{"id":6902,"date":"2019-02-04T22:09:30","date_gmt":"2019-02-05T00:09:30","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/portal\/?p=6902"},"modified":"2019-02-08T15:07:06","modified_gmt":"2019-02-08T17:07:06","slug":"coletes-amarelos-na-franca-expressao-da-crise-economica-e-social-dos-paises-desenvolvidos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2019\/02\/coletes-amarelos-na-franca-expressao-da-crise-economica-e-social-dos-paises-desenvolvidos\/","title":{"rendered":"Coletes amarelos na Fran\u00e7a: express\u00e3o da crise econ\u00f4mica e social dos pa\u00edses desenvolvidos"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\" align=\"justify\">M\u00f4nica e Dalmo<\/p>\n<p align=\"justify\">No m\u00eas de novembro do ano passado, um movimento conhecido como \u201cColetes amarelos\u201d tomou conta das ruas de Paris e de v\u00e1rias cidades do interior da Fran\u00e7a. Come\u00e7ou reivindicando basicamente redu\u00e7\u00e3o de impostos para combust\u00edveis e, como s\u00edmbolo, usavam coletes amarelos como refer\u00eancia ao equipamento de uso obrigat\u00f3rio para motoristas em situa\u00e7\u00f5es de acidente ou necessidade de socorro.<\/p>\n<p align=\"justify\">Os \u201cColetes amarelos\u201d nasceram nas manifesta\u00e7\u00f5es convocadas em redes sociais a partir da peti\u00e7\u00e3o de Priscillia Ludosky exigindo a diminui\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os dos combust\u00edveis. Isso em fins de outubro. Depois essa peti\u00e7\u00e3o viralizou, ganhou o apoio de milhares de pessoas pelas redes sociais que realizaram manifesta\u00e7\u00f5es. A primeira foi no dia 17 de novembro. No dia 02 de fevereiro j\u00e1 ocorria a 12\u00aa manifesta\u00e7\u00e3o, ou seja, desde ent\u00e3o, em todos os s\u00e1bados ocorrem manifesta\u00e7\u00f5es. Sempre se re\u00fanem aos s\u00e1bados<\/p>\n<p align=\"justify\">A reivindica\u00e7\u00e3o inicial, ainda que focada no aumento dos combust\u00edveis, foi o suficiente para levar, j\u00e1 no primeiro dia, mais de 280 mil pessoas nos v\u00e1rios atos realizados pelo pa\u00eds.<\/p>\n<p align=\"justify\">Outro elemento importante \u00e9 o fato de, mesmo com os limites pol\u00edticos, esse movimento ter uma caracter\u00edstica fundamental que \u00e9 a radicalidade de suas a\u00e7\u00f5es.\u00a0 Os bloqueios de rua, o enfrentamento com as for\u00e7as policiais, queima de carros da pol\u00edcia, colocam na cena pol\u00edtica o m\u00e9todo da luta direta, algo que a esquerda tradicional tem abandonado e desviado a luta para a arena parlamentar.<\/p>\n<h2 class=\"western\" align=\"justify\">As condi\u00e7\u00f5es sociais dos franceses pioraram<\/h2>\n<p align=\"justify\">A classe trabalhadora dos pa\u00edses imperialistas j\u00e1 n\u00e3o tem uma vida social como tinha nos anos 60 ou 70. Foram retirados muitos direitos sociais. Por isso que, ainda que a luta contra o aumento de impostos dos combust\u00edveis seja importante, principalmente para os moradores das periferias (e tamb\u00e9m do interior do pa\u00eds) que dependem de transporte para se deslocarem, a raz\u00e3o de fundo da revolta est\u00e1 nas condi\u00e7\u00f5es sociais dos franceses.<\/p>\n<p align=\"justify\">Condi\u00e7\u00f5es sociais essas, resultado das pol\u00edticas de ajuste econ\u00f4mico imposto por Macron (e antes, implementadas por Sarkozy e Hollande respectivamente), que empobreceram os franceses, impuseram medidas de retirada de direitos sociais como o aumento da idade para se aposentar, a Reforma Trabalhista que precariza as rela\u00e7\u00f5es de trabalho e o aumento da tributa\u00e7\u00e3o para os pobres (que levou ao aumento dos combust\u00edveis). Por outro lado, os impostos sobre as grandes fortunas foram eliminados favorecendo os ricos.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00e3o essas contradi\u00e7\u00f5es que est\u00e3o na raiz da insatisfa\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora e da popula\u00e7\u00e3o francesa, incluindo a\u00ed os pequenos propriet\u00e1rios.<\/p>\n<h2 class=\"western\" align=\"justify\">Mais reivindica\u00e7\u00f5es<\/h2>\n<p align=\"justify\">Mesmo depois de Macron ter sido obrigado a recuar e suspender\u00a0o aumento de impostos dos combust\u00edveis, as mobiliza\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00f3 se mantiveram como ampliaram e ainda se radicalizaram.<\/p>\n<p align=\"justify\">A partir desse momento, no interior do movimento foram surgindo novas reivindica\u00e7\u00f5es para al\u00e9m dos iniciais. Foi constru\u00edda uma pauta para ser apresentada ao governo com\u00a042 pontos expressando toda a diversidade do movimento. Reivindica\u00e7\u00f5es desde acabar com os sem-teto, passando pelo aumento da taxa\u00e7\u00e3o das grandes empresas, aumento do sal\u00e1rio m\u00ednimo, cria\u00e7\u00e3o de emprego, fim dos contratos tempor\u00e1rios de trabalho e outros pontos da Reforma Trabalhista, dentre outros.<\/p>\n<p align=\"justify\">Por essa heterogeneidade tamb\u00e9m tem em seu interior, por um lado, setores que\u00a0defendem a expuls\u00e3o sum\u00e1ria dos estrangeiros que n\u00e3o conseguirem sucesso em seus pedidos de asilo no pa\u00eds e, por outro lado, tamb\u00e9m a defesa de pol\u00edticas de aux\u00edlio \u00e0 integra\u00e7\u00e3o dos imigrantes<\/p>\n<p align=\"justify\">Guardadas as suas especificidades \u00e9 algo parecido com as jornadas de junho de 2013 aqui no Brasil. S\u00e3o milh\u00f5es de pessoas nas ruas, com uma diversidade de reivindica\u00e7\u00f5es (sa\u00fade, Educa\u00e7\u00e3o, contra a Copa, etc.) sem conseguir pontos capazes de unificarem a todos os setores em luta.<\/p>\n<h2 class=\"western\" align=\"justify\">Os partidos e entidades \u201ctradicionais\u201d do movimento<\/h2>\n<p align=\"justify\">Na Fran\u00e7a, assim como em muitos outros pa\u00edses do mundo, h\u00e1 uma profunda crise de partidos que se revezaram no poder por anos, Partidos Republicano e o Socialista. Se revezavam, mas eram cada vez mais parecidos. Hollande, \u00faltimo presidente membro do Partido Socialista, teve uma gest\u00e3o igual aos partidos de direita.<\/p>\n<p align=\"justify\">As dire\u00e7\u00f5es sindicais tamb\u00e9m t\u00eam se comportado muito mais como gestores do capital do que entidades que lutam pelas reivindica\u00e7\u00f5es da classe trabalhadora. Por isso, o movimento dos Coletes amarelos se distanciou das centrais sindicais, dos sindicatos e dos maiores partidos mesmo de esquerda.<\/p>\n<p align=\"justify\">Essa crise do movimento sindical se expressa, por exemplo, na queda da taxa de sindicaliza\u00e7\u00e3o e se estende \u00e0s centrais na perda de legitimidade, ou seja, n\u00e3o s\u00e3o vistas como defensoras dos direitos, mas como oportunistas, mais preocupadas com as negociatas com o governo e os empres\u00e1rios do que em mobilizar a classe trabalhadora.<\/p>\n<p align=\"justify\">A tend\u00eancia \u00e9 esse distanciamento aumentar, pois a maioria dos sindicatos nem participaram das manifesta\u00e7\u00f5es alegando serem de direita. E o movimento seguiu em frente, como uma demonstra\u00e7\u00e3o de que os sindicatos n\u00e3o s\u00e3o mais ess\u00eancias para ocorrerem manifesta\u00e7\u00f5es e lutas.<\/p>\n<p align=\"justify\">Esse processo n\u00e3o \u00e9 novo, pois as grandes mobiliza\u00e7\u00f5es de massas de 2016 j\u00e1 tinham sido puxadas pela base dos estudantes e s\u00f3 depois das press\u00f5es as centrais se incorporaram.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c9 evidente que essa desconfian\u00e7a de alguma forma se estende \u00e0 esquerda revolucion\u00e1ria (que na Fran\u00e7a chamam de extrema esquerda), primeiro porque realmente h\u00e1 muitos erros na rela\u00e7\u00e3o com os movimentos e depois por conta da confus\u00e3o pol\u00edtica que impera entre os trabalhadores.<\/p>\n<p align=\"justify\">A maioria dos grupos e partidos da extrema esquerda francesa se incorporou a esse movimento desde o in\u00edcio. Quem ficou de fora foram os partidos da \u201cesquerda light\u201d.<\/p>\n<h2 class=\"western\" align=\"justify\">Qual o car\u00e1ter ideol\u00f3gico do movimento?<\/h2>\n<p align=\"justify\">Esse distanciamento do movimento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s entidades tradicionais da luta coloca em debate o car\u00e1ter ideol\u00f3gico desse movimento.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c9 um movimento amplo e heterog\u00eaneo, se reivindica apartid\u00e1rio e\u00a0apol\u00edtico, se coloca como cidad\u00e3os lutando pelos seus direitos. Ser assim amplo permite que no seu interior tenham setores de esquerda, de direita e at\u00e9 de extrema direita.<\/p>\n<p align=\"justify\">Assim, \u00e9 um movimento que ainda disputa para ganhar aqueles que participam para as posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e ideol\u00f3gicas do campo anticapitalista.<\/p>\n<p align=\"justify\">A direita tamb\u00e9m disputa esse movimento. Por isso, Mari Le Pen tem insistentemente tentado se colocar como a \u201cporta-voz\u201d do movimento, ainda sem conseguir. No entanto, tem conseguido influenciar um setor. At\u00e9 mesmo setores fascistas se colocam na disputa. Nas manifesta\u00e7\u00f5es de 27 de janeiro \u00faltimo (XI marcha), a coluna do NPA (Partido Anticapitalista, em que v\u00e1rios agrupamentos da extrema-esquerda se agrupam) foi atacada por um grupo que se reivindicava \u201cles Zouaves\u201d (refer\u00eancia a membros de origem argelina e que serviam no ex\u00e9rcito franc\u00eas), que tentava expuls\u00e1-la dos atos.<\/p>\n<p align=\"justify\">Nesse sentido, a\u00a0batalha pol\u00edtica da esquerda revolucion\u00e1ria \u00e9 fundamental para ajudar o movimento a desenvolver essa consci\u00eancia, passando de uma luta por reivindica\u00e7\u00f5es \u201cgen\u00e9ricas\u201d para aquelas que joguem para os ricos o custo da crise econ\u00f4mica criada por eles e pela pol\u00edtica econ\u00f4mica que eles implementaram. A luta pelo desenvolvimento de uma consci\u00eancia de classe \u00e9 das mais importantes, inclusive para orientar as reivindica\u00e7\u00f5es em um sentido anticapitalista. Hoje o movimento est\u00e1 dilu\u00eddo em \u201cindiv\u00edduos e cidad\u00e3os\u201d (conceitos que se op\u00f5em ao conceito de classe social) como uma multid\u00e3o de pessoas protestando \u201cpelos seus interesses individuais\u201d e n\u00e3o por interesses da classe trabalhadora.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ainda \u00e9 tempo dessa batalha, pois, at\u00e9 o momento e dado a complexidade do movimento, pode-se dizer que o car\u00e1ter ideol\u00f3gico do movimento est\u00e1 totalmente indefinido. Isso quer dizer que h\u00e1 um espa\u00e7o para a esquerda revolucion\u00e1ria, mas tamb\u00e9m h\u00e1 para a direita.<\/p>\n<h2 class=\"western\" align=\"justify\">Assim na Fran\u00e7a como no Mundo: disputar as lutas<\/h2>\n<p align=\"justify\">H\u00e1 ao menos dois rumos poss\u00edveis: a coopta\u00e7\u00e3o desse movimento pela direita e at\u00e9 extrema direita francesa ou os jovens e trabalhadores direcionarem o movimento para uma pauta \u00e0 esquerda.<\/p>\n<p align=\"justify\">E essa disputa pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 na Fran\u00e7a. Desde o Brasil, Argentina e outros pa\u00edses podemos colaborar para o avan\u00e7o das for\u00e7as de esquerda. Mas, para isso \u00e9 preciso disputar os movimentos e formar politicamente a classe trabalhadora para a derrubada do capitalismo, nesse momento de crise\u00a0em que as grandes economias centrais e perif\u00e9ricas imp\u00f5em cortes no padr\u00e3o de vida da classe trabalhadora e dos pobres.<\/p>\n<p align=\"justify\">Aqui no Brasil h\u00e1 a urg\u00eancia de ganharmos a classe trabalhadora para ir \u00e0s ruas em manifesta\u00e7\u00f5es classistas e enfrentar com for\u00e7a todos os planos de ajuste de Bolsonaro e Paulo Guedes.<\/p>\n<p align=\"justify\">Lembrando Rosa Luxemburgo, que no \u00faltimo dia 15 de janeiro completou-se cem anos de assassinato, focando em suas palavras: Por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00f4nica e Dalmo No m\u00eas de novembro do ano passado, um movimento conhecido como \u201cColetes amarelos\u201d tomou conta das ruas<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":6903,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6902"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6902"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6902\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6941,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6902\/revisions\/6941"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6903"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6902"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6902"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6902"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}