{"id":68,"date":"2008-12-13T16:53:52","date_gmt":"2008-12-13T16:53:52","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/?q=node\/68"},"modified":"2018-05-04T21:47:28","modified_gmt":"2018-05-05T00:47:28","slug":"diarios-de-motocicleta-o-renascimento-da-latinoamericanidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2008\/12\/diarios-de-motocicleta-o-renascimento-da-latinoamericanidade\/","title":{"rendered":"&#8220;Di\u00e1rios de motocicleta&#8221;: o renascimento da latinoamericanidade"},"content":{"rendered":"<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<h1>\u201cDI\u00c1RIOS DE MOTOCICLETA\u201d: O RENASCIMENTO DA LATINOAMERICANIDADE<\/h1>\n<h1><\/h1>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: center;\" align=\"center\">(Coment\u00e1rio sobre o filme \u201cDi\u00e1rios de motocicleta\u201d)<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Nome original: Di\u00e1rios de motocicleta<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Produ\u00e7\u00e3o: Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra (UK), Argentina, Chile, Peru, Fran\u00e7a<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ano: 2004<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Idiomas: Qu\u00e9chua, Espanhol<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Diretor: Walter Salles<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Roteiro: Ernesto \u2018Che\u2019 Guevara, Alberto Granado<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <span lang=\"ES-TRAD\">Elenco: Gael Garc\u00eda Bernal, Rodrigo De La Serna<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">G\u00eanero: aventura, biografia, drama<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\"><span lang=\"EN-US\">Fonte: \u201cThe Internet Movie Database\u201d \u2013 <\/span><a href=\"http:\/\/www.imdb.com\/\"><span lang=\"EN-US\">http:\/\/www.imdb.com\/<\/span><\/a><span lang=\"EN-US\">\u00a0 <\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u201cDi\u00e1rios de Motocicleta\u201d, novo filme do diretor brasileiro Walter Salles, trata da viagem de Ernesto Guevara e seu amigo Alberto Granado pela Am\u00e9rica Latina, em 1952. Ernesto Guevara, na \u00e9poca com 23 anos, tornou-se depois mundialmente conhecido como \u201cChe\u201d Guevara, liderando a Revolu\u00e7\u00e3o Cubana ao lado de Fidel Castro, em 1959. Tentando estender a Revolu\u00e7\u00e3o ao continente latino-americano, foi morto pelo ex\u00e9rcito boliviano, em 1967, com assist\u00eancia da CIA. Alberto Granado vive at\u00e9 hoje em Cuba. O filme \u00e9 baseado num livro de sua autoria, narrando sua viagem com Che, cujo apelido na \u00e9poca era Fuser.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">O interesse do filme est\u00e1 obviamente em conhecer a figura de Che antes de se tornar o \u201cChe\u201d. Quem era Ernesto Guevara antes de se tornar Che? Responder a essa pergunta equivale a explicar como se forma um her\u00f3i. O que \u00e9 um her\u00f3i? A defini\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica diz que um her\u00f3i \u00e9 uma pessoa comum que, sob circunst\u00e2ncias extraordin\u00e1rias, realiza feitos extraordin\u00e1rios. O her\u00f3i \u00e9 um simples ser humano cujos atos se projetam na Hist\u00f3ria, de uma forma tal que ofuscam a sua dimens\u00e3o humana original. Che Guevara era um simples ser humano, isso \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o banal.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Transformar uma afirma\u00e7\u00e3o verdadeira, mas banal como essa, numa verdade significativa, \u00e9 a tarefa de todo artista e o metro pelo qual se avalia a qualidade est\u00e9tica de sua obra. Em \u201cDi\u00e1rios de motocicleta\u201d, Che Guevara emerge como homem real e como her\u00f3i. Este escriba partilha da id\u00e9ia de que um filme deve ser avaliado de acordo com a proposta interna que move sua realiza\u00e7\u00e3o. \u201cDi\u00e1rios de motocicleta\u201d \u00e9 um filme pequeno, despretensioso, minimalista, por assim dizer, e ao mesmo tempo grandioso em sua realiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">O filme \u00e9 minimalista porque n\u00e3o trata da trajet\u00f3ria inteira da vida de Che, mas apenas de um certo epis\u00f3dio. Evita-se no filme qualquer alus\u00e3o importante ao futuro de Fuser, quando este se tornaria Che. Evita-se debater seu futuro revolucion\u00e1rio, sua participa\u00e7\u00e3o na revolu\u00e7\u00e3o cubana, os fracassos em Angola e na Bol\u00edvia, etc.. Esses problemas espinhosos n\u00e3o pertencem ao escopo desta produ\u00e7\u00e3o, ainda que a figura de Che seja uma sombra em nossa mente pairando do futuro sobre a hist\u00f3ria narrada. O filme n\u00e3o tenta fingir que Fuser n\u00e3o se tornaria uma figura importante. O filme sabe desse futuro, apenas n\u00e3o se prop\u00f5e a abord\u00e1-lo diretamente. Sua limita\u00e7\u00e3o \u00e9 seu maior m\u00e9rito, ao ater-se ao per\u00edodo de forma\u00e7\u00e3o de Fuser.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ao mesmo tempo que minimalista, o filme \u00e9 grandioso, pela complexidade dos\u00a0 cen\u00e1rios que revela. \u201cDi\u00e1rios de motocicleta\u201d \u00e9 um \u201croad movie\u201d, um filme de viagem. Ao longo da viagem, temos a exposi\u00e7\u00e3o de amplo um painel da diversidade geogr\u00e1fica e humana da Am\u00e9rica Latina, da neve dos Andes ao rios da Amaz\u00f4nia, da burguesa Buenos Aires \u00e0 impressionante Machu Pichu e \u00e0 favelizada Lima. Sob muitos aspectos, a Am\u00e9rica do Sul assim revelada parece um retrato do Brasil ampliado.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A latinidade do Brasil, sua perten\u00e7a \u00e0 Am\u00e9rica Latina, muitas vezes parece estar eclipsada pela quest\u00e3o do idioma portugu\u00eas. Mas vendo um filme como esse, \u00e9 imposs\u00edvel deixar de pensar no pr\u00f3prio Brasil, em sua diversidade de cen\u00e1rios e paisagens. Sobretudo para quem, como este escriba conheceu o Nordeste brasileiro, o paralelo com o povo mesti\u00e7o e pobre da Am\u00e9rica do Sul \u00e9 de uma evid\u00eancia gritante.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Talvez por isso \u201cDi\u00e1rios de motocicleta\u201d esteja sendo considerado uma esp\u00e9cie de manifesto ou \u201cfilme-s\u00edmbolo\u201d de um certo cinema latino-americano em processo de afirma\u00e7\u00e3o perante o cen\u00e1rio mundial. Fala-se ent\u00e3o no car\u00e1ter multinacional da obra, com um diretor brasileiro, um astro mexicano, Gael Garcia Bernal (o \u201cnovo Antonio Banderas\u201d), um coadjuvante argentino (o \u00f3timo Rodrigo de la Serna), um produtor estadunidense, o vers\u00e1til Robert Redford. Para al\u00e9m dessas considera\u00e7\u00f5es de baixa cinefilia, o que se quer destacar aqui \u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o de latino-americanidade presente no filme, que mostra a Am\u00e9rica do Sul como uma amplia\u00e7\u00e3o do Brasil, revelando ao mesmo tempo o Brasil como uma condensa\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A barreira do idioma, \u00e9 claro, n\u00e3o existe quando os dois protagonistas deixam sua Buenos Aires natal e atravessam Chile, Peru e Venezuela. Em toda parte fala-se castelhano. Talvez n\u00e3o o mesmo castelhano, pois no Chile algu\u00e9m menciona a part\u00edcula \u201cche\u201d peculiar aos argentinos. O que aparece como a pista que explica o apelido de Fuser na maturidade, com o qual passar\u00e1 \u00e0 Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c0quela altura, Fuser e Mial (apelido de Granado), estavam mais interessados em mulheres e em aventuras do que em qualquer outra coisa. A viagem estava programada para festejar o anivers\u00e1rio de 30 anos de Granado, por ocasi\u00e3o da chegada \u00e0 Venezuela. Mas uma s\u00e9rie de vicissitudes, entre as quais a perda da motocicleta \u201cla Poderosa\u201d, determinaram um atraso de v\u00e1rios meses.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Como em todo filme de viagens, os personagens acabam encontrando a si mesmos ao longo do trajeto. Mais do que qualquer objetivo exterior posto no final da jornada, o que todo viajante encontra \u00e9 sua pr\u00f3pria verdade interior. Fuser descobre aquela unidade da Am\u00e9rica do Sul a que me referi. A mesma pobreza, a mesma injusti\u00e7a, a mesma hist\u00f3ria de espolia\u00e7\u00e3o ancestral e reiterada corrup\u00e7\u00e3o. Um dos primeiros incidentes onde a revolta se manifesta transcorre no Chile, quando os dois viajantes presenciam o recrutamento de mineiros mesti\u00e7os por funcion\u00e1rios de uma empresa transnacional. Diante dos maus-tratos aos pe\u00f5es, Fuser discute com os funcion\u00e1rios da empresa. Os dois s\u00e3o intimados a se retirar do local, sob a alega\u00e7\u00e3o de que se trata de uma propriedade da \u201cAnaconda Mining Company\u201d.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O espectador, ao impacto desta cena, inevitavelmente se pergunta: \u201ccomo assim, Anaconda Mining Company?\u201d O absurdo de uma transnacional explorar riquezas minerais da Am\u00e9rica do Sul usando popula\u00e7\u00e3o local como m\u00e3o-de-obra em regime de semi-escravid\u00e3o aparece de maneira gritante. Assim como o relato de um sem-terra peruano, que muito recorda o de um similar brasileiro.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Aos poucos, a consci\u00eancia social de Fuser desperta sob o impacto dessas experi\u00eancias. Um dos contrastes que lhe chamam aten\u00e7\u00e3o \u00e9 o do esplendor da cidade sagrada inca de Machu Pichu, em compara\u00e7\u00e3o com a degrada\u00e7\u00e3o das favelas de Lima. Um simp\u00e1tico guia mirim de Cuzco diz aos dois viajantes que se pode conhecer muito facilmente a diferen\u00e7a entre uma constru\u00e7\u00e3o inca e uma espanhola, atrav\u00e9s da clamorosa superioridade t\u00e9cnica da primeira sobre a segunda.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O sentimento de humanidade que os dois carregavam e que passa a ser cultivado ao longo da viagem tem ocasi\u00e3o de se manifestar quando chegam \u00e0 escala final do percurso, uma col\u00f4nia para leprosos na Amaz\u00f4nia venezuelana. Ali os dois protagonizam um \u201cmomento Estranho no Ninho\u201d, subvertendo o regime obscurantista que as freiras que administravam o local impunham \u00e0 col\u00f4nia, por meio do gesto simb\u00f3lico de deixar de usar luvas. A lepra, quando tratada, n\u00e3o \u00e9 contagiosa. Logo, n\u00e3o faz sentido usar luvas, sen\u00e3o para demarcar uma diferen\u00e7a de condi\u00e7\u00e3o social. Diferen\u00e7a que ambos se recusam a reconhecer. Ao resgatar a humanidade dos leprosos, Fuser d\u00e1 tamb\u00e9m testemunho de sua pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o de doente. Para quem, asm\u00e1tico como ele, precisa lutar por cada golfada de ar, a vida \u00e9 uma ben\u00e7\u00e3o que deve ser desfrutada a cada instante.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ao longo do filme, percebe-se que Fuser est\u00e1 se tornando Che. Mas esse movimento ainda \u00e9 embrion\u00e1rio. N\u00e3o h\u00e1 uma enuncia\u00e7\u00e3o program\u00e1tica clara, apenas uma indigna\u00e7\u00e3o fundamental que lentamente toma corpo. Um m\u00e9dico que os acolhe em Lima indica a leitura de Mari\u00e1tegui, importante pensador marxista peruano, virtualmente desconhecido no Brasil, que tematizava a quest\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o camponesa de maneira bastante criativa. Mas isso \u00e9 apenas um dos epis\u00f3dios da viagem.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Todos sabem que Fuser se tornaria Che, mas \u00e0quela altura, ele pr\u00f3prio ainda n\u00e3o sabia. Tratava portanto de viver sua vida, como um jovem comum. Um jovem membro da burguesia Argentina. Ernesto Guevara era m\u00e9dico e Alberto Granado bioqu\u00edmico. Apenas sua condi\u00e7\u00e3o social razoavelmente privilegiada lhes permitiria fazer tal viagem. Mas ainda assim, em condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias, pois os dois n\u00e3o eram ricos. Eram burgueses rom\u00e2nticos, acima de tudo. Mais do que uma vida burguesa confort\u00e1vel e mon\u00f3tona em Buenos Aires, buscavam a liberdade, o que quer que ela significasse.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O que estamos tentando dizer aqui \u00e9 que n\u00e3o se trata de um filme program\u00e1tico, de propaganda pol\u00edtica expl\u00edcita dos ideais de esquerda. A abordagem de Walter Salles \u00e9 quase documental. A est\u00e9tica semi-documental de \u201cDi\u00e1rios de motocicleta\u201d abre espa\u00e7o para cenas quase puramente fotogr\u00e1ficas, pain\u00e9is humanos variados do povo, trechos de m\u00fasica, de forma leve, suavizando e emoldurando a narrativa. Somos assim convidados a acompanhar a viagem e trilhar cada passos ao lado dos protagonistas.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Gra\u00e7as \u00e0 compet\u00eancia do diretor e do elenco, a figura de Che ganha em naturalidade e humanidade, atrav\u00e9s de sua forma embrion\u00e1ria de Fuser. Alguns dos tra\u00e7os de Che j\u00e1 est\u00e3o presentes, mas precisar\u00e3o ainda ser desenvolvidos. Uma das chaves interpretativas poss\u00edveis compara Ernesto e Alberto a Dom Quixote e Sancho Pan\u00e7a, respectivamente. O primeiro representa um idealismo inflex\u00edvel, o segundo um pragmatismo mais rasteiro e prosaico. H\u00e1 tr\u00eas momentos importantes que ressaltam a diferen\u00e7a dos dois no que diz respeito \u00e0 quest\u00f5es de \u00e9tica e verdade: o encontro com o fazendeiro, com a senhora moribunda e com o m\u00e9dico aspirante a escritor. Ao longo desses tr\u00eas momentos, Ernesto descobre como se deve dizer a verdade \u00e0s pessoas, ou n\u00e3o diz\u00ea-la, para constrangimento de Alberto.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Uma outra chave interpretativa pode ver em Ernesto o representante da raz\u00e3o e Alberto a pura emo\u00e7\u00e3o. Pode-se dizer que Rodrigo de la Serna rouba a cena no papel de Alberto Granado. Mais velho que seu companheiro e sobretudo mais experiente com o sexo oposto, ele protagoniza os momentos mais divertidos, exteriorizando uma aut\u00eantica e contagiante alegria de viver. Seu sucesso em conquistar a garota de programas do barco que os leva pelo rio, conseguindo o dinheiro no carteado, \u00e9 um dos momentos mais saborosos do filme. Atrav\u00e9s de Alberto Granado, o espectador brasileiro descobrir\u00e1 o quanto os palavr\u00f5es em castelhano s\u00e3o semelhantes aos do portugu\u00eas. Alberto \u00e9 um verdadeiro argentino-carioca, tal a facilidade e o humor com que se serve do baixo l\u00e9xico.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Estamos falando portanto de um filme bastante humano, bastante simples em sua forma e bastante profundo em sua sensibilidade. Um filme pautado por pequenos incidentes, pequenos percal\u00e7os e perip\u00e9cias, miudezas puramente humanas e nada her\u00f3icas. Ao inv\u00e9s de um esquerdismo program\u00e1tico, temos um humanismo difuso. \u00c9 como se o velho latino-americanismo estivesse tentando voltar \u00e0 origem, reencontrar sua inoc\u00eancia e sua inspira\u00e7\u00e3o. Nada mais apropriado nesse contexto do que resgatar a figura de Che. Nesse sentido, a nostalgia pela inoc\u00eancia e pelo idealismo de \u201cDi\u00e1rios de motocicleta\u201d faz dele a vers\u00e3o latino-americana de \u201cAdeus L\u00eanin\u201d.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Atrav\u00e9s desse humanismo difuso, aprendemos que talvez de Alberto tenha vindo a principal li\u00e7\u00e3o para a forma\u00e7\u00e3o de Che Guevara, aquela que ele pr\u00f3prio sintetizou quando, j\u00e1 celebre, proferiu e famosa frase: \u201chay que endurecerse, pero sin perder la ternura jam\u00e1s\u201d. Imperativo contradit\u00f3rio, tamb\u00e9m tornado banal, cuja verdade somente transparece quando examinada \u00e0 luz da trajet\u00f3ria de vida daquele que o proferiu. A dureza \u00e9 o requisito para se transformar um mundo duramente injusto; a ternura \u00e9 a maior arma para a luta e a pr\u00f3pria recompensa da vit\u00f3ria, que nos aguarda num mundo mais humano. Vit\u00f3ria sim, pois somente os her\u00f3is vencem a morte e se tornam exemplo para os vivos.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <span lang=\"ES-TRAD\">\u201cHasta la Victoria, siempre!\u201d<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\"><span lang=\"ES-TRAD\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\"><span lang=\"ES-TRAD\">Daniel M. Delfino<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\"><span lang=\"ES-TRAD\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\"><span lang=\"ES-TRAD\">27\/05\/2004<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\"><span lang=\"ES-TRAD\">\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<h1>&ldquo;DI&Aacute;RIOS DE MOTOCICLETA&rdquo;: O RENASCIMENTO DA LATINOAMERICANIDADE<\/h1>\n<h1><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/h1>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: center;\" class=\"MsoNormal\">(Coment&aacute;rio sobre o filme &ldquo;Di&aacute;rios de motocicleta&rdquo;)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9,76],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/68"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=68"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/68\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6116,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/68\/revisions\/6116"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=68"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=68"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=68"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}