{"id":88,"date":"2009-01-03T16:07:16","date_gmt":"2009-01-03T16:07:16","guid":{"rendered":"http:\/\/espacosocialista.org\/?q=node\/88"},"modified":"2018-05-04T21:46:59","modified_gmt":"2018-05-05T00:46:59","slug":"quando-a-torcida-deve-ir-a-luta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacosocialista.org\/portal\/2009\/01\/quando-a-torcida-deve-ir-a-luta\/","title":{"rendered":"Quando a torcida deve ir \u00e0 luta"},"content":{"rendered":"<p align=\"right\">Daniel M. Delfino<\/p>\n<p>No dia 13 de outubro de 2007 comemoraram-se os 30 anos da hist\u00f3rica conquista do Campeonato Paulista de 1977 pelo Corinthians, numa final contra a Ponte Preta. Era o primeiro t\u00edtulo oficial depois de uma longa fila de 23 anos, desde o lend\u00e1rio Campeonato do IV Centen\u00e1rio de S\u00e3o Paulo, de 1954.<\/p>\n<p>Nesses 30 anos entre 77 e 2007, o Corinthians conquistou 10 Campeonatos Paulistas (que somaram-se aos 15 anteriores para fazer do clube o maior vencedor da competi\u00e7\u00e3o), 2 Copas do Brasil, 4 Brasileiros e 1 Mundial. Ou seja, os \u00faltimos 30 anos, ou mais especificamente os \u00faltimos 15, foram o per\u00edodo mais vitorioso da hist\u00f3ria do clube, quando se acumularam mais e mais importantes t\u00edtulos do que em toda a vida precedente da agremia\u00e7\u00e3o. Se j\u00e1 era um dos clubes mais tradicionais e dono da 2\u00aa maior torcida do pa\u00eds, o Corinthians tornou-se tamb\u00e9m um dos mais vitoriosos.<\/p>\n<p>Entretanto, os torcedores que estiveram no Pacaembu na tarde de 13 de outubro de 2007 para a comemora\u00e7\u00e3o dos 30 anos e para o jogo contra o Internacional\/RS pelo Brasileiro do ano passado n\u00e3o estavam vislumbrando a possibilidade de novas conquistas e sim, ao contr\u00e1rio, angustiados com a amea\u00e7a de rebaixamento do time para a 2\u00aa divis\u00e3o nacional. O rebaixamento acabou se concretizando, ao fim do certame, em dezembro, n\u00e3o sem antes expor a na\u00e7\u00e3o corintiana ao vexame de ver o presidente do clube afastado em meio a um esc\u00e2ndalo policial. As investiga\u00e7\u00f5es da justi\u00e7a sobre a origem do dinheiro que a ent\u00e3o parceira MSI investia esbarraram em lavagem de divisas do crime organizado internacional, especificamente da m\u00e1fia russa, de quem a MSI seria fachada.<\/p>\n<p>Na esteira dos esc\u00e2ndalos e do afastamento da dire\u00e7\u00e3o, organizaram-se \u00e0s pressas elei\u00e7\u00f5es para uma nova diretoria, ao final das quais os remanescentes do mesmo grupo dirigente permaneceram no comando, tornando-se deposit\u00e1rios duvidosos da complicada tarefa de recolocar o clube no caminho das conquistas.<\/p>\n<p>A lembran\u00e7a do t\u00edtulo de 1977 \u00e9 fundamental porque nos leva a um passado n\u00e3o t\u00e3o distante, em que era poss\u00edvel um time ficar 23 anos sem ganhar um campeonato importante, e mesmo assim ver sua torcida crescer ao inv\u00e9s de diminuir. Esse fen\u00f4meno paradoxal merece uma explica\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica.<\/p>\n<p>A torcida do Corinthians \u00e9 a 2\u00aa maior do pa\u00eds, mas est\u00e1 fortemente concentrada no Estado de S\u00e3o Paulo e em especial na regi\u00e3o metropolitana da capital. O crescimento da torcida esteve indissoluvelmente ligado ao pr\u00f3prio crescimento da metr\u00f3pole paulistana nas d\u00e9cadas de 1950, 60 e 70, per\u00edodo de forte urbaniza\u00e7\u00e3o e industrializa\u00e7\u00e3o, e que coincide com boa parte da fila corintiana.<\/p>\n<p>Naquelas d\u00e9cadas, trabalhadores de todas as partes do pa\u00eds e em especial do Nordeste emigravam em massa para S\u00e3o Paulo. Ao estabelecer-se, incorporavam juntamente com outros caracteres da sociabiliza\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria o h\u00e1bito de torcer para o Corinthians, time fundado por oper\u00e1rios em 1910. Nada mais natural para essa popula\u00e7\u00e3o sem terra, sem teto, favelada, lutadora, do que torcer para um time sem teto, j\u00e1 que o Corinthians n\u00e3o tem est\u00e1dio. Torcer para um time que n\u00e3o \u00e9 campe\u00e3o \u00e9 uma express\u00e3o peculiar de uma certa atitude geral perante a vida, um esp\u00edrito de luta, de irmandade na dificuldade, de alegria na tristeza. O corintiano se define como maloqueiro e sofredor gra\u00e7as a Deus. Os advers\u00e1rios, naturalmente, n\u00e3o compreendem esse elogio da condi\u00e7\u00e3o de sofredor, e zombam dela como se se tratasse de uma apologia da derrota. Falta-lhes o nexo que nos corintianos liga a atitude perante o futebol \u00e0 atitude perante os companheiros de torcida, de bairro, de viv\u00eancia, e porque n\u00e3o, de classe.<\/p>\n<p>Diz-se que o Corinthians n\u00e3o \u00e9 um time que tem uma torcida, mas uma torcida que tem um time. Diz-se que essa torcida vai a campo mais para festejar a si mesma do que ao jogo. Diz-se que a torcida corintiana \u00e9 o 12\u00ba jogador e que praticamente entra em campo para empurrar o time. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que ficou conhecida como fiel torcida (fidelidade atestada por feitos surreais como a inacredit\u00e1vel invas\u00e3o do Maracan\u00e3 em 1976). Todos esses ditos s\u00e3o verdadeiros, embora sua origem esteja ligada a um passado mais rom\u00e2ntico do futebol. Hoje praticamente todas as torcidas s\u00e3o iguais, todas tem suas fac\u00e7\u00f5es organizadas, seus gritos de guerra para empurrar o time, suas escolas de samba, etc., embora ainda caiba \u00e0 fiel o inquestion\u00e1vel m\u00e9rito da originalidade e da autenticidade.<\/p>\n<p>A originalidade corintiana e sua identidade prolet\u00e1ria manifestaram-se n\u00e3o s\u00f3 no fen\u00f4meno extraordin\u00e1rio e paradoxal do crescimento num per\u00edodo de jejum de t\u00edtulos, mas tamb\u00e9m no excepcional movimento da democracia corintiana, no in\u00edcio dos anos 1980. Naquela quadra hist\u00f3rica, em que se vivia o fim da ditadura, o proletariado brasileiro protagonizou um dos maiores ascensos de sua hist\u00f3ria, desencadeando um forte ciclo de lutas sociais e construindo fortes organismos de massas, como o PT e a CUT.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 \u00e9 claro uma rela\u00e7\u00e3o direta e autom\u00e1tica entre identidade de classe, mobiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e op\u00e7\u00e3o futebol\u00edstica (ou seja, nem sempre prolet\u00e1rio e corintiano \u00e9 sin\u00f4nimo de grevista). Entretanto, alguma rela\u00e7\u00e3o existe, pois somente isso pode explicar a coincid\u00eancia temporal entre as lutas oper\u00e1rias e a democracia corintiana. Nessa experi\u00eancia sui generis promovida por uma gera\u00e7\u00e3o de jogadores talentosos, vitoriosos e engajados, implantaram-se pr\u00e1ticas coletivas auto-gestion\u00e1rias e libert\u00e1rias jamais vistas no futebol, como a decis\u00e3o sobre contrata\u00e7\u00f5es, regime de treinamentos, aboli\u00e7\u00e3o das concentra\u00e7\u00f5es, valoriza\u00e7\u00e3o da responsabilidade e da autonomia dos jogadores; pr\u00e1ticas que apontavam um modelo para o conjunto da sociedade, que ent\u00e3o clamava por democracia. Trata-se do mais importante movimento pol\u00edtico da hist\u00f3ria do futebol brasileiro e um dos mais importantes do mundo.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia o fato de que os dirigentes do ciclo de lutas da d\u00e9cada de 80 (ou seja, o PT) estejam hoje servindo como prepostos do capital financeiro internacional e conduzindo a espolia\u00e7\u00e3o do pa\u00eds na nova divis\u00e3o do trabalho internacional da fase globalizada do imperialismo; assim como os dirigentes do Corinthians fizeram do clube um balc\u00e3o de neg\u00f3cios do futebol globalizado e suas m\u00e1fias de empres\u00e1rios e investidores.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que o rebaixamento n\u00e3o \u00e9 o fim do mundo para um clube da grandeza do Corinthians, que certamente voltar\u00e1 a vencer. Mas o epis\u00f3dio serve como um exemplo eloq\u00fcente da fal\u00eancia de um certo modelo de gest\u00e3o do futebol. O personalismo, a perpetua\u00e7\u00e3o de dirigentes, a falta de transpar\u00eancia, a caixa preta das finan\u00e7as, os contratos nebulosos envolvendo empres\u00e1rios de jogadores, intermedi\u00e1rios, publicit\u00e1rios e todos os tipos de parasitas; tudo isso precisa ser superado para que o Corinthians tenha n\u00e3o apenas uma mera troca de nomes dos dirigentes, mas uma mudan\u00e7a estrutural na sua administra\u00e7\u00e3o. Por isso propomos:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol>\n<li>Afastamento imediato de todos os dirigentes comprometidos com os atos criminosos da gest\u00e3o anterior;<\/li>\n<li>Auditoria externa independente em todas as contas, contratos e departamentos do clube e responsabiliza\u00e7\u00e3o criminal e patrimonial dos culpados pelas irregularidades encontradas;<\/li>\n<li>Elei\u00e7\u00f5es diretas para a direitoria, com o direito de votar e ser votado estendido a todos os s\u00f3cios;<\/li>\n<\/ol>\n<p>O caso do Corinthians n\u00e3o \u00e9 uma exce\u00e7\u00e3o; na verdade o modelo falido de administra\u00e7\u00e3o do alvinegro \u00e9 a regra entre os grandes clubes do Brasil. Por isso, esses pontos de programa s\u00e3o aplic\u00e1veis a todos os clubes, federa\u00e7\u00f5es e confedera\u00e7\u00f5es do futebol e do esporte brasileiro em geral. Em fun\u00e7\u00e3o de seu enorme potencial de atrair a aten\u00e7\u00e3o das massas, o esporte e especialmente o futebol brasileiro tem sido mantidos sob controle de indiv\u00edduos e grupos olig\u00e1rquicos, autorit\u00e1rios, corruptos, mafiosos, que enriquecem \u00e0s custas da paix\u00e3o popular.<\/p>\n<p>A administra\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria e irrespons\u00e1vel desses dirigentes colabora para o enfraquecimento do futebol brasileiro, o \u00eaxodo dos atletas, o esvaziamento dos campeonatos, a descaracteriza\u00e7\u00e3o da sele\u00e7\u00e3o nacional, a queda do n\u00edvel t\u00e9cnico, a diminui\u00e7\u00e3o do p\u00fablico, o sucateamento dos est\u00e1dios (da qual o maior exemplo foi a morte de 7 torcedores no est\u00e1dio da Fonte Nova, em Salvador, em 25\/11\/07, no que deveria ter sido a festa pelo acesso do Bahia \u00e0 2\u00aa divis\u00e3o), etc.<\/p>\n<p>Ao inv\u00e9s de enfrentar-se com esse modelo, o governo Lula optou por dar-lhe sobrevida (como de resto fez com todos os demais aspectos do atraso brasileiro). Acaba de ser aprovada a Timemania, loteria que vai injetar uma fortuna prevista em R$ 114 milh\u00f5es (segundo O Globo online, mat\u00e9ria de 19\/02\/08) nos clubes brasileiros. Esse rio de dinheiro vai ser entregue aos clubes como forma de facilitar a quita\u00e7\u00e3o de d\u00edvidas fiscais e previdenci\u00e1rias, sem que se exija deles nenhuma contrapartida real em termos de afastamento e responsabiliza\u00e7\u00e3o criminal e patrimonial dos culpados pelo descalabro em que se encontram, de transpar\u00eancia administrativa e financeira, reorganiza\u00e7\u00e3o e democratiza\u00e7\u00e3o interna, renova\u00e7\u00e3o completa dos atuais quadros dirigentes, etc. Trata-se de mais uma concilia\u00e7\u00e3o do governo Lula com um dos setores mais incompetentes, predat\u00f3rios, corruptos, autorit\u00e1rios e reacion\u00e1rios do pa\u00eds, em troca do apoio venal da bancada da bola.<\/p>\n<p>Com uma administra\u00e7\u00e3o desse quilate \u00e9 inconceb\u00edvel que o Brasil tenha sido escolhido para sediar o evento m\u00e1ximo do futebol, a Copa do Mundo de 2014. Est\u00e1 armado o cen\u00e1rio para mais manipula\u00e7\u00e3o da paix\u00e3o popular, mais ufanismo oportunista dos pol\u00edticos e parasitas, mais chauvinismo e tamb\u00e9m mais tram\u00f3ias, corrup\u00e7\u00e3o, repress\u00e3o (como a que os moradores de favelas do Rio experimentaram na \u00e9poca do Pan) e trag\u00e9dias.<\/p>\n<p>Sem as necess\u00e1rias mudan\u00e7as estruturais no futebol e na sociedade, a Copa de 2014 tem tudo para ser a apoteose do p\u00e3o e circo para as massas. A menos que as torcidas deixem de ser espectadoras passivas do espet\u00e1culo pol\u00edtico e entrem de vez no campo da luta social.<\/p>\n<p>Fora do futebol os falsos dirigentes, os aproveitadores, os sanguessugas, os empres\u00e1rios, os corruptos, os ladr\u00f5es, os mafiosos, os criminosos!<\/p>\n<p>Salve(m) o Corinthians!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"right\">Daniel M. Delfino (trabalhador, estudante, militante e corintiano roxo)<\/p>\n<p align=\"right\">28\/01\/2008<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p align=\"right\">Daniel M. Delfino<\/p>\n<p>No dia 13 de outubro de 2007 comemoraram-se os 30 anos da hist&oacute;rica conquista do Campeonato Paulista de 1977 pelo Corinthians, numa final contra a Ponte Preta. 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