{"id":6725,"date":"2018-08-08T13:48:15","date_gmt":"2018-08-08T16:48:15","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=6725"},"modified":"2018-08-19T17:17:22","modified_gmt":"2018-08-19T20:17:22","slug":"igualdade-de-genero-luta-fundamental-da-classe-trabalhadora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2018\/08\/igualdade-de-genero-luta-fundamental-da-classe-trabalhadora\/","title":{"rendered":"Igualdade de g\u00eanero: luta fundamental da classe trabalhadora"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">M\u00f4nica Buarque\/RJ<\/p>\n<p>Se a classe trabalhadora tudo produz, a ela tudo pertence. Essa famosa frase leva a compreens\u00e3o, em alguns c\u00edrculos, que trabalhador \u00e9 apenas o homem, o macho, o provedor, a partir de seu suor, da vida material.<\/p>\n<p>Esta compreens\u00e3o de mundo n\u00e3o \u00e9 e nem pode ser a da classe que trabalha e que traz a voca\u00e7\u00e3o humana para a mudan\u00e7a social. A classe que vive do trabalho, conceito de Ricardo Antunes, tem o germe do novo. Ela \u00e9 a \u00fanica capaz de transformar a sociedade de modo a transpor as \u00faltimas contradi\u00e7\u00f5es que a humanidade ainda vive.<\/p>\n<p>A opress\u00e3o de g\u00eanero, o racismo e a discrimina\u00e7\u00e3o pela orienta\u00e7\u00e3o sexual se inserem nesta pauta ainda por ser conquistada e, por mais que a burguesia se aproprie destas bandeiras de luta de maneira a dissoci\u00e1-las de seus conte\u00fados revolucion\u00e1rios, elas comp\u00f5em a luta da classe trabalhadora no contexto de nosso tempo. S\u00e3o tamb\u00e9m fruto da pr\u00f3pria demanda por uma sociedade plenamente justa, que s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel no \u00e2mbito do socialismo.<\/p>\n<h3>Mulheres em luta na Am\u00e9rica Latina<\/h3>\n<p>Ao longo de 2018, um amplo movimento de reivindica\u00e7\u00f5es conhecido como Primavera Feminista vem acontecendo na Argentina e no Chile. Em comum, os dois pa\u00edses sul-americanos de coloniza\u00e7\u00e3o espanhola constitu\u00edda sobre sangue ind\u00edgena s\u00e3o de sociedades conservadoras com passado recente de Ditadura Militar e ataques aos direitos civis. Tanto Chile quanto Argentina s\u00e3o pa\u00edses de maioria cat\u00f3lica em que esta religi\u00e3o goza de prote\u00e7\u00e3o por parte do Estado.<\/p>\n<p>O movimento conhecido como <em>Ni Una a Menos<\/em> \u2013 iniciado a partir de uma grande marcha contra a viol\u00eancia de g\u00eanero ocorrida em cidades do Chile, Argentina e Uruguai, em 3 de junho de 2015 e um ano depois novamente na Argentina \u2013 tem inspirado este ano manifesta\u00e7\u00f5es nesse \u00faltimo pa\u00eds \u00a0pela legaliza\u00e7\u00e3o do aborto e por uma sa\u00fade p\u00fablica que respeite a Mulher.<\/p>\n<p>J\u00e1 o Chile, al\u00e9m de passeatas pelo aborto \u00a0legal e seguro, est\u00e1 vivenciando desde abril deste ano ocupa\u00e7\u00f5es feministas em algumas universidades e escolas. A pauta de reivindica\u00e7\u00f5es das estudantes inclui puni\u00e7\u00f5es r\u00edgidas para ass\u00e9dio de professores no ambiente acad\u00eamico e escolar.<\/p>\n<p>Ou seja, as mulheres sul-americanas est\u00e3o em franco movimento por espa\u00e7o em sociedades que calam a condi\u00e7\u00e3o feminina sob o manto do catolicismo. Uma Educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o sexista \u00e9 a demanda principal dos movimentos.<\/p>\n<h3>No Chile contra o Ass\u00e9dio: \u201cIrm\u00e3, acredito em voc\u00ea\u201d<\/h3>\n<p>A Faculdade de Direito da Universidade do Chile, em Santiago, a mais antiga faculdade de Direito do pa\u00eds, atualmente exibe um cartaz com os seguintes dizeres: irm\u00e3, acredito em voc\u00ea.<\/p>\n<p>Foi nesta faculdade que ocorreu um caso de ass\u00e9dio sexual cuja resolu\u00e7\u00e3o vinha sendo morosa. A exig\u00eancia das estudantes era a retirada do professor Carlos Carmona sob a acusa\u00e7\u00e3o de abusar de alunas.<\/p>\n<p>A partir de 27 de abril deste ano, as estudantes ent\u00e3o resolveram seguir o exemplo de ocupa\u00e7\u00e3o da Universidade Austral bloqueando com cadeiras os acessos ao pr\u00e9dio e paralisando aulas. Uma s\u00e9rie de atividades sobre feminismo foi organizada com o intuito de instaurar um protocolo \u00fanico para atendimento de den\u00fancias de caso de abuso sexual no ambiente educacional. Uma capacita\u00e7\u00e3o triestamental, que envolva os segmentos de professores, alunos e funcion\u00e1rios administrativos tamb\u00e9m est\u00e1 sendo reivindicada pelo movimento.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das universit\u00e1rias, estudantes do Ensino M\u00e9dio tomaram as ruas de Santiago por uma<em> educa\u00e7\u00e3o sexual, p\u00fablica, feminista e n\u00e3o sexista<\/em>. Esta bandeira vai al\u00e9m da anterior <em>educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, gratuita e de qualidade<\/em> que o movimento estudantil do pa\u00eds levantava at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n<p>Nestas ocupa\u00e7\u00f5es denominadas <em>Tomas feministas<\/em> v\u00eam as ocorrendo assembleias. Deste modo, a problematiza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia estrutural de g\u00eanero est\u00e1 se construindo. A consequ\u00eancia desta conscientiza\u00e7\u00e3o \u00e9 que as jovens querem mais do que puni\u00e7\u00e3o para a viol\u00eancia. Querem, como j\u00e1 foi dito, uma outra sociedade que s\u00f3 poder\u00e1 ser atingida mediante outra Educa\u00e7\u00e3o (com igualdade de g\u00eanero) e outras representa\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p>A pauta desta luta abrange o fim das piadas machistas no ambiente universit\u00e1rio, inclus\u00e3o de autoras mulheres nas bibliografias das disciplinas e o fim do estigma de que haja cursos mais femininos ou mais masculinos.<\/p>\n<p>Podemos perceber por estas demandas que as estudantes chilenas experienciam algo muito pr\u00f3ximo das brasileiras. Os curr\u00edculos universit\u00e1rios, sempre com muito mais autores homens, at\u00e9 mesmo nos cursos considerados femininos, deixam evidente uma representa\u00e7\u00e3o social de que os homens pensam e teorizam enquanto as mulheres executam.<\/p>\n<p>As chilenas, por\u00e9m, est\u00e3o querendo ser educativas contra o machismo vigente. Elas querem tamb\u00e9m mais mulheres nos cargos de comando das universidades e a inclus\u00e3o de disciplinas que abordem a quest\u00e3o de g\u00eanero para todos os estudantes.<\/p>\n<p>Percebemos que l\u00e1, pa\u00eds atualmente governado por um presidente neoliberal, Sebastian Pi\u00f1era, a luta dos estudantes tem sido intensa. Durante seu primeiro mandato, entre 2010 e 2014, 700 escolas de Ensino M\u00e9dio foram ocupadas. Os estudantes, duramente reprimidos pela pol\u00edcia (os carabineiros), tinham apoio de seus professores e familiares contra um sistema de ensino privatizado cujo custo poucos podem pagar.<\/p>\n<p>Em outubro de 2014 tamb\u00e9m os professores entraram em greve por melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho, contra a aposentadoria totalmente privatizada e por aumento salarial. Em 2016, foi criada a COFEU, Coordena\u00e7\u00e3o Feminista Universit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Na Universidade Austral, em Valdivia, ocorreu este ano o caso de ass\u00e9dio que foi o estopim para que o atual movimento <em>Tomas feministas<\/em> estourasse. Uma funcion\u00e1ria da universidade acusou o docente Alejandro C\u00e1rcamo de ass\u00e9dio sexual. Ap\u00f3s a investiga\u00e7\u00e3o confirmar a den\u00fancia, o professor foi transferido para outra unidade da mesma Universidade Austral. Mas as alunas n\u00e3o aceitaram. Exigiram n\u00e3o s\u00f3 sua demiss\u00e3o como tamb\u00e9m que n\u00e3o recebesse indeniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A vit\u00f3ria neste caso, conquistada em 23 de abril, demonstra o potencial transformador das <em>Tomas<\/em>. Ao todo, vinte universidades chegaram a ser ocupadas e no dia 16 de maio uma marcha organizada por 40 assembleias feministas agregou 150 mil pessoas. No dia 1o de junho, nos arredores do Congresso Nacional, outra marcha ocorreu enquanto Pi\u00f1era discursava no Parlamento.<\/p>\n<p>Todo esse movimento \u00e9 coordenado pela COFEU. O intuito \u00e9 modificar a sociedade chilena que os estudantes percebem como machista. Feminic\u00eddios, abuso sexual e tentativas de assassinato amedrontam \u00a0o cotidiano das mulheres.<\/p>\n<p>Podemos ter otimismo com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o estudantil, pois ela est\u00e1 penetrando tamb\u00e9m nas institui\u00e7\u00f5es deste segmento da sociedade. Al\u00e9m da rec\u00e9m criada COFEU, a FEUACh Valdivia (Federaci\u00f3n de Estudiantes da La Universidad Austral de Chile) elegeu uma chapa com apelo feminista: CREANDO FEUACH PARA TODOS Y TODAS.<\/p>\n<p>A presidente, Valentina Gatica, aluna de Geografia, declarou que o fim do lucro na Educa\u00e7\u00e3o \u00e9 um dos pilares das demandas estudantis. A atual gest\u00e3o da entidade pretende, tamb\u00e9m, \u00a0criar uma secretaria de g\u00eanero que se articule entre os cursos. Al\u00e9m disso, a FEUACh juntamente a outras entidades sociais e sindicais est\u00e1 convocando uma manifesta\u00e7\u00e3o contra o <em>Estatuto Laboral Joven<\/em> proposto pelo governo para aprofundar mais ainda o neoliberalismo na Educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h3>Na Argentina pela legaliza\u00e7\u00e3o do aborto: \u201cNi Una a Menos\u201d<\/h3>\n<p>Enquanto a estudantada chilena vislumbra algumas conquistas para a transforma\u00e7\u00e3o social a partir de sua organiza\u00e7\u00e3o, as mulheres da Argentina foram \u00e0 Pra\u00e7a do Congresso em Buenos Aires na madrugada de 14 de junho \u00faltimo munidas de bandeiras e panos verdes. As palavras de ordem eram as da demanda maior das mulheres do nosso tempo: <em>educaci\u00f3n sexual para decidir, anticonceptivos para non abortar, aborto legal para no morir<\/em>.<\/p>\n<p>Apesar da opressiva opini\u00e3o p\u00fablica que, especialmente na America Latina cat\u00f3lica, prega a sacralidade da gravidez desde a concep\u00e7\u00e3o (basicamente quando \u00e9 indesejada), a terra do Papa aprovou uma lei que permite o aborto at\u00e9 a 14a semana de gesta\u00e7\u00e3o na C\u00e2mara dos Deputados. Foram dez anos de luta em muitas frentes para que as mulheres chegassem a esta lei na Argentina.<\/p>\n<p>A pr\u00f3xima etapa para legaliza\u00e7\u00e3o do aborto na Argentina \u00e9 a aprova\u00e7\u00e3o no Senado, que tem um perfil mais conservador. No entanto, as mulheres est\u00e3o em uma campanha t\u00e3o significativa que este cen\u00e1rio pode ser transformado.<\/p>\n<p>Gays, l\u00e9sbicas, trans, movimentos ind\u00edgena e negro e mulheres migrantes formam as v\u00e1rias faces de um sujeito pol\u00edtico que, enquanto oprimido, somou seus peda\u00e7os contra o inimigo real: o capitalismo.<\/p>\n<p>Pol\u00edticos mais liberais, diante desta intensa campanha, votaram a favor da nova lei enquanto os mais conservadores prosseguiam na mesma tecla de \u201cdefesa da vida\u201d. J\u00e1 as mulheres em luta declaram que o que est\u00e1 em jogo n\u00e3o \u00e9 o sim ou o n\u00e3o ao aborto, mas se ele seguir\u00e1 sendo realizado clandestinamente.<\/p>\n<p>A Igreja Cat\u00f3lica, grande mentora ideol\u00f3gica das for\u00e7as que se levantam contra o aborto legal, n\u00e3o considera que a hominiza\u00e7\u00e3o do embri\u00e3o seja imediata \u00e0 fecunda\u00e7\u00e3o h\u00e1 tanto tempo assim. Este consenso s\u00f3 se consumou em 1869 a partir de um acordo entre o Papa Pio 90 e Napole\u00e3o 30. O imperador precisava estimular a natalidade na Fran\u00e7a. Te\u00f3ricos importantes da religi\u00e3o, como Tom\u00e1s de Aquino e Agostinho consideravam que a alma s\u00f3 se instaurava no ser ap\u00f3s 40 dias da concep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por isso, \u00e9 f\u00e1cil perceber que os ataques \u00e0 legaliza\u00e7\u00e3o do aborto est\u00e3o muito mais relacionados a interesses pol\u00edticos do que a uma verdadeira prote\u00e7\u00e3o da vida, como \u00e9 divulgado.<\/p>\n<p>O movimento Ni Una a Menos, citado no in\u00edcio deste artigo, levou milh\u00f5es de pessoas a protestar em 2015 e 2016 contra dois crimes: uma menina de 14 anos gr\u00e1vida que foi enterrada viva no quintal da casa do namorado e outra, de 16, empalada at\u00e9 a morte.<\/p>\n<p>A escritora Agustina Frontera, que \u00e9 membro do movimento, ressalta que se expandiu para outros pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina (como o Brasil) e ampliou suas pautas, incorporando outras viol\u00eancias, fazendo a cr\u00edtica da sociedade patriarcal, do sistema capitalista e do neoliberalismo.<\/p>\n<p>Conforme Engels discorreu no livro <em>A Origem da Fam\u00edlia, da Propriedade Privada e do Estado<\/em>, no in\u00edcio da hist\u00f3ria, quando o homem \u201cdecide\u201d que quer ter total poder sobre sua prole, que quer dispor sua heran\u00e7a para os que forem realmente seus descendentes, a mulher torna-se tamb\u00e9m, sob o modelo de casamento monog\u00e2mico, sob a ben\u00e7\u00e3o de uma religi\u00e3o monote\u00edsta e da propriedade privada, mais uma das posses do homem. \u00c9 a mulher que deve ser virtuosa, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 prostituta, o outro arqu\u00e9tipo feminino que complementa a fam\u00edlia nuclear.<\/p>\n<p>Por isso, quando as mulheres v\u00e3o \u00e0s ruas e gritam que querem ser donas de seus corpos, que n\u00e3o \u00e9 a roupa que usam que determina se ser\u00e3o ou n\u00e3o abusadas sexualmente, que o aborto \u00e9 uma quest\u00e3o de sa\u00fade publica e de sa\u00fade da mulher, as muralhas do patriarcado tremem. Tremem sob as vozes da moralidade religiosa ou mesmo da ci\u00eancia que finge ser neutra, mas est\u00e1 atrelada ideologicamente ao Estado burgu\u00eas.<\/p>\n<h3>A necessidade de fortalecer e unificar as lutas<\/h3>\n<p>O mesmo Chile que vem avan\u00e7ando nas pautas feministas protagonizou mais um ato de viol\u00eancia de g\u00eanero justamente durante uma manifesta\u00e7\u00e3o na capital onde 50 mil pessoas pediam <em>aborto livre, legal, gratuito e seguro<\/em> no dia 25 de julho. L\u00e1, as muralhas do patriarcado tremeram sob a forma de agressores encapuzados que esfaquearam tr\u00eas mulheres que participavam da marcha.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m a Argentina tem enfrentado oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s recentes conquistas de sua Primavera Feminista. A lei que legaliza o aborto, aprovada na C\u00e2mara dos Deputados em Buenos Aires, acarretou, por parte de religiosos da Igreja Cat\u00f3lica, uma a\u00e7\u00e3o mais formal de apoio \u00e0s gestantes em situa\u00e7\u00e3o de risco em algumas comunidades pobres do pa\u00eds. A assist\u00eancia \u00e0s m\u00e3es solteiras, \u00e0s que vivem em extrema pobreza e doentes \u00e9 consolidada; por\u00e9m, agora v\u00e3o ser criados centros de atendimento psicol\u00f3gico e assist\u00eancia alimentar, sanit\u00e1ria e legal. Para os padres, a inclina\u00e7\u00e3o das mulheres mais pobres \u00e9 a de colocar mais uma vida no mundo.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, o trabalho que as igrejas fazem nas comunidades pobres por todo o planeta, como bra\u00e7o ideol\u00f3gico do Estado, leva a que sejam as mulheres mais pobres, as que pertencem a minorias como ind\u00edgenas e negras, por exemplo, aquelas que enfrentam com mais valentia as adversidades de serem m\u00e3es solo, de n\u00e3o terem estrutura familiar para mais um membro a at\u00e9 mesmo de se prejudicarem no trabalho por conta da maternidade.\u00a0 A exist\u00eancia de uma rede de apoio, que no caso da interven\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica na Argentina inclui o encaminhamento dos rec\u00e9m nascidos para a ado\u00e7\u00e3o, n\u00e3o acaba com a necessidade da legaliza\u00e7\u00e3o do aborto.<\/p>\n<p>Caso essa aparente oposi\u00e7\u00e3o \u201crede de apoio \u00e0 m\u00e3e carente\u201d e \u201caborto legal\u201d prossiga no imagin\u00e1rio das sociedades, seguiremos vendo mulheres de fam\u00edlias \u00a0abastadas abortando com seguran\u00e7a (e discri\u00e7\u00e3o, na clandestinidade) e mulheres pobres (em geral negras, aqui no Brasil) desesperadas e sem acesso \u00e0 prote\u00e7\u00e3o, criminalizadas pela eventual pr\u00e1tica do aborto.\u00a0 Por isso, educa\u00e7\u00e3o sexual nas escolas e acesso \u00e0 contraceptivos s\u00e3o reivindica\u00e7\u00f5es feitas junto \u00e0 luta pelo aborto legal.<\/p>\n<p>O panorama de lutas nos dois pa\u00edses demonstra que as rea\u00e7\u00f5es dos oprimidos ocorrem em per\u00edodos cr\u00edticos e se constroem muito arduamente. Estas vit\u00f3rias e os ataques aos que lutam s\u00e3o a dial\u00e9tica que atrav\u00e9s da hist\u00f3ria ensina \u00e0 humanidade como \u00e9 poss\u00edvel chegar a uma s\u00edntese nova.<\/p>\n<p>Motivos para questionar a sociedade que condena o aborto e fragiliza a Mulher n\u00e3o faltam na Argentina. Em setembro de 2017, estudantes de Buenos Aires foram \u00e0s ruas revoltados com a contra reforma do Ensino M\u00e9dio, denominada Secundaria do Futuro.<\/p>\n<p>Como a Contrarreforma do Ensino M\u00e9dio brasileira, a Argentina visa flexibilizar o ensino e o trabalho dos professores alinhando os curr\u00edculos ao mercado de trabalho. Uma dr\u00e1stica redu\u00e7\u00e3o no percentual de aulas presenciais com professores, substitu\u00eddas por atividades com tutores, levar\u00e1 \u00e0 precariza\u00e7\u00e3o do trabalho, exig\u00eancia que o modelo toyotista, a faceta neoliberal nas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, vem fazendo n\u00e3o s\u00f3 com o sistema educacional argentino, mas tamb\u00e9m, como vimos, com o do Chile.<\/p>\n<p>Por este motivo, 30 escolas foram ocupadas por estudantes at\u00e9 setembro do ano passado na capital Argentina. Essas ocupa\u00e7\u00f5es estudantis, tamb\u00e9m ocorridas aqui no Brasil entre 2015 e 2016, provam o potencial de engajamento dos jovens que conseguem vislumbrar as perdas de direitos para a classe trabalhadora com a pol\u00edtica neoliberal aplicada \u00e0 Educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A s\u00e9rie de eventos dos \u00faltimos anos que vem sendo chamada de Primavera Feminista, n\u00e3o apenas circunscrita ao Chile e \u00e0 Argentina, \u00e9 tanto fruto de lutas longas como semente de vit\u00f3rias por vir.<\/p>\n<p>Ano passado, nos Estados Unidos, uma marcha de mulheres contra Trump e a recente legaliza\u00e7\u00e3o do aborto na cat\u00f3lica Isl\u00e2ndia s\u00e3o parte da onda feminista internacional.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m o Brasil, que fez por dois anos seguidos passeatas marcantes no Dia da Mulher (2017 e 2018), tomou parte da Primavera Feminista para a revers\u00e3o da PEC 181 de 2011, aprovada de maneira oportunista por Temer. Este foi um expediente para a proibi\u00e7\u00e3o de aborto no Brasil at\u00e9 em casos garantidos por lei. Tamb\u00e9m os abusos de Eduardo Cunha, ao aprovar projeto exigindo que a v\u00edtima de estupro fa\u00e7a BO e Corpo de Delito para ent\u00e3o, sob parecer m\u00e9dico, conseguir a p\u00edlula do dia seguinte no SUS, foi motivo para manifesta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Sociedades erguidas sobre o fundamentalismo religioso e sua extens\u00e3o \u00f3bvia, a intoler\u00e2ncia religiosa, sustentadas ideologicamente pelo Patriarcado em sua vers\u00e3o capitalista encontram constantemente barreiras para que as mulheres sejam livres.<\/p>\n<p>As mulheres pequeno burguesas e burguesas que t\u00eam o privil\u00e9gio de estudar e dispor de seu tempo para o lazer\u00a0 e planos para o futuro s\u00f3 o fazem explorando o trabalho de mulheres prolet\u00e1rias enquanto bab\u00e1s, dom\u00e9sticas, cozinheiras, auxiliares de creche e da condu\u00e7\u00e3o escolar\u00a0 das crian\u00e7as.\u00a0 O universo feminino reproduz a explora\u00e7\u00e3o do homem pelo homem fazendo parecer que a mulher est\u00e1 emancipada por haver mulheres emancipadas.<\/p>\n<p>Por outro lado, como disse Vanessa Martina, da revista online Di\u00e1logos do Sul, em uma entrevista sobre a Primavera Feminista na Am\u00e9rica Latina, n\u00e3o \u00e9 o desenvolvimento do capitalismo que vai atender as demandas do feminismo. Ela cita o caso cubano. L\u00e1 o aborto \u00e9 assegurado, ap\u00f3s uma avalia\u00e7\u00e3o com profissionais capacitados orientar a mulher.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma conquista do socialismo at\u00e9 pequena para tudo que este sistema vislumbra para a humanidade, mas \u00e9 grande se nos detivermos no cen\u00e1rio machista, repleto de preconceitos de ordem moral e guerras com outros povos que\u00a0 existiam\u00a0 nas sociedades onde este sistema se tornou realidade em algum momento.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00f4nica Buarque\/RJ Se a classe trabalhadora tudo produz, a ela tudo pertence. Essa famosa frase leva a compreens\u00e3o, em alguns<\/p>\n","protected":false},"author":12,"featured_media":6726,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6,98,14],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6725"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/12"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6725"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6725\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6731,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6725\/revisions\/6731"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6726"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6725"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6725"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6725"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}