor do futebol brasileiro dos anos 10 a meados dos anos 80. Criou-se uma nova competi\u00e7\u00e3o nacional (a Copa do Brasil) e mais uma continental (a Supercopa das Libertadores) mostrando que o eixo do futebol passava a ser a televis\u00e3o e n\u00e3o os est\u00e1dios cheios, como j\u00e1 tinha mostrado a parceria do Clube dos 13 com a Rede Globo.<\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\" align=\"justify\">A viol\u00eancia nos est\u00e1dios, produto do desemprego gerado pela chamada &#8220;d\u00e9cada perdida&#8221;, trouxe uma nova concep\u00e7\u00e3o de torcidas organizadas ao estilo hooligans na Inglaterra e os barra-bravas da Argentina, com muitos torcedores profissionais a servi\u00e7o da disputa de poder em um determinado clube.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span lang=\"pt-BR\">O malogro do futebol brasileiro nas Olimp\u00edadas em Seul se deu um pouco antes da chegada do empres\u00e1rio Ricardo Teixeira, genro de Jo\u00e3o Havelange \u00e0 presid\u00eancia da CBF, em janeiro de 1989. Um novo treinador foi tentado no comando do selecionado nacional, Sebasti\u00e3o Lazaroni. No melhor estilo de vocabul\u00e1rio do falecido capit\u00e3o Coutinho (com os seus termos complicados como overlapping, ponto-futuro, polival\u00eancia etc.), por\u00e9m sem a mesma qualidade no comando, Lazaroni, procurou personificar o novo no futebol brasileiro (bem ao estilo do candidato \u00e0 primeira elei\u00e7\u00e3o presidencial no pa\u00eds, depois de 28 anos, Collor de Mello) e ganhou a Copa Am\u00e9rica de 1989.<\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span lang=\"pt-BR\">Em seguida, enquanto o vencedor das elei\u00e7\u00f5es presidenciais, Collor de Mello \u2013 na esteira do desmonte das economias planificadas do Leste Europeu \u2013 iniciava o programa de privatiza\u00e7\u00e3o das estatais brasileiras e a desindustrializa\u00e7\u00e3o da economia nacional, a chamada &#8220;Era Collor&#8221;. <\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span lang=\"pt-BR\">Para a Copa de 1990, na It\u00e1lia, a CBF chamou 12 atletas que atuavam no futebol europeu entre vinte e dois convocados e fez um contrato de propaganda com a Pepsi. Lazaroni montou um time defensivo, no melhor estilo italiano. A chamada &#8220;Era Dunga&#8221;, a partir da lideran\u00e7a do time de um jogador de recursos t\u00e9cnicos limitados, mas ra\u00e7udo, fracassou retumbantemente, sendo o Brasil eliminado nas oitavas de final pela Argentina. <\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span lang=\"pt-BR\">O treinador brasileiro foi acusado de, nas suas convoca\u00e7\u00f5es, levar em conta as transa\u00e7\u00f5es do treinador com agentes e empres\u00e1rio de jogadores. A mais med\u00edocre Copa da hist\u00f3ria dos Mundiais foi vencida pela Alemanha. O triunfo foi usado como propaganda para a Alemanha unificada, s\u00edmbolo de vit\u00f3ria da Alemanha Ocidental capitalista, por isso dita moderna e superior, sobre a Alemanha Oriental socialista, dita atrasada e inferior.<\/span><\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\" align=\"justify\">Lazaroni foi defenestrado do comando de futebol, assim como seria Collor de Mello, dois anos depois. Mas, antes, Collor, atrav\u00e9s do seu secret\u00e1rio de esportes, Arthur Antunes Coimbra (o Zico), partindo de um pleito justo levantado pelo craque rebelde Afonsinho, no in\u00edcio dos anos setenta, aboliu a lei do passe, o que acabou por enfraquecer os clubes de futebol e, consequentemente, o mercado interno.<\/p>\n<h3 class=\"western\" align=\"justify\"><span lang=\"pt-BR\"><b>A era FHC: o empresariamento do futebol brasileiro, duas Copas ganhas pragmaticamente jogando feio<\/b><\/span><\/h3>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span lang=\"pt-BR\">O enfraquecimento dos clubes brasileiros foi vis\u00edvel no in\u00edcio dos anos noventa, com exce\u00e7\u00e3o de alguns: o Palmeiras que se aliou \u00e0 multinacional Parmalat, inclusive alterando o layout da camisa; o S\u00e3o Paulo, que tinha um grande est\u00e1dio pr\u00f3prio constru\u00eddo nos anos sessenta; e os times com dirigentes vinculados \u00e0 bancada da bola no Congresso como o Vasco do deputado federal Eurico Miranda e o Cruzeiro do deputado Zez\u00e9 Perrella. N\u00e3o foi \u00e0 toa que, tirando o Gr\u00eamio que tamb\u00e9m ganhou uma Ta\u00e7a Libertadores em 1997, foram estes clubes brasileiros que ganharam a Libertadores nos anos noventa, sendo que o S\u00e3o Paulo tamb\u00e9m ganhou dois mundiais interclubes, em 1992 e 93. O Flamengo, por exemplo, tentou uma parceria com a Internacional Sports License, em 2000, acabando por falir a ISL e por levar o presidente rubro-negro, Edmundo dos Santos Silva, \u00e0 pris\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span lang=\"pt-BR\">Seguiu-se o enfraquecimento dos campeonatos estaduais e foram criadas novas competi\u00e7\u00f5es como a Copa Conmebol (atual Sul-americana) e a Copa Mercosul (em substitui\u00e7\u00e3o a Supercopa das Libertadores e com o sugestivo nome do mercado comum ao Brasil, Paraguai, Uruguai e Argentina) com o objetivo do futebol ser cada vez mais uma atra\u00e7\u00e3o televisiva para propaganda, visando atrair patrocinadores de todo o tipo como cervejarias, bancos, empresas de material esportivo, etc. Dessa cultura de ver o jogo pela televis\u00e3o foi-se desconstruindo o futebol como a principal express\u00e3o cultural brasileira que se materializava na participa\u00e7\u00e3o dos torcedores em um espa\u00e7o coletivo, os est\u00e1dios. <\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span lang=\"pt-BR\">O contexto do enfraquecimento dos grandes clubes brasileiros foi refor\u00e7ado com a chegada de Fernando Henrique Cardoso com seu plano de estabiliza\u00e7\u00e3o da economia (o Plano Real), com uma privatiza\u00e7\u00e3o de estatais mais agressiva do que a feita por Collor de Mello e mais desindustrializa\u00e7\u00e3o da economia nacional. No futebol, a aplica\u00e7\u00e3o desta cartilha foi a chamada Lei Pel\u00e9, criada pelo ministro \u00c9dson Arantes do Nascimento (que tem como base o projeto de Zico). O resultado n\u00e3o foi somente clubes debilitados, mas tamb\u00e9m um min\u00fasculo grupo de jogadores milion\u00e1rios e uma imensa massa de atletas precarizados ou desempregados.<\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span lang=\"pt-BR\">Um pouco antes da Lei Pel\u00e9 o Brasil disputou a Copa de 1994, nos EUA. Os jogos, para atender os interesses da televis\u00e3o, eram disputados no in\u00edcio da tarde sob sol escaldante e prejudicial aos atletas. Havelange, sem sentir mais a mesma seguran\u00e7a de que seria presidente da FIFA por muito tempo, sabia que se o Brasil perdesse o Ricardo Teixeira, seu aliado, tamb\u00e9m poderia perder o comando da CBF, o que amea\u00e7ava os neg\u00f3cios de ambos. <\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span lang=\"pt-BR\">Contraditoriamente e de forma maquiav\u00e9lica, Havelange liberou do exame antidoping Diego Armando Maradona, para que o mesmo superasse a m\u00e1 forma f\u00edsica e pudesse atuar, a base de moderadores de apetite, no Mundial. Havelange precisava de um grande astro para motivar a Copa e Maradona ainda era o jogador com maior fama internacional. Entretanto, frente ao excelente desempenho da Argentina no in\u00edcio da competi\u00e7\u00e3o e com medo que ganhasse a Copa, o presidente da FIFA descumpriu a sua palavra e os exames antidoping flagraram, obviamente, Maradona, o afastando da Mundial ainda na primeira fase. A Argentina seria eliminada em seguida.<\/span><\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\" align=\"justify\">O Brasil seguiu o seu percurso pragm\u00e1tico: depois de eliminat\u00f3rias complicadas (foi a primeira vez que o Brasil perdeu um jogo nessa fase da competi\u00e7\u00e3o), a CBF descartou a hip\u00f3tese de trazer Tel\u00ea Santana de volta ao comando do futebol depois do sucesso no S\u00e3o Paulo e insistiu com a dupla Carlos Alberto Parreira e M\u00e1rio Jorge Lobo Zagallo no comando.<\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\" align=\"justify\">Com metade dos jogadores convocados atuando em clubes do exterior, o selecionado foi jogando de forma defensiva, com poucos gols (11 no total de 7 jogos), escorado no talento de pouqu\u00edssimos craques (em particular, Rom\u00e1rio). Assim, o Brasil se tornou pela quarta vez campe\u00e3o mundial, depois de 120 minutos de um jogo horroroso e de disputa de penalidades contra uma It\u00e1lia defensiva como sempre. J\u00e1 n\u00e3o existia mais diferen\u00e7a entre a escola de futebol brasileira e a italiana.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span lang=\"pt-BR\">Ap\u00f3s um novo malogro nas Olimp\u00edadas de Atlanta, em 1996 (foi eliminada pela futura campe\u00e3 ol\u00edmpica, Nig\u00e9ria), o selecionado brasileiro chegou como um dos favoritos \u00e0 Copa da Fran\u00e7a, de 1998, depois de ter ganhado a Copa Am\u00e9rica do ano anterior. Era a \u00faltima competi\u00e7\u00e3o com 24 sele\u00e7\u00f5es e a despedida de Jo\u00e3o Havelange da presid\u00eancia da FIFA. Ele se tornaria &#8220;presidente honor\u00e1rio&#8221; da entidade assumindo em seu lugar o su\u00ed\u00e7o Joseph Blatter, seu aliado de ideias e pr\u00e1ticas. A CBF passou a eleger como patrocinador priorit\u00e1rio (como tinha sido a AmBev em 1994) a fornecedora de materiais esportivos norte-americana, a Nike. Foram convocados 14 jogadores que atuavam em clubes do exterior e oito somente de clubes brasileiros.<\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span lang=\"pt-BR\">Justamente com a principal patrocinadora do selecionado nacional se daria a maior pol\u00eamica da Copa de 1998. A sele\u00e7\u00e3o brasileira fez uma campanha irregular, chegando \u00e0 final com a sele\u00e7\u00e3o dona da casa. Poucas horas antes da partida, o craque brasileiro Ronaldo &#8220;Fen\u00f4meno&#8221; teve convuls\u00f5es, n\u00e3o tendo as m\u00ednimas condi\u00e7\u00f5es para entrar na decis\u00e3o e chegou a ser substitu\u00eddo na escala\u00e7\u00e3o inicial por Edmundo. Uma reviravolta surpreendente aconteceu por ordens superiores (suspeita-se da interven\u00e7\u00e3o da Nike) e Ronaldo entrou na final, de forma p\u00edfia. O Brasil acabou sendo goleado por 3 X 0 pelos franceses, comandados pelo craque Zinedine Zidane.<\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span lang=\"pt-BR\">O segundo mandato de FHC, reeleito no primeiro turno, iniciou-se em seguida e pegou a crise da economia russa (1999), fen\u00f4meno t\u00edpico da mundializa\u00e7\u00e3o da economia. Seus efeitos foram logo sentidos: crise de energia el\u00e9trica, epidemia de dengue, alta do d\u00f3lar, arrocho e desemprego. Turbul\u00eancias tamb\u00e9m atingiram em cheio o futebol brasileiro: o campeonato brasileiro de 2000 para ser realizado teve que recorrer ao artif\u00edcio de chamar Copa Jo\u00e3o Havelange com 116 clubes, pelo fato de a FIFA proibir os clubes de recorrerem \u00e0 Justi\u00e7a comum e o brasiliense do senador Lu\u00eds Estev\u00e3o ter driblado essa determina\u00e7\u00e3o e ter recorrido ao Judici\u00e1rio contra o seu rebaixamento em 1999.<\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span lang=\"pt-BR\">Tempestades tamb\u00e9m para o selecionado nacional que se classificou para a Copa do Jap\u00e3o-Cor\u00e9ia do Sul (a primeira com 32 sele\u00e7\u00f5es e tamb\u00e9m a primeira a ser realizada em dois pa\u00edses) da pior forma poss\u00edvel: perdeu muitas partidas, jogou mal e teve quatro treinadores (Wanderley Luxemburgo &#8211; afastado por suspeita de que suas convoca\u00e7\u00f5es visavam os seus interesses como empres\u00e1rio de futebol &#8211; Le\u00e3o, Candinho e Lu\u00eds Felipe Scolari). A desidentifica\u00e7\u00e3o com a sele\u00e7\u00e3o brasileira crescia: no Congresso Nacional, a CPI sobre a rela\u00e7\u00e3o da CBF com a Nike virou &#8220;pizza&#8221; e foi arquivada em 2001. O ministro de Esportes, Pel\u00e9, se silenciou, pressionado por den\u00fancias de irregularidades envolvendo o seu s\u00f3cio H\u00e9lio Vianna na empresa Pel\u00e9 Sporting e Marketing Ltda. <\/span><\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\" align=\"justify\">O futebol se tornava cada vez mais neg\u00f3cios, parte fundamental da ind\u00fastria do entretenimento: no in\u00edcio de 2001, depois de 41 anos, a FIFA se mostrava disposta a assumir um Mundial de Clubes tendo um projeto piloto de competi\u00e7\u00e3o, sendo disputada no Brasil, com o Corinthians como campe\u00e3o e o Vasco como vice.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span lang=\"pt-BR\">J\u00e1 o selecionado brasileiro chegou desacreditado no Mundial da \u00c1sia com 13 jogadores convocados que atuavam em clubes brasileiros e 10 no exterior. Foi enfrentando sele\u00e7\u00f5es sem tradi\u00e7\u00e3o (Turquia, Costa Rica e China) e com a providencial ajuda da arbitragem em dois jogos (o primeiro contra a Turquia e as oitavas de final contra a B\u00e9lgica), que o Brasil se sagrou pentacampe\u00e3o mundial novamente se ancorando no futebol de alguns poucos craques (Ronaldo Fen\u00f4meno, Rivaldo e Ronaldinho Ga\u00facho) e fazendo mais uma vez um jogo pragm\u00e1tico. <\/span><\/p>\n<h3 class=\"western\" align=\"justify\"><span lang=\"pt-BR\"><b>Tempos de lulopetismo, de &#8220;arenas&#8221; futebol\u00edsticas e de um Brasil exportador de commodities, inclusive, no futebol<\/b><\/span><\/h3>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span lang=\"pt-BR\">A conquista da Copa n\u00e3o conduziu o candidato de FHC, Jos\u00e9 Serra, \u00e0 presid\u00eancia, em 2003. Depois de quatro tentativas foi o petista Lu\u00eds In\u00e1cio Lula da Silva que chegou. Diferentemente do que muitos esperavam, Lula se aliou a setores do agroneg\u00f3cio, \u00e0s empreiteiras e se ligou ao capital chin\u00eas. Quanto \u00e0s diretrizes da &#8220;Lei Pel\u00e9&#8221; nada foi alterado e o futebol brasileiro, assim como o agroneg\u00f3cio, virou exportador de commodities. S\u00f3 que essas commodities, ao inv\u00e9s de jogadores maiores de idade, passaram a ser jogadores adolescentes das divis\u00f5es de base cada vez mais saindo para o mercado externo (futebol europeu, chin\u00eas, japon\u00eas, \u00e1rabe etc).<\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span lang=\"pt-BR\">J\u00e1 o Corinthians, clube mais popular de S\u00e3o Paulo, para se adequar a esses &#8220;novos tempos&#8221;, acabou por se aliar a Media Sports Investment (MSI) do anglo-iraniano Kia Joorabchian e montou um super elenco para conquistar o campeonato nacional de 2005. Acabou conseguindo ap\u00f3s a anula\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios jogos de forma question\u00e1vel pelo ent\u00e3o presidente do Superior Tribunal de Justi\u00e7a Desportiva, Luiz Zveiter, sob alega\u00e7\u00e3o de comprova\u00e7\u00e3o de suborno nos jogos citados, envolvendo o \u00e1rbitro Ed\u00edlson Pereira de Carvalho. Registre-se: a MSI era suspeita de envolvimento com a M\u00e1fia russa e o Corinthians pagaria caro por esse envolvimento, sendo rebaixado dois anos depois.<\/span><\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\" align=\"justify\">Mas, com todas essas querelas internas para a Copa de 2006, na Alemanha, o Brasil surgia como franco favorito ao t\u00edtulo, justamente por ter uma sele\u00e7\u00e3o &#8220;globalizada&#8221;. Apesar de n\u00e3o ter se classificado para as Olimp\u00edadas da Gr\u00e9cia, o selecionado brasileiro vinha embalado pelas conquistas da Copa Am\u00e9rica de 2004, da Copa das Confedera\u00e7\u00f5es em 2005 e pelo t\u00edtulo do Mundial de Clubes, do S\u00e3o Paulo, em 2005.<\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\" align=\"justify\">O comando da sele\u00e7\u00e3o brasileira tinha voltado \u00e0s m\u00e3os de Carlos Alberto Parreira e M\u00e1rio Jorge Lobo Zagallo. Os dois convocaram para a Copa 20 jogadores de clubes no exterior e 3 somente atuando em clubes brasileiros. Em suma: o selecionado brasileiro virou uma reuni\u00e3o dessas commodities caras vendidas para o mercado externo, com pequena cota para os atletas que atuavam nos clubes brasileiros.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span lang=\"pt-BR\">Entretanto, o futebol brasileiro fracassou e foi eliminado nas quartas de final pela Fran\u00e7a. A Copa do Mundo foi vencida pela quarta vez pelo jogo defensivo e pragm\u00e1tico da It\u00e1lia, que n\u00e3o deixou saudades. A partir desta edi\u00e7\u00e3o na Alemanha, o caminho escolhido pelos dirigentes da FIFA foi retomar o percurso de 2002: o rent\u00e1vel neg\u00f3cio de constru\u00e7\u00e3o de est\u00e1dios para alegria de empreiteiras. Ali\u00e1s, as escolhas dos pa\u00edses sedes, seja da Copa do Mundo seja das Olimp\u00edadas, tiveram esses crit\u00e9rios. E a compra de votos, suborno, tr\u00e1fico de influ\u00eancia foram importantes para fazerem prevalecer esses crit\u00e9rios, envolvendo inclusive &#8220;cartolas&#8221; com um passado bonito nas quatro linhas, ex-craques, o treinador alem\u00e3o Franz Beckembauer e o \u00eddolo franc\u00eas Michel Platini.<\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span lang=\"pt-BR\">O Brasil j\u00e1 tinha conseguido um pequeno aperitivo do quanto poderia ser interessante e rent\u00e1vel para as corpora\u00e7\u00f5es a realiza\u00e7\u00e3o em solo nacional da Copa do Mundo com os Jogos Pan-americanos de 2007, no Rio de Janeiro. Portanto, por pol\u00edtica do governo Lula, o Brasil seria escolhido como pa\u00eds-sede da Copa de 2014 (sucedendo a \u00c1frica do Sul) e das Olimp\u00edadas de 2016 (no Rio de Janeiro). No campo, entretanto, o futebol brasileiro minguava em conquistas s\u00f3 conseguindo o t\u00edtulo do Mundial de Clubes, no final de 2006, com o Internacional-RS batendo o Barcelona, a Copa Am\u00e9rica em 2007 e a sempre enganosa conquista da Copa das Confedera\u00e7\u00f5es em 2009. <\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span lang=\"pt-BR\">Para o Mundial da \u00c1frica do Sul, o treinador escolhido foi o ex-jogador Dunga com pouca experi\u00eancia na fun\u00e7\u00e3o, que seguiu o crit\u00e9rio da pequena cota para os jogadores de times brasileiros (somente 3 convocados) sendo os 20 atletas restantes de clubes do exterior. Com dez patrocinadores (Seara, Nike, Nestl\u00e9, AmBev, dentre outros) a sele\u00e7\u00e3o brasileira com seu futebol pouco convincente acabou sendo derrotada pela sele\u00e7\u00e3o holandesa nas quartas de final. Esta perderia o t\u00edtulo na prorroga\u00e7\u00e3o para a Espanha e o seu pragm\u00e1tico futebol &#8220;tic-taca&#8221;.<\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span lang=\"pt-BR\">Essa conquista permitiria que, no in\u00edcio da presente d\u00e9cada, a Espanha refor\u00e7asse a vis\u00e3o de ser uma &#8220;Meca&#8221; do futebol gra\u00e7as tamb\u00e9m aos seus dois super times (Barcelona e Real Madrid), duas &#8220;sele\u00e7\u00f5es&#8221; globalizadas. De onde vinha tanto dinheiro para formar esses times? Javi Poves &#8220;cria&#8221; das bases do Atletico de Madrid, jogador profissional do Sporting Gijon, decidiu encerrar a carreira aos 25 anos, em 2011, deu a pista: <\/span><span lang=\"pt-BR\"><i>&#8220;Quando se v\u00ea por dentro, o futebol internacional \u00e9 s\u00f3 dinheiro e corrup\u00e7\u00e3o. \u00c9 capitalismo, e o capitalismo \u00e9 a morte. N\u00e3o quero estar em um sistema que a base para ganhar dinheiro \u00e9 a morte dos outros na America do Sul, \u00c1frica, \u00c1sia. Meu interior me impede em seguir no futebol&#8221;. <\/i><\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span lang=\"pt-BR\">Por\u00e9m, mesmo os cr\u00edticos mais conceituados e s\u00e9rios da imprensa esportiva brasileira n\u00e3o deram \u00eanfase a essa den\u00fancia. Obviamente, estavam embriagados com que o futebol-neg\u00f3cio lhes oferecia de oportunidades, oportunidades estas turbinadas pela realiza\u00e7\u00e3o da Copa das Confedera\u00e7\u00f5es em 2013 e pela Copa do Mundo em 2014: ora programas e mesas-redondas na tev\u00ea, ora colunas em jornais, ora encomenda de livros, enfim, diversas oportunidades de trabalho, em que o pr\u00f3prio jornalista virava um popstar.<\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span lang=\"pt-BR\">Concomitantemente e de forma escancarada, uma profunda opera\u00e7\u00e3o ocorria no futebol brasileiro com a substitui\u00e7\u00e3o dos velhos e amplos est\u00e1dios do per\u00edodo anterior (Maracan\u00e3, Mineir\u00e3o, Fonte Nova etc.) por arenas modernas, menores, mais compactas, seletivas e envolvendo grandes construtoras. Se intensificava um processo de elitiza\u00e7\u00e3o do p\u00fablico, de limpeza \u00e9tnica racial, conjugados aos programas de s\u00f3cios torcedores: o antigo frequentador dos velhos est\u00e1dios (o povo pobre, negro, nordestino, favelado e da periferia que fez desse esporte o mais popular do pa\u00eds) foi empurrado para fora das novas &#8220;arenas&#8221;. O mesmo teria que se contentar em ver o jogo de dentro de um bar.<\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span lang=\"pt-BR\">A economia no governo da presidente eleita, a petista Dilma Rousseff, sentia os efeitos da crise econ\u00f4mica do capitalismo, aberta em 2008, nos EUA. Da mesma forma, o velho futebol brasileiro claudicava. O Fluminense, campe\u00e3o brasileiro de 2010 e 2012, entrou em decl\u00ednio depois de perder o patroc\u00ednio da UNIMED, relembrando o fim da parceria do Palmeiras com a Parmalat nos anos noventa. O Santos, depois de ter ganhado a Libertadores, foi goleado em 2011 na final do Mundial de Clubes, pelo Barcelona. Somente o Corinthians ganhou o Mundial de Clubes (j\u00e1 no formato FIFA), em 2012. J\u00e1 o Atl\u00e9tico-MG, vencedor da Libertadores, ficou somente em 3\u00ba lugar em 2013. Nesse mesmo ano, o Santos foi goleado em um amistoso com o Barcelona por humilhantes 8 X 0, mostrando a real dimens\u00e3o de como estava o nosso futebol dentro do campo. E fora do campo n\u00e3o ia melhor: Jo\u00e3o Havelange, antes de falecer, j\u00e1 tinha se afastado da presid\u00eancia de honra, em 2011, em fun\u00e7\u00e3o das den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o na CBF que o atingiam assim como ao seu ex genro Ricardo Teixeira, que renunciaria \u00e0 presid\u00eancia da CBF em 2012.<\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span lang=\"pt-BR\">Ainda assim e ap\u00f3s perder pela terceira vez uma final de Olimp\u00edadas \u2013 em 2012 , em Londres, para o M\u00e9xico \u2013 a sele\u00e7\u00e3o brasileira (tendo no comando os \u00edcones das conquistas dos t\u00edtulos de 1994 e 2002, Carlos Alberto Parreira e Lu\u00eds Felipe Scolari em substitui\u00e7\u00e3o a Mano Menezes) venceu mais uma vez a Copa das Confedera\u00e7\u00f5es, dando novamente uma falsa impress\u00e3o de favoritismo. Tudo isso em meio aos violentos protestos das Jornadas de Junho, anticopa, contra a farra da constru\u00e7\u00e3o de novas arenas superfaturadas em detrimento a investimentos p\u00fablicos em sa\u00fade, Educa\u00e7\u00e3o e transporte de massas, o que provocou a declara\u00e7\u00e3o c\u00ednica e est\u00fapida de Ronaldo Fen\u00f4meno, hoje empres\u00e1rio de futebol: <\/span><span lang=\"pt-BR\"><i>&#8220;Copa n\u00e3o se faz com hospital, mas com est\u00e1dios&#8221;.<\/i><\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span lang=\"pt-BR\">Cumprindo a cartilha das &#8220;cotas&#8221;, estabelecida em 2006, a dupla Scolari e Parreira convocou somente 4 jogadores de clubes brasileiros para a Copa de 2014 sendo os 19 restantes de clubes estrangeiros. Com uma campanha med\u00edocre o Brasil, aos trancos e barrancos, chegou a semifinal e foi eliminado de forma vergonhosa pela Alemanha (os famosos 7 X 1, que acabaram redimindo tardiamente o injusti\u00e7ado time de 1950, respons\u00e1vel pelo maior vexame do futebol brasileiro).<\/span><\/p>\n<h3 class=\"western\" lang=\"pt-BR\" align=\"justify\"><b>E agora?<\/b><\/h3>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span lang=\"pt-BR\">De 2014 para c\u00e1, Jos\u00e9 Maria Marin, substituto de Ricardo Teixeira na presid\u00eancia da CBF, foi preso na Su\u00ed\u00e7a por corrup\u00e7\u00e3o e afastado de todas as suas fun\u00e7\u00f5es de dirigente esportivo. Seu substituto, Marco Polo Del Nero, tamb\u00e9m foi banido pela FIFA das atividades relacionadas ao futebol. Por\u00e9m, Del Nero conseguiu fazer o novo presidente da CBF Rog\u00e9rio Caboclo, bem dentro do esp\u00edrito corrupto e entreguista do atual governo Temer. E a FIFA? Acusado de corrup\u00e7\u00e3o, Joseph Blatter foi substitu\u00eddo por Gianni Infantino na presid\u00eancia. Infantino foi pupilo de&#8230; Jo\u00e3o Havelange.<\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span lang=\"pt-BR\">J\u00e1 o futebol brasileiro teve a sua \u00faltima conquista com a medalha de ouro contra a Alemanha nas Olimp\u00edadas do Rio de 2016, logo depois do impeachment de Dilma Rousseff. Entretanto, esta competi\u00e7\u00e3o foi disputada por sele\u00e7\u00f5es concorrentes secund\u00e1rias, s\u00f3 o Brasil levou a s\u00e9rio a disputa e, hoje, a conquista brasileira \u00e9 muito pouco lembrada. <\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span lang=\"pt-BR\"><b>E <\/b><\/span><span lang=\"pt-BR\">a grande maioria da imprensa brasileira, aquela com esp\u00edrito de vira-lata, a mesma que exaltou o futebol brasileiro pragm\u00e1tico vencedor de 1994 e 2002, criou novas &#8220;Mecas&#8221; do futebol: al\u00e9m da Espanha, obviamente a Alemanha foi incorporada nesse patamar assim como o futebol ingl\u00eas. Resta saber como se portar\u00e1 depois da elimina\u00e7\u00e3o precoce de duas dessas &#8220;Mecas&#8221; da Copa da R\u00fassia de 2018, a Alemanha e a Espanha.<\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span lang=\"pt-BR\">Por fim, ainda que um certo entusiasmo com a Copa traga de novo algum apoio popular \u00e0 sele\u00e7\u00e3o brasileira, do craque artificial Neymar, sem d\u00favida alguma coisa ficou no meio do caminho: o verdadeiro e genu\u00edno futebol brasileiro. Essa aus\u00eancia de identifica\u00e7\u00e3o j\u00e1 tinha sido sentida nas conquistas brasileiras de 1994 e 2002 e veio da derrota hist\u00f3rica do futebol-arte brasileiro, em 1982-86. Este \u00faltimo fazia do torcedor um homem comum participante de um entusiasmo coletivo que criava n\u00e3o somente a beleza nos gramados, mas, paix\u00f5es, pol\u00eamicas e at\u00e9 pensadores do esporte como os ex-jogadores Afonsinho e S\u00f3crates e o jornalista Jo\u00e3o Saldanha, o &#8220;Jo\u00e3o Sem Medo&#8221;. Essa aus\u00eancia de magia somada \u00e0 mercantiliza\u00e7\u00e3o e \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o que tomou o futebol, explica o porqu\u00ea da aus\u00eancia de identifica\u00e7\u00e3o com o selecionado nacional e com a Copa, antes desta \u00faltima come\u00e7ar.<\/span><\/p>\n<p><strong>*Militante do Movimento de Organiza\u00e7\u00e3o Socialista e torcedor do Flamengo<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alex Brasil* Clique aqui\u00a0para ler a parte I. 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