{"id":70,"date":"2008-12-13T16:56:29","date_gmt":"2008-12-13T16:56:29","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/?q=node\/70"},"modified":"2018-05-04T21:47:17","modified_gmt":"2018-05-05T00:47:17","slug":"a-paixao-de-cristo-segundo-mel-gibson","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2008\/12\/a-paixao-de-cristo-segundo-mel-gibson\/","title":{"rendered":"A paix\u00e3o de Cristo segundo Mel Gibson"},"content":{"rendered":"<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<h1>A PAIX\u00c3O DE CRISTO SEGUNDO MEL GIBSON<\/h1>\n<h1><\/h1>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: center;\" align=\"center\">(Coment\u00e1rio sobre o filme \u201cPaix\u00e3o de Cristo\u201d)<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\"><span lang=\"EN-US\">Nome original: The passion of the Christ<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\"><span lang=\"EN-US\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/span>Produ\u00e7\u00e3o: Estados Unidos<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ano: 2004<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Idiomas: Assyrian Neo-Aramaic, Aramaic, Latim, Hebrew<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <span lang=\"EN-US\">Diretor: Mel Gibson<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\"><span lang=\"EN-US\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Roteiro: Benedict Fitzgerald, Mel Gibson<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\"><span lang=\"EN-US\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/span>Elenco: James Caviezel, Maria Morgenstern, Christo Jivko, Francesco De Vito, M\u00f4nica Belluci, Mattia Sbragia, Toni Bertorelli<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\"><span lang=\"EN-US\">G\u00eanero: drama<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\"><span lang=\"EN-US\">Fonte: \u201cThe Internet Movie Database\u201d \u2013 <\/span><a href=\"http:\/\/www.imdb.com\/\"><span lang=\"EN-US\">http:\/\/www.imdb.com\/<\/span><\/a><span lang=\"EN-US\">\u00a0 <\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Mahatma Gandhi disse uma vez: \u201cGosto de Cristo, mas n\u00e3o gosto dos crist\u00e3os\u201d. Os crist\u00e3os a que Gandhi se referia eram os ingleses que oprimiam a \u00cdndia havia mais de um s\u00e9culo. E contra os quais ele dirigia uma campanha de liberta\u00e7\u00e3o baseada na n\u00e3o-viol\u00eancia, inacreditavelmente bem-sucedida. O Cristo a quem ele se referia era o das belas passagens do Serm\u00e3o da Montanha, aquele que tinha como m\u00e1xima amar ao pr\u00f3ximo como a si mesmo.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A frase de Gandhi ilustra a total discrep\u00e2ncia entre a teoria e a pr\u00e1tica do cristianismo. Os crist\u00e3os n\u00e3o fazem o que pregava Cristo. Cristo pregava o amor, os crist\u00e3os massacravam os hindus. A discrep\u00e2ncia por\u00e9m n\u00e3o \u00e9 exclusiva do cristianismo, pois em todas as religi\u00f5es acontece o mesmo. Que o diga o pr\u00f3prio Gandhi, assassinado por um fan\u00e1tico mu\u00e7ulmano. Sendo que Maom\u00e9 dizia: \u201cnenhum de v\u00f3s sois um verdadeiro crente at\u00e9 devotar pelo pr\u00f3ximo o amor que devotais a v\u00f3s mesmos\u201d. Todas as religi\u00f5es trazem em seus textos sagrados, seja sob que f\u00f3rmula textual for, a chamada regra de ouro: fazer ao pr\u00f3ximo o que gostaria que fosse feito para si mesmo. Todas elas fracassam em fazer com que essa regra seja obedecida.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O fracasso da religi\u00e3o \u00e9 um fracasso humano, n\u00e3o divino. A religi\u00e3o \u00e9 uma obra humana. O homem cria deuses \u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a. A bondade de Deus \u00e9 a bondade do homem transfigurada em um objeto exterior. O desejo da religi\u00e3o de transformar o mundo num para\u00edso \u00e9 o desejo do homem de realizar o bem que traz em si. A ess\u00eancia verdadeira da religi\u00e3o \u00e9 essa capacidade humana para o bem. A ess\u00eancia alienada \u00e9 o objeto exterior de culto: Deus, a virgem, os santos, o profeta, gurus, etc..<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">A religi\u00e3o fracassa exatamente porque se manifesta sob a forma exterior de um culto sect\u00e1rio, que reprime a sua ess\u00eancia verdadeira, o seu conte\u00fado humano, onde o amor permanece impotente e irrealizado. Para o fan\u00e1tico apegado \u00e0 forma exterior da religi\u00e3o, o que mais conta n\u00e3o \u00e9 a forma como o pr\u00f3ximo se comporta objetivamente, se \u00e9 bom ou se \u00e9 mau, mas para que Deus ele reza. Em nome dessa diferen\u00e7a, \u00e9 aceit\u00e1vel inclusive matar, ou seja, contrariar o mais importante de todos os mandamentos.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Essa contradi\u00e7\u00e3o gritante entre os mandamentos da religi\u00e3o e a pr\u00e1tica dos fi\u00e9is parece um abismo indevass\u00e1vel se encarada abstratamente. \u00c9 preciso situar a religi\u00e3o no conjunto de determina\u00e7\u00f5es concretas em que se articulam as media\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas da sociedade para que a contradi\u00e7\u00e3o se torne intelig\u00edvel. Na Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Cr\u00edtica da Filosofia do Direito de Hegel, diz Marx: \u201cA religi\u00e3o \u00e9 a teoria geral deste mundo, seu comp\u00eandio enciclop\u00e9dico, sua l\u00f3gica popular, sua dignidade espiritualista, seu entusiasmo, sua san\u00e7\u00e3o moral, seu complemento solene, sua raz\u00e3o geral de consolo e de justifica\u00e7\u00e3o. \u00c9 a realiza\u00e7\u00e3o fant\u00e1stica da ess\u00eancia humana, porque a ess\u00eancia humana carece de realidade concreta. Por conseguinte, a luta contra a religi\u00e3o \u00e9, indiretamente, a luta contra aquele mundo que tem na religi\u00e3o o seu aroma espiritual\u201d.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Para suprimir a contradi\u00e7\u00e3o religiosa, seria preciso suprimir as contradi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, pol\u00edticas e culturais das quais a religi\u00e3o \u00e9 objetivamente um mero complemento funcional. A f\u00e9 religiosa das massas \u00e9 manipulada em fun\u00e7\u00e3o de interesses pol\u00edticos e econ\u00f4micos, que fazem com que povos se tornem inimigos e os imp\u00e9rios justifiquem sua domina\u00e7\u00e3o. Os ingleses estavam na \u00cdndia, entre outras coisas, para impor a religi\u00e3o crist\u00e3 aos hindus pag\u00e3os. Era assim que os dedicados oficiais de Sua Majestade justificavam perante as piedosas senhoras da burguesia vitoriana a pilhagem do col\u00f4nia e o genoc\u00eddio de milh\u00f5es de hindus, vitimados por fomes monumentais, induzidas por crises comerciais trazidas pelo capitalismo, a verdadeira religi\u00e3o que os ingleses levaram \u00e0 \u00cdndia. E que ainda hoje governa o mundo.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Ou seja, para que a contradi\u00e7\u00e3o entre discurso e pr\u00e1tica religiosa deixe de existir, \u00e9 preciso que o mundo se transforme num lugar onde a aliena\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, pol\u00edtica e cultural n\u00e3o mais exista, e por conseguinte, onde a religi\u00e3o n\u00e3o seja mais necess\u00e1ria e o homem tenha em sua pr\u00f3pria Humanidade plenamente interiorizada o sol em torno do qual passe a gravitar sua subjetividade, ao inv\u00e9s de t\u00ea-lo em um objeto alienado de culto exterior. Nesse mundo a religi\u00e3o n\u00e3o ser\u00e1 mais necess\u00e1ria como complemento funcional da ideologia dominante e poder\u00e1 inclusive ser vivenciada com liberdade, de acordo com a f\u00e9 (ou falta de f\u00e9) de cada um.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Estamos por\u00e9m distantes de um tal mundo, tanto quanto de uma verdadeira era messi\u00e2nica. No contexto do mundo atual, nada parece mais retr\u00f3grado, deslocado, vazio, sem sentido e desesperado do que o discurso religioso. Quando n\u00e3o \u00e9 fan\u00e1tico e assustador, como no caso dos extremistas homicidas de quaisquer seitas, \u00e9 rid\u00edculo e in\u00f3cuo, como no caso das prega\u00e7\u00f5es do Papa em termos de moral sexual. A religi\u00e3o \u00e9 uma das faces mais esquizofr\u00eanicas da atual barb\u00e1rie. Diante dos mandamentos do Deus dinheiro, o amor ao pr\u00f3ximo vira piada, a busca de transcend\u00eancia vira engodo, a observ\u00e2ncia dos mandamentos vira obsess\u00e3o de beatas e carolas. A religi\u00e3o n\u00e3o consegue se materializar de forma efetiva sen\u00e3o por meios extremos.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O extremismo \u00e9 a mat\u00e9ria-prima do novo filme sobre a paix\u00e3o de Cristo, produzido por Mel Gibson. A inten\u00e7\u00e3o expl\u00edcita do produtor \u00e9 provocar nos espectadores uma emo\u00e7\u00e3o extrema. Fiel a sua f\u00e9 de cat\u00f3lico integrista, Mel Gibson quer partilhar com o p\u00fablico o seu sentimento particular em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 religi\u00e3o. O astro australiano faz parte de uma fac\u00e7\u00e3o de cat\u00f3licos que n\u00e3o aceita as decis\u00f5es do Conc\u00edlio Vaticano II, no qual o culto da Igreja foi atualizado para o s\u00e9culo XX, com a aboli\u00e7\u00e3o das missas em latim, e entre outras coisas, o perd\u00e3o oficial aos judeus pela morte de Cristo.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">A religi\u00e3o de Mel Gibson n\u00e3o admite essas modernidades. Seu mundo continua sendo marcado pelo desespero m\u00edstico e pela viol\u00eancia. Sua vis\u00e3o da salva\u00e7\u00e3o continua sendo determinada pelo sacrif\u00edcio extremo. Com esse tipo de teologia como guia, torna-se compreens\u00edvel que o astro veja o mundo moderno da forma violenta e desesperada como o v\u00ea em \u201cMad Max\u201d e postule a necessidade do sacrif\u00edcio pessoal como em \u201cCora\u00e7\u00e3o Valente\u201d, seus dois melhores filmes. \u201cA paix\u00e3o de Cristo\u201d rec\u00e9m-trazida aos cinemas, fornece o complemento e a explica\u00e7\u00e3o dessa trajet\u00f3ria art\u00edstica. O Cristo da \u201cpaix\u00e3o segundo Mel Gibson\u201d \u00e9 uma esp\u00e9cie de William Wallace justificado pela hist\u00f3ria.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O manifesto de f\u00e9 de Mel Gibson possui ineg\u00e1veis qualidades est\u00e9ticas. N\u00e3o \u00e9 um filme f\u00e1cil, um filme-pipoca. N\u00e3o se prop\u00f5e a ser divers\u00e3o, mas reflex\u00e3o, o que sempre constitui uma bem-vinda novidade num cen\u00e1rio de monotonia criativa como o do cinema atual (se consegue de fato provocar reflex\u00e3o \u00e9 algo que discutiremos adiante). \u00c9 sobretudo interessante o uso do aramaico e do latim como l\u00edngua cinematogr\u00e1fica. A reconstitui\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica merece ser elogiada pela sua fidelidade ao cen\u00e1rio pol\u00edtico e cultural da \u00e9poca, ainda que a fonte textual continue sendo o Evangelho. E o Evangelho, como obra de propaganda, escrita por algu\u00e9m que \u00e9 obviamente parte interessada na quest\u00e3o, n\u00e3o pode ser considerado sem qualquer cr\u00edtica um fonte hist\u00f3rica completamente isenta.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Usar o Evangelho como fonte textual traz tamb\u00e9m certas armadilhas conceituais. Jesus diz, j\u00e1 na cruz, entre dois ladr\u00f5es: \u201cPerdoai-os, eles n\u00e3o sabem o que fazem.\u201d Mas logo em seguida, no filme de Mel Gibson, um dos ladr\u00f5es, que zombou do perd\u00e3o de Jesus, teve seu olho dilacerado por um corvo, apressado em come\u00e7ar seu repasto. O evangelista Mel Gibson mostra-se um narrador dedicado, mas n\u00e3o era muito coerente, descrevendo uma fala e logo em seguida a sua contradi\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica. O Deus que assim castigou o ladr\u00e3o por sua descren\u00e7a se comportava ainda como o Deus vingativo do Velho Testamento, n\u00e3o como o Deus de amor que Cristo teria vindo pregar. N\u00f3s, por nossa vez, temos que perdoar o autor pelo seu excesso de zelo propagand\u00edstico.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Quando dissemos que se trata de uma reconstitui\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica razoavelmente fiel, entramos na espinhosa quest\u00e3o que tem sido a maior fonte de propaganda para o filme, a da culpabilidade dos judeus no evento. Tem-se feito uma tempestade em copo d\u2019\u00e1gua a respeito dessa quest\u00e3o, como se o filme fosse capaz de detonar um onda de anti-semitismo por parte de hordas de crist\u00e3os desejosos de vingar Cristo. Mesmo que seja dois mil anos depois de sua morte. Tanto o temor exagerado em rela\u00e7\u00e3o ao poder de um filme como a atribui\u00e7\u00e3o da culpa aos judeus de hoje por uma morte t\u00e3o distante no tempo, s\u00e3o ambos absurdos. Seria tapar o sol com a peneira dizer que os judeus n\u00e3o tem nenhuma culpa. E seria estupidez completa querer se vingar em cima dos judeus de hoje. \u00c9 preciso colocar cada coisa em seu contexto.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Tratar os judeus de qualquer \u00e9poca como um monobloco \u00e9 sempre um erro crasso. Entre os judeus da \u00e9poca de Cristo, havia uma infinidade de seitas: os fariseus, os ess\u00eanios, os zelotes, os saduceus, etc. Se o ensinamento de Jesus contrariava alguns, principalmente sacerdotes e fariseus, podia ser simp\u00e1tico a outros. Jesus estava do lado dos judeus pobres e exclu\u00eddos e contra os poderosos. Quem tinha o poder para cometer o crime e quem estava exclu\u00eddo do poder para ser incapaz de imped\u00ed-lo? Sem a caracteriza\u00e7\u00e3o concreta das classes sociais envolvidas e dos seus interesses mediatos, qualquer disputa hist\u00f3rica se torna inintelig\u00edvel.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Como se pode culpar a todos pelo crime de alguns? Objetivamente, o filme de Mel Gibson n\u00e3o incorre em uma generaliza\u00e7\u00e3o desse tipo, embora, n\u00e3o se possa dizer que a apresenta\u00e7\u00e3o do cen\u00e1rio e das divis\u00f5es dentro do juda\u00edsmo a respeito da \u201cquest\u00e3o Jesus\u201d esteja bem feita. De fato, o interesse parece ter sido de manter o foco apenas no grupo diretamente respons\u00e1vel pela morte do profeta. A esse respeito, Mel Gibson pode dar a desculpa de que o filme se chama \u201cPaix\u00e3o de Cristo\u201d, portanto n\u00e3o trata de sua vida e obra, mas da caracteriza\u00e7\u00e3o de sua morte. Uma desculpa tecnicamente perfeita, mas completamente c\u00ednica. E desse cinismo somos autorizados a extrair a suspeita de um golpe de marketing.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Historicamente, essa caracteriza\u00e7\u00e3o \u00e9 at\u00e9 razo\u00e1vel. O poder romano n\u00e3o precisava se interessar pelas controv\u00e9rsias internas dos religiosos judeus, pois do seu ponto de vista, era apenas disso que se tratava. Jesus Cristo se tornou importante para n\u00f3s por for\u00e7a do trabalho posterior de seus seguidores. Mas para um governador romano da \u00e9poca, n\u00e3o passava de um profeta como outro qualquer. Pois houve muitos outros agitadores judeus antes e depois de Jesus. P\u00f4ncio Pilatos n\u00e3o poderia estar ciente da import\u00e2ncia transcendente que a posteridade atribuiria \u00e0quele personagem. Entreg\u00e1-lo ou n\u00e3o \u00e0 morte era n\u00e3o uma quest\u00e3o de justi\u00e7a abstrata, mas de pol\u00edtica pr\u00e1tica e rotineira, uma quest\u00e3o de saber at\u00e9 que ponto era sensato agradar o clero judaico ou desagrad\u00e1-lo.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Na vers\u00e3o de Mel Gibson, Pilatos se comporta at\u00e9 com excessivos escr\u00fapulos na quest\u00e3o. Os sacerdotes judeus, por sua vez, s\u00e3o demonizados como perseguidores implac\u00e1veis, que n\u00e3o se dobram nem sequer diante da flagela\u00e7\u00e3o de seu advers\u00e1rio. Flagela\u00e7\u00e3o que era encargo dos romanos, o que por sua vez deveria mostrar que, se os judeus foram os autores intelectuais do deic\u00eddio, somente os romanos tinham os meios e a autoridade para serem os executores materiais. Para os carrascos de Jesus, tratava-se de apenas mais um prisioneiro infame. Entre romanos e judeus houve culpados e inocentes. Isso est\u00e1 no filme de maneira \u00f3bvia. Quem tem olhos para ver, que veja.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Se a caracteriza\u00e7\u00e3o \u00e9 historicamente razo\u00e1vel, a op\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica do autor \u00e9 question\u00e1vel. Fica evidente o esfor\u00e7o para absolver P\u00f4ncio Pilatos. O governador romano s\u00f3 entrega Cristo aos seus algozes depois de sucessivas consultas \u00e0 multid\u00e3o de fan\u00e1ticos judeus no seu p\u00e1tio. O peso de governar prov\u00edncias rebeldes torna Pilatos a v\u00edtima e n\u00e3o o algoz. Mais ou menos como se Paul Bremer, o proc\u00f4nsul estadunidense no Iraque, fosse um juiz justo das contendas entre curdos, xiitas e sunitas. Uma vers\u00e3o extremamente precoce do \u201cfardo do homem branco\u201d.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Pobre homem branco e sua \u201cmiss\u00e3o civilizadora\u201d! Pilatos parece ser um mero coadjuvante involunt\u00e1rio do drama de Cristo, uma esp\u00e9cie de mal necess\u00e1rio ao mundo, absolvido de sa\u00edda por autorizar uma condena\u00e7\u00e3o de resto inevit\u00e1vel. Os imp\u00e9rios est\u00e3o de sa\u00edda absolvidos do mal que desencadeiam sobre n\u00f3s, uma vez que o mal \u00e9 o coadjuvante necess\u00e1rio da reden\u00e7\u00e3o. Sejamos submissos e suportemos o jugo do Imp\u00e9rio estadunidense. A C\u00e9sar o que \u00e9 de C\u00e9sar e a Deus o que \u00e9 de Deus.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">N\u00e3o h\u00e1 sacrif\u00edcio que pare\u00e7a bastar ao exigente Deus de Mel Gibson. Para tornar o mundo mais assustador e a miss\u00e3o de Cristo mais prec\u00e1ria, o autor introduz a presen\u00e7a do diabo no filme, sempre \u00e0 espreita, uma presen\u00e7a que os Evangelhos n\u00e3o mencionam nesse momento da narrativa, mas que para efeito dram\u00e1tico, o cineasta julgou conveniente acrescentar. O medo \u00e9 sempre um fator de coer\u00e7\u00e3o a servi\u00e7o da autoridade repressora. O autor do filme quer que saiamos todos direto do cinema para o confession\u00e1rio, arrependidos e submissos.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Se o filme tem o m\u00e9rito de sacudir a passividade e provocar reflex\u00e3o, tem o dem\u00e9rito de apontar para os caminhos equivocados do misticismo desesperado. Se pode fazer as pessoas questionarem sua vis\u00e3o e sua viv\u00eancia da religi\u00e3o, pode tamb\u00e9m lev\u00e1-las a associar religi\u00e3o com temor supersticioso. Se mostra o quanto o sofrimento faz parte desse mundo, simultaneamente desloca a perspectiva da reden\u00e7\u00e3o para o al\u00e9m. No mundo assustador de Mel Gibson, satan\u00e1s \u00e9 um dem\u00f4nio andr\u00f3gino (homossexual?), as crian\u00e7as s\u00e3o endemoniados, as mulheres ou s\u00e3o m\u00e3es chorosas ou pecadoras arrependidas. A sua vis\u00e3o de mundo subsiste integralmente autorit\u00e1ria, machista, patriarcal e conservadora.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Mel Gibson sabia que estava mexendo em um vespeiro. Os est\u00fadios de Hollywood, dirigidos em sua maioria por judeus, n\u00e3o quiseram bancar a distribui\u00e7\u00e3o do filme. O astro pagou para ver e produziu o filme com recursos pr\u00f3prios. Diante da perspectiva de sucesso, por\u00e9m, um grande est\u00fadio tratou de encamp\u00e1-lo. No cinema, nada vende mais do que a pol\u00eamica. O culto ao deus dinheiro passa por cima de qualquer escr\u00fapulo pol\u00edtico-religioso. A controv\u00e9rsia como estrat\u00e9gia de marketing provou-se, como sempre, bem sucedida. Depois de ser imolado em todos os altares e reivindicado por todas as seitas e ideologias, Jesus agora \u00e9 sacrificado no altar do lucro por um golpe de marketing muit\u00edssimo bem sucedido.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Como bom c\u00e9tico, este escriba quis ver para crer. E n\u00e3o saiu convencido depois do ritual, digo, do cinema. Como disse acima, suspeitava tratar-se de um golpe de marketing, em face da estreiteza com que o objeto hist\u00f3rico \u00e9 tratado. O filme sucumbe na imediaticidade da viol\u00eancia estetizada. O seu trunfo para fazer sucesso, mais do que as sutilezas hist\u00f3rico-teol\u00f3gicas que tentamos desvendar, est\u00e1 na est\u00e9tica aterrorizante.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">\u201cA paix\u00e3o de Cristo\u201d \u00e9 um filme de terror. \u00c9 t\u00e3o assustador que as pessoas morrem de medo ao assist\u00ed-lo. Espectadores ao redor do mundo morrem de infarto com as cenas fortes da paix\u00e3o. Mas que tipo de espectadores? Religiosos beatos recalcados que se proibiram a vida inteira de verem filmes de terror n\u00e3o resistem \u00e0 sua pr\u00f3pria puls\u00e3o sado-masoquista mal-administrada. O sofrimento e o sangue de Cristo s\u00e3o id\u00eanticos aos de qualquer v\u00edtima de Jason ou Fredy Krueger. Mas os espectadores assustadi\u00e7os da paix\u00e3o de Cristo nunca assistiram Jason ou Fredy. Deseducados para a viol\u00eancia, a crueldade, o sangue, o misto de dor e prazer, experimentam um choque direto nas cenas de flagela\u00e7\u00e3o e crucifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A morte dos espectadores mais chocados s\u00f3 contribui para alimentar o mito e transformar o filme de Cristo em um filme maldito, como se fosse \u201cO Exorcista\u201d. Na obra de Mel Gibson, a mais sincera inten\u00e7\u00e3o religiosa convive com a mais agu\u00e7ada mal\u00edcia mercadol\u00f3gica, de maneira tipicamente cat\u00f3lica. O autor \u00e9 conservador, autorit\u00e1rio e supersticioso, mas passa uma imagem simp\u00e1tica e sedutora de bom mo\u00e7o. H\u00e1 um dito espirituoso que ensina: \u201cse o mau soubesse como \u00e9 bom ser bom, seria bom s\u00f3 por maldade\u201d. Mel Gibson se compraz alegremente em sua bondosa maldade e se refestela em algumas centenas de milh\u00f5es de d\u00f3lares de lucro. Com a gra\u00e7a de Deus.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">Daniel M. Delfino<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">21\/03\/2004<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<h1>A PAIX&Atilde;O DE CRISTO SEGUNDO MEL GIBSON<\/h1>\n<h1><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/h1>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: center;\" class=\"MsoNormal\">(Coment&aacute;rio sobre o filme &ldquo;Paix&atilde;o de Cristo&rdquo;)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9,76],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=70"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6114,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70\/revisions\/6114"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=70"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=70"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=70"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}