{"id":71,"date":"2008-12-13T16:57:53","date_gmt":"2008-12-13T16:57:53","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/?q=node\/71"},"modified":"2018-05-04T21:47:13","modified_gmt":"2018-05-05T00:47:13","slug":"dogville-e-a-morte-do-humanismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2008\/12\/dogville-e-a-morte-do-humanismo\/","title":{"rendered":"&#8220;Dogville&#8221; e a morte do humanismo"},"content":{"rendered":"<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<h1>\u201cDOGVILLE\u201d E A MORTE DO HUMANISMO<\/h1>\n<h1><\/h1>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: center;\" align=\"center\">(Coment\u00e1rio sobre o filme \u201cDogville\u201d)<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Nome original: Dogville<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Produ\u00e7\u00e3o: Dinamarca, Su\u00ed\u00e7a, Fran\u00e7a, Noruega, Holanda, Finl\u00e2ndia, Alemanha, Estados Unidos, Inglaterra (UK)<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ano: 2003<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Idiomas: Ingl\u00eas<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <span lang=\"ES-TRAD\">Diretor: Lars Von Trier<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\"><span lang=\"ES-TRAD\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Roteiro: Lars Von Trier<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\"><span lang=\"ES-TRAD\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Elenco: Nicole Kidman, Harriet Andersson, Lauren Bacall, Jean-Marc Barr, Paul Bettany, Blari Brown, James Caan, Patricia Clarkson, Jeremy Davies, Philip Baker Hall, Thom Hoffman, Siobhan Fallon, John Hurt, Zeljko Ivanek<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\"><span lang=\"EN-US\">G\u00eanero: drama, thriller, mist\u00e9rio<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\"><span lang=\"EN-US\">Fonte: \u201cThe Internet Movie Database\u201d \u2013 <\/span><a href=\"http:\/\/www.imdb.com\/\"><span lang=\"EN-US\">http:\/\/www.imdb.com\/<\/span><\/a><span lang=\"EN-US\">\u00a0 <\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u201cDogville\u201d \u00e9 a cr\u00edtica mais radical da sociedade burguesa j\u00e1 vista no cinema recente, superando at\u00e9 mesmo \u201cClube da luta\u201d, de 1998. Esteticamente mais ousado e tematicamente mais abrangente, o filme de Lars von Trier \u00e9 um manifesto de falta de f\u00e9 na humanidade. Exp\u00f5e de maneira conseq\u00fcente e articulada um resumo de todas as mis\u00e9rias humanas e as raz\u00f5es de todos os nossos fracassos. Em \u201cDogville\u201d n\u00e3o \u00e9 apenas a sociedade burguesa estadunidense que fracassa, mas o iluminismo, o humanismo, a religi\u00e3o, toda a experi\u00eancia humana, enfim. N\u00e3o fica pedra sobre pedra.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A primeira v\u00edtima s\u00e3o as conven\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas da narrativa cinematogr\u00e1fica. \u201cDogville\u201d n\u00e3o \u00e9 propriamente cinema. \u00c9 teatro filmado. A a\u00e7\u00e3o se passa sobre um piso negro em que as riscas de giz representam as paredes das casas. Os atores fingem abrir portas e janelas. Alguns m\u00f3veis, \u00e1rvores, carros completam o cen\u00e1rio. Nomes riscados no ch\u00e3o indicam o nome do propriet\u00e1rio da casa em quem estamos. Essa ousadia est\u00e9tica mostra o quanto o cinema pode ser simples e eficiente, desde que feito com intelig\u00eancia. Lars von Trier foi um dos signat\u00e1rios do movimento \u201cDogma\u201d (uma vers\u00e3o dinamarquesa do \u201cuma id\u00e9ia na cabe\u00e7a e uma c\u00e2mera na m\u00e3o\u201d do nosso Cinema Novo dos anos 1960). O Dogma fez bastante sucesso no circuito europeu de festivais a partir de meados da d\u00e9cada de 1990 e Lars von Trier acabou provando ser o seu mais competente adepto.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">O teatro de \u201cDogville\u201d situa-se nos Estados Unidos em plena d\u00e9cada de 1930, com a mis\u00e9ria da Depress\u00e3o e a viol\u00eancia dos g\u00e2ngsteres. Mas poderia situar-se em qualquer cen\u00e1rio e em qualquer \u00e9poca. A escolha dos Estados Unidos apenas a torna mais familiar e acess\u00edvel. O p\u00fablico internacional de cinema est\u00e1 bastante familiarizado com as institui\u00e7\u00f5es e a cultura t\u00edpicas de uma cidadezinha estadunidense, portanto se localiza mais facilmente nesse cen\u00e1rio. A pequena cidade de Dogville \u00e9 igual a toda pequena cidade do pa\u00eds. N\u00e3o h\u00e1 horizontes nessa cidade. N\u00e3o se v\u00ea o que h\u00e1 al\u00e9m dela. N\u00e3o se v\u00ea o final da estrada, a cidade vizinha, a paisagem circundante, as montanhas ao redor. N\u00e3o foi preciso se dar ao trabalho de pintar figuras da paisagem exterior no cen\u00e1rio.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">N\u00e3o foi preciso porque nenhuma cidadezinha estadunidense realmente se preocupa com o mundo exterior. A rea\u00e7\u00e3o de perplexidade do povo estadunidense diante do 11 de setembro mostrou o quanto este povo n\u00e3o compreende o mundo exterior e o que seu pa\u00eds representa nele. Para eles, o resto do mundo \u00e9 uma imita\u00e7\u00e3o mal-feita de seu pa\u00eds. Os habitantes de todas as Dogville estadunidenses est\u00e3o presos ao seu mundo provinciano e limitado. Presos ao universo de sua \u201ccomunidade\u201d. O universo mesquinho das fofocas, das invejas, dos preconceitos. O julgamento de \u201cDogville\u201d se abate sobre toda a humanidade, mas n\u00e3o se trata de um julgamento abstrato. O r\u00e9u s\u00e3o os pequenos grupos, bastante concretos e palp\u00e1veis, as fam\u00edlias e vizinhos, pessoas relacionadas pela proximidade do trabalho e da conviv\u00eancia. Trata-se de uma cidadezinha, como poderia ser uma vizinhan\u00e7a de uma grande cidade, um bairro, etc.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">O filme se estrutura em cap\u00edtulos, ou seja, em atos, como numa pe\u00e7a de teatro. A divis\u00e3o em cap\u00edtulos parece tamb\u00e9m uma alus\u00e3o \u00e0 divis\u00e3o da B\u00edblia em livros. Os atos da pe\u00e7a s\u00e3o precedidos de um pr\u00f3logo, no qual os personagens s\u00e3o apresentados. Dogville parece uma cidadezinha comum, mas tem o seu intelectual, o aspirante a fil\u00f3sofo e escritor Tom (Paul Bettany). Tom \u00e9 o motor da vida social de Dogville. \u00c9 ele que promove reuni\u00f5es na capela da cidade, tentando motivar seus habitantes a se melhorarem moralmente. \u00c9 ele que visita todos os habitantes, tentando levar alguma luz \u00e0 suas vidas. Todo o filme \u00e9 de certa forma uma experi\u00eancia de Tom. Uma experi\u00eancia iluminista de reforma moral da sociedade.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Tom quer reformar a sociedade de Dogville levando-lhes a verdade. Grace (Nicole Kidman) surge na hist\u00f3ria para ajud\u00e1-lo a provar sua tese. Tom insistia em que as pessoas n\u00e3o eram verdadeiramente boas e altru\u00edstas para ajudar algu\u00e9m. Ent\u00e3o surge uma mulher misteriosa, perseguida por gangsteres, precisando de ajuda. Tom desafia a cidade a acolh\u00ea-la. Para n\u00e3o admitir que Tom tem raz\u00e3o em suas censuras, Dogville aceita a mulher misteriosa. Manter as apar\u00eancias \u00e9 fundamental. Todos precisam fingir que s\u00e3o nobres e respeit\u00e1veis, quando na verdade escondem em si as piores pervers\u00f5es e uma capacidade infinita para a crueldade.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Grace acaba sendo aceita, a t\u00edtulo provis\u00f3rio, mas insiste em que deve retribuir de alguma forma pela prote\u00e7\u00e3o que os habitantes de Dogville lhe dar\u00e3o. Grace come\u00e7a a trabalhar diariamente para todos os habitantes da cidade para mostrar que \u00e9 uma boa pessoa e provar que merece ficar. Passado o prazo inicial de duas semanas, Grace \u00e9 autorizada a ficar. Os habitantes de Dogville se afei\u00e7oam a ela. Descobrem que seus pr\u00e9stimos s\u00e3o bastante \u00fateis. Tornam-se seus amigos. O romance entre ela e Tom, que no entanto n\u00e3o chega a se consumar, acaba sendo o desenvolvimento mais natural da situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Os problemas surgem quando aparece a pol\u00edcia para lembrar que Grace continua sendo procurada. Esse \u00e9 o teste dos habitantes de Dogville. Apesar de conviverem com Grace, n\u00e3o conseguem mais deixar de desconfiar dela. Esse \u00e9 o trecho do filme mais especificamente relacionado ao farisa\u00edsmo estadunidense. O povo de Dogville n\u00e3o consegue reconhecer a inoc\u00eancia e a bondade de Grace, por mais que esteja ali diante de seus olhos. Preferem acreditar no que diz o sistema. A pol\u00edcia, comprada pelos poderosos, espalha cartazes de Grace como procurada por assaltos.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">O povo de Dogville tem a prova de que Grace \u00e9 inocente, pois estava convivendo com ela quando os assaltos que lhe foram imputados foram cometidos. Mas essa prova n\u00e3o basta para acalmar suas consci\u00eancias. Detectamos aqui um tra\u00e7o t\u00edpico da obedi\u00eancia orwelliana a um sistema de poder opressor e injusto, por\u00e9m eficientemente interiorizado. \u00c9 preciso sobretudo estar de bem com a lei. Se a lei diz que Grace \u00e9 perigosa, ela se torna perigosa. Por mais que se trate da ador\u00e1vel e pura Grace que todos conhecem. O amor pela verdade, pela beleza e pela bondade se desvanece facilmente diante do medo do julgamento p\u00fablico. Ningu\u00e9m tem coragem de defender Grace, pois n\u00e3o tem coragem suficiente para viver uma vida aut\u00eantica. Dogville continua mantendo Grace a salvo de seus perseguidores. Mas o pre\u00e7o para ela em trabalho e sofrimento se torna cada vez mais alto.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Toda a trama do filme \u00e9 cuidadosamente montada para mostrar que Dogville n\u00e3o merece o presente (Grace=gra\u00e7a) que lhe foi dado. De acolhedores e altru\u00edstas que eram, os habitantes se tornam cru\u00e9is, tir\u00e2nicos, pervertidos. At\u00e9 mesmo as crian\u00e7as. A forma como transitam do acolhimento amistoso para o abuso sexual \u00e9 bastante natural e conseq\u00fcente no contexto do filme e perfeitamente representativo do comportamento concreto do homem. A experi\u00eancia pedag\u00f3gica iluminista de Tom fracassa miseravelmente.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Tom aparece como o her\u00f3i, uma esp\u00e9cie de alter-ego do diretor e do espectador. \u00c9 sobre ele que carregamos nossas expectativas humanistas e bem-pensantes de que o bem possa triunfar no filme. Tom acredita em exemplifica\u00e7\u00e3o como forma de convencer as pessoas. O exemplo de \u201cDogville\u201d acabar\u00e1 sendo mais contundente do que aparentava, pois como em todo teatro brechtiano, acabar\u00e1 atingindo o espectador.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Tom n\u00e3o tem propriamente uma profiss\u00e3o. Ele depende da pens\u00e3o de seu pai, o que acabar\u00e1 sendo crucial para o andamento da hist\u00f3ria. O intelectual, na sociedade burguesa, por mais que seja radicalmente contra o sistema, n\u00e3o consegue romper integralmente com ele, pois dele depende sua subsist\u00eancia material. Sua fidelidade estar\u00e1 com aqueles que lhe proverem estabilidade, por mais sincero que pare\u00e7a ser seu amor pela verdade. Ou seja, tamb\u00e9m Tom acabar\u00e1 traindo Grace. A dela\u00e7\u00e3o da jovem aos gangsteres que a perseguiam \u00e9 o atestado final de fal\u00eancia do amor e da honestidade.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Walter Benjamin dizia que o intelectual \u00e9 o inimigo natural da condi\u00e7\u00e3o pequeno-burguesa, pois deve combat\u00ea-la diariamente dentro de si mesmo. Entretanto, a Hist\u00f3ria mostra que houve mais derrotas do que vit\u00f3rias nessa luta. O fracasso de Tom em \u201cDogville\u201d representa o fracasso de todo intelectual na sociedade burguesa. O intelectual se mostra, no final, incapaz de se solidarizar concretamente com os perseguidos, os humilhados, ofendidos e explorados.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Grace representa todas essas classes, todos os sofredores, os exclu\u00eddos do sistema. As mulheres oprimidas pelo machismo, as crian\u00e7as oprimidas pela educa\u00e7\u00e3o, os estrangeiros oprimidos pela xenofobia, etc. Ela encarna todos os sofredores, justamente porque encarna o trabalhador. O trabalho \u00e9 o elemento constitutivo essencial de toda sociedade. N\u00e3o se vive sem trabalho. Ele \u00e9 a primeira de todas as necessidades. A comunidade de Dogville aparentemente n\u00e3o precisava de Grace, como a sociedade humana aparentemente n\u00e3o precisava da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial que criou o proletariado moderno. Mas depois que o trabalho assalariado foi criado, n\u00e3o se pode mais viver sem ele. O que n\u00e3o significa que seja valorizado. Antes, pelo contr\u00e1rio, o trabalhador, como Grace, \u00e9 cada vez mais explorado, humilhado e maltratado.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">O trabalhador \u00e9 o cimento invis\u00edvel da sociedade. N\u00e3o se pode viver sem ele, mas ao mesmo tempo todos o odeiam. O odeiam porque ele nunca parece dar conta do que se precisa. Odeiam porque ele \u00e9 diferente. Odeiam porque ele vem de fora. Odeiam porque ele carrega consigo todas as precariedades, todas as fragilidades, todos os pecados. Um bode expiat\u00f3rio que \u00e9 tamb\u00e9m o burro de carga e a v\u00e1lvula de escape das tens\u00f5es, inclusive sexuais. O trabalhador, na interpreta\u00e7\u00e3o de Marx, \u00e9 a classe revolucion\u00e1ria por excel\u00eancia justamente porque apenas a sua liberta\u00e7\u00e3o pode libertar toda a sociedade da condi\u00e7\u00e3o abjeta do trabalho explorado.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Mas essa leitura \u00e9 apenas um dos n\u00edveis subliminares de \u201cDogville\u201d. Como dissemos, trata-se de uma condena\u00e7\u00e3o de toda sociedade de classe, que apenas contingentemente se articula a partir da sociedade burguesa estadunidense. A condena\u00e7\u00e3o se estende a toda a civiliza\u00e7\u00e3o ocidental, na qual j\u00e1 existe, antes do trabalhador assalariado moderno, um s\u00edmbolo universal da reden\u00e7\u00e3o, que foi Cristo. Jesus foi aquele cujo sacrif\u00edcio teria redimido os pecados da humanidade, por provar que Deus nos ama.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Grace evidentemente representa Cristo (o coment\u00e1rio do companheiro Sergio Domingues em <a href=\"http:\/\/www.midiavigiada.kit.net\/\">www.midiavigiada.kit.net<\/a> me abriu os olhos para essa interpreta\u00e7\u00e3o). \u201cDogville\u201d n\u00e3o deixa de ser uma resposta \u00e0 pergunta de todos os crentes religiosos: o que aconteceria se Cristo voltasse a viver entre n\u00f3s? Provavelmente, aconteceria o que aconteceu com Grace: seria explorado, humilhado e maltratado at\u00e9 o limite, para ser finalmente entregue \u00e0 morte. Grace, como dissemos, foi delatada por Tom aos gangsteres que a perseguiam.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Mas, para surpresa geral, o gangster \u00e9 seu pai. O gangster-mor \u00e9 Deus. O di\u00e1logo de Grace com seu pai \u00e9 o di\u00e1logo de Cristo com um Deus nietzscheano. Deus censura Cristo por sua arrog\u00e2ncia. Cristo (Grace) se atreve a ser bom e puro e querer perdoar os homens apesar de toda a maldade que lhe fizeram. Esse Cristo sempre misericordioso se coloca assim num n\u00edvel moral muito superior a toda a humanidade e isso parece ser inaceit\u00e1vel para Deus. Ou se julgam todos pelo mesmo padr\u00e3o ou n\u00e3o haver\u00e1 justi\u00e7a. Os homens falharam com Grace e devem ser julgados pelo que fizeram.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">E eis que Grace acata seu pai e resolve julgar Dogville. Ela d\u00e1 \u00e0 cidade o que merece. A exemplifica\u00e7\u00e3o pretendida por Tom finalmente atinge o espectador, como antecipamos. A senten\u00e7a que Grace aplica a Dogville \u00e9 a mesma que n\u00f3s espectadores proferimos entredentes ao longo do filme. Ela realiza nosso desejo, ordenando a destrui\u00e7\u00e3o da cidade. De maneira mais uma vez desconcertante, a hero\u00edna de pureza e santidade realiza o inverso do que se esperava, porque realiza nosso desejo de vingan\u00e7a inconfess\u00e1vel.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">O massacre moral a que Grace \u00e9 submetida nos faz desejar, revoltados, indignados, cheios de santa ira, que Dogville seja destru\u00edda. Somos for\u00e7ados a concordar que o mundo somente ter\u00e1 conserto quando todas as Dogville que o povoam forem destru\u00eddas. E ao desejarmos isso, \u201cDogville\u201d, o filme, triunfa sobre n\u00f3s, pois mostra como nosso humanismo se desfaz facilmente em \u00f3dio b\u00e1rbaro.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Deus \u00e9 um g\u00e2ngster que disp\u00f5e da vida e da morte das pessoas, como se fossem c\u00e3es. No mundo sem transcend\u00eancia de Dogville, o \u00fanico sobrevivente \u00e9 o c\u00e3o Mois\u00e9s. O c\u00e3o \u00e9 o \u00faltimo homem, o herdeiro da barb\u00e1rie, que se limita a latir para o alto, raivoso.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">Daniel M. Delfino<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">22\/02\/2004<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<h1>&ldquo;DOGVILLE&rdquo; E A MORTE DO HUMANISMO<\/h1>\n<h1><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/h1>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: center;\" class=\"MsoNormal\">(Coment&aacute;rio sobre o filme &ldquo;Dogville&rdquo;)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\" class=\"MsoNormal\">Nome original: Dogville<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9,76],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/71"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=71"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/71\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6113,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/71\/revisions\/6113"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=71"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=71"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=71"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}