{"id":87,"date":"2009-01-03T16:05:43","date_gmt":"2009-01-03T16:05:43","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/?q=node\/87"},"modified":"2018-04-30T20:49:19","modified_gmt":"2018-04-30T23:49:19","slug":"mulher-trabalhadora-ou-seja-guerreira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2009\/01\/mulher-trabalhadora-ou-seja-guerreira\/","title":{"rendered":"Mulher trabalhadora, ou seja, guerreira"},"content":{"rendered":"<p align=\"right\">Tuca Fontes<\/p>\n<p align=\"right\">Iraci Lacerda<\/p>\n<p>O grau de explora\u00e7\u00e3o de um pequeno grupo social sobre a grande massa da popula\u00e7\u00e3o mundial, composta por trabalhadores, assumiu propor\u00e7\u00f5es incr\u00edveis ao longo do s\u00e9culo XX. Isso mostra-nos que Marx j\u00e1 estava correto no s\u00e9culo XIX ao afirmar em sua an\u00e1lise hist\u00f3rica do capitalismo que livre concorr\u00eancia gera concentra\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o que, por sua vez, ao atingir certo n\u00edvel de desenvolvimento, leva ao monop\u00f3lio. Esta situa\u00e7\u00e3o gera aumento do lucro de poucas grandes empresas sob aniquila\u00e7\u00e3o de muitas pequenas empresas.<\/p>\n<p>Sabemos que a hist\u00f3ria dos homens \u00e9 constru\u00edda atrav\u00e9s das a\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas dos indiv\u00edduos num quadro econ\u00f4mico e social que, final do s\u00e9culo XX e come\u00e7o do XXI, era de extrema desigualdade social e opress\u00e3o efetiva da minoria sobre a maioria. Para as mulheres tal opress\u00e3o se concretiza de modo especialmente cruel, j\u00e1 que recai sobre elas um incont\u00e1vel n\u00famero de atribui\u00e7\u00f5es e fun\u00e7\u00f5es sociais cuja face, muitas vezes, \u00e9 assustadora.<\/p>\n<p>Tal como na Inglaterra do per\u00edodo da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, atualmente, em v\u00e1rias partes do globo, mulheres s\u00e3o mortas e\/ou violentadas aos milhares para que o capitalismo continue sendo cada vez mais o que \u00e9, ou seja, um sistema no qual a produ\u00e7\u00e3o de mercadorias atinge um desenvolvimento t\u00e3o elevado que a pr\u00f3pria for\u00e7a de trabalho, as pessoas, portanto, se tornam mercadorias, conforme analisa L\u00eanin em <i>O Imperialismo, fase superior do capitalismo<\/i>.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma heran\u00e7a hist\u00f3rica que se perpetua no que se refere \u00e0 explora\u00e7\u00e3o por g\u00eanero. Em todas as regi\u00f5es do planeta h\u00e1 situa\u00e7\u00f5es que chamam a aten\u00e7\u00e3o para a situa\u00e7\u00e3o das mulheres perante o caos social engendrado pelo capitalismo.<\/p>\n<p>Na fronteira do M\u00e9xico com os Estados Unidos a explora\u00e7\u00e3o sobre as mulheres \u00e9 atualmente um nervo exposto. Os acordos de livre com\u00e9rcio abriram irrestritamente as portas do M\u00e9xico \u00e0s multinacionais estadunidenses, que em sua insaci\u00e1vel busca pelo lucro, as empregam em suas linhas de produ\u00e7\u00e3o pagando uma mis\u00e9ria de sal\u00e1rio. Para essas mulheres predominantemente jovens, oriundas de fam\u00edlias cuja terra foi extorquida pelo governo, o trabalho semi-escravo nas f\u00e1bricas \u00e9 a \u00fanica chance de n\u00e3o morrerem de fome. Nessas cidades fronteiri\u00e7as, como Juarez, h\u00e1 milhares de casos de estupros e assassinatos de mulheres oper\u00e1rias, fato que ambos os governos insistem em tentar manter escondido, tudo para n\u00e3o comprometer o bom desempenho financeiro dessas corpora\u00e7\u00f5es sujas e parasit\u00e1rias. Nessa regi\u00e3o a aliena\u00e7\u00e3o do trabalho atingiu n\u00edveis t\u00e3o pitorescos que \u00e9 imposs\u00edvel para aquelas pessoas enxergarem sa\u00edda. N\u00e3o h\u00e1 nenhum tipo de prote\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres trabalhadoras e os casos de assassinatos de mulheres s\u00e3o investigados pelas pr\u00f3prias m\u00e3es das v\u00edtimas, pois se n\u00e3o for assim os desaparecimentos nem s\u00e3o registrados.<\/p>\n<p>O chamado tr\u00e1fico de pessoas \u00e9 outro exemplo. Mulheres e crian\u00e7as, predominantemente, s\u00e3o comercializadas para explora\u00e7\u00e3o sexual em todas as regi\u00f5es do planeta. S\u00e3o milhares de brasileiras prostituindo-se em pa\u00edses estrangeiros, sendo que h\u00e1 um n\u00famero irris\u00f3rio de condena\u00e7\u00f5es de traficantes de pessoas.<\/p>\n<p>Seja em canaviais brasileiros, em f\u00e1bricas mexicanas, em periferias nicarag\u00fcenses, porto-riquenhas, asi\u00e1ticas, africanas, no leste europeu ou nos bord\u00e9is da Europa e Estados Unidos, as mulheres s\u00e3o sempre a linha de frente dessa face mais cruel e desumanizadora do sistema capitalista.<\/p>\n<p>No Brasil, nos deparamos claramente com a impossibilidade deste sistema resolver os seus graves problemas atrav\u00e9s de suas institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A Lei Maria da Penha que deveria reduzir a viol\u00eancia contra a mulher a aumentou. Segundo mat\u00e9ria publicada no <i>Estado de S\u00e3o Paulo<\/i>, de 28\/05\/07, o n\u00famero de den\u00fancias por les\u00e3o corporal caiu em 18,8%. Este fato, atribu\u00eddo \u00e0 impossibilidade da mulher retirar a den\u00fancia e ao risco de ter de pagar a fian\u00e7a do pr\u00f3prio bolso, demonstra que continua recaindo sobre a mulher o \u00f4nus de ter sido agredida.<\/p>\n<p>O Estado burgu\u00eas, que n\u00e3o consegue esconder institui\u00e7\u00f5es machistas e autorit\u00e1rias, apresenta-nos a todo o momento casos como o do juiz de Minas Gerais\/Sete Lagoas, contr\u00e1rio a Lei Maria da Penha por tornar o homem um tolo (<b>Folha de S\u00e3o Paulo<\/b>, 21\/10\/07); como o da menina estuprada sistematicamente numa pris\u00e3o do Par\u00e1\/Abaetetuba; ou at\u00e9 mesmo o caso da campanha da fraternidade da CNBB\/2008 que prega a vida negando a morte de milhares de mulheres por aborto clandestino.<\/p>\n<p>Estes casos de viol\u00eancia contra a mulher evidenciam a mulher da classe trabalhadora. O caso da menina de Abaetetuba \u00e9 um exemplo disso. A delegada, a ju\u00edza e a governadora do PT Ana J\u00falia, autoridades envolvidas no caso e respons\u00e1veis pela situa\u00e7\u00e3o do sistema carcer\u00e1rio no estado, demarcam claramente uma fronteira existente entre n\u00f3s trabalhadoras e as mulheres dispostas a manter o sistema opressor de explora\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n<p>H\u00e1, contudo, na hist\u00f3ria, processos de resist\u00eancia contra tal opress\u00e3o que contaram com personagens femininas louv\u00e1veis, sem as quais a situa\u00e7\u00e3o das mulheres trabalhadoras e da classe operaria em geral, seria muito mais grave. A hist\u00f3rica luta no campo pelo direito de trabalhar na terra tem sido um f\u00e9rtil terreno para o surgimento de lideran\u00e7as femininas cuja import\u00e2ncia extrapola tal inst\u00e2ncia, refletindo a pr\u00f3pria luta de classes da sociedade.<\/p>\n<p>Nesse sentido \u00e9 que Margarida Maria Alves, uma paraibana de Alagoa Grande, que nasceu no dia 5 de agosto de 1943, representa a for\u00e7a e o gigantismo das mulheres contra esse sistema que oprime a classe trabalhadora de modo fenomenal. Ela foi a primeira mulher eleita presidente de sindicato rural no estado da Para\u00edba, fun\u00e7\u00e3o que ocupou por 12 anos, nos quais travou uma guerra contra o poder do latif\u00fandio nordestino, sempre a favor da implanta\u00e7\u00e3o de um modelo de desenvolvimento rural e urbano que privilegiasse a agricultura familiar. Em seus anos de luta \u00e0 frente do sindicato foram movidas cerca de 600 a\u00e7\u00f5es trabalhistas contra usineiros e coron\u00e9is de engenho, sendo todas vitoriosas para o trabalhador rural.<\/p>\n<p>Margarida Maria Alves, como tantas outras lideran\u00e7as femininas, lutou arduamente pelos direitos dos trabalhadores rurais, pelo d\u00e9cimo terceiro sal\u00e1rio, registro em carteira, por redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho para 8 horas, por f\u00e9rias obrigat\u00f3rias remuneradas, enfim, pelos direitos b\u00e1sicos humanos de alimenta\u00e7\u00e3o e moradia. Diante das constantes amea\u00e7as e intimida\u00e7\u00f5es que sofria, fazia quest\u00e3o de torn\u00e1-las p\u00fablicas, respondendo-as com firmeza e coragem. Essa guerreira da luta campesina brasileira foi assassinada na frente de sua casa, com tiros no rosto, no dia 12 de agosto de 1983, aos 40 anos, por pistoleiros a mando do latifundi\u00e1rio Jos\u00e9 Buarque Gusm\u00e3o Neto, absolvido pelo Tribunal de Justi\u00e7a de Jo\u00e3o Pessoa.<\/p>\n<p>S\u00f3 a luta da mulher trabalhadora \u00e9 capaz de mudar a situa\u00e7\u00e3o da mulher. S\u00f3 a luta unit\u00e1ria de homens e mulheres da classe trabalhadora \u00e9 capaz de construir uma sociedade justa e humana.<\/p>\n<p>LENIN, V. <i>O imperialismo, fase superior do capitalismo<\/i>. S\u00e3o Paulo: Global editora, cole\u00e7\u00e3o bases, 1979.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p align=\"right\">Tuca Fontes<\/p>\n<p align=\"right\">Iraci Lacerda<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[83,14],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/87"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=87"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/87\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5943,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/87\/revisions\/5943"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=87"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=87"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=87"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}