{"id":72,"date":"2008-12-13T16:59:23","date_gmt":"2008-12-13T16:59:23","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/?q=node\/72"},"modified":"2018-05-04T21:47:06","modified_gmt":"2018-05-05T00:47:06","slug":"o-ultimo-samurai-e-o-golpe-quase-perfeito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2008\/12\/o-ultimo-samurai-e-o-golpe-quase-perfeito\/","title":{"rendered":"&#8220;O \u00daltimo samurai&#8221; e o golpe quase perfeito"},"content":{"rendered":"<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<h1>\u201cO \u00daLTIMO SAMURAI\u201d E O GOLPE QUASE PERFEITO<\/h1>\n<h1><\/h1>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: center;\" align=\"center\">(Coment\u00e1rio sobre o filme \u201cO \u00faltimo samurai\u201d)<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Nome original: The last samurai<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Produ\u00e7\u00e3o: Estados Unidos<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ano: 2003<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Idiomas: Ingl\u00eas, Japon\u00eas, Franc\u00eas<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <span lang=\"EN-US\">Diretor: Edward Zwick<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\"><span lang=\"EN-US\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Roteiro: John Logan<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\"><span lang=\"EN-US\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Elenco: Ken Watanabe, Tom Cruise, William Atherton, Chad Lindberg, Ray Godschall Sr., Billy Conolly, Tony Goldwyn, Timothy Spall, John Koyama, Togo Igawa<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">G\u00eanero: a\u00e7\u00e3o, aventura, drama, guerra<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\"><span lang=\"EN-US\">Fonte: \u201cThe Internet Movie Database\u201d \u2013 <\/span><a href=\"http:\/\/www.imdb.com\/\"><span lang=\"EN-US\">http:\/\/www.imdb.com\/<\/span><\/a><span lang=\"EN-US\">\u00a0 <\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <i>Suemono-giri<\/i> \u00e9 o nome em japon\u00eas para \u201ccorte de objeto estacion\u00e1rio.\u201d Esse nome \u00e9 dado para um golpe perfeito executado com a espada, capaz de cortar qualquer objeto, seja um corpo humano, uma viga de madeira, uma coluna de pedra, etc.. Esse golpe \u00e9 executado num s\u00f3 movimento, come\u00e7ando com a espada ainda embainhada, a qual \u00e9 retirada de uma s\u00f3 vez, e desse gesto se segue sem descontinuidade o corte do alvo, pelo qual a l\u00e2mina passa sem se deter, como se houvesse cortado apenas o ar, ininterruptamente, sendo sustada ao final com pleno controle, como uma mera extens\u00e3o do bra\u00e7o.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">A concentra\u00e7\u00e3o do espadachim antes do golpe; a energia contida prestes a explodir; o movimento r\u00e1pido, certeiro, fatal; a perfei\u00e7\u00e3o da l\u00e2mina capaz de cortar qualquer objeto; a tempestade desencadeada em uma \u00fanica rajada de vento, acompanhada de um grito; o retorno ao repouso como se nada houvesse existido; a altern\u00e2ncia de movimento e repouso, tens\u00e3o e distens\u00e3o, m\u00e1ximo de mobilidade e de imobilidade, t\u00edpicos da arte marcial japonesa; todo o ritual est\u00e1 permeado por uma elevada consci\u00eancia est\u00e9tica.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">O golpe perfeito \u00e9 uma obra de arte, assim como a vida de um samurai \u00e9 uma performance que busca um ideal de beleza moral. \u00c9tica e est\u00e9tica est\u00e3o fundidos na filosofia samurai, como em toda verdadeira \u00e9tica e em toda verdadeira est\u00e9tica. O golpe perfeito representa o est\u00e1gio mais alto da t\u00e9cnica japonesa de uso da espada, distintivo dos grandes mestres dessa arte marcial. Por sua simplicidade e precis\u00e3o, pelo n\u00edvel de concentra\u00e7\u00e3o, auto-controle e adestramento, representa a s\u00edntese da cultura militar japonesa e de seu projeto civilizat\u00f3rio, configurado na sociedade samurai.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">O filme \u201cO \u00faltimo samurai\u201d \u00e9 uma superprodu\u00e7\u00e3o hollywoodiana protagonizada pelo mega-astro Tom Cruise, talhada para concorrer em v\u00e1rias categorias do Oscar, que pretende retratar o ocaso dessa sociedade samurai. O filme se baseia num epis\u00f3dio real, acontecido em 1877, em que o moderno ex\u00e9rcito japon\u00eas enfrentava a rebeli\u00e3o de guerreiros da Escola antiga que se recusavam a aderir aos m\u00e9todos contempor\u00e2neos. O personagem de Tom Cruise, um oficial estadunidense contratado para trasmitir o \u201cknow how\u201d militar ocidental aos \u201cb\u00e1rbaros\u201d, foi inserido romanescamente na hist\u00f3ria. O curioso \u00e9 que tal personagem acabou seduzido pelo modo de vida dos antigos guerreiros japoneses, justamente aqueles contra os quais fora contratado para combater.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O \u00faltimo samurai do t\u00edtulo n\u00e3o \u00e9 na verdade Nathan Algren, o personagem de Tom Cruise, mas sim Katsumoto Moritsugu (interpretado por Ken Watanabe, desde j\u00e1 meu favorito para o Oscar de coadjuvante). A publicidade do filme, naturalmente, apresenta Tom Cruise em primeiro plano, em p\u00f4steres gigantes, como se ele fosse o samurai do t\u00edtulo. Mais do que propaganda enganosa, trata-se de um erro conceitual. Nathan Algren n\u00e3o chega de fato a ser um samurai. Nem que ele quisesse, n\u00e3o poderia. N\u00e3o porque \u00e9 um estrangeiro, o que n\u00e3o constitui um obst\u00e1culo definitivo. O obst\u00e1culo \u00e9 a pr\u00f3pria estrutura da narrativa, a fun\u00e7\u00e3o que a hist\u00f3ria lhe reserva. Explicaremos esse detalhe mais adiante.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Katsumoto \u00e9 o verdadeiro samurai do t\u00edtulo. Ele \u00e9 um nobre, senhor de uma prov\u00edncia, equivalente a um senhor feudal do ocidente. Como nobre, ele est\u00e1 no topo da hierarquia social. Seus guerreiros e seu povo lhe devem obedi\u00eancia total, at\u00e9 a pr\u00f3pria morte. Katsumoto, por sua vez, deve obedi\u00eancia ao Imperador, de quem \u00e9 vassalo. O Imperador, na religi\u00e3o xinto\u00edsta, \u00e9 um deus vivo, descendente da deusa do sol, criadora do mundo. Na \u00e9poca retratada pelo filme, o Imperador Meiji estava promovendo a moderniza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Meiji era na verdade um jovem fraco, sem personalidade, manipulado por ministros ambiciosos, entre os quais se sobressai um certo sr. Omura. Simultaneamente ministro e empres\u00e1rio, ele pr\u00f3prio tem interesses pessoais e empresariais na moderniza\u00e7\u00e3o do Jap\u00e3o. Dono de ferrovias e provavelmente de outros neg\u00f3cios a elas ligados, deseja ver o pa\u00eds inteiro unido e modernizado, pronto para entrar na disputa de mercados com as pot\u00eancias da \u00e9poca: Inglaterra, Alemanha, Fran\u00e7a e Estados Unidos. A posse feudal da terra, estabelecida por la\u00e7os de tradi\u00e7\u00e3o e lealdade pessoal, deve ser substitu\u00edda pela propriedade privada capitalista acess\u00edvel pelo dinheiro. O uso de armas (espadas) por particulares deve ser suprimido em nome do monop\u00f3lio do uso da for\u00e7a (fuzis) pelo Estado burgu\u00eas.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Uma e outra tarefa da revolu\u00e7\u00e3o burguesa no Jap\u00e3o pressup\u00f5em a remo\u00e7\u00e3o do nobre Katsumoto Moritsugu e sua fidelidade aos princ\u00edpios morais da tradi\u00e7\u00e3o. Para modernizar o pa\u00eds, Omura traz ao Jap\u00e3o especialistas de todos os ramos da atividade econ\u00f4mica moderna, de diversas nacionalidades. Algren se encaixa nesse plano como o especialista em t\u00e9cnicas militares modernas, com seu curr\u00edculo de exterminador de tribos ind\u00edgenas a servi\u00e7o do ex\u00e9rcito estadunidense.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">\u00c9 contra Omura que Katsumoto se insurge, n\u00e3o contra o Imperador. De acordo com o c\u00f3digo de \u00e9tica dos samurais, o suserano \u00e9 dono da vida de seus vassalos. Se o Imperador lhe ordenasse, Katsumoto cometeria o <i>sepukku<\/i>, o suic\u00eddio ritual, e o faria de bom grado. Ele admite isso v\u00e1rias vezes no filme e \u00e9 preciso crer no que o samurai diz. Ele considera que sua rebeli\u00e3o est\u00e1 a servi\u00e7o do Imperador e n\u00e3o contra ele. Contra o Imperador e contra o povo japon\u00eas est\u00e3o na verdade Omura e seus sequazes corruptos. Se o Imperador n\u00e3o se dissuadir de seu engano, Katsumoto est\u00e1 disposto a dar a vida por isso. Ele est\u00e1 preso ao seu sentido de honra e segue seu dever at\u00e9 a morte. Sua trag\u00e9dia cont\u00e9m um inescap\u00e1vel conte\u00fado de estupidez, conseq\u00fc\u00eancia direta do absurdo inerente ao regime absolutista, pelo qual um homem de valor deve sua vida a um monarca que n\u00e3o passa de um fantoche inexpressivo.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Antes de prosseguir nos detalhes do filme, \u00e9 preciso dar o cen\u00e1rio hist\u00f3rico da transforma\u00e7\u00e3o da sociedade japonesa. As transforma\u00e7\u00f5es que Katsumoto tenta deter para preservar a integridade do Imp\u00e9rio foram desencadeadas pelo pr\u00f3prio Imperador, h\u00e1 n\u00e3o mais do que uma d\u00e9cada ent\u00e3o. A contradi\u00e7\u00e3o se aprofunda at\u00e9 se tornar irreconcili\u00e1vel. Trata-se de uma contradi\u00e7\u00e3o inerente ao modo japon\u00eas de transi\u00e7\u00e3o do feudalismo para o capitalismo. O Jap\u00e3o seguiu o mesmo esquema da Alemanha, que Luk\u00e1cs chamou de \u201cvia prussiana\u201d para o capitalismo.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Na via prussiana a classe dos aristocratas feudais, propriet\u00e1rios de terra, os \u201cjunkers\u201d alem\u00e3es, que era simultaneamente a massa da oficialidade do ex\u00e9rcito, realizou de maneira autorit\u00e1ria a transi\u00e7\u00e3o do feudalismo para o capitalismo, sem ceder o poder \u00e0 burguesia e mantendo a classe trabalhadora sob o pesado tac\u00e3o do Estado policial bismarckiano. Os junkers passaram diretamente de senhores feudais propriet\u00e1rios de terra para donos de empresas capitalistas. N\u00e3o houve uma revolu\u00e7\u00e3o burguesa na Alemanha. A burguesia alem\u00e3 sempre foi d\u00e9bil e a democracia nunca criou ra\u00edzes no pa\u00eds. Desse solo nasceria o nazismo.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">O processo japon\u00eas seguiu o mesmo esquema, mas com pequenas diferen\u00e7as. O Jap\u00e3o sempre teve uma mesma dinastia imperial, que se perpetuou em uma linha de sucess\u00e3o direta desde seus ancestrais semilend\u00e1rios na pr\u00e9-hist\u00f3ria at\u00e9 seu descendente no s\u00e9culo XXI, o atual Imperador Akihito. Mas essa dinastia n\u00e3o esteve sempre no governo. No s\u00e9culo XII o poder do Imperador foi ofuscado pela ditadura militar dos <i>shoguns<\/i>. A linhagem imperial n\u00e3o foi extinta, mas manteve apenas um poder formal, derivado de suas fun\u00e7\u00f5es religiosas.<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent\">Desde o s\u00e9culo XII as fam\u00edlias tradicionais de senhores feudais guerreiros disputaram o cargo de shogun. A pacifica\u00e7\u00e3o foi alcan\u00e7ada sob o shogunato Tokugawa, que se instalou em 1600. Tokugawa proibiu o interc\u00e2mbio com o exterior. Comerciantes e mission\u00e1rios estrangeiros foram banidos do Jap\u00e3o entre 1635 e 1853. Ao contr\u00e1rio do imp\u00e9rio chin\u00eas, que desmoronou sob o ass\u00e9dio das pot\u00eancias imperialistas ocidentais, o Jap\u00e3o se manteve unido. Foi na Era Tokugawa que se desenvolveu a sociedade samurai, com uma legisla\u00e7\u00e3o formal e rigorosa sobre todos os aspectos da vida social. O pa\u00eds foi dividido em algumas centenas de prov\u00edncias governadas por senhores feudais heredit\u00e1rios, cada um com seu pequeno ex\u00e9rcito de samurais, mas todos vassalos do poder central em Edo (T\u00f3quio).<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">A sociedade foi dividida em castas heredit\u00e1rias r\u00edgidas. Os guerreiros foram proibidos de trabalhar para seu sustento, os camponeses foram proibidos de usar armas. A nobreza militar separou-se como uma classe social superior, acima do clero, do campesinato e dos artes\u00e3os e comerciantes. O feudalismo japon\u00eas se cristalizou. A condi\u00e7\u00e3o de samurai tornou-se heredit\u00e1ria. O privil\u00e9gio de usar armas tornou-se seu dever e desenvolveu-se a\u00ed o <i>Bushido<\/i>, o \u201cmodo de vida do guerreiro\u201d. Isso \u00e9 bastante paradoxal, pois justamente quando acabaram as guerras civis, a fun\u00e7\u00e3o do guerreiro ganha uma formaliza\u00e7\u00e3o definitiva. Os guerreiros se tornam guerreiros no sentido pleno e simultaneamente se tornam in\u00fateis. Muitos senhores feudais se revoltam contra o governo central, mas em v\u00e3o. Isoladamente, n\u00e3o podem resistir ao shogunato e s\u00e3o exterminados.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que nesse per\u00edodo se desenvolve o culto do suic\u00eddio. Guerreiros se suicidam por lealdade a seus mestres, oprimidos pelo poder central. Monges se suicidam por sua f\u00e9. Amantes se suicidam por seu amor imposs\u00edvel, proibido pelas fam\u00edlias, etc.. o sentido tr\u00e1gico da vida, o fatalismo e a coragem diante da morte se tornam valores permanentes da sociedade japonesa. A rigidez da Era Tokugawa manteve o Jap\u00e3o unido e permitiu um grande desenvolvimento de sua cultura. Os samurais, al\u00e9m da arte da espada, da qual se tornaram mestres inigual\u00e1veis, desenvolveram tamb\u00e9m a poesia, a pintura, a cerim\u00f4nia do ch\u00e1, etc.. O estudo e a arte, assim como a luta, tamb\u00e9m era seu privil\u00e9gio e seu dever.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Mas essa situa\u00e7\u00e3o era insustent\u00e1vel. A roda da Hist\u00f3ria n\u00e3o parava de se mover no ocidente. Os pa\u00edses europeus passavam por uma revolu\u00e7\u00e3o industrial e logo voltam a se expandir pelo mundo em busca de mercados. O mesmo aconteceu com os Estados Unidos. Em 1853 uma frota estadunidense amea\u00e7ou bombardear T\u00f3quio caso o pa\u00eds n\u00e3o se abrisse para o com\u00e9rcio. A abertura que sobreveio foi um desastre para o Jap\u00e3o. No curto espa\u00e7o de uma d\u00e9cada, a economia feudal se desintegrou.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Na tentativa de remediar o desastre, a aristocracia japonesa promoveu um levante e derrubou o governo do \u00faltimo shogun Tokugawa, em 1868. O Imperador foi reinstalado no trono, no que foi chamado de Revolu\u00e7\u00e3o Meiji. O pensamento dos autores dessa revolu\u00e7\u00e3o era de que o Jap\u00e3o deveria se igualar em poder \u00e0s pot\u00eancias ocidentais para n\u00e3o ser dominado por elas. O resultado dessa revolu\u00e7\u00e3o seria a transforma\u00e7\u00e3o das tradicionais fam\u00edlias nobres em propriet\u00e1rios de grandes grupos empresariais, os <i>zaibatsus<\/i>. Honda, Toyota, Mazda, Mitsubishi, Matsushita, etc., s\u00e3o todos nomes de antigas fam\u00edlias da aristocracia japonesa, que como os junkers alem\u00e3es, se tornaram empres\u00e1rios modernos.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Katsumoto, o personagem de \u201cO \u00faltimo samurai\u201d, com seu tradicionalismo, foi pego no olho do furac\u00e3o por essa transforma\u00e7\u00e3o. Ao mesmo tempo que via no Imperador a salva\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, contra a degrada\u00e7\u00e3o que os estrangeiros trouxeram, ele n\u00e3o podia aceitar que os japoneses se rebaixassem a usar os mesmos m\u00e9todos que os ocidentais, ou seja, armas de fogo. O problema pr\u00e1tico \u00e9 que qualquer guerra contra os estrangeiros somente poderia ser vencida com o uso de armas de fogo. Mas isso, para um samurai como Katsumoto, \u00e9 apenas um detalhe. Como explicou Graham a Algren, a espada de um samurai \u00e9 sua pr\u00f3pria alma. Mais do que a degrada\u00e7\u00e3o da t\u00e9cnica militar, o que revoltava Katsumoto era a degrada\u00e7\u00e3o moral sob o capitalismo.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">\u00c9 nesse cen\u00e1rio que entra Nathan Algren. A trajet\u00f3ria deste personagem \u00e9 praticamente id\u00eantica \u00e0 de John Dunbar, o protagonista de \u201cDan\u00e7a com lobos\u201d. T\u00e3o id\u00eantica que \u201cO \u00faltimo samurai\u201d pode at\u00e9 ser acusado de pl\u00e1gio. Mas ningu\u00e9m acusou \u201cDan\u00e7a com lobos\u201d de ser pl\u00e1gio de \u201cUm homem chamado cavalo\u201d e \u201cPequeno-grande homem\u201d, dois \u201cwesterns\u201d cl\u00e1ssicos dos anos 70, portanto ficamos por isso mesmo. Assim como Dunbar, Algren \u00e9 um oficial do ex\u00e9rcito estadunidense que se desilude com as promessas da carreira militar e decide experimentar uma vida diferente em outra forma de sociedade. As circunst\u00e2ncias os levam a combater contra o ex\u00e9rcito estadunidense de onde sa\u00edram, pois compreendem que o modo de vida que adotaram, e que o ex\u00e9rcito estadunidense vem destruir, \u00e9 mais humano do que a vida na sociedade burguesa.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Para cada personagem chave de \u201cO \u00faltimo samurai\u201d, h\u00e1 um equivalente no seu modelo \u201cDan\u00e7a com lobos\u201d. Ambos os protagonistas, Algren e Dunbar, que correspondem um ao outro, est\u00e3o cercados de uma s\u00e9rie de figuras que tamb\u00e9m s\u00e3o correspondentes sim\u00e9tricos nas duas narrativas. Algren\/Dunbar t\u00eam uma figura que funciona como guia nos est\u00e1gios iniciais da viagem, na figura de Graham\/Timons, um mestre na figura de Katsumoto\/P\u00e1ssaro esperneante, um rival que se torna amigo na figura de Ujio\/Vento no cabelo, um garoto que o admira em Higen\/Grande sorriso, um interesse rom\u00e2ntico em Taka\/De p\u00e9 com punhos, um rival dentro do ex\u00e9rcito em Bagley\/Spivey, um grupo de inimigos tribais nos ninjas\/pawnees, etc..<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">O esquematismo desse modelo \u00e9 evidente. Mas \u201cO \u00faltimo samurai\u201d \u00e9 inferior na compara\u00e7\u00e3o com \u201cDan\u00e7a com lobos\u201d. O in\u00edcio do filme \u00e9 burocr\u00e1tico e apressado. A sociedade estadunidense de onde emerge Algren, na fun\u00e7\u00e3o de vendedor de armas, \u00e9 explicitamente apresentada como degradada. O manique\u00edsmo expl\u00edcito nunca \u00e9 um bom come\u00e7o para qualquer narrativa. Da mesma forma, a sociedade japonesa onde Algren se integra \u00e9 um pastiche da estadunidense, um velho oeste em r\u00e1pida muta\u00e7\u00e3o rumo ao capitalismo selvagem. Fica evidente que o ex\u00e9rcito de Omura e a passagem de Algren por ele s\u00e3o meros expedientes para que o protagonista encontre seu destino. O final do filme, por sua vez, \u00e9 arrastado e tamb\u00e9m esquem\u00e1tico. Sobre os problemas do final, falaremos adiante.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">O que interessa realmente \u00e9 o miolo do filme, a viagem de Algren para a vila de Katsumoto e sua transforma\u00e7\u00e3o em samurai. \u00c9 essa viagem existencial que d\u00e1 o pretexto para a observa\u00e7\u00e3o que nos interessa. \u00c9 l\u00e1 que Algren encontra o al\u00edvio de sua consci\u00eancia culpada pelo massacre de inocentes que perpetrou no passado. O processo de sua cura mental \u00e9 quase uma psican\u00e1lise realizada por Katsumoto, que entretanto n\u00e3o se completa. O processo de psican\u00e1lise coincide com o processo de treinamento de Algren na arte da espada, trabalho do mestre Ujio. O ocidental aprende com Nobutada que deve abandonar suas preocupa\u00e7\u00f5es, usar seus instintos, desapegar-se.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">O problema inerente a um filme como este \u00e9 que a filosofia samurai se dissolve numa mera t\u00e9cnica de relaxamento. Como se Tom Cruise tivesse resolvido ir a um \u201cspa\u201d. O filme serve como ve\u00edculo para a busca de paz espiritual do astro, rec\u00e9m-sa\u00eddo de um casamento com Nicole Kidman. A ex- de Cruise j\u00e1 foi reconhecida como atriz competente e agraciada com um Oscar, pr\u00eamio que o astro ainda cobi\u00e7a. \u201cO \u00faltimo samurai\u201d \u00e9 sua mais nova tentativa de abocanhar o pr\u00eamio. A aposta \u00e9 na sedu\u00e7\u00e3o que o oriente exerce. Desde que os Beatles adotaram um guru indiano nos anos 1960, os astros da cultura pop ocidental tem buscado novidades milenares (sic) a serem exploradas: ora o Dalai Lama, ora Buda, ora o mosteiro Shao Lin; e agora o Jap\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Para esse fim Tom Cruise contratou dois gabaritados especialistas do ramo de filmes \u00e9picos, o diretor Edward Zwick, de \u201cLendas da paix\u00e3o\u201d e o roteirista John Logan, de \u201cGladiador\u201d. Os dois s\u00e3o artes\u00e3os competentes. \u201cO \u00faltimo samurai\u201d \u00e9 uma produ\u00e7\u00e3o suntuosa e visualmente impec\u00e1vel. Est\u00e3o l\u00e1 as indefect\u00edveis batalhas de samurais, no estilo de Akira Kurosawa. O seu problema neste particular \u00e9 concorrer com \u201cO Retorno do rei\u201d. As batalhas em \u201cO \u00faltimo samurai\u201d s\u00e3o at\u00e9 mais selvagens, mas no geral perdem na compara\u00e7\u00e3o com o filme de Peter Jackson, que \u00e9 disparado o favorito da temporada de \u00e9picos. Teremos ainda este ano \u201cO mestre dos mares\u201d e \u201cTr\u00f3ia\u201d; e mais adiante, \u201cCrusade\u201d, de Ridley Scott e \u201cAlexander\u201d, de Oliver Stone. Quando Hollywood adere a uma moda, n\u00e3o brinca em servi\u00e7o. Com a recente onda de filmes \u00e9picos, o sangue vai jorrar das telas.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">A viagem tur\u00edstica de Tom Cruise\/Algren pelo menos serve de pretexto para o que realmente interessa a este escriba, a explora\u00e7\u00e3o do modo de vida de uma vila japonesa tradicional. No pa\u00eds outrora governado pelos samurais, toda a sociedade era samurai. O ciclo da vida \u00e9 encarado com extrema naturalidade e simplicidade. Os homens nascem, os homens morrem. A morte n\u00e3o \u00e9 um problema para os orientais em geral, ao contr\u00e1rio do que \u00e9 para os crist\u00e3os. Os ocidentais crist\u00e3os valorizam a vida, os japoneses valorizam a morte. Para os samurais, a morte \u00e9 o pr\u00f3prio objetivo da vida. Vive-se para alcan\u00e7ar uma morte honrada.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">A morte \u00e9 t\u00e3o mais honrada quanto tiver sido a vida. A vida deve ser dedicada \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o, em busca dessa morte honrada. Perfei\u00e7\u00e3o na luta, perfei\u00e7\u00e3o na arte, perfei\u00e7\u00e3o nos gestos, na fala, na conduta. Essa busca obsessiva e asc\u00e9tica pela perfei\u00e7\u00e3o se casa com o desapego. N\u00e3o esque\u00e7amos que no Jap\u00e3o a religi\u00e3o animista do xinto\u00edsmo combinou-se \u00e0 filosofia budista, que prega exatamente o desapego como caminho para a felicidade. A harmonia dos camponeses com seu universo, com seu destino, sua natureza circundante, \u00e9 quase ut\u00f3pica. \u00c9 a\u00ed que est\u00e1 toda profundidade do filme, toda sua beleza e poesia. \u00c9 por esta parte que o filme vale \u00e0 pena ser visto, portanto n\u00e3o pretendo estrag\u00e1-la com uma descri\u00e7\u00e3o detalhada.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Katsumoto, o l\u00edder dessa utopia, sabe que seu modo de vida est\u00e1 condenado. A contradi\u00e7\u00e3o na qual sua \u00e9tica o arremessa \u00e9 na verdade irresol\u00favel. A integridade de seu modo de vida contrasta frontalmente com a indignidade da sociedade capitalista em que est\u00e1 se tornando o Jap\u00e3o. O contraste conceitual se transforma em confronto f\u00edsico quando a cavalaria samurai arremete contra as metralhadoras do ex\u00e9rcito de Omura. Esse confronto f\u00edsico exemplifica \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o o contraste entre dois tipos de sociedade, que cabe aos fil\u00f3sofos explicar. A favor das metralhadoras e canh\u00f5es se coloca o fil\u00f3sofo alem\u00e3o Hegel, quando diz que:<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">\u201c \u2018O princ\u00edpio do mundo moderno \u2013 o pensamento e o universal \u2013 deu \u00e0 coragem uma forma superior, porque sua manifesta\u00e7\u00e3o agora parece mais mec\u00e2nica, n\u00e3o ato deste indiv\u00edduo particular, mas do membro de um conjunto. Al\u00e9m do mais, parece ter-se voltado n\u00e3o contra um \u00fanico indiv\u00edduo, mas contra um grupo hostil, da\u00ed a bravura pessoal parecer impessoal. \u00c9 por essa raz\u00e3o que o pensamento inventou o canh\u00e3o, e a inven\u00e7\u00e3o desta arma, que transformou a forma da valentia exclusivamente pessoal em uma bravura mais abstrata, n\u00e3o \u00e9 acidental\u2019 \u201d.1<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Ou seja, segundo o fil\u00f3sofo, o uso do canh\u00e3o representa a forma mais elevada de coragem. Hegel \u00e9 o representante ideol\u00f3gico m\u00e1ximo do Estado burgu\u00eas. A ele cabe racionalizar as transforma\u00e7\u00f5es que a sociedade capitalista traz a todos os aspectos da vida. Assim como o empres\u00e1rio industrial tirou ao trabalhador a posse dos seus meios de produ\u00e7\u00e3o, o ex\u00e9rcito moderno tira ao guerreiro a posse de suas armas. N\u00e3o mais samurais com espadas e sim soldados com fuzis. Tudo mais racional e moderno, conforme o esp\u00edrito do mundo do capitalismo.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">M\u00e9szaros desmistifica a absurda tentativa de Hegel de justificar o injustific\u00e1vel:<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">\u201cO poder do capital de derrubar tudo \u2013 eliminando seu ancoradouro humano com a universaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o fetichista de mercadorias \u2013 \u00e9 aqui espelhado na filosofia, virando de cabe\u00e7a para baixo os valores humanos, em nome do \u2018pensamento e do universal\u2019.(&#8230;) Em \u00faltima an\u00e1lise a l\u00f3gica oculta da tend\u00eancia atual do armamento moderno (&#8230;) n\u00e3o \u00e9 a \u2018bravura impessoal\u2019, mas a destrui\u00e7\u00e3o verdadeiramente impessoal de toda a humanidade: Holocausto e Hiroshima combinados em escala global.\u201d2<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Assim como o trabalho e a vida em geral, a arte da guerra tamb\u00e9m perde o sentido, quando \u00e9 substitu\u00edda pela ind\u00fastria da destrui\u00e7\u00e3o em massa. \u00c9 por esse motivo que o estilo de vida samurai \u00e9 humanamente superior ao militarismo moderno, apesar de ser uma forma militar arcaica. O Bushido envolve auto-aperfei\u00e7oamento, cultura, \u00e9tica, honra; o militarismo moderno consiste em apertar bot\u00f5es para destruir o inimigo \u00e1 dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Em uma primeira an\u00e1lise, a cultura militar samurai n\u00e3o \u00e9 melhor do que qualquer outro militarismo. Ou seja, uma cultura repressiva e reacion\u00e1ria, que muito facilmente se coloca a servi\u00e7o da ordem estabelecida. Especialmente no caso dos samurais, o of\u00edcio militar se reveste de um orgulho aristocr\u00e1tico de classe. Esse orgulho elitista de uma casta ciosa de seus privil\u00e9gios e seu poder de vida e morte sobre os plebeus dificilmente pode se tornar simp\u00e1tico. Isso s\u00f3 acontece quando os soldados, ao inv\u00e9s de oprimir seu povo, se colocam como defensores dos valores dessa sociedade, de sua cultura e sua honra, como Katsumoto. Para o samurai dedicado exclusivamente \u00e0 arte da luta, a causa \u00e9 na verdade irrelevante. O mais importante \u00e9 o modo como se morre.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Para Katsumoto, um fac\u00ednora como Custer, que massacrou os \u00edndios na conquista imperialista do oeste estadunidense, \u00e9 t\u00e3o her\u00f3ico quanto Le\u00f4nidas e seus trezentos homens, que nas Term\u00f3pilas salvaram a Gr\u00e9cia da invas\u00e3o persa. Deve-se perdoar Katsumoto por desconhecer a hist\u00f3ria estadunidense. Mas n\u00e3o se pode perdoar Algren, pois para ele Custer \u00e9 um vil\u00e3o apenas por ter levado seus soldados \u00e0 morte e n\u00e3o pela causa em favor da qual lutava. Se \u00e9 que se pode chamar o massacre dos nativos e o roubo de suas terras de causa. Do ponto de vista do soldado, por\u00e9m, a causa \u00e9 indiferente. O que importa \u00e9 o hero\u00edsmo da luta. Por isso, para Katsumoto, Custer foi um her\u00f3i. Mas isso n\u00e3o passa de um gracejo. Pois Custer era feito da mesma mat\u00e9ria de Bagley, o superior de Algren, que veio destruir os samurais.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">O problema surge pois quando o pr\u00f3prio modo de vida samurai est\u00e1 em jogo. \u00c9 esse o dilema do l\u00edder Katsumoto. Com o advento das armas de fogo, os samurais se tornam militarmente obsoletos. Contra a concorr\u00eancia das metralhadoras, os samurais empreendem um ataque puramente ludita. A causa dos samurais somente se torna simp\u00e1tica porque, no caso presente, se coloca contra o avan\u00e7o da degrada\u00e7\u00e3o capitalista. Nem mesmo um filme estadunidense pode esconder isso. O seu sacrif\u00edcio acaba sendo in\u00fatil e est\u00fapido, mas sua mensagem ecoa at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">O filme tenta transformar o significado dessa morte numa mensagem de superioridade moral, sem questionar o conte\u00fado das escolhas ideol\u00f3gicas de Katsumoto. Ademais, esse questionamento seria bastante problem\u00e1tico. O desenvolvimento posterior das rela\u00e7\u00f5es EUA\/Jap\u00e3o \u00e9 embara\u00e7oso, indo de Pearl Harbor a Hiroshima. O espectador sabe que o Jap\u00e3o moderno se tornou uma pot\u00eancia imperialista, entrando em guerra contra os pr\u00f3prios Estados Unidos de Algren. Assim, de certo modo, a mensagem de Katsumoto foi ouvida pelo Imperador, ainda que distorcida.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">As espadas usadas pelos soldados do ex\u00e9rcito imperialista do Jap\u00e3o moderno ainda eram fabricadas de acordo com os m\u00e9todos arcaicos da Era Tokugawa. O teste de qualidade das espadas japonesas era chamado de <i>o-tameshi<\/i>. O o-tameshi consiste num ritual em que se corta ao meio um cad\u00e1ver humano deitado, com um golpe de espada, um golpe suemono-giri. As melhores espadas eram capazes de cortar dois ou tr\u00eas corpos empilhados, ou at\u00e9 cinco corpos. Consta que todas as espadas usadas pelo ex\u00e9rcito japon\u00eas na guerra russo-japonesa de 1904 passaram pelo teste o-tameshi cortando cinco corpos. Talvez isso explique porque o Imp\u00e9rio russo sofreu uma derrota t\u00e3o acachapante, cuja crise subseq\u00fcente inclusive precipitou uma primeira tentativa fracassada de Revolu\u00e7\u00e3o Russa em 1905. O ex\u00e9rcito imperialista japon\u00eas conservou muito da \u00e9tica de sacrif\u00edcio dos samurais. Dela deriva o impulso suicida dos \u201ckamikaze\u201d, os pilotos que arremessavam seus avi\u00f5es carregados de explosivos sobre os navios estadunidenses nas batalhas da Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">A causa de Katsumoto encontrou assim uma esp\u00e9cie de sobreviv\u00eancia, mas n\u00e3o fica muito bem num filme feito para o p\u00fablico estadunidense se estender a respeito disso. J\u00e1 \u00e9 at\u00e9 ousadia demais mostrar o Imperador Meiji dizer ao embaixador estadunidense que seu tratado n\u00e3o interessa ao Jap\u00e3o. Dizer isso \u00e9 bastante perigoso da parte de qualquer governante dos dias de hoje. Infelizmente, n\u00e3o h\u00e1 mais samurais \u00e0 moda antiga para lembrar aos nossos governantes do dever de faz\u00ea-lo. O sacrif\u00edcio de Katsumoto serviu pois para despertar o Imperador e subtrair o Jap\u00e3o da \u00f3rbita do imperialismo estadunidense. Bom para o Jap\u00e3o, pior para os pa\u00edses que d\u00e9cadas depois foram v\u00edtimas do imperialismo japon\u00eas. No final das contas, o esp\u00edrito de Omura, com seus interesses comerciais, acabou triunfando sobre a grandeza dos samurais. Os her\u00f3is morrem e submergimos todos no n\u00edvel da mediocridade.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Esses desenvolvimentos no plano da Hist\u00f3ria est\u00e3o contidos em embri\u00e3o no conflito dram\u00e1tico do cinema. Na impossibilidade de desenvolver concretamente as implica\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas do conflito Omura\/Katsumoto, o filme se contenta em apresentar um embate moral entre duas personalidades. Nessa restri\u00e7\u00e3o est\u00e1 a fraqueza do filme, a sua submiss\u00e3o aos c\u00e2nones da narrativa cinematogr\u00e1fica estadunidense tradicional, com sua tend\u00eancia para as concilia\u00e7\u00f5es que consolam o espectador.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Ao mostrar a morte de Katsumoto, \u201cO \u00faltimo samurai\u201d n\u00e3o se limita a uma mensagem puramente fatalista, ao estilo japon\u00eas, e insiste em conseguir a reabilita\u00e7\u00e3o moral p\u00f3stuma do her\u00f3i, ao estilo hollywoodiano. O p\u00fablico de cinema hollywoodiano est\u00e1 acostumado a ver o sacrif\u00edcio do her\u00f3i, como aconteceu por exemplo em \u201cMatrix\u201d, ou, para n\u00e3o fugir do mesmo registro \u00e9pico, em \u201cCora\u00e7\u00e3o Valente\u201d. Mas o p\u00fablico aceita essas mortes porque \u00e9 imediatamente consolado pela not\u00edcia de que o her\u00f3i se saiu moralmente vencedor e sua causa de alguma forma triunfou, o que para a est\u00e9tica samurai \u00e9 sup\u00e9rfluo. O esquema dram\u00e1tico de \u201cO \u00faltimo samurai\u201d permanece assim irremediavelmente crist\u00e3o. Por isso n\u00e3o alcan\u00e7a a profundidade tr\u00e1gica dos verdadeiros filmes de samurai, como os de Akira Kurosawa.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">A incompletude tr\u00e1gica do filme est\u00e1 expressa na falta de m\u00fasica japonesa tradicional na trilha sonora. A m\u00fasica em \u201cO \u00faltimo samurai\u201d n\u00e3o diz muito do esp\u00edrito japon\u00eas, ao contr\u00e1rio do que acontece em \u201cO tigre e o drag\u00e3o\u201d, por exemplo, cuja trilha sonora expressa musicalmente o esp\u00edrito chin\u00eas. A m\u00fasica japonesa tradicional \u00e9 triste, tr\u00e1gica, quase angustiante, mas sempre severa e serena, fatalista. A m\u00fasica ocidental usada em \u201cO \u00faltimo samurai\u201d n\u00e3o foge ao padr\u00e3o hollywoodiano de violinos pesados e melosos, para induzir uma sensa\u00e7\u00e3o for\u00e7ada de triunfo, pois a estrutura narrativa do filme, com sua tentativa de produzir artificialmente um triunfo da causa do her\u00f3i, assim o exige.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Nathan Algren se reduz a um portador da mensagem de Katsumoto. Por isso dissemos que ele n\u00e3o pode ser considerado um verdadeiro samurai. O destino do personagem n\u00e3o lhe concedeu essa honra. Por mais que Katsumoto tenha dito que o estadunidense recuperou sua honra na batalha, e que o pr\u00f3prio Algren tenha dito ao Imperador que se mataria, se ele assim o ordenasse, conforme manda a \u00e9tica samurai; apesar disso fica no ar uma insatisfa\u00e7\u00e3o com a sobreviv\u00eancia de Algren. Para ser um verdadeiro samurai, deveria ter morrido no campo de batalha. Sobreviver \u00e9 para os fracos. Mais do que sobreviver, o filme insinua que Algren voltou para a aldeia samurai, o que deve servir de consola\u00e7\u00e3o para aquela metade do p\u00fablico que foi ao cinema com interesses rom\u00e2nticos.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;\">Tom Cruise tentou o seu golpe perfeito, mas n\u00e3o conseguiu. Por um triz, por um pequeno detalhe, ele falhou. A fidelidade aos c\u00e2nones da narrativa cinematogr\u00e1fica estadunidense tradicional o impede de ser um samurai de verdade, pois insiste em um final moralista como pr\u00eamio de consola\u00e7\u00e3o. O golpe perfeito deve ser dado com um s\u00f3 movimento, do desembainhar da espada \u00e0 queda do objeto fendido. Sem hesita\u00e7\u00f5es, sem segunda tentativa, sem ep\u00edlogo, sem consola\u00e7\u00e3o, sem remorso. \u201cO \u00faltimo samurai\u201d, por conta de suas hesita\u00e7\u00f5es, idas e vindas, finais duvidosos, n\u00e3o alcan\u00e7a essa perfei\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata de um verdadeiro suemono-giri.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">Notas:<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">1. Istvan M\u00e9szaros, \u201cPara al\u00e9m do capital\u201d, Ed. Boitempo, SP 2002, pg. 186.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">2. idem, pg 187.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">Daniel M. Delfino<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">23\/01\/2004<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<h1>&ldquo;O &Uacute;LTIMO SAMURAI&rdquo; E O GOLPE QUASE PERFEITO<\/h1>\n<h1><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/h1>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: center;\" class=\"MsoNormal\">(Coment&aacute;rio sobre o filme &ldquo;O &uacute;ltimo samurai&rdquo;)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" class=\"MsoNormal\"><o:p>&nbsp;<\/o:p><\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9,76],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/72"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=72"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/72\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6112,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/72\/revisions\/6112"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=72"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=72"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=72"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}